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Alagoas

Comunidade quilombola de Tabuleiro dos Negros recebe equipe do Incra para cadastro de famílias

    Na fase atual, estão sendo realizados o cadastro de famílias, o relatório antropológico, o levantamento fundiário e a notificação dos confrontantes e proprietários de áreas identificadas como parte do território.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) intensificou os trabalhos técnicos na comunidade quilombola Tabuleiro dos Negros, povoado situado entre os municípios de Penedo e Igreja Nova, avançando no processo de elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Demarcação (RTID), documento fundamental para a regularização e titulação do território tradicional.

Na última semana, equipes do órgão federal foram recebidas na sede da Associação dos Remanescentes Quilombolas e dos Agricultores Familiares do Quilombo Povoado Tabuleiro dos Negros, onde deram continuidade às atividades de campo, que incluem cadastramento de famílias, levantamento fundiário, estudos antropológicos e notificações de proprietários de áreas identificadas como parte do território quilombola.

De acordo com o Incra, o objetivo desta etapa é reunir informações históricas, sociais, econômicas e culturais que comprovem a ocupação tradicional da comunidade. Um questionário socioeconômico está sendo aplicado pelos antropólogos para mapear as relações familiares, produtivas e culturais existentes no povoado.

Atualmente, 148 famílias já foram cadastradas, de um total estimado em aproximadamente 400. O processo de elaboração do RTID começou em novembro do ano passado e, após análise técnica, as famílias cadastradas poderão ser incluídas no Programa Nacional de Reforma Agrária, passando a ter acesso a políticas públicas específicas destinadas às comunidades tradicionais.

A antropóloga Luiza Borba explicou que a pesquisa de campo busca reconstruir a memória coletiva do povoado. Durante os trabalhos, a equipe visitou o cemitério da comunidade, a igreja católica local e espaços de comercialização da agricultura familiar em cidades vizinhas, acompanhando de perto as atividades desenvolvidas pelos moradores.

“O relatório antropológico vai reunir histórias, memórias orais, documentos e as relações produtivas que ajudam a formar a identidade do território de Tabuleiro dos Negros”, destacou a servidora.

Além do levantamento antropológico, técnicos da área de cartografia trabalham na elaboração da planta territorial e do memorial descritivo da área. Nas próximas semanas, também será iniciado o laudo agronômico, etapa considerada essencial para a futura demarcação.

Embora oficialmente classificado como povoado rural, Tabuleiro dos Negros possui características urbanas, com ruas pavimentadas, casas de alvenaria e acesso a equipamentos públicos. A comunidade faz divisa com o quilombo Sapé, localizado em Igreja Nova, compartilhando inclusive espaços históricos, como o cemitério local.

O presidente da associação quilombola, José Cícero da Silva, afirmou que o avanço do processo representa um momento histórico para os moradores. Segundo ele, a presença constante do Incra tem fortalecido o sentimento de pertencimento das famílias e incentivado a participação da comunidade nas discussões sobre o território.

“Foi uma caminhada longa desde a certificação da Fundação Palmares, em 2007, mas hoje existe mais confiança e participação das pessoas. Muitos moradores já procuram espontaneamente a associação para acompanhar o processo”, afirmou.

A tradição agrícola segue como uma das principais marcas do povoado. Segundo os moradores, a comunidade mantém plantações de mandioca, produção em casas de farinha e pequenas criações de gado, preservando práticas transmitidas ao longo de gerações.

A cultura popular também ocupa papel importante no processo de reconhecimento territorial. Um dos destaques é o grupo de coco de roda liderado pelo mestre Belo, nome artístico de Adalberon Cristóvão dos Santos, que há mais de duas décadas promove apresentações culturais envolvendo crianças, jovens e adultos da comunidade.

Para o superintendente do Incra em Alagoas, Júnior Rodrigues, o trabalho representa uma política de reparação histórica. “Essa etapa é essencial para garantir segurança jurídica, transparência e respeito aos direitos constitucionalmente assegurados das famílias quilombolas”, ressaltou.