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“Usufructuários do Caos”

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“Usufructuários do Caos”

O Jornal Gazeta de Alagoas trouxe no domingo, 30 de janeiro,  em seu “Caderno B” de cultura, interessante matéria intitulada CIDADÃO INSTIGADO. O texto assinado pelo competente e querido jornalista Fernando Coelho, nos apresenta dados já conhecidos pelos que circulam nos corredores culturais do nosso Estado. E não somente por quem circula, mais precisamente, por quem faz a cultura de nosso Estado.

Lendo a matéria, foi possível perceber que ainda há muita discordância quanto às políticas culturais exercidas nas Alagoas, – “números revelam que Alagoas não acompanha o desenvolvimento nacional” informa o IBGE, numa citação do texto. Mais adiante, o jornalista nos mostra um gráfico indicador dos Municípios do nordeste que mantém legislação de proteção ao Patrimônio Cultural, e é aí que a coisa complica.

No Penedo, de há muito se fala em uma saída estratégica, consistente e eficaz, para o soerguimento turístico-cultural deste município, aqui tratado com especial atenção, e à parte a realidade debatida pela imprensa, cuja matéria instiga ao passo em que esclarece. Nosso olhar se volta para Penedo, e nela se fixa como se estivéssemos a testemunhar os últimos suspiros do poeta Voltaire que em seu leito de morte clamava “luz, luz, luz”.

Aqui, no Penedo, de modo estreito, talvez não tenhamos somente que clamar por uma ou duas luzes, mas por algumas centenas de milhares de lampiões que possivelmente nos iluminariam os juízos e nos fariam ver que estamos regressando a passos largos, e que não bastará muito para que as nossas mazelas, tão tradicionais, venham a público como já se pode observar.

Desse modo, eu trataria isso como uma ação sintomática de uma anomalia infame que é fruto de um duelo travado por agentes da iniciativa privada X gerentes da iniciativa publica. Um duelo cujo vencedor quase sempre não detém as glórias da batalha, se talvez, tiver feito uso de armas sujas, utilizado estratégias pouco honestas e unindo-se a aliados sórdidos para talvez vencer. Daí a máxima de que no amor e na guerra tudo se é permitido. E na “política cultural” também.

E de permissões a omissões, temos contemplado a Cidade do Penedo num triste samba de crioulo doido, permitindo-se navegar por rios de águas cadenciadas pelas velhas e questionáveis competências-administrativas, gerências e gestões culturais, sociais, educacionais, enfim, aquilo que deveria vir por títulos e méritos, vêm por nubladas afinidades que comungam com a velha razão de que “uma mão lava a outra e as duas lavam a alma”. E que alma!!!

Como definir a (in) gestão cultural de uma cidade que no passado abriu as portas para o descobrimento do nosso país? Como definir as várias administrações que vêm ao longo dos anos permitindo a degradação dos seus bens públicos e culturais. Esta Cidade que nasceu junto com o Brasil, foi tombada pelo Patrimônio Nacional graças aos esforços de instituições competentes e de valores incontestes. Esta cidade deve ter regras?, leis?, códigos de postura?, conselhos? E isso tudo deve ter alguma serventia, talvez até possa coibir os arrotos politiqueiros. Qual seria a finalidade de um tombamento e a delimitação de um espaço histórico se nem ao menos quem o administra respeita isso? Afinal, não e difícil ver um caminhão engasgado no centro histórico, ou talvez uma carcaça de ônibus estacionada frente à Prefeitura. Qual a serventia disso? Quem cumpre isso? Quem quer saber disso? A quem isso interessa?

Como definir o processo de esgotamento cultural pelo qual passamos? A essa triste violação e inversão de valores? O que dizer de um povo, e do governo de uma Cidade que anseia viver de um passado glorioso, mas que por uma nojenta ignorância nem de seu passado sabe cuidar? “É esta a cidade que se pretende turística”?

“Mas onde estão os homens ilustres desta cidade”? Morreram? Mas já? – Não. Eles devem estar na fila dos crachás pré-datados. Ou então foram viver na bela megalópole cidade de “Maceyork”? Perguntar não ofende.

Perguntar não por arrogância, ou falso-moralismo, ou até mesmo por falta de modéstia, não por pretensão. Perguntar não por afronta ou por desrespeito. Perguntar por ter o direito de, ainda, indignar-se diante de ações publicas que se configuram como um desserviço aos entendimentos das boas políticas de educação e cultura. Questionar uma considerável parcela desta comunidade que se preocupa apenas em deixar clara e evidente suas afinidades partidárias.

Certa vez recebi um comentário num dos meus textos que me chamou a atenção pela verdade ali explicitada num simples desabafo; eu comentava o fazer teatral penedense e um leitor me rebateu dizendo que: “se não trabalhamos para o teatro que queremos, temos então o teatro que merecemos”, talvez deva ser essa a máxima para solução de todos os nossos problemas, todos em absoluto. Calar e consentir? Ver da janela a banda passar e não cair, e não se jogar nela, não seria a certo modo um crime? Não se permitir comentar (com coerência) um fato que lhe chama atenção é o fim do que na realidade deveria ser o começo de uma possível evolução.

Ainda na matéria do jornal “Gazeta”, podemos ver depoimentos de cidadãos que interrogados sobre o que entendem por políticas culturais, se perdem em meio a conclusões frívolas, mas com certo teor de verdade. Aqui, no Penedo como diria a triste canção “o sistema é bruto”. Falar em tradição é recorrer ao clichê “Penedo, Cidade do teve, Cidade do foi” e pouco ou quase nada se tem buscado de concreto para o Penedo de hoje, do amanhã.

No passado, a démodé pão e circo animava, e a certo modo acalmava quem por ela se via envolvido. Hoje, a juventude incitada por esta política retardada, tem nisso também um critério de eleição: “meu voto é do fulano porque ele traz bandas boas”… “não, o melhor é o cicrano, ele sim é que faz as boas festas…”que nada, bom mesmo é o beltrano, ele até já prometeu animação com o forró arrasta a fraga e rasga a saia”. São coisas deste gênero, lamentavelmente reais que ocorrem por estas bandas também. São coisas praticadas pelos usufructuários do caos a que nossa vida está submetida. São os regentes típicos de um coral bufo, que acreditam “no quanto pior melhor”, e que regem as nossas leis, que ditam como, onde e em que momento deveremos dançar, e o que dançar. São estes seres que cuidam zelosamente do “seu quadrado”, e fatalmente os elegemos para cuidar do nosso.

Aqueles que alguns de nós grotescamente seguimos e levantamos suas bandeiras em troca de míseros favores. Aqueles que recebem nossa ajuda prima no instante exato em que nos sentamos embaixo de seus birôs para apanhar as migalhas que eles deixam cair. São aqueles homens comuns que a história certamente não marcará. Mas pra quem acreditar que isso só acontece aqui, que estes homens nasceram e só existem aqui. Há um engano. Aqui isso se torna mais grave, pois afinal, somos nós quem ostentamos o titulo de Berço da Cultura Alagoana.

E qual seria a saída? Já que não a encontramos, ainda, podemos recorrer a Shakespeare numa passagem da peça JULIO CESAR que em razão de seu velório é dito:
“Antonio – Romanos, Patrícios, prestai-vos toda atenção. Eu vim para enterrar Cesar, não para elogiá-lo. Pela ambição que dele foi tão próxima, há de ser condenado. Pois o mal que um homem pratica vive depois dele, o bem, quase sempre é enterrado junto com seus ossos”. (Julgamento de Cesar; Julio Cesar/ Ato III, cena II).

Sendo assim, fica uma possível reflexão para nossas ações. Chamar a juízo e condenar todos esses malfeitores que usurpam poderes e desmandam de competências e confianças neles depositadas. Ou quando nada, sair às ruas e gritar por “direitos”, como temos visto em noticiários, a juventude que ainda marcha por ideais (sem arruaça, sem violência). E se Skakespeare não for o bastante, podemos ainda contar com o patrício Gil Vicente, a reunir numa BARCA DO INFERNO todos estes agenciadores do caos.

A imaginar como se daria isso aqui no Penedo, com o testemunho vivo do rio São Francisco, com toda essa bucólica cenografia; ver partir em direção ao “inferno” (que pode estar mais próximo do que imaginamos); uma barca imponente, levando para bem longe, prefeitos, secretários, coordenadores de cultura incompetentes, artistas e críticos inúteis, autoridades eclesiásticas politicamente incorretas, autoridades policiais de caráter duvidoso, professores e vereadores analfabetos, marginais irremediáveis, eleitores incautos, contraventores. Enfim, restaria mais alguém? E se a Cidade do Penedo pertence à história, que a ela se curve na cena do bispo Dom Pero Fernão de Sardinha e dos Caetés que o teria devorado. Desta feita, não por um naufrágio involuntário, mas por um simples e bem encenado empurrão. Todos ao mar! Salve-se quem puder!
 

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