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Negócios/Economia

Food trucks alagoanos participam da construção de norma técnica pioneira em todo o mundo

Norma está sendo elaborada pela parceria entre ABNT e Sebrae

Apesar de terem sido inspirados por um modelo de comida de rua popular nos Estados Unidos e na Europa, são os food trucks brasileiros que irão proporcionar ao segmento um marco importante ao redigirem a primeira norma técnica para funcionamento de food trucks no mundo. São definições sobre adaptação veicular, manutenção, instalação e operação do negócio, levando em consideração a terminologia, requisitos, segurança e boas práticas alimentares. O trabalho está sendo conduzido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e pelo Sebrae Nacional através de oficinas de trabalho em vários estados, entre eles, Alagoas.

Os empresários de food trucks alagoanos puderam dar sua contribuição a essa futura norma técnica – que, apesar de brasileira, pode ter aplicação nacional e internacional, já que a ABNT é um fórum de normalização reconhecido pela ISO e pela Organização Mundial de Comércio (OMC) – numa oficina de trabalho realizada nessa terça-feira (09), na sede do Sebrae em Alagoas, conduzida pelo analista técnico da ABNT Antônio Ricardo e com a presença da coordenadora nacional do segmento de Alimentação Fora do Lar pelo Sebrae Nacional, Germana Magalhães.

O objetivo da oficina foi identificar os problemas que os empresários enfrentam, verificando quais dessas questões podem ser resolvidas através de norma técnica. A partir daí, os apontamentos serão levados a uma comissão com representantes de vários órgãos, instituições, empresários do segmento e até universidades, que será implantada para elaboração da norma em até 15 meses.

“A oficina visa educar as pessoas dos diversos segmentos econômicos sobre essa diferença entre norma e regulamentação, bem como levantar as possíveis demandas para que esse ramo funcione com um padrão de qualidade. Enquanto a regulamentação é obrigatória, a norma é voluntária, o empresário pode adotá-la se quiser ou não. A ABNT não é órgão de governo, é uma entidade privada, e suas normas técnicas servem para atender o mercado em uma demanda específica”, esclarece Antônio Ricardo.

Contudo, o cumprimento de algumas normas da ABNT é obrigatório para se obter certificações, como a ISO, e essas normas são usadas no suporte à legislação, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) utiliza a ‘NBR 15635:2015 – Serviços de Alimentação – Requisitos de boas práticas higiênico-sanitárias e controles operacionais essenciais’ para fiscalizar todo o segmento de alimentação fora do lar.

“Food truck é uma atividade nova, que chama a atenção de todo o mundo. É a nova cara da comida de rua, pois é algo pensado, um negócio estruturado, tem qualidade. Acredito que essa norma vai impactar não só os carros, mas a comida de rua como um todo, ou seja, todos que estão nesse segmento”, declara Germana Magalhães.

Oportunidade para Alagoas

Maceió é a quarta e última cidade a receber a oficina de trabalho para a norma técnica, depois de Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, fazendo de Alagoas o único estado das regiões Norte e Nordeste a contribuir com essa iniciativa pioneira. A ABNT solicitou que o Sebrae indicasse quais eram as cidades que possuíssem grupos de food truck estabelecidos e como atividade consolidada para que seus empresários fossem convidados a participar da elaboração da norma, desde junho.

“Sentimos a necessidade de ouvir um caso que representasse a Região Norte e Nordeste, e Alagoas foi escolhida para essa representação. Maceió é uma das cidades onde está mais avançado o trabalho. O atendimento do Sebrae aqui foi diferenciado: no ano passado, houve a aplicação de uma solução de trabalho nova – SEI Produzir Alimento Seguro – com o grupo de food trucks. Outro ponto positivo é o acompanhamento que o Sebrae está dando ao andamento da legislação municipal e fazendo a intermediação entre food trucks e Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), um papel importante, conciliando todos os empresários do segmento”, continua Germana.

Um convite que orgulha o Sebrae em Alagoas, pois representa um reconhecimento do trabalho realizado. “Foi dada a oportunidade a nosso estado, na reunião de gestores de projetos do Sebrae, e abraçamos a chance para trazermos para cá. Somos o único do Nordeste onde está acontecendo essa oficina de construção, que é um processo participativo. A ABNT vem, apresenta a importância e os empresários discutem, em grupo, a aplicabilidade disso na execução do negócio”, relata Débora Lima, analista da Unidade de Comércio e Serviços (UCS) do Sebrae em Alagoas.

Panorama da comida de rua no Brasil

Enquanto coordenadora nacional do segmento de Alimentação Fora do Lar pelo Sebrae, Germana Magalhães trouxe um pequeno panorama do cenário brasileiro da comida de rua. “Em sua origem, ela começa por necessidade. As pessoas se veem numa situação em que fazem um cachorro-quente, uma cocada e vão para a rua vender para ajudar na sua renda. Essa realidade, eu acredito, está mudando pelo que a gente vem acompanhando, como é o caso dos food trucks”, afirma.

Não só pelos carros de comida em si, complementa Germana, mas a multiplicação de suas versões de negócio, como pequenos caminhões, vans, trailers, carros, bicicletas e motos que vendem comida, enquanto negócio planejado, diferente do empreendedorismo por necessidade.

“Temos acompanhado a evolução do segmento como um todo, não só na questão da comida de rua. Essa tendência de novos modelos de negócio não acontece só na alimentação; a sociedade está mudando. A tecnologia, os serviços digitais, a forma como as pessoas interagem socialmente; tem várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. No caso da alimentação, vemos uma busca pela qualidade, uma democratização, de certa forma, da gastronomia de qualidade, que está indo para a rua”, afirma.

Por isso, o Sebrae Nacional e suas unidades em cada estado mantêm olhos e ouvidos abertos a esses empreendedores. “Temos ficado próximos a isso, ofertando soluções, trazendo esse grupo para qualificação de gestão. Estamos atentos à questão do associativismo, para deixá-los mais unidos, e às legislações, dentro do que podemos dar apoio. O Sebrae está próximo à nova alimentação fora do lar”, finaliza a coordenadora.