Skip to content

O fatídico dia 21.05.1985

Blog

O fatídico dia 21.05.1985

Há 30 anos, mais precisamente no dia 21.05.1985, o bancário Wilson José Lisboa Lucena acabara de chegar de Penedo e estava iniciando o seu dia normalmente na agência do Banco do Brasil de Junqueiro, onde exercia na época o cargo de supervisor do setor operacional (Setop), antiga Creai. O gerente geral da unidade, seu conterrâneo e dileto amigo José Elísio Leite, encontrava-se ausente participando de um curso em Brasília. Além do gerente Elísio e do supervisor Wilson, os funcionários Ailton José Silva e Gilvan Silva de Castro integravam a equipe de penedenses. Um grupo de cinco colegas universitários também fazia parte do quadro de funcionários. Esse pessoal residia e estudava em Maceió, o que obrigava, em um veículo único, o deslocamento diário entre a capital e Junqueiro. E foi essa turma que, tão logo aportou na agência, alertou o Wilson de um grave acidente envolvendo um automóvel Passat, cor branca e chapa de Penedo, na ladeira próxima à Usina Seresta. 

Por alguns indícios peculiares, despertou a suspeita no Wilson de que o Dr. Raimundo Marinho poderia ter sido vítima no sinistro. Por isso, telefonou ao seu saudoso amigo Mabel Delgado, que compunha a equipe de fiéis escudeiros do notável líder penedense, noticiando-lhe do acidente visto pelos colegas e se ele sabia de alguma notícia recente do seu chefe. O Mabel estava justamente na residência do Dr. Raimundo Marinho, aguardando o seu regresso de Maceió enquanto alimentava a grande prole de bichanos adotada. O Mabel salientou que recebera dele uma ligação logo cedo, mas que desconhecia qualquer imprevisto ocorrido na viagem. O Wilson lembrou, então, que as vítimas de acidentes do perímetro jurisdicional de Junqueiro eram removidas para o hospital/maternidade local, à época dirigido pelo Dr. José Josué Nunes. Caminhando, para lá se dirigiu e a sua temida suspeita foi confirmada.

O quadro visto jamais será esquecido. No interior de uma sala, no mesmo estado que fora transportado do local do acidente, estirado no chão e descoberto, achava-se o cadáver do Dr. Raimundo Marinho. O Wilson teve a oportunidade de verificar a carteira de identidade que estava em poder do servidor que o estava acompanhando. Apressado, retornou à agência, pois o expediente já iniciara. Telefonou novamente para o Mabel e manteve outros contatos telefônicos sobre o ocorrido. Nesse ínterim, a notícia da tragédia começou a circular. Em Junqueiro, a Dona Ivete, esposa do gerente Elísio, junto com algumas senhoras amigas, acorreram ao hospital e ajudaram, no que foi possível naquelas circunstâncias difíceis, para um melhor aspecto e encaminhamento mais condigno do morto. Convém esclarecer que a Dona Eline, esposa do inolvidável líder penedense tragicamente vitimado, ainda se achava com vida após o funesto acontecimento, sendo removida diretamente para um hospital em Maceió onde faleceu.

Ao longo dos 30 anos de sua morte, a memória do Dr. Raimundo Marinho tem sido reativada e ovacionada com homenagens das mais diversas. No âmbito literário, tributos póstumos, crônicas, editoriais, trabalhos acadêmicos e até um livro biográfico: “Penedo como paixão – Raimundo Marinho, a vida de um líder”, de autoria do eminente escritor Douglas Apratto Tenório. Nesse sentido, há alguns anos, o jornalista e pesquisador Wilson Lucena vinha aguardando o transcurso do dia 21.05.2015 para publicar um texto jornalístico abordando o perfil histórico do Dr. Raimundo Marinho. Para tanto, foram colhidos depoimentos de várias pessoas esclarecidas em Penedo. A maioria do pessoal entrevistado teceu os mais calorosos elogios sobre a personalidade pública e humana do grande líder penedense. Foram exaltadas todas as suas obras, desde as pitorescas praças e ginásios de esportes até a criação da Fundação Educacional do Baixo São Francisco, na qual se insere a Faculdade de Formação de Professores de Penedo. Alguns valores e virtudes foram bem evidenciados como o seu dinamismo político, a sua integridade, o mestre e o condutor de obras, a sua liderança, o seu caráter humanitário, a sua visão de futuro e, sobremodo, a sua grande paixão por Penedo.

