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O Anêmico Rio São Francisco

O Rio São Francisco agoniza! O Rio São Francisco está morto! São brados corriqueiros de alerta que revelam sem exageros o deplorável estado de sua morbidez, a preocupação e o temor pela incerteza de seu destino.

Apesar da enorme apreensão frente a essa apavorante realidade, que implicará em inevitável tragédia socioeconômica, essa preocupação, que deveria ser permanente, vive de surto e logo se embota na memória anestesiada pela monótona sucessão dos dias e pela tirania do tempo que tudo apaga e faz esquecer.

Não faz muito tempo, num passeio de lancha pelo mesmo, ficamos abismados e despertamos assustados do sono do esquecimento e voltamos como espectadores diretos, à realidade do pesadelo. A maré estava baixa, ocasião propícia para exibir, com dolorido realismo, toda a miséria de seu corpo coberto de chagas. A lancha. em alguns trechos, navegava em zig-zag à procura de local profundo. Seria real o que víamos ou éramos vítimas de uma miragem? Nada daquilo era fruto do imaginário. Conhecedores do seu passado, robusto e bravio com águas profundas a permitir a navegação de navios de médio porte. Com o sentimento da incredulidade, a observação imediata a contrastar com o seu passado foi a visão de um corpo esquálido. Somando-se à triste visão local, tínhamos na lembrança o conjunto de um corpo ferido da cabeça aos pés. Eram feridas em forma de incontáveis baixios resultantes do assoreamento, como há poucos dias tivemos a oportunidade de assistir em documentário pela televisão.

Como pode ter havido tamanho descaso com um rio que mesmo sem condições vai saciar, com a transposição de suas águas, a sede de nossos irmãos sertanejos? Como imaginar que outrora robusto São Francisco, importante marco histórico no período colonial que impulsionou o povoamento do interior e que com a riqueza de suas cheias oferecia gratuitamente o húmus fertilizante para abundantes safras de arroz e uma generosa oferta de peixe e camarão, possa acenar com o terrível pesadelo de desaparecer e transformar-se num deserto? O homem, irracionalmente, predador de interesse imediato, sem uma visão das danosas consequências futuras, é sem dúvidas o mais letal inimigo da natureza. Felizmente, como tudo na vida coexistem o bem e o mal, pode-se reverter, total ou parcialmente, esse quadro desolador através de medidas apropriadas a esse fim.

O São Francisco, no seu atual estágio de degradação, assemelha-se a uma mãe cadavérica e faminta, de seios flácidos e secos, sem condições de nutrir por mais puro e maternal seja o seu sentimento a todos os seus filhos nordestinos. Alguns de seus trechos, que exibem a crueza de uma paisagem em franco definhamento fazem-no perder a condição de rio para riacho. Brevemente poderá não passar de um filete d’água e, se não houver urna rápida recuperação de sua anterior vitalidade, será apenas uma tumba onde repousarão seus restos mortais, o vestígio e a lembrança de um grande e majestoso rio da integração nacional.

Apesar de há muito, tempo estejam em curso de obras da transposição de suas águas para socorrer outros estados do nordeste contra a seca, persistem as divergências dessa iniciativa vez que não obstante de relevante importância humanitária, poderá resultar num suicídio comum das partes em conflito. Trata-se, em resumo, de descobrir um santo para cobrir outro, caminho despido de sensatez. Se o lençol é curto, que permaneça com quem ele cobre. Te, sentido pedir que o anêmico faça doação do seu sangue?

A natureza, ultimamente, muda a passos largos, quer pela ação, quer peça lei natural onde tudo está em movimento e tudo se transforma. As grandes cheias do São Francisco aconteciam, em média, a intervalos de dez anos. Não vem ocorrendo. Será isso uma tendência?

Enfim, o que se espera é que o homem em seu paradoxal e contraditório comportamento, saiba encontrar o antídoto às suas mazelas para revitaliza-lo. Não existe outra alternativa. E de duas uma: ou veremos o êxito dessa iniciativa recuperadora, acompanhada do festivo e alegre repicar de sinos pelo seu renascimento, ou então iremos ouvir no futuro, com desesperada e incontida tristeza, o desmoronamente apocalíptico do nordeste, acompanhado do dobre levemente cadenciado e melancólico em sinal de elegia fúnebre pela sua completa extinção.