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Um Capão Muito Especial – (Coisas da Minha Terra)

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Um Capão Muito Especial – (Coisas da Minha Terra)

Existem pessoas que são totalmente desligadas das promessas assumidas. Trata-se, provavelmente, de um temperamento indiferente ou de orfandade de caráter, que os tornam relaxados, fazendo parte dos adeptos do dito pelo não dito. Tintô fazia farte desse clube dos livres das amarras dos compromissos.

 Embora há muitos anos residisse na capital, em Aracaju, nasceu no interior, no meu povoado Serrão. Preso às lembranças da infância e juventude, visitava-o um ou duas vezes ao ano para rever parentes e amigos. Era a década de sessenta. Dentre seus amigos destacava-se o Caquica, um pobre trabalhador braçal.

 Não apenas as brincadeiras faziam parte de suas inesquecíveis recordações. As comidas caseiras, preparadas por sua mãe, mesmo sem nenhuma sofisticação, eram delícias presas à sua memória. Uma delas era galinha ao molho pardo. Se fosse um capão, ah, seria o suprassumo! Era o seu acepipe por excelência. O saudosismo dessa delícia inspirou-o a propor ao amigo Caquica um criatório de galinha no sistema de meação, no quintal de sua casa. A proposta foi aceita na condição de Tintô ser o responsável pela compra do milho. Providenciou a compra de um plantel de vinte cabeças entre frangas, galinhas, dois galos e um capão.

 Realizada a sociedade, Tintô fez um apelo para que dispensasse um zelo especial pelo capão. Em hipótese alguma deixasse que lhe faltasse o milho. Como todo começo costuma ser florido, Tintô mandava religiosamente o dinheiro da ração. Pouco depois o esquecimento fez-se uma constante presença. O que fazer para não deixar morrer de fome as galinhas? Pobre sem ter onde cair morto, como iria arranjar dinheiro? Sem qualquer luz milagrosa para socorre-lo, não viu outra alternativa senão sacrificar o plantel. Começou a vender, semanalmente, uma ou duas cabeças. Depois de um bom intervalo, Tintô lembrava-se de mandar o dinheiro. Voltava a esquecer. A criação estava se transformando numa descriação. Que culpa tinha?

 Para encurtar a história, transcorrido quase um ano, em meados de dezembro, aproximando-se o natal, Tintô apareceu. Era todo satisfação, indiferente à sua relaxidão. No dia seguinte foi até a casa do compadre. Estava ansioso para ver o criatório. Deveria, no mínimo, ter duplicado. O capão nem era bom falar. Estava sem dúvida, uma beleza pura. E de fato estava. Adentra à casa e vai direto para o quintal. Avista logo sua majestade, o belo capão. Percebe também uma velha galinha. Não percebe mais nada. Que diabo teria acontecido? Descrente com o que via, perguntou: cadê o resto das galinhas? O compadre Caquica, um tanto espirituoso, na sua maneira rude de se expressar, aponta para o capão e responde: está tudo no cú dele.

 Tintô logo entendeu a razão. Cabeça fria, esse desastre, no entanto, não impediu de usufruir as delícias do capão ao molho pardo.
 

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