A gravidez é o momento sublime para muitas mulheres, mas exige cuidados especiais com a saúde mesmo antes da concepção. Afinal, além de o corpo passar por muitas transformações, a futura mamãe será a fonte de suprimentos de um pequeno ser que se desenvolverá no ventre dela ao longo de nove meses. Alimentação equilibrada, adoção de hábitos saudáveis e acompanhamento pré-natal estão entre as orientações passadas por médicos, para auxiliar as mães a levar uma gestação tranquila e garantir que a criança chegue forte e sadia.
De acordo com a coordenadora estadual da Rede Cegonha, Syrlene Patriota, antes de gerar uma criança, homem e mulher devem realizar uma bateria de exames para investigar como anda a saúde de ambos. Alguns deles são comuns para o casal, como um hemograma (para verificar anemias, infecções ou inflamações), sorologia para hepatites, sífilis e HIV, e a tipagem sanguínea.
Contudo, a mulher precisa de uma investigação mais minuciosa, afinal é ela quem vai gerar o bebê. Por isso, é importante que a futura mamãe verifique como está sua sorologia para citomegalovírus, toxoplasmose, rubéola, glicemia, papanicolau (exame preventivo do câncer de colo uterino) e ultrassom, para diagnosticar possíveis malformações dos órgãos reprodutivos, como alterações do útero ou miomas, que podem causar abortos. Além, claro, de ela estar com o calendário de vacinação em dia.
“Se a mulher nunca teve diabetes, hipertensão, infarto ou insuficiência renal, ela precisa ter um maior cuidado durante a gravidez. Caso já tenha tido a rubéola, por exemplo, é preciso se vacinar antes de engravidar, para não contrair a doença durante a gestação”, disse Syrlene Patriota.
As futuras mamães também devem iniciar a administração de ácido fólico semanas antes da concepção para garantir a perfeita formação do feto. A anemia é uma condição comum às gestantes e, em geral, transitória. “Nessa fase, a mulher precisa produzir tanto para ela quanto para o outro, então, é necessária uma formação maior de células sanguíneas. A falta de ácido fólico não está relacionada só com a deficiência de ferro, mas também a má formação da medula do bebê”, explicou.
Mulheres que já passaram dos 30 devem investigar se têm ou não endometriose, o que pode dificultar a gravidez. Checar a pressão arterial e o funcionamento da tireoide também é importante. Além disso, é aconselhável que elas deixem de fumar e consumir bebidas alcóolicas.
Cuidados masculinos
Para os homens, em alguns casos, é recomendável que se submetam a um espermograma para checar a saúde dos espermatozoides.
Segundo a coordenadora estadual da Rede Cegonha, as doenças mais frequentes durante os nove meses da gravidez são as crônicas não transmissíveis: diabetes e hipertensão arterial, que pedem preparação e cuidados especiais para que a gestação seja possível.
As doenças infecciosas, principalmente aquelas que atingem o trato urinário, podem causar complicações graves, como o parto prematuro e o risco de aborto. Além de infecções congênitas (toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, catapora, parvovírus B19, HIV, sífilis, herpes e hepatite B), nas quais a mãe pode adquirir e transmitir para o seu bebê.
Nem todas as infecções possuem tratamento durante a gestação. Ao mesmo tempo, algumas delas, como o herpes e a hepatite B, apresentam alta taxa de transmissão, principalmente durante o parto, e terão suas manifestações apenas após o nascimento.
Não se pode esquecer, claro, do vírus zika e de seu ataque aos bebês durante a gestação. As chances de ele ultrapassar a placenta são maiores durante os três primeiros meses de gravidez.
Durante os nove meses, a gestante fica com sua imunidade mais baixa devido às diversas mudanças no seu corpo e, assim, mais propensa a pegar gripes e resfriados. Portanto, o cuidado tem que ser redobrado com a sua saúde – e também com a do bebê. “Ela precisa se expor menos em ambientes com aglomerado de pessoas, assim, evitará infecções”, orientou.
Alimentação equilibrada
Também é muito importante as futuras mamães lavarem as mãos porque elas são as principais vias de transmissões de vírus e, por isso, a lavagem correta pode evitar o desenvolvimento de uma série de doenças, como herpes, resfriados e conjuntivite, por exemplo. “Lavar as mãos correta e regularmente é extremamente importante para a manutenção da saúde porque evita a contaminação por germes que estão em toda parte”, recomendou Patriota.
Cuidar da higiene bucal é essencial para evitar o desenvolvimento de doenças e manter o sorriso em dia, especialmente quando se está grávida. “Durante a gestação a mulher deve ter uma avaliação de sua saúde bucal, pois os processos inflamatórios na gengiva estimulam o aumento de um hormônio chamado prostaglandina, o que pode induzir o parto prematuro do bebê.”
A alimentação durante a gravidez não pode e nem deve ser baseada em dietas restritivas. E também não precisa seguir aquela antiga mentalidade de que grávida tem que “comer por dois”. O importante é limitar a quantidade de guloseimas e investir numa alimentação equilibrada, caprichando nas vitaminas e sais minerais. “Durante a gestação deve-se reduzir, mas não eliminar a ingestão de gorduras, já que são reservas de energia do organismo”, disse a coordenadora estadual da Rede Cegonha.
