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A Vergonha do Caipira Galã

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A Vergonha do Caipira Galã

Que gosto não se discute, todos sabemos. No que tange aos nossos predicados da boa aparência e beleza pessoal, somos os mais parciais dos julgadores. Chegamos ao ponto, muitas vezes, de não perceber em nós uma grande fealdade, mesmo que todos a reconheçam como uma unanimidade.

Vadinho, como era popularmente conhecido, era uma dessas pessoas que chamam a atenção por alguma originalidade. Baixo e um tanto atarracado, encontrava-se com sessenta e oito anos de idade. Moreno claro, rosto largo, cabelos lisos e ralos, nariz ligeiramente achatado, olhar vivo, boca grande marcada pela flacidez do lábio inferior, podia não causa espanto, mas também nada tinha a ver com a beleza. Acontece que a vida costuma oferecer compensações. Era sociável, comunicativo e espirituoso.

Era filho único de um pequeno proprietário, tendo feito na cidade, na década de sessenta, o primário. Na pequena propriedade, como único herdeiro, residia com a mulher e uma amásia em casas contíguas. Os filhos, casados, residiam fora do estado. Não tinha empregados e sozinho cuidava de um pequeno rebanho e alguma cultura de subsistência.

O que não deixava de chamar a atenção de todos, era o fato de Vadinho conviver com a mulher Mariquita, com a mesma idade, não bem conservada, o que lhe dava um aspecto de bem mais velha, agravado pelo descuido da aparência, e a amásia Prazeres, morena, cabelos lisos, bem torneada, rosto engraçado, seus seios ligeiramente flácidos, era apetitosa e com ela pernoitava.

A relaxidão de Mariquita e sua frigidez sexual que ficou mais acentuada com a idade, obrigou-o, sem protesto da mesma, a cair nos braços da amásia. É um comportamento freqüente nas mulheres do campo que, outrora arrumadinhas para atrair o futuro pretendente, tornam-se com o tempo alheias a boa aparência, passando para a condição de repelentes de marido. Não tinha o menor sentido à fidelidade conjugal. Sexo, além de ser vida, é o mais agradável dos prazeres, necessário à estabilidade do casamento. Conviviam muito bem, na mais perfeita harmonia. Essa inusitada circunstância fê-lo chegar à conclusão, confessava aos amigos, que o homem deveria ter duas mulheres, uma para constituir família e outra exclusiva para os prazeres do sexo, proibida de parir para melhor conservar a forma.

Ao contrário de Mariquita, Vadinho preocupava-se com o seu visual. O barbear-se diariamente, como fazia, para quem mora na zona rural, não deixava de ser um comportamento incomum. Queria, a todo custo, apagar a velhice da cara. Brincava de se esconder com o tempo, achando que assim dava-lhe corda para afastá-lo do inevitável desfecho da vida.

Quando ia à cidade, invariavelmente nos dias da feira, comportava-se como um janota. Logo cedo, após um banho no São Francisco, vestia a melhor calça, camisa de cores berrantes, gosto que perdurava desde a juventude, borrifava o rosto e o corpo com um perfume barato, concluindo o seu ataviamento com os óculos escuros na cara. Eis que a velhice, num passe de mágica, transfigura-se em um corpo com toda vitalidade. Notava-se claramente, nesses momentos, a personificação da vaidade em seu grau máximo de satisfação, um verdadeiro astro do cinema.

Pronto achava-se para a conquista feminina, caso aparecesse. Embora já não estivesse a dar conta do recado com Prazeres, julgava-se um reprodutor à maneira de um paxá africano.

A feira, para muitos matutos, é um dia de festa. Nessa ocasião, uma das duas, a mulher ou a amásia, acompanhava o Vadinho em revezamento semanal. Após chegarem à cidade em um carro velho, acertavam sobre o local e hora do retorno. Caso ele não chegasse na hora combinada, que ela voltasse no transporte coletivo. Ela ia às compras e ele, para exibir-se e dar vazão a seu temperamento extrovertido, procurava os amigos para inteirar-se das novidades.

Para tornar a conversa mais agradável, procuravam um boteco nas imediações do meretrício.

Pinga e cerveja, um copo atrás do outro, a conversa tornava-se cada vez mais animada. O assunto predominante, aparentemente inadequado para a idade, era mulher. Hábito de comportamento de quem quer dar a aparência de viril, quando a virilidade, a passos largos, começa a abandona.

Era comum, dada a proximidade dos bregas, que as quengas aparecessem na esperança de garfarem clientes e dar início aos trabalhos pela sobrevivência. Naquele dia, algumas já tinham aparecido, mas sem despertar o gosto do Vadinho.

A boa notícia para os freqüentadores de cabaré é o aparecimento de uma nova puta. Por sorte ou azar de Vadinho, naquele oportunidade apareceu uma apetitosa carne fresca. Beirava os vinte anos. Pele clara, cabelos lisos, quase esguia, corpo de violão, pernas e coxas bem torneadas, sem manchas, um rosto agradável, seios ainda firmes, era um deleite visual e a promessa do mais excitante combate sexual. Não seria ela demais, correndo o risco de ser rejeitado? O álcool, nessas ocasiões, aliado ao seu temperamento alegre, fez milagre. Esquece a possibilidade de ser rejeitado. Não era ela uma profissional a sobreviver da exploração do próprio corpo? Dirige-se a mesma e a convida a sentar-se à sua mesa. Após as apresentações de praxe, oferece-lhe um copo de cerveja. Comida apetitosa ao seu alcance, tornou-se imediatista para degustá-la mais rápido possível. Impaciente, pergunta-lhe onde está hospedada. Bebe um pouco mais.

Seu nome era Sirlene. Vadinho, a essa altura com a cabeça altamente alcoolizada, quer ver logo o desfecho daquele doce encantamento. Levantam-se e rumam para o quarto da Sirlene. Era de uma pobreza franciscana, resumindo-se numa cama e um guarda-roupa. O banheiro, no corredor, era comunitário a exalar um péssimo odor. Isso não tinha nenhuma importância perto da sua impaciente expectativa de desnudar aquele lindo corpo, abraça-la, beija-la da cabeça aos pés e chegar ao ápice do seu desejo. Tudo isso aconteceu nos mínimos detalhes. Sexo, afinal, é uma arte que requer criatividade e imaginação para torná-lo mais excitante e poder atingir o verdadeiro êxtase do prazer. Mas o que estava acontecendo com o Vadinho naquele dia?

Malabarismo corporal nas mais diversas posições eróticas foram feitas, sem conseguir despertar por completo do profundo sono o guerreiro peniano de grandes façanhas de outrora.

Sua parceira, a essa altura, não escondia a sua impaciência, a ponto de explodir. Ora, estava ali para fazer sexo e não ginástica. Vadinho percebeu e isso afundou mais ainda o seu desejo de usufruir as mil e uma noites que previra. Nada mais tinha a fazer. Desistiu. Olhou com raiva, quase ódio, para o flácido pênis. Com ímpeto irracional, como se ele fosse autônomo, teve vontade de dar-lhe uns tapas. Seu rosto, suado, respiração ofegante, estampava um ser dilacerado pela incredulidade, tristeza, frustração e vergonha. Como pode uma expectativa que acenava tão generosa, capaz de fazer-lhe desfalecer de prazer, transformar-se num sofrido e vergonhoso fiasco!!

Desculpa-se. Veste-se e despede-se de Sirlene que recebeu a mais amarga remuneração de sua vida. Vadinho, enquanto dirigia rumo à sua casa, convenceu-se de que a sua condição de guerreiro das proezas sexuais encontrava-se no passado. E numa honesta autocrítica, chegou a conclusão que o disfarce para exibir-se mais jovem não passava de uma infantilidade. Não há mal que não traga um bem. Adeus encenações de proezas machistas! Triste e desgraçado, sem dúvida, é aquele que não tem o espírito da sua idade.

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