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Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 15/12/2009 17:51

Quando cai a ficha

 Esta é uma expressão popular que indica o momento no qual uma pessoa toma consciência de algum fato, de alguma ocorrência, ou de alguma consequência, fruto de uma decisão tomada por si ou por outrem, e que não tinha alcançado ainda à sua parte racional. Em outras palavras, demonstra o surgimento do clique, do estalo por algo ainda não visto em sua real dimensão, nem analisado em seu total significado. A expressão tem origem naquelas radiolas instaladas em bares e restaurantes e que, ao receber a ficha que comanda o funcionamento de suas engrenagens, deixa cair o disco solicitado pelo cliente, passando a executar a música de preferência deste. Hoje, na verdade, é usada muito mais no sentido figurado do que se referindo ao equipamento instalado em casas de diversão. O qual, na maioria das vezes, tão somente entretém o saudosismo de alguém alcoolizado, querendo reviver antigas sensações.

De todo modo, embora mais utilizada em tom de deboche, tem profundidade em sua essência e um significado que vai muito além da simples pronúncia. Muitos crimes, conflitos e problemas das mais diversas cores e matizes teriam sido evitados se, em seus principais responsáveis, tivesse ocorrido o fenômeno do “cair a ficha”. Pedro, por exemplo, negou Jesus por três vezes – logicamente porque sua ficha ficara enganchada em alguma parte de seu equipamento cerebral. Quando, após uns solavancos advindos das circunstâncias, sua estrutura mental funcionou – ou seja, quando a ficha finalmente caiu – chorou amargamente. Interessante se notar que, em se tratando de cair a ficha, uns sujeitos dão mais trabalho do que outros. Hitler, Judas, Stalin, Pinochet, Fidel, Pilatos, Saul, Lampião... não nos deixam mentir. Sem deixar de mencionar os grandes criminosos, os grandes assassinos.

Personagens que, embalados por um ideal, por um sentimento de vingança ou simplesmente por desejos materiais de conquista, causaram enormes prejuízos a si, aos mais próximos e a populações inteiras, impulsionados, com certeza, por falhas de seus mecanismos mentais. Os quais, por lapsos de funcionamento, estabeleceram tardiamente – ou mesmo em hora nenhuma – o momento de fazer “cair a ficha”, de cessar a ação. Nesse sentido, cabe a pergunta: se a ficha de Hitler tivesse caído antes da eclosão da guerra tudo aquilo teria acontecido? Difícil resposta, difícil... Hitler, por sinal, é um personagem singular, pois seu prontuário histórico não assinala, em momento algum, a menor demonstração de sua parte em promover uma solução para o conflito. A não ser a que apontasse para a derrota total dos inimigos – e a tão perseguida, por ele e seguidores, destruição da população judaica.

Em inúmeros momentos da vida vemos pessoas citando essa expressão: “Fulano, caia a ficha!”... Querendo, com isso, mostrar a dificuldade de alguém acordar para a realidade. Ou de pessoas vivendo momentos e situações de desespero em razão da demora em processar a potencialidade do prejuízo que causariam por atitudes impensadas. Por sinal, a esse respeito, Jesus sempre nos alertou: “Vigiai e orai”. Ou por outra: “Fique atento!” Ou ainda: “Preste atenção ao que você está fazendo – e aos outros também!” Em suma, deixar cair a ficha ao longo da vida é muito bom. É sinal de humildade, de sabedoria, de discernimento, de inteligência, de ousadia, de determinação... E também de proteção, de anteparo às conseqüências de gestos tresloucados dos outros e de si mesmo. Como se vê, o assunto é sério e o momento é de azeitar a radiola. Ou a sua está enferrujada? Caia a ficha!!!!!!!!!

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 10/12/2009 15:25

Velhice Descartável e o Tempo, Artista da Deformidade

Ainda cedo, quando tomamos conhecimento que o homem era um animal, desde então ficamos decepcionados com essa classificação. Infelizmente, logo percebemos que as nossas funções são as mesmas dos demais, excetuando-se apenas no grau de inteligência. Mas por que o Criador, perguntava-nos, não nos fez diferentes a excluir-nos dessa igualdade? Sujeito aos efeitos corrosivos do tempo a envelhecê-lo, por que a sua existência não finda à altura de seus atributos de superioridade, sem a horrível deformação do corpo e o atrofiamento das faculdades mentais?

De ontem para hoje, dia após dia diante do espelho, nada percebemos que denote as marcas do tempo. Sua ação, no entanto, lenta e silenciosamente vai aos poucos deixando transparecer, imperceptível, a sua índole destruidora. Somente no atacado, decorridos alguns anos, especialmente quando ingressamos na chamada terceira idade, notamos quão enorme e avassaladora foi a sua ação contra a estética. Não só no aspecto físico, mas também no psicológico. Agora, a passos largos, esvai-se a vitalidade em tudo e, se não desaparece o desejo de viver, há um enfado pela vida, fato que não deixa de ser uma forma velada dela nos despirmos sem lamentações.

