O prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, cultiva um ritual que não é apenas religioso. Todos os dias, em duas redes, publica versículos bíblicos. Entre eles, um aparece com frequência: “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi.” João 15:16.
Não é só fé. É narrativa. Ao repetir esse versículo, JHC parece dizer algo maior: ele não chegou até aqui por acaso. Foi escolhido. Predestinado. Separado.
O problema é que a Bíblia, que ele cita, também é clara sobre o destino de alguns “escolhidos”. Um dos exemplos foi o Rei Saul, um rei ungido. Escolhido por Deus. Tinha poder, legitimidade e apoio. Perdeu tudo. Por quê? Vaidade. Incapacidade de sustentar alianças e obedecer limites. Começou como promessa. Terminou isolado, derrotado e em colapso.
Outro exemplo foi Sansão, escolhido desde o nascimento, separado desde o ventre. Tinha força incomum. Caiu. Por quê? Impulsividade. Quebra de compromissos. Incapacidade de honrar sua própria missão. Teve poder. Não teve disciplina.
E JHC, ao que tudo indica, segue o mesmo roteiro. No mundo real, a acusação mais recorrente contra o prefeito não é ideológica. É comportamental: não cumprir acordos. Um empresário do setor de securitização, que o ajudou no segundo turno de 2020, se diz abandonado logo após a vitória. O diálogo com a Igreja Católica e com a Igreja Assembleia de Deus não existe há meses, de acordo com fontes das duas instituições.
Mais recentemente, entrou em rota de colisão com Arthur Lira, que hoje se vê traído. O acordo, segundo interlocutores, teria sido selado em 2022, com a presença de Jair Bolsonaro: apoio ao projeto de Lira ao Senado em 2026, em troca de uma candidatura de JHC ao governo.
O roteiro mudou. Além de romper o acordo, o prefeito passou a trabalhar a possibilidade de lançar a própria esposa, ou a si mesmo, ao Senado. Movimento que, na prática, dificulta o projeto de Lira. Na política, isso tem nome: ruptura de confiança.
Há um detalhe incômodo nessa história. Grande parte da musculatura política e financeira da gestão JHC não nasceu na prefeitura. Veio de Brasília. A estimativa é de que cerca de R$ 4 bilhões tenham chegado à Prefeitura de Maceió por meio de emendas parlamentares, Braskem e BRK, viabilizados pela influência de Lira na esfera federal. Recursos que sustentaram entregas visíveis: arenas, praças e o destravamento do Renasce Salgadinho.
Sem isso, a vitrine seria outra. A pergunta é simples e direta: o projeto político de JHC se sustenta sozinho?
A semana recente foi sintomática. JHC perdeu o comando estadual do atual maior partido do país, cancelou agendas, reuniu aliados às pressas. E, em uma das raras entrevistas dos últimos anos, deixou escapar muita irritação. Para quem se apresenta como escolhido, o cenário atual é tudo, menos controle.
A Bíblia que JHC cita todos os dias também deixa um recado duro: ser escolhido não garante permanência. Não garante poder. E, principalmente, não garante a lealdade dos outros quando você é quem falha. Saul perdeu o trono. Sansão perdeu a força.
Diferente de Sansão, talvez não tenham cortado o cabelo de JHC. Parece que ele mesmo fez isso. E, assim, pode estar vivendo algo parecido com Sansão: ruptura de limites e compromissos.
Na Bíblia, a queda dos escolhidos nunca começa no destino. Começa nas escolhas.
