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O drama amoroso de admeto

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O drama amoroso de admeto

Se a fogosa sensualidade e a meiguice juntas formariam a mulher perfeita, separadas podem tentar o homem a cair na aventura extraconjugal. Dentro dessa expectativa, a busca da mulher que imaginamos capaz de corresponder às nossas expectativas amorosas e de uma boa esposa, leva-nos com frequência para o interior de um verdadeiro labirinto dentro do qual nos deparamos com encontros, aparentemente compatíveis, desejáveis e atraentes, mas que não passam de lamentáveis desencontros. São diferenças e incompatibilidades que só o tempo, aos poucos, conseguirá trazê-las á tona, pondo termo a uma ilusória escolha.

A literatura fala muito do amor à primeira vista. Em sentido oposto, há os pretensos psicólogos que se acham capazes de lê o pensamento e sentimentos de suas prováveis candidatas, preferindo uma escolha cuidadosa e paciente. A verdade é que não tem sentido saber qual o caminho mais confiável, mas qual dos dois apresenta o maior percentual de acertos numa procura que se assemelha a de uma agulha no palheiro. A perícia do instinto, no entanto, na escolha do amor conjugal, puramente instintivo que o é, faz com que muitos acreditem na eficácia do seu olhar clínico.

Admeto, há uns dez anos atrás, tinha concluído seu curso de economia. Seus pais eram comerciantes e por isso achou que calhava muito bem conhecer essa ciência que é costumeiramente traída pela volubilidade dos acontecimentos sociais que a impedem de ser precisa em seus prognósticos. Contando trinta e cinco anos de idade bem vividos desde o período de estudante, em viagens, farras, e orgias, começava a sentir o enfado desse estilo de vida. Sem se dar conta, impelido pela força do instinto, começou a pensar em construir uma família com a mulher ideal e com ela viver o resto de seus dias.

O encontro com a que seria sua futura consorte deu-se no mais previsível dos ambientes. Foi em um bar, que estava na moda pelo atrativo de novidades. Aí chegando, dirigiu-se a uma mesa onde se encontravam amigos de seu relacionamento. Entre eles achava-se uma jovem que lhe era estranha. Feitos os cumprimentos formais, seguiu-se a apresentação. Era de estrutura mediana, tez clara e cabelos artificialmente louros. O corpo era esbelto, resultado de uma rígida vigilância com o peso para não perder a forma através de exercícios e uma alimentação saudável. Em resumo, era uma moça bonita e sexualmente atraente. Seu temperamento, não obstante tivesse bebido um pouco de vinho, não chegava a ser expansivo. Seu sorriso revelava uma certa meiguice que o cativou, sentindo a certeza de estar diante da mulher ideal, talhada para esposa e mãe de seus filhos. A atração foi mútua. Outros encontros aconteceram, surgindo o namoro firme entre os dois. Não durou mais de um ano, estavam casados. Chamava-se Alceste e era bem possível que carregasse dentro de si, como a Alceste do drama grego, a imagem da mulher perfeita, extremamente amorosa, capaz de sacrificar a própria vida pelo marido.

Decorrido cinco anos de casados, com dois filhos, por sinal uma casal, nunca houve um incidente que abalasse a boa harmonia entre os dois. Era o que se chama o exemplo raro de casamento feliz. Mesmo assim, semelhante quadro belamente emoldurado, retratando a família abençoada, nem sempre esta imune às dissonâncias. As causas são inumeráveis, uma delas a monotonia que desperta para o inquieto desejo de novas experiências. O encontro de uma nova paixão parece imprescindível para completar e preencher uma carência indefinida. Admeto usufruía a rara sorte e o prazer de um casamento estável que parecia blindado à prova de novas aventuras e tentações. Quarentão a essa altura, transpirando saúde e vigor sexual, Admeto de antigas orgias, estaria imune a um novo relacionamento, capaz de abalar e destruir um casamento tão sólido? Embora a sua aparência fosse de uma pessoa séria e respeitável, como de fato o era em seus negócios, sob o aspecto amoroso estava longe de ter um caráter tão inflexível quanto o de sua mulher, incapaz, pela mais forte e irresistível tentação, ceder à infidelidade. Acontece, acredite-se ou não, o relacionamento amoroso entre homem e mulher, por razões naturais, difere frontalmente na forma de ser. A mulher, quando nunca teve ou veio a perder a afeição pelo marido, entre outras causas é o motivo principal da sua infidelidade. O fator sexo é quase inexistente, exceto se falhar no casamento. Contrariamente, o homem, mesmo sem uma razão aparente para pular a cerca, faz, sem comprometer seu sentimento para com a mulher amada, por razões de natureza puramente sexual. A diferença, traçada pela natureza, fez da mulher uma conservadora da família e o homem um propagador da espécie. Culpe-se, então, o demônio da natureza.

Admeto, aparentemente um dissoluto, foi vítima do implacável e inflexível mandamento da natureza. Não foi somente isso, no fundo ele sentia uma carência que faltava em Alceste. Ele não tinha perdido por completo o gosto pelas noitadas, sempre na clandestinidade, na hipótese de ser interrogado pelos atrasos, cauteloso, estava preparado, se necessário, com confiáveis justificativas. O conhecimento da sua nova Afrodite não se deu numa dessas noitadas. Encontrava-se no departamento feminino de uma loja. Tentava encontrar um presente de aniversário de sua mulher, tarefa que lhe parecia complicada, cheia de escolhas duvidosas. Como num passe de mágica, surge à sua frente uma das vendedoras para ajudá-lo. Não acreditou no que estava vendo. Deuses, que espetáculo de mulher! Puro deslumbramento. Era uma beleza vestida com todas as cores do pecado. Não tinha mais de vinte e cinco anos de idade. Morena, estatura acima da média, cabelos lisos, olhos castanhos bem claro, quase verdes, nariz um pouco arrebitado, traduziam a harmonia da beleza feminina. Complementando essa doçura de mulher, tinha um temperamento alegre, quase infantil, lábios um tanto carnudos, boca muito bem desenhada e um corpo de violão, tentação das tentações, era um convite à sensualidade.

Era solteira e chamava-se Daphne. Era consciente dos atributos físicos. Se alguém disser a uma mulher feia que ela é bonita, não haverá nenhuma dúvida que passará a acreditar ser verdadeira esta agradável mentira. A mulher bonita não se contenta em ser bela, é preciso que digam que ela é bela para que, amaciada sua vaidade, sinta o melífluo conforto do elogio. Admeto sabia desse segredo capaz de abrir-lhe as portas do paraíso. Foi o que ele fez, levando-a as alturas com toda a classe de um experiente conquistador.

Após esse primeiro encontro, Admeto, segundo sua estratégia, achou por bem dar um intervalo de dez dias quando iria aparecer sob o pretexto de comprar um presente para sua filha. Assim aconteceu. Informado de que não tinha namorado, pretendendo continuar a vê-la, não necessariamente em local de trabalho, pediu-lhe o número do celular. Houve alguns encontros a base de aperitivos e muita conversa até que chegasse o momento de ir até o apartamento dela. Era um quarto e sala, financiado. Oriunda do interior, morava sozinha, recorrendo a uma faxineira para os serviços de limpeza. Nesse dia, como não podia ser diferente, consumou-se o mais extraordinário dia de prazer de toda a sua vida.

Transcorridos seis anos, esse relacionamento perdura até o presente. Não obstante tenha uma mulher quase perfeita, não conseguindo sequer imaginar a mais remota hipótese de um dia vir a magoá-la, sentia ao mesmo tempo ter sido premiado pelo destino ao conceder-lhe a mulher ideal e a amante que todo homem gostaria de ter. Ela o despertou da monotonia do casamento feliz, embora não completamente satisfatório. Na falta de imaginação, a desgraça do relacionamento conjugal, para preservar incólume seu casamento, os dias eram uma sucessão enfadonha de paz e tranquilidade, necessitando de algo que o sacudisse, mesmo que fosse com o sabor picante do pecado. Daphne veio suprir o que faltava em Alceste. Esta era a fibra de caráter a toda prova, irrepreensível como mãe e esposa atenciosa. Para satisfazê-lo fazia tudo para adivinhar seus desejos. Sempre carinhosa, sexualmente satisfatória no início, a maternidade parecia ter-lhe atenuado a libido. Admeto, apesar disso, não podia deixar de procurá-la para evitar suspeita de infidelidade. Com a sensação de ser tratado mais como filho do que como esposo, não era um sexo prazeroso, vez que era um misto de obrigação e um relativo sentimento de incesto. Em sentido oposto, Daphne era e continuava sendo a explosão, a paixão pelo erotismo, a energia que lhe deu um novo sentido à vida. Até quando iria conseguir manter no anonimato esse relacionamento extraconjugal? Esta era uma pergunta constante em sua cabeça a causar-lhe medo e intranqüilidade. E se Alceste tomasse conhecimento e lhe desse um ultimato, ela ou eu? Inconcebível tal hipótese. Qualquer que fosse a decisão, seria o fim, o esfacelamento da sua vida. A vida conjugal mais autêntica que se possa imaginar, vez que usufruía a dádiva de duas mulheres formidáveis que afugentavam o enfado, o tédio e a mesmice de inúmeros casamentos, tendo de um lado a virtude celestial e do outro as delícias do pecado infernal. Porque a nossa sociedade, perguntava-se infantilmente agoniado, não permite a bigamia? O homem teria o direito a uma mulher para procriar e outra, sem filhos para dar-lhe prazer?

Afinal, deixando de lado pensamentos a esmo, se o ultimato vier a acontecer, qual será a escolha de Admeto? Pela sua índole, ela só se daria satisfatoriamente em dois tempos. Atualmente, ficaria com a amante e na velhice voltaria para os braços da mulher amada. Risos, abraços, beijos e volúpia é a linguagem da mocidade, enquanto a atenção e os cuidados são uma necessidade dos velhos. E Alceste recebê-lo-ia de volta? Muitos casos na vida real, apontam para o sim. Apesar de abandonada e sofrida ela o perdoaria, pois, como vimos, a ternura do seu amor indelével, puro e sem conotação sexual, próprio da delicada natureza feminina, funciona como contraponto e antídoto a sensualidade bestial do homem.
 

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