Variável é a longevidade e o vigor de cada um. Por mais otimista que sejamos, não podemos chamá-la de melhor idade, quando o melhor já se foi sem esperança de retorno. E torcemos o nariz para certas exibições ridiculamente visíveis, quando algum terceirista pretende mostrar uma virilidade, na verdade capenga ou inexistente, numa tentativa de enganar a si próprio e esconder os malefícios do tempo.

Alega-se, a favor da velhice, a sabedoria inexistente no jovem. E não pode existir porque ação e pensamento transitam por caminhos opostos. O jovem transpira ação e os tropeços dela decorrentes, inevitáveis e necessários, constituem o aprendizado de cada um. Nessa fase, os conselhos são chatos e irritantes, certamente por se acharem na contramão do tempo. A sabedoria, costumeiramente fria e taciturna em seu semblante, sendo um somatório de experiência e conhecimentos não é, apesar da sua respeitável e grande importância, uma virtude virtuosa vez que carrega em seu bojo resquícios bolorentos de inveja da juventude que, com todos seus pecados, é muito mais desejável. Quando passada a fase dos maus exemplos, passa-se a fase dos conselhos. A sabedoria, mesmo ao longe, cheira a cadáver.

A velhice, no homem, deveria ter um limite na sua duração, extinguindo-se automaticamente com a perda da realidade. A sua permanência além desse limite não tem nenhum sentido.

Dependente de todos, inútil para si mesmo e para os outros, ver gastado pelo tempo e em suas mãos entregue para continuar a deformar-lhe e debilitar-lhe a saúde, é uma imagem que emocionalmente nos deixa num misto de compaixão e inconformismo.

Tudo que é jovem na sua normalidade é belo e atraente. O velho, desmemoriado em seu retorno a ser criança-estorvo nada que faça traduz algum encanto. Contrariamente e bem a propósito, há poucos dias atrás, num restaurante, tivemos a oportunidade de ver uma caravana turística da terceira idade a almoçar. Não fazemos essa observação com o intuito de gracejar, já que fazemos parte dessa idade, mas apenas ilustrativo dentro da linha da presente abordagem.

Fizeram-nos lembrar gafanhotos a devorar uma plantação. Era um apetite e tanto! Um deles, boca flácida e desdentada, fazia o movimento da mastigação tão rápido que o lábio superior quase topava no nariz. Outros, estômago cheio, estampavam no mortiço e inexpressivo olhar a tranqüilidade do animal satisfeito. Triste quadro!

Todos nós temos uma jornada a cumprir, muitas encerradas de forma prematura e brutal. Achamos que aqueles que são distinguidos com a longevidade, não importa o número de anos, enquanto conscientes têm todo o direito de viver, mesmo que prostrados numa cama, paralíticos ou desmembrados em cadeiras de rodas. A consciência é o fundamental em nossas vidas e sem ela nada tem sentido num corpo que se move em estado vegetariano. Para quê?! É uma pena que não exista um costume entre nós ou uma lei que permita a execução da eutanásia quando o idoso, em declaração por escrito, manifestou o desejo de a ela submeter-se. As corriqueiras divergências a seu respeito são irracionais e infantis, pois, se a vida é o mais precioso bem, ninguém ou lei alguma pode interpor-se contra o desejo de alguém dela dispor como e quando bem entender. As crendices sociais pseudo humanitárias, os dispositivos legais e dogmas religiosos, a respeito, são os mais estúpidos pesadelos contra a liberdade individual. É o rebanho submisso que tem a faculdade de pensar, mas não pensa, sem o brilho da lógica e do racional, escrava das convenções, que pretende impor sua vontade.

Esse é o nosso ponto de vista, considerando-nos privilegiados se, oportunidade tivermos de chegar ao início da caduquice, sermos imediatamente ceifados desta vida. Pode ser que esse desejo e o pensamento que ora expomos seja considerado para muitos algo brutal e chocante, mas que se compatibiliza e está perfeitamente em harmonia com as nossas convicções.

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Wilson Lucena

Wilson Lucena

Jornalista, pesquisador e membro da Academia Penedense de Letras

Postado em 05/12/2009 13:29

O mercantilismo religioso

Fenômeno em muita evidência nos atuais tempos, o “mercantilismo religioso” ou o “comércio da fé” remonta às célebres indulgências católicas. No catolicismo, as indulgências, condicionadas a penitências e boas obras, são concedidas para perdoar as penas temporais causadas pelo pecado. Como os perdões também se associaram aos donativos piedosos, logo emergiram os abusos e desvirtuamentos. Durante a idade média, documentos forjados declaravam que indulgências de caráter extraordinário foram concedidas, assim como também ocorreu a venda das concessões por profissionais “perdoadores”, que pregavam: Assim que uma moeda tilinta no cofