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Alagoas: o Estado Morcego

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Alagoas: o Estado Morcego

As chamadas ciências ocultas servem-se de objetos, números e símbolos diversos para interpretar e predizer o futuro. Se alguma delas usa a forma como meio premonitório, a forma de morcego com asas abertas, seguramente, não pode prenunciar bom augúrio.

Se Alagoas voasse, sua configuração territorial nos lembraria um morcego. Seria essa forma ensejadora de forças negativas, responsáveis pela deturpação moral que aqui impera, do atraso e das carências sociais? Não voa e sem o dom de planar nas alturas, sem sentir a leveza, a agradável sensação de liberdade e a pureza de sentimentos, permanece de cabeça para baixo. O que se pode esperar de quem vive de cabeça para baixo? Carente de uma visão da imensidão do espaço a inspirar-lhe os mais elevados e puros ideais, do chão só pode resultar a obsessão materialista e o sacrifício das virtudes que deveriam nortear suas ações. Acontece que a visão deveria compensar essa desagradável postura e suas conseqüências moralmente deformadas. Alagoas, de fato, dispõe de uma ótima visão e, como tal, deveria ser a excelência em tudo. Mas eis que surge um paradoxo em relação ao morcego. Enquanto este, carente de visão, executa a contento graças à eco-localização de que dispõe, seus meios de sobrevivência sem molestar o patrimônio de que quer que seja. Alagoas, com olhos esbugalhados, sente-se ofuscada pela claridade e descamba, jungida por uma força inata calcada nos baixos instintos, na escuridão onde vicejam os mais deprimentes adjetivos, entre eles a insensibilidade, o interesse próprio, o indiferentismo, a insensibilidade humana e a corrupção que campeiam nos mais altos escalões dos três poderes.

Os mais recentes fatos que nos colocam na vitrine do impossível acontece, referem-se ao desrespeito pelo judiciário por algumas categorias sindicais em greve e pela Assembléia ou Assombração legislativa que teria de afastar um de seus morcegos hematófagos. Será que se trata de algo real ou é pura ficção ? Será que o que lemos nos jornais a respeito é real ou ficção? Será que o nosso Estado separou-se definitivamente do Brasil para se transformar, às claras, numa republiqueta do trabuco e do direito natural onde vence o mais forte? Se é imperdoável o comportamento dos sindicatos acima referidos, o que dizermos da Assembléia Deslegislativa que agora, ao invés de elaborar e votar as leis, passa a ingeri-las para depois, feita digestão, transformá-las em excremento.

É trágico assistirmos ao desespero do náufrago quando, na sua ansiedade para safar-se da morte, ver perdido seu único objeto de salvação. A propósito, quando nos referimos aos três poderes e o estado de escombros e calamidades morais em que se encontram, sentimos o trágico da solidão em nossas vidas quando imaginamos fosse o judiciário uma exceção capaz de resgatar nossa última esperança, vê-lo jogado na vala comum da criminalidade. As recentes notícias que relatam a percepção indevida de vencimentos por parte de juízes e desembargadores, parece-nos totalmente absurdas, algo impensável e inconcebível. Como podemos conceber tamanho embotamento dos princípios morais!

E o que dizermos do legislativo? Desse autêntico tornado que surrupia desavergonhadamente as finanças públicas? Uma inutilidade que temos de engolir em nome da democracia. Altamente oneroso, não fossem os escândalos financeiros, o empreguismo, por tudo que não é e deveria ser, jamais saberíamos da sua existência. Na mesma linha da estupefação do descaso com os cofres públicos, há um aborto da administração pública denominado tribunal de contas ou faz de conta do que qualquer outra coisa, que sem dúvida alguma, prejudicial e inútil, é o maior acinte à sociedade, fazendo-se necessária a sua extinção, não pela instituição em si, importante, mas pelos vícios e incompetência dos que o compõem. Não passa de um ninho de acomodação política para privilegiados a usufruírem altos salários e mordomias em troca do nada. Pura calamidade! Quanta inspiração o cenário alagoano nos estimula para o niilismo! De fato, se as coisas no Brasil não andam bem segundo as recomendações éticas com a coisa pública, em Alagoas, caótica e à deriva, parece-nos a mais acabada inspiração para o caos.

Acreditavam alguns historiadores, para explicar o surgimento da extraordinária cultura helênica, que a beleza da sua paisagem, despertando a sensibilidade, teria sido a causa principal. Esse presente dos deuses, favorável à introspecção, predispôs o grego para os mais altos vôos na especulação filosófica. Ora, se verdadeira fosse essa hipótese, por que em Alagoas, com o mais belo litoral de águas límpidas, as coisas acontecem de forma disparatada e totalmente opostas? Por que, ao invés da prosperidade sócio-econômica, temos a fome e o analfabetismo? Por que o nosso cenário político, que deveria ser uma réplica do período de Péricles, o mais brilhante da história helênica , temos a mais deslavada improbidade? Por que, se vivemos descrentes, descontentes e decepcionados com o executivo e o legislativo, não nos deixou o judiciário como exceção, uma válvula de escape no meio de tantos desencantos? Será mesmo que uma mudança na sua forma geográfica, veríamos os nosso vampiros mudarem de hábito alimentar, deixando de serem hematófagos insensíveis e desumanos, a sugar impiedosamente, o sangue do esquálido e esquelético Alagoas? Será que se cegássemos os que formam os três poderes, ficariam com a sensibilidade mais aguçada para os problemas sociais e adotar, por tabela, a honestidade como uma prática de vida? Por que não cegá-los? Não, o mais nobre, se nobreza tivessem, é que eles se auto-mutilassem. Irreabilitáveis perante a opinião pública, só uma medida radical poderia salva-los. Que vazassem a enormidade de seus olhos corrompidos para, num corajoso gesto edipiano, provarem o arrependimento e o remorso pelo incesto que cometem com e contra a bondosa mãe Alagoas. Édipo ignorava o incesto que cometera com sua mãe, acontecimento a ele inevitável, vez que estava prescrito em seu destino, segundo a crença fatalista dos autores da tragédia grega. Os filhos dissolutos de Alagoas que comandam seu destino, contrariamente, cometem-no com a mais límpida e degenerada consciência. Existe melhor meio para salvarmos o nosso Estado do tamanho lamaçal e insensibilidade moral em que se encontra?

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