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A Desprazerosa e Insuportável Velhice

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A Desprazerosa e Insuportável Velhice

 Diariamente, frente ao espelho, não percebemos, em doses milimétricas, as transformações em nosso rosto, a perda de massa muscular e o declínio da agilidade, da força física e do desempenho sexual. A força da vivacidade do passado dá lugar à gradativa carência dos impulsos da juventude. Somente no atacado, depois dos sessenta anos, começamos a perceber os primeiros estragos do tempo, agora numa crescente velocidade. Rápida também é a passagem dos dias a tal ponto que chegamos a não nos dar conta que somos velhos.

 Por outro lado, a velhice, figura tenebrosa e indesejável entre tantos outros adjetivos depreciativos, tentamos, num imaginário passe de mágica, mascará-la, como se fosse possível deter a marcha do tempo e impedir, como artista da deformidade, a sua inexorável ação destruidora. Um pouco dessa ilusão acontece, para a alegria do nosso ego, quando alguém, informado da nossa idade, admira-se, achando-nos dez anos mais jovem. Inflados de contentamento, imaginamos ter feito um pacto amigável com o tempo. Como gostaríamos de fugir da tenebrosa realidade, subvertendo a ordem natural das coisas!

 Infelizmente, o que não se pode remediar, como diz o ditado, remediado está. No rastro dessa verdade, preferíamos trilhar o caminho do riso, fazer chiste da velhice a querer enaltecê-la com a descabida e mentirosa definição de a melhor idade. Melhor em quê? Experiência e sabedoria? Ora, cada coisa há seu tempo. Se um jovem já dispusesse dessas duas virtudes, não seria um jovem, mas um velho prematuro, não teria vivido a vida com a vitalidade das emoções, permeadas de desenganos, pela imprevidência e toda sorte de aventuras, venturosas ou não.

 Não resta dúvida que a vivacidade, as atribulações, a vontade de empreender, conhecer e viver os prazeres da vida superam de longe a virtude da sabedoria senil, exaltada por velhos saudosistas e invejosos. O Fausto de Goethe, possuidor de insaciável desejo pelo saber, com a chegada da velhice vê diluir-se, que se perde na apatia, passando a sonhar com a volta da juventude, prometendo não mais cometer os mesmos erros do passado. Sem as peripécias e tudo que é inerente ao espírito do jovem, Fausto aspira um desejo inútil. Por lhe faltar, como diria Tolstoi, a embriaguez de viver, própria da juventude.

 Sem contar os males do corpo, a velhice evolui gradativamente para o alheamento, para o entorpecimento dos sentidos e do desejo, tudo que uma verdadeira vida rejeita. Resume-se, na verdade, num corpo sofrido e que lentamente se locomove. O escritor francês André Gide, de uma maneira exageradamente depreciativa, afirmava que o velho é um sepulcro ambulante diante do qual algumas pessoas se afastam e outras se aproximam para ler o epitáfio. Em sentido contrário, de conteúdo poético, alguém afirmou que a velhice é um outono rico de frutos maduros. Tem de um lado a serenidade das belas noites e do outro lado a tristeza sombria dos crepúsculos.

 Enfim, nascer, viver e envelhecer é um processo natural a tudo que é vivo. O que não nos convence é que, se verdadeira a crença que fomos criados por Deus segundo a sua imagem e por ele amado, nos tenha negado a morte digna permitindo que tenha um desfecho horrivelmente trágico em um corpo fantasmagórico e em ruínas, sofrida numa torrente de insuportáveis lamentos.
 

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