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Cultura

“Minha escola de música também foi observando Djavan e Milton Nascimento ensaiando”

Auto crítica: Mácleim resolveu musicar poesias por se achar repetitivo

O poema N° 36 de Arriete Vilela diz: Há quem goste da palavra descascada, feito polpa……, há quem goste da palavra despojada de atrevimentos……., há quem goste da palavra sólida…..

Seguindo a ótica do poema da escritora alagoana, musicado por ele, em seu mais recente trabalho, buscamos, ou melhor, conseguimos a palavra despojada de atrevimentos. Em pouco mais de uma hora, não sei se de entrevista, que soa muito formal, ou de um bom bate papo com o cantor e compositor Mácleim Damasceno, 54 anos. Tendo como cenário, o mirante do antigo casarão do Colégio Guido de Maceió, com a Catedral Metropolitana e a praia da Avenida ao fundo, o sol se ponto à direita e a lua surgindo na esquerda. Ele falou de tudo um pouco, de quando começou na música, do curso de Arquitetura que abandonou no último ano.

O artista também confessou como é difícil sobreviver da música em Alagoas e, relembrou sorrindo, o episódio que passou nos Anos de Chumbo, quando foi “convidado”, em 77, a comparecer a sede da Polícia Federal. Mácleim teve que explicar a letra de uma música de sua autoria, sobre – um tal de coroné -, que cantou durante o Festival de Música da Universidade Federal de Alagoas (FEMUFAL).

Ele também contou, é claro, da sua ousadia em musicar poemas. Trabalho esse que durou 12 anos para chegar aos ouvidos do público, o CD ESSES POETAS. Onde, o artista musicou 13 poemas de escritores alagoanos, inclusive, o de N° 36 de Arriete Vilela. O show de lançamento do CD aconteceu no Teatro Deodoro e, no início próximo ano, a histórica cidade de Penedo também servirá de palco para o segundo lançamento. Cidade cantada eu sua obra, com o poema “O Riso de Alice” do poeta Paulo Renault, que descreve o sorriso da sua avó penedense.

Aqui Acontece – Vamos partir do início. Do pressuposto que o leitor que a palavra descascada feito polpa. Quando você descobriu a música?
Mácleim – Foi durante o curso de Arquitetura na UFAL, em 77, ainda na Ditadura Militar. Participei do Festival de Música da Universidade Federal de Alagoas (FEMUFAL), com a música que está no disco, Sem Remédio e Sem Dôto. Tem um trecho dela que diz: chora fio, chora muié e vem dizer que é Deus quem quer, se me abuso, sei que não é, tá na cara que isso e coisa de coroné…, [risos]. Os caras da Polícia Federal tinham que dar a liberação para a gravação de qualquer música, era a censura, fui “convidado” para [risos]…, explicar que coroné era esse, do Exército, da Marinha ou Aeronáutica. Contei que era coroné do sertão, disse que observassem a pronúncia [risos]. Naquela época, tinha uma efervescência cultural muito grande nas faculdades, os CA’s eram Centros Acadêmicos e Culturais. E a música funcionava como um canal de luta contra a Ditadura. O disco gravado nesse festival, 90% das músicas são de protesto. Foi durante a apresentação no palco do Teatro Deodoro, em um momento, pode-se dizer de epifania, descobri realmente o que queria. Abandonei tudo, inclusive o curso de Arquitetura no último ano e fui para o Rio de Janeiro buscar a música. Só que não tinha ideia de que iria demorar tanto [risos]…, e ainda hoje estou correndo atrás.

E ao chegar à Cidade Maravilhosa……..
Fui trabalhar tocando na noite, em estúdio de gravação, trabalhei também em teatro. Nem sempre direto no que fui buscar, mas sempre com trabalhos ligados à música. Por exemplo: trabalhei no Estúdio Máster, fazendo jingles para políticos de todo o Brasil, virei especialista. Aqui em Alagoas acho que fiz para todos, do Mendonça Neto ao Fernando Collor. Também gerenciei o melhor estúdio de ensaios do Rio de Janeiro, onde ensaiavam os grandes nomes da MPB, Djavan, Milton Nascimento, conheci muitos artistas. Minha escola de como fazer música, também foi vendo esses caras. Fiz trilha para teatro, trabalhei com sonoplastia. Depois voltei para Maceió, trabalhei em TV e agora estou no rádio e me formei em jornalismo.

