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Opereta Bufa

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Opereta Bufa

Sabe o velho que dizia: “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”, não é que ele tomou fôlego e virou marceneiro…

Anualmente a cidade do Penedo é presenteada com espetos tradicionais frutos de uma cultura ainda a ser descoberta. O espeto em questão é simplesmente o Festival de Férias no Teatro, mostra de teatro “profissional” e, diga-se de passagem, concorridíssima pelos amadores de plantão. No Penedo de múltiplas facetas, ainda que extremamente bucólico, vemos arteiros desempenhando ferrenhamente suas artes e seus ofícios como se fossem eles, únicos e legítimos filhos do ferreiro de barro, figurando na cena local de forma opressora e adeptos da retaliação gratuita, mas que por talento já deveriam estar despontando em outras Alagoas.

O Festival de Férias no Teatro em sua 7ª edição, como já se sabe foi idéia conjunta entre a Companhia Penedense de Teatro e os náufragos da extinta Cia. Dell’Arte, isto há exatos seis anos. Daquela época pra cá, poucas diferenças puderam ser notadas quanto à questão do “Casting” do festival, sempre grupos com considerável aproximação dos produtores da mostra, há tempos eles não contemplam grupos locais; não falemos, no entanto de suas próprias pratas da casa, presença marcante e certa a cada ano. Vejo nisto um misto de censura e arrogância partindo de agentes com considerável tempo de estrada, e daí, mando uma máxima: Competência, talento e honestidade nem sempre são valores obtidos pelo tempo, e menos ainda pelo grito.

Vamos direcionar nossos comentários aos espetáculos “selecionados” para esta edição: Grupos de Maceió e Cia. Penedense de Teatro. Os grupos convidados são revisitados pela mostra, inclusive com espetáculos, e com as graças de tália deixaram camufladamente em Stand-by, o tipo besteirol sacana e comercial tão aplaudido pela platéia alagoana nos últimos tempos, e deram espaço para encenações de valores incontestáveis, exemplo do espetáculo Insônia da Companhia de Teatro da Meia Noite que trouxe a Penedo a atuação do multifacetado ator Marcos Vanderlei que antes havia feito neste mesmo palco junto de seu grupo Infinito Enquanto Truque, o espetáculo “Navegantes” na companhia do também grande Lael Correa.

Espetáculos como “Insônia” fazem parte de um teatro de vanguarda nas terras alagoanas, feito por quem ainda não se deixou levar pelo comércio e pela preguiça de pensar, daí a idéia do artista multimídia Lael Correa quando diz que: “A arte pode ser comercializável, mas nem tudo que está no comércio é arte”, isto se aplica diretamente ao que sem vendo importando da capital e até de terras sem histórico de arte, que nas últimas edições da mostra arrancaram gargalhadas histéricas da platéia que ligadas ao apelo sexual e aos enrustidos valores, fecham os olhos para trabalhos gloriosos produzidos nesta proveta penediana. Exemplos como “Pluft, O Fantasminha”, produção infanto-juvenil genuinamente penedense da Cia. Artes Ribeirinhas estiveram à margem do “edital” de convite, e sem direito à carta de apelo ou lamentações, pois é mais fácil agradar a parceiros maceioenses a ter que convidar um grupo iniciante, porém local. E isso é dar espaço para todos? O que esperar de atitudes como esta? Que tipo de sociabilidade se espera agindo desta forma, usando subterfúgios para comercializar a arte local e ignorar o que é feito aqui apenas por um ego de amador inflamado? Já está caduca a idéia de que rever o conceito de arte é uma pedida constante.

A produção local de teatro não é das mais pujantes, artistas se revezam em jornadas estrondosas de trabalho extra-teatro, são poucos os que conseguem driblar estes por maiores, isso talvez devesse reforçar a idéia de união, afinal das contas quatro gatos pingados brigam entre si por um filé alheio, e “uma cacique” orgulhosa por sua idade de tablado, bastante petulante acha-se na direção da gataria, mas nada contra, enfim, já passaram da debutância.

Nos três finais de semana propostos pelo festival, as grandes atrações foram dadas graciosamente na rua, mais especificamente na porta do Theatro onde jovens iniciantes do teatro sergipano nadaram fervorosamente para desempenhar seus papeis no espremido espaço da programação, validando o sentido do que é teatro e como fazê-lo sem grandes recursos. Em Penedo isto se torna um contra-senso se levarmos em conta os autores indiretos da proposta.

Representações de um teatro pobre e sem artifícios de inteligência e senso critico foram dadas com ares de mega-produto cultural na ideia morta de que exclusivamente durante o evento, Penedo respiraria cultura, talvez uma respiração ofegante, mas “cultura” já que a peça “Solteira Procura-se”, encenada por uma atriz de talento duvidoso, que procurando um espaço para proferir suas idiotices e um comércio que futuramente lhe será garantido a exemplo das demais edições, foi umas das contempladas pelo edital-convite certamente graças a uma velha coincidência.

Mas o Festival de Férias no Teatro não pretende-se apenas uma opereta bufa, encanta com um intercâmbio bacana entre grupos e trabalhos diferentes para gostos diferentes, e principalmente isto. A programação desta 7ª edição em grande parte superou as expectativas deste algoz escritor trazendo a exemplo de Insônia, os graciosos “Baldroca”, “Murro em ponta de faca” e o surpreso “Solampião”, este último com uma curiosidade a parte; é representado por um dos grandes atores do Estado, mas anda com a cabeça bastante mercantil, iluminadas por refletores de “boate gay” e” purpurinas recicláveis” que surpresamente não foram acendidos nesta edição. As demais noites ficaram a cargo da graciosa “Alice” da Cia. do Chapéu, “Metafaces” da Cia. De Teatro da Meia Noite e de “Os Saltimbancos” velho parceiro da mostra.

Porém as grandes surpresas da mostra foram exatamente as representações de “Terra Terta” e “Como nasce um cabra da peste” ambos da própria companhia idealizadora da mostra; um comemora seus 10 anos de montagem, uma espécie de “farinha de pimba” para os nordestinos mais atentos, e o outro a grande sacada nos últimos dez anos do grupo, surpreendeu pela proeza de lotar as poltronas do Theatro Sete de Setembro com talentos efervescentes e dignos de um bom teatro regional, estilo marcante das produções da Cia. Em “Como nasce um cabra da peste” que no inicio de sua montagem teve desnecessariamente a direção assinada pela atriz Juliana Teles, (desnecessária por que a Cia. não precisava de nenhum dos pitacos da “diretora”), foi dada uma das maiores encenações do teatro local, o público que esteve presente naquela noite certamente saiu reconfortado por investir num ingresso popular de um espetáculo rico em talento e em texto e com atores verdadeiramente dispostos ao fazer teatral, comprovando que são competentes no palco, mas duvidosos nas coxias, detalhes a serem apreciados em outros momentos. O talento dos atores deste espetáculo não fica abaixo de qualquer outro que tenha se apresentado na mostra, e eles próprios reconhecem isto, são bons e merecem mais do que os refletores defeituosos do Penedo, ressalvas para a premiada atriz Jô Moreira, a pequena notável Aline Soares, o mestre Fernando Arthur, a impenitente Czar Miranildes Pereira e obviamente um dos grandes atores do Penedo, Emmanuel Silva, talento encontrado e claramente reconhecido pelo público. Artistas como Emmanuel comprovam um teatro rico, mas que nem mesmo assim escapam das cópias abobalhadas de um sistema falho e ignorante. Na noite da representação de “Como nasce um cabra da peste”, sem sombra de dúvidas as grandes encenações foram dadas por Miranildes Pereira, cujo talento a fez vestir-se numa regional parteira do nordeste esquecido, -“Dona Jerusa”-, numa atuação magnânima; e a outra, o deleite da platéia, exatamente um comerciante de soluções práticas, digno da caatinga nordestinesca, o qual encarnou magistralmente o ator Emmanuel Silva; são estes os representantes da arte mais ameaçada do mundo, mas, sobrevivente de nós mesmos, e o povo do Penedo por respeito e obrigação deverá conter o gozo e tirar o chapéu.

O Festival de Férias no Teatro existente desde 2003 era praticamente inexpressivo há até duas edições e mesmo com todos os problemas que pontuo, é atração fixa no calendário cultural de julho nesta cidade, e isso, vale ressaltar, independe de quem esteja fixado no poder público, como já sabemos este é o último a correr junto numa iniciativa como esta e, num Estado como este, onde o investimento em ação cultural se tiver voz possivelmente é afônica, não há surpresa alguma; incontáveis mostras proporcionalmente maiores já saíram de cena por depender em grande parte do poder público, e o festival de teatro do Penedo é um exemplo singular de iniciativa exclusivamente artística e merece que fiquemos de pé para aplaudi-los.

Meus caros colegas, PARABÉNS PRA NÓS!

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