O ideal, lembra Sylene Patriota, é ganhar no máximo 13 quilos durante a gravidez. No entanto, ela ressalta que isso vai depender de mulher para mulher e como o organismo vai responder ao longo da gestação.
A constipação intestinal também é reclamação constante das grávidas. Isso porque, além de o intestino ficar comprimido pelo útero, a progesterona (hormônio da gestação) o deixa mais preguiçoso. O ideal é comer alimentos que contenham fibras, pois proporcionam melhor funcionamento do sistema gastrointestinal, auxiliam o controle de peso e retardam o esvaziamento gástrico, provocando maior sensação de saciedade, além de ser um fator protetor, prevenindo doenças cardiovasculares, ajudando a manter bons níveis de colesterol, triglicérides e glicose.
Pré-eclâmpsia
Sem dúvida, entre os problemas mais graves de uma gestação, a Doença Hipertensiva Específica da Gestação (DHEG) é uma das complicações mais comuns e de maior morbimortalidade materna e perinatal.
A DHEG, também denominada pré-eclâmpsia, é caracterizada pela tríade: edema, proteinúria e hipertensão arterial. O edema, um dos sinais da tríade da DHEG, embora muito comum na gestação, é considerado o primeiro sinal de pré-eclâmpsia quando associado a proteinúria e hipertensão arterial. É uma síndrome que acontece no final do 2º trimestre da gestação e persiste durante todo o período gestacional, impondo, desta forma, assistência pré-natal de qualidade, já que este quadro clínico apresenta gravidade de intensidade variáveis.
Entre as complicações fetais está a redução do suprimento de oxigênio e nutrientes, o baixo peso ao nascer e o maior risco de desenvolver doenças pulmonares agudas e crônicas. Como alterações tardias, crianças pequenas para a idade gestacional, frequentemente associadas ao diagnóstico de hipertensão gestacional, podem apresentar maiores níveis de pressão arterial e níveis elevados ou anormais de lipídios ou lipoproteínas no sangue precocemente na fase adulta.
A pré-eclâmpsia pode desenvolver para uma eclâmpsia, que é a forma mais grave da doença, na qual a gestante pode vir a ter convulsões, levando, em alguns casos, à sua morte e a de seu bebê.
De acordo com a médica, mulheres que mantém o vício de fumar e de ingerir bebidas alcóolicas durante a gestação correm o risco de sofrer aborto natural, sangramentos, descolamento da placenta e parto prematuro, além de problemas de saúde congênitos para o bebê.
O álcool é uma substância com livre passagem pela placenta e, portanto, livre caminho para o feto. O fígado do bebê que está em formação metaboliza o álcool duas vezes mais lentamente que o fígado de sua mãe, isto é, o álcool permanece por mais tempo no organismo do bebê do que da sua mamãe. “Ao nascer, o bebê desenvolve a Síndrome de Abstinência Neonatal (NAS), uma vez que a dependência dele à substância continua. Um bebê com NAS é altamente irritado, chora desesperadamente”, explicou Patriota.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a cada ano 12 mil bebês no mundo nascem com a Síndrome Fetal do Álcool ou Síndrome do Alcoolismo Fetal (SAF) ou 2,2 de cada mil.
Já a nicotina, substância presente no cigarro, estreita os vasos sanguíneos fazendo com que chegue menos nutrientes e oxigênio para o feto, o que pode acarretar graves problemas de desenvolvimento.
A prevenção de riscos
Por isso, o pré-natal é tão importante para garantir detecção precoce de doenças e acompanhamento de mãe e bebê. A mulher deve realizar, no mínimo, seis consultas pré-natais até a hora do parto. Nestas consultas, o obstetra irá medir a circunferência da barriga e conferir pressão, peso, altura, temperatura e pulsação. E, assim que possível, ouvirá os batimentos cardíacos do feto.
Desde 2000, o Ministério da Saúde (MS) mantém um Programa de Humanização no Pré-natal e Nascimento, cujo objetivo é melhorar um quadro que ainda preocupa: a mortalidade de bebês prematuros. Infecções relacionadas ao ambiente externo, problemas respiratórios e paralisia cerebral são alguns dos principais riscos à saúde do bebê que nasce antes da hora.
Jaciara Rocha, de 35 anos, espera seu quarto filho e não quer engrossar as estatísticas. Sentiu, pela primeira vez, o poder de dar à luz, aos 14 anos. Ela vai para o quarto mês de gestação e está em sua primeira consulta. Ainda não sabe o sexo do bebê. É casada e têm mais três filhos, todos saudáveis.
Desde muito nova, aprendeu em casa, vendo o exemplo de sua mãe, o quão importante é a ida ao médico regularmente. Todos os seus pré-natais foram realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e disso ela não tem do que reclamar. “Não teria condições de fazer exames, realizar consultas, tomar vacinas e outros benefícios, se não existisse o SUS. Os médicos dão muita atenção a todas nós, gestantes. Temos prioridade, mais facilidade”, disse ela.
O marido, que nunca a acompanhou em consultas, agora criou o hábito de estar sempre presente. “Ele é extremamente curioso e procura ser muito participativo quando estamos conversando com a médica”, contou. “Tudo isso é fundamental para uma gravidez tranquila, sem neuras.”