Relevante ressaltar que dificilmente vai se obter unanimidade quando se aborda a imagem de um homem público, daí oportuno discorrer sobre o “contraponto”, que significa contra o ponto de vista do outro ou dos outros. Na concepção musical, o contraponto significa a arte de escrever duas ou mais melodias diferentes para serem executadas simultaneamente, tornando a execução mais rica e atraente. Na concepção formal, também pontos de vista diferentes podem somar e tornar a discussão ou ideia mais rica e fecunda. Assim, natural que uma pequena minoria tenha manifestado algumas críticas em torno da figura do Dr. Raimundo Marinho. Em resumo, que ele era adepto da célebre máxima: “para os amigos, as benesses da lei; para os inimigos, os rigores da lei”; parte de suas obras eram aparentes ou de vitrine; mantinha a cidade sob um regime provincial, entravando avanços que pudessem ameaçar o seu espaço ou a sua hegemonia política; por ser muito concentrador, não se preocupou em preparar um sucessor político.

Essas opiniões contrárias, por expressarem pontos de vista livres, independentes e democráticos, devem ser assimiladas com a devida maturidade e sabedoria, até porque não chegam a comprometer a grandeza da imagem já firmada e consolidada do Dr. Raimundo Marinho. Na realidade, na condição de um político habilidoso e vitorioso, é compreensível que ele procurasse proteger os amigos e neutralizar os inimigos. Natural também que ele tentasse manter o seu espaço político em situação estável e sob controle, livrando-o de supostas ameaças. Por sinal, naqueles idos, dada a consistência da fortaleza política do Dr. Raimundo Marinho, impensável qualquer invasão dos domínios de Penedo. Apesar do lapso em não preparar um herdeiro político, há de se convir que ele, no vigor ainda de trabalho e impulsionado pela força de seus ideais, não imaginasse falecer prematuramente aos 54 anos de idade, bem como refletisse num breve repasse da sua batuta a outro maestro.

Segundo a apreciação de algumas pessoas coerentes, por força de várias variantes conjunturais, torna-se difícil estabelecer paralelos entre os tempos do Dr. Raimundo Marinho e os tempos atuais. Mais complexo ainda projetar um cenário de Penedo hoje caso não tivesse ocorrido a tragédia de 21.05.1985. Naquela época, apesar de se vivenciar um regime ditatorial, não existia a corrupção institucionalizada de hoje no país e o aparelhamento do Estado pelo atual governo para se manter no poder a qualquer custo. Em Penedo, a política ainda era cavalheiresca com respeito mútuo entre os adversários políticos. A cidade ainda era bem civilizada, pacata e ordeira. A miscigenação populacional não era tão intensa como hoje, tampouco existia a alarmante violência atual gerada pelo tráfico de drogas. Em âmbito nacional, o advento do mundo informatizado e virtual teve forte influência em toda a sociedade, inclusive no retrocesso da genuína cultura. Mudaram-se conceitos, paradigmas, comportamentos e padrões sociais e morais.

Contudo, num balanço geral, dentro de seu estilo e de suas peculiaridades, o Dr. Raimundo Marinho foi considerado um excelente prefeito em seu tempo, bem como um líder político de grande prestígio, inclusive além-fronteiras. De igual modo, num contexto maior, uma estrela de primeira magnitude na constelação de vultos ilustres históricos de Penedo. Nessa premissa, é inegável enfatizar que nenhum outro político manteve uma identidade tão forte com a cidade de Penedo como o Dr. Raimundo Marinho. Tanto assim, que ele poderia ter alçado voos mais altos, mas preferiu limitar o seu raio de ação política a Penedo. Ademais, por sua origem humilde, também era um homem bem sensível às pessoas mais pobres e carentes. Em suma, o Dr. Raimundo Marinho foi o grande timoneiro de Penedo em sua época, tornando-se uma figura legendária em sua história política.

A propósito do seu mérito em vida, oportuno reportar-se ao célebre discurso de homenagem aos mortos proferido pelo estadista ateniense Péricles, quando da Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta. A mensagem ressalta que, por mais sapiente e eloquente que seja o orador, é difícil mensurar o real valor daqueles que tombaram em defesa da pátria. Acrescenta que “o túmulo mais insigne e o louvor imperecível não são os tributos materiais, mas quando a glória sobrevide perpetuada na memória das pessoas”. Melhor clarificando, monumentos, túmulos suntuosos, placas honoríficas, dentre outros marcos materiais, edificados ou concedidos em vida, se apagam ou desaparecem com o tempo. Porém, a grata recordação do morto pelas pessoas, que é passada de pai para filho e atravessa gerações, esta sim é a verdadeira glória.

E, certamente, o saudoso Dr. Raimundo Marinho, apesar de sua morte prematura, soube bem se projetar em vida para ser lembrado na posteridade, sendo merecedor de um túmulo insigne e de um louvor imperecível. No transcurso dos 30 anos da tragédia de 21.05.1985, o seu espírito parece perambular por todos os recantos de Penedo que ele tanto amava e que possivelmente continua amando lá no além. Da mesma forma, a lembrança de sua imagem permanece bem viva e perpetuada na mente, na alma e no coração do povo penedense.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Lidas

Mais Comentadas

Veja Também