Você abandonou arquitetura no último ano e, em 2010, você se formou em jornalismo. Por que essa escolha?
Por duas coisas: primeiro sempre gostei de escrever as besteiras que penso. Passei quase dois anos escrevendo artigo para o Extra, acabei gostando. Eu também precisava entender como funciona a música que é o meu canal de expressão por dentro dos meios de comunicação, eles que são os principais responsáveis pela sua difusão. Trabalhei em televisão produzindo um programa mostrando artistas locais. No rádio, fiz o concurso público para o IZP (Instituto Zumbi dos Palmares), onde trabalho na Rádio Educativa. Lá tenho um programa musical muito bom. Hoje tenho a possibilidade de chegar para uma parcela da sociedade e afirmar: olha, escute essa música que é boa. Tenho a possibilidade de levar ao público uma música de qualidade e estética indiscutível. E o jornalismo, a mesma coisa, além de gostar de escrever, queria muito entender o jornalismo por dentro. Não cheguei a trabalhar em redação, ainda, mas à academia me forneceu conhecimento para entender o seu funcionamento. Mas, sem sombra de dúvidas é um meio de sobrevivência.

Roberto Miranda - aquiacontece.com.brEntão, não é possível sobreviver exclusivamente da música em Alagoas?
Para quem é músico, intérprete, quem trabalha na noite, por exemplo, consegue sobreviver até dignamente. Mas, para quem é essencialmente compositor, não. Ou você tem um trabalho paralelo ou não vive de música. Porque o compositor lança um disco atemporal, quase sempre emprega todo o seu dinheiro no disco, quando vem capitalizar novamente, já passou mais de quatro anos. Faz um show esporadicamente, se faz muito, são três shows por mês, no seguinte, ninguém mais vai querer ouvir. Isso aqui é Alagoas. Já o músico não, um baixista como Felix Baigon, ele toca hoje no meu show e amanhã pode tocar em outro.

Como você se sente na busca por espaço, diante do bombardeio da indústria cultural pela mídia?
A questão mercadológica está imperando cada vez mais, inclusive nas relações pessoais. As grandes redes sabem agora que as classes C e D passaram a ter poder de compra. O Globo há três anos já começava a mirá-los. Desde que o IBGE mostrou que existe essa nova classe. As mídias começaram a se voltar para eles. Uma vez reclamaram que o poema de Maiakovski (Vladimir Vladimirovich Mayakovsky poeta nascido na Rússia (1893 – 1930), pertenceu ao movimento Futurista), era de difícil compreensão, ele respondeu: Então é fundamental que se eleve o nível da massa. Um veículo como a televisão poderia muito bem se interessar em elevar o nível da massa. Eu costumo dizer que o cachorro come o osso, por que não te dão outra opção. Pelo menos, o cachorro deveria ter as duas opções, o osso e o filé, para então ele escolher. E o pior de tudo, que a questão é totalmente comercial. Esse tipo de música é o que essa classe quer consumir. Agora, que fique bem claro, a classe A e B também passou a consumir indústria cultural.

Você falou de tudo, enfim, vamos falar da sua mais recente obra. Como surgiu ESSES POETAS?
Tudo começou há doze anos. Eu achava que o meu discurso, as minhas letras, estavam ficando repetitivas e por coincidência, encontrei com Otávio Cabral, foi dele o primeiro poema que musiquei!!! Conversamos e ele contou que estava mandando os seus poemas para o prelo (impressão), seu primeiro livro. Pedi para que ele me enviasse alguns poemas, recebi sete, acabei escolhendo um para musicar. Gostei muito do resultado, mostrei para ele, que se mostrou muito surpreso. Foi quando veio a idéia de musicar treze poetas alagoanos. Com a idéia, também descobri que conhecia poucos poetas do nosso estado, tirando Lêdo Ivo, Arrieta Vilela, Jorge de Lima, Otávio Cabral e Sidney Warderley. Falei com Wanderley, e ele me apresentou Jorge Cooper, Maurício de Macedo, José Geraldo Marques, Gonzaga Leão. Também teve a colaboração do meu público, quando eu fazia shows, já divulgava a minha intenção e, as pessoas começaram a me presentear com livros de escritores alagoanos.

Diante da nossa vasta riqueza cultural, quais foram os critérios para a seleção dos poemas?
Então, quando musiquei o primeiro poema de Otávio Cabral, percebi que não era nada fácil. Mas, eu queria musicar poetas que já tinham publicado algum livro, queria musicar sem alterar absolutamente em nada os poemas, tanto é, que no disco tem a página e o livro do poema. O primeiro critério foi à qualidade, poesias que através da minha sensibilidade entendesse que existia uma questão estética e poética bastante forte, que a música pudesse interferir de uma forma positiva. Mas, teve um, o do Jorge Lima, levei vários livros dele para o meu refúgio em Sauaçuy (praia na região metropolitana de Maceió), onde eu musicava. Li alguns poemas e, em um determinado momento, abri um dos livros em uma página e disse: será este, e caiu no poema Zumbi [risos]. Mas de outros escritores, li o livro todo e escolhi de acordo com a minha sensibilidade, sempre tentando introjetar, entender bem o poema. Foi um processo muito duro.

Bem, sabemos do longo tempo que sua obra levou para ganhar forma. E para o público ser brindado com ela, houve apoio?
Outra etapa difícil…, não tive apoio institucional. Mas também não procurei!!! Foi quando apareceu na minha vida uma pessoa fundamental, a Djanira Macedo. Costumo dizer que os deuses da música, os deuses apolíneos, quando querem, fazem surgir possibilidades de realizar algo com relação à música. Ela entrou nessa parceria e bancou a gravação toda, um investimento muito alto.

O que o ouvinte pode esperar da sua obra?Roberto Miranda - aquiacontece.com.br
Você lhe dar com poesias de Lêdo Ivo, Aríete Vilela, Jorge de Lima, todos os 13 que estão no CD, alguns com projeção até internacional, interferir na poesia deles é preciso agregar mais valor. Para mim a poesia deles são verdadeiras obras de arte acabadas. Neste disco eu tive a preocupação de gravar em estúdio de boa qualidade técnica, chamei músicos de altíssima qualidade, bons arranjadores. Evidente que eu enquanto músico e compositor, estou sempre na busca da perfeição, nunca vou atingir o que quero, é impossível. O resultado dele muito me satisfaz, sonoramente, os arranjos, o ouvinte vai ter essa percepção ao ouvir uma vez, duas vezes, sempre vai descobrir coisas novas. É um disco repleto de detalhes. Além da parte musical, tem o projeto como um todo, o designer gráfico da Flavinha, existe o trabalho de Pedro Cabral com as telas temáticas para cada música, que no lançamento no Teatro Deodoro estavam expostas. E as levarei para Penedo. Também tem o trabalho de fotografia. É um trabalho em conjunto, que resultou em um excelente CD, com poesias musicadas de treze poetas alagoanos.

Muito obrigado Mácleim. E para encerrar, quando os ribeirinhos de Penedo e região poderão desfrutar do segundo lançamento do CD e, por que a escolhe da cidade?
Olha, faríamos um show em Penedo no final deste ano. Porém, como o Fernando Andrade, um dos nossos patrocinadores, esteve com problemas de saúde, resolvemos que só a partir do próximo ano teremos a honra e o prazer de fazermos o ESSES POETAS nessa cidade maravilhosa. O que deve ocorrer antes do carnaval. Quanto à escolha de Penedo, além de ser uma cidade cenário, a Unimed Penedo, por meio do Pedro Advíncula e do Fernando Andrade, é patrocinadora da parte gráfica do ESSES POETAS, e temos esse compromisso com eles. Além disso, pretendemos fazer um documentário sobre a obra, e Penedo será o nosso cenário ideal.

ESSES POETAS

01 – POEMA N° 36 (ARRIETA VILELA)
02 – SONETO DO AMOR CONDENADO (LÊDO IVO)
03 – ZUMBI (JORGE DE LIMA)
04 – MARINHEIRA EM AVE, EVE E IVE (JOSÉ GERALDO)
05 – QUADRAS (EDVALDO DAMIÃO)
06 – POEMA VIGÉSIMO PRIMEIRO (JORGE COOPER)
07 – AO MEU ANJO DA GUARDA (GONZAGA LEÃO)
08 – O CANTO QUE VÊ (MAURÍCIO DE MACEDO)
09 – QUEM? (SIDNEI WANDERLEY)
10 – OFÍCIO (DIÓGENES JÚNIOR)
11 – CAMINHADO CAMINHANTE TANTO PASSO ATÉ QUE PENSA (OTÁVIO CABRAL)
12 – SENHORA DOS PRAZERES (RONALDO DE ANDRADE)
13 – O RISO DE ALICE (PAULO RENAULT) (Ouça no início da entrevista)