Fiscalizar a qualidade de alimentos vendidos em restaurantes e mercados, verificar as condições sanitárias de creches, escolas e clínicas veterinárias e atuar no controle de pragas e zoonoses. Essas são algumas das frentes menos conhecidas de trabalho que os médicos-veterinários desempenham fora do consultório, como o fiscal sanitário Geovane Pacífico, que atua na Vigilância Sanitária de Maceió (Visa Maceió).
Para Geovane, trabalhar na Vigilância foi a possibilidade de atuar na prevenção, evitando que situações possam ocorrer e afetar centenas ou até milhares de pessoas. “O mais importante para mim foi perceber que, por trás de cada fiscalização, existe uma responsabilidade muito grande. Não se trata apenas de verificar se um estabelecimento está limpo ou se tem um documento. O objetivo final é proteger a saúde da população”, disse.
Ele é médico-veterinário e explica que a rotina da atuação na fiscalização segue um padrão de cinco a oito estabelecimentos por turno, divididos por bairros e classificados conforme o grau de risco sanitário.
“A fiscalização sanitária é realizada por meio de roteiros e programações de inspeção, divididos por bairros, considerando o tipo de estabelecimento, o grau de risco sanitário, a atividade desenvolvida e as demandas que chegam à Vigilância Sanitária, podendo ser por meio de denúncias, ordem de vistoria para renovação de alvará, coleta de amostras ou buscas. Temos uma média de 5 a 8 estabelecimentos por turno”, completa Geovane.
Os itens observados em cada visita vão além da aparência do produto. Geovane relata que condições de higiene e estrutura física, armazenamento, conservação, manejo correto, controle de temperatura, validade e a procedência dos produtos, higiene da equipe, controle de pragas, abastecimento de água e manejo de resíduos são considerados durante a vistoria.
Falhas nesse processo não são apenas um detalhe técnico. Intoxicações alimentares, por exemplo, podem levar a leves dores de barriga ou até a morte, em casos mais graves. A proliferação de microrganismos em alimentos mal armazenados ou fora da validade é grande e pode causar sérios danos à saúde do consumidor, e o médico-veterinário que atua nesse segmento tem a missão de eliminar ou minimizar esses riscos.
Do curso à profissão
Maria Izabel Francelino é estudante de Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Alagoas e, em sua última etapa antes da conclusão do curso, estagiou na Agência de Vigilância Sanitária de Maceió. Para ela, a experiência foi única e gratificante, a ponto de despertar o interesse em seguir carreira na área.
“Eu super voltaria para lá. Queria muito trabalhar nessa área. De maneira geral, é um trabalho que fica mais por trás dos panos. Em relação à visibilidade, a gente não tem muita, porque poucas pessoas sabem como realmente funciona o trabalho do médico-veterinário na Vigilância Sanitária. Mas isso não significa que ele seja menos importante”, reforça a estudante.
Antes do estágio, Izabel não tinha muito contato com o campo da vigilância sanitária. Entre os aprendizados, ela destaca o profissionalismo das equipes da Visa Maceió, que precisam ter calma, foco e muito tato para lidar com as situações adversas que encontram durante as fiscalizações.

“O trabalho do médico-veterinário ou da pessoa que esteja ali como fiscal, se torna mais difícil por conta disso: você precisa conversar com as pessoas e fazê-las entender onde é que tá o erro delas, que a vigilância não é inimiga. Ninguém quer acabar com o emprego, ninguém quer mal para ela, a gente quer justamente que ela possa fabricar melhor e vender mais ainda, com mais qualidade”, disse a estudante.
Menor participação profissional
Durante a graduação em Medicina Veterinária, o eixo de formação é a chamada saúde única, um conceito que interliga saúde humana, animal e ambiental. Essa formação torna o profissional habilitado para atuar na saúde pública, mesmo sem uma pós-graduação ou especialização, embora parte deles aprofunde essa área de atuação.
O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Alagoas (CRMV-AL) informou que o estado tem 1.865 profissionais registrados e atuantes em 2026, sendo 938 homens e 927 mulheres. São 58,3 médicos-veterinários para cada 100 mil habitantes no estado de Alagoas, em 2026.
Em âmbito nacional, o Brasil soma cerca de 200 mil médicos-veterinários em atividade e 536 cursos de graduação na área, segundo o Animal Health Science, com uma média de 78 profissionais para cada 100 mil habitantes, uma das mais altas do mundo.
Um levantamento do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Paraná (CRMV-PR), publicado em 2022 na obra “Demografia da Medicina Veterinária do Brasil”, mostra que 66% dos veterinários brasileiros fazem alguma especialização após a graduação. Desses, 37% escolhem clínica e cirurgia de pequenos animais, o segmento mais associado à profissão pelo público em geral. A saúde pública, área que inclui a vigilância sanitária, fica com apenas 13% dos especialistas, o que ajuda a explicar por que a área segue pouco conhecida.
É justamente neste grupo que está o médico-veterinário sanitarista Alisson Torres, que decidiu se especializar na área. Com formação em Gestão da Segurança Alimentar e Vigilância Sanitária, ele explica que o trabalho exige um olhar criterioso e que a lógica dos processos de fiscalização se repete em espaços que vão além da venda e comercialização de produtos alimentícios como escolas, creches, supermercados, feiras agropecuárias e de exposição, petshops e até as próprias clínicas veterinárias.
“Em espaços menos convencionais seguimos os mesmos critérios rigorosos. A depender do estabelecimento, existem legislações sanitárias específicas que precisam ser atendidas, a exemplo da clínica veterinária, onde existem equipamentos e outras estruturas, além de produtos diferentes, que também são observados de acordo com a legislação”, afirma.
O contato prévio com a área é um fator decisivo para muitos, inclusive para Izabel e Alisson. A estudante diz que apesar do pouco conhecimento prévio durante a faculdade, o estágio na Visa Maceió foi edificante para ela. Já para Alisson, a experiência definiu o seu futuro na carreira e, para ele, conhecer a área apenas no final do curso pode ser até desencorajador para os novos profissionais.
“Acredito que a maioria dos egressos dos cursos de Medicina Veterinária acaba por conhecer a área só no final do curso, e isso faz com que esses novos profissionais desconheçam ou tenham certa insegurança em relação a ela. Na contramão dessa realidade, tive a oportunidade de ter contato com esta área ainda no início do curso, e a possibilidade de impactar diretamente a sociedade, trabalhando com a saúde humana, animal e ambiental integradas, me fez escolher esse campo”, afirmou o médico-veterinário sanitarista Alisson Torres.
Existe uma intersecção que une os profissionais já atuantes e os aspirantes: fiscalizar vai muito além de olhar a limpeza de um espaço ou conferir um documento. No fundo, é um trabalho que protege quem consome, mesmo quando ninguém percebe. “Acho que esse é um dos aspectos mais importantes do trabalho da Vigilância. Muitas vezes o resultado da nossa atuação não aparece diretamente para a população, porque quando conseguimos antecipar um problema sanitário, evitamos que ele aconteça”, complementa Geovane.
Denúncia popular
Parte do roteiro das fiscalizações nasce de denúncias da população, solicitações de outros órgãos ou suspeitas de doenças transmitidas por alimentos, o que faz do cidadão uma espécie de parceiro da Vigilância. Uma informação recebida pode desencadear uma inspeção e, se forem constatadas irregularidades, podem ser adotadas as medidas necessárias.
Geovane destaca que a denúncia é apenas o ponto de partida da investigação, não uma conclusão antecipada: “É importante não chegar ao estabelecimento com uma conclusão pré-formada apenas porque houve uma denúncia. A inspeção é quem vai determinar se a situação relatada realmente está ocorrendo.” Segundo o fiscal, o profissional precisa estar devidamente identificado, conhecer a legislação aplicável, registrar de forma objetiva o que foi observado e manter sigilo sobre as informações relacionadas à denúncia.
SERVIÇO
Para falar com a Vigilância Sanitária de Maceió (Visa) para dúvidas, informações ou denúncias, utilize os canais oficiais:
Telefone: (82) 3312-5495 (segunda a sexta-feira, das 8h às 17h)
WhatsApp (24h): (82) 98752-2000
E-mail para processos (Alvará): processoeletronico.visa@gmail.com
E-mail para protocolo e taxas: protocolovisamaceio@gmail.com
Secom – Maceió
