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Cultura

Xangô Rezado Alto vai às ruas contra a intolerância religiosa

A purificação com água de cheiro espalhou um perfume pelas ruas do Centro Comercial

O Centro de Maceió foi palco da 4ª edição do projeto Xangô Rezado Alto, nesta segunda-feira (02). Comunidades tradicionais de matriz africana, grupos culturais afro-brasileiros e simpatizantes desfilaram em um cortejo religioso cultural, a partir da Praça D. Pedro II até a Praça Floriano Peixoto, onde apresentações culturais relembraram os 103 anos do episódio que ficou conhecido como ‘Quebra de Xangô’ – quando, em 1912, casas de culto afrorreligiosos de Maceió e do interior de Alagoas foram invadidas e destruídas.

A purificação com água de cheiro espalhou um perfume quase inédito de flor de laranjeira pelas ruas do Centro Comercial. Um presente para toda população que foi convocada a vestir a camisa do respeito à liberdade de culto e religião em todo estado.

Além de autoridades religiosas de Maceió e interior de Alagoas, o evento contou com a participação do presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC), Vinicius Palmeira; pelo secretário municipal de Turismo, Jair Galvão; pela secretária executiva do Gabinete do Prefeito e presidenta do Comitê Juventude Viva em Maceió, Adriana Toledo; e pelo vice-reitor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Clébio Araújo.

O presidente da FMAC, Vinicius Palmeira, destacou que o Xangô Rezado Alto é um evento consolidado e importante não só para as comunidades tradicionais, mas para o resgate da memória cultural do maceioense. “Essa é uma celebração do povo de santo e de toda Maceió que diz não a intolerância e repudia a violência”, disse.

Representando a Rede Alagoana de Comunidades Tradicionais, pai Célio Rodrigues, chamou a atenção para a necessidade de difundir as tradições afro-brasileiras como patrimônio do Brasil. “Estamos aqui desde o princípio, muitas vezes tentaram impedir nossas manifestações, usaram a força para calar nossos tambores, mas resistimos e queremos apenas respeito ao nosso direito de culto e religião”, clamou o líder religioso.

Para a presidenta do Comitê Juventude Viva, Adriana Toledo, o combate a intolerância religiosa é prioridade para a Prefeitura de Maceió e passo fundamental para que a juventude dessas comunidades se sinta inserida social e culturalmente na sociedade.

O secretário de Turismo, Jair Galvão, acredita que eventos como o Xangô Rezado Alto são importantes para fortalecer a identidade da cidade e colabora para inserir eventos culturais no roteiro turístico de Maceió. “Queremos que o turista que nos visita veja além das nossas belezas naturais, que conheça nossa gente e nossas tradições”, afirma.

O Xangô Rezado Alto é uma realização da Prefeitura de Maceió, por meio da Fundação Municipal de Ação Cultural (Fmac), em parceria com a Rede Alagoana de Comunidades Tradicionais de Terreiro e apoio da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal).

O Quebra de Xangô

O episódio histórico que ficou conhecido como ‘Quebra de Xangô’ foi um ato de violência praticado entre os dias 1º e 2 de fevereiro de 1912 contra as casas de culto afro-brasileiros de Maceió, que se estendeu também pelo interior de alagoas.

Neste período, babalorixás e yalorixás tiveram seus terreiros invadidos por uma milícia armada, seguida por uma multidão enfurecida, e assistiram à retirada e destruição de seus paramentos e objetos de culto sagrados, que foram expostos e queimados em praça pública, numa demonstração flagrante de preconceito e intolerância religiosa.

O evento intimidou o povo de santo e suas práticas nas décadas subsequentes, proporcionando o surgimento de uma manifestação religiosa intimidada, denominada xangô rezado baixo, uma modalidade de culto praticada em segredo, alimentada pelo medo, sem o uso de atabaques, e animada apenas por palmas.

O projeto Xangô Rezado Alto além de rememorar o episódio do quebra dos terreiros, reivindica atenção e compromisso para com as causas da população afrodescendente.

Celebração multicultural

Participaram do cortejo religioso cultural casas de terreiro ligadas à Federação dos Cultos Afro Umbandistas de Estado de Alagoas, à Federação Alagoana Espírita Umbandista Cavaleiro do Espaço, e à Rede Alagoana de Comunidades Tradicionais.

Os grupos culturais que percorreram as ruas do centro junto com os religiosos foram: Maracatodos, Banda Afro Afoxé, Maracatu Raízes da Tradição, Projeto Inaê, Coletivo AfroCaeté, Afoxé OjunOminOmorewá, Afoxé OfáOmin, Afoxé OdôIyá e Afoxé Povo de Exú.No palco da Praça Floriano Peixoto, as atrações foram os AfoxésOfáOmin, OjunOminOmorewáe OdôIyá,Grupo Inaê, Coletivo AfroCaeté e Orquestra de Tambores.