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O Pede-Pede a Jesus

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O Pede-Pede a Jesus

Se os políticos de hoje ficam incomodados com o pede-pede quando se vêem diante dos eleitores mais carentes podem ficar sossegados. Este é um fenômeno que vem de longa data, de muito longe. Ao que parece, é da natureza humana somente se envolver num relacionamento, principalmente de cunho político, se, de início, for antevista a chance de levar vantagem. De – em troca do voto, por exemplo – lhe ser dada a oportunidade de mercadejar de alguma forma. Hora é a conta de luz atrasada, ou a da água, ou a prestação da casa, ou a receita do remédio, ou a compra de uma passagem para um distante ponto onde desembocam suas necessidades. Em outros momentos é a negociação pura e simples do voto por dinheiro. A realidade é que dificilmente se escapa a algum tipo de negociação, de troca, na busca de alguma posição seja ela política, social, empresarial ou de qualquer natureza.

É interessante se registrar que do pede-pede nem Jesus escapou. Na sua curta passagem como homem público ficou célebre o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, segundo registra a Bíblia (Mateus cap. 14, versículos 13 ao 21). Em pleno deserto, a multidão, ansiosa para ouvi-lo, distanciou-se dos centros urbanos mais próximos. Jesus observou que a multidão estava faminta e que não havia lugar para procurar alimentos. Surgiu, então, um menino com cinco pães e dois peixinhos dos quais Jesus se utilizou para efetuar a multiplicação e alimentar o povo. Segundo o texto bíblico, estavam presentes cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças, o que, num cálculo rápido, totalizaria cerca de 15 mil pessoas. Satisfeita, barriguinha cheia, a multidão, a partir daí, passou a seguir Jesus não mais interessada em suas pregações, mas tão somente esperando a hora de comer de graça.

Mais adiante, o próprio Jesus alertou a multidão para se saciar bem mais da palavra que ele divulgava, da essência do seu discurso, do que do pão que distribuía por misericórdia para com o povo. A verdade é que, se Jesus praticasse seu ministério nos dias atuais, com certeza se veria em situação delicada com relação ao pede-pede. O que teria de gente procurando-o para se aliar ao seu trabalho em troca de alguns favores não seria fácil de contar. Imagine alguém chegando para Jesus e pedindo: “Mestre, me arranje aí alguns trocados para eu pagar a conta de luz que está atrasada”. Ou então: “Senhor, dá para conseguir uma passagem para São Paulo onde meu filho……”.Ou ainda: “Jesus, se o Senhor me garantir uns R$ 500,00 por mês eu te seguirei até a morte”. Também teria essa proposta: “Se o Senhor conseguir um emprego pro meu filho desempregado eu lhe ajudo no seu trabalho”.

Troca, negociação, propostas de toda ordem, de todo tipo. Se alguns políticos já possuem uma veia voltada para a corrução, para negociatas escusas, são induzidos mais ainda para isso pela pressão que recebem, em grande parte, do eleitorado mais desprotegido dos projetos de assistência social dos governos. Com isso, não quero aqui livrar a cara, nem as responsabilidades, dos políticos desonestos.

E muito menos catalogar o pobre do eleitor carente como o culpado por esse estado de coisas. Mas a verdade é que, se os homens públicos forem atender aos insistentes e ininterruptos pedidos dos mal acostumados pedintes achados em toda parte, terão que se meter, obrigatoriamente, em mensalões, caixa dois, venda de suas consciências ao governo – e outros tipos mais de falcatruas – para obter recursos suficientes para saciar a sede e o hábito do pede-pede estabelecido país afora.

E esta é uma situação difícil de administrar. Juntando-se hábitos implantados por políticos corrutos desde priscas eras, e o desejo latente do homem, principalmente do carente, do necessitado, de buscar algum tipo de vantagem quando a ocasião se apresenta, teremos, então, um quadro bem aproximado da realidade que se vive, nos dias atuais, no relacionamento homem público versus eleitor. Quem mais sofre, nesse contexto, é a democracia e a prática política lastreada na honestidade, na seriedade, no embate de idéias, na discussão de projetos e propostas voltados para o benefício de todos em geral – e dos mais carentes em particular. Pois quando um político mete a mão no bolso para ajudar um eleitor viciado em pedir, está, com raras exceções, desviando recursos de alguma obra necessária ao bem estar coletivo. Soluções à vista? Como, se do pede-pede nem Jesus escapou?

 

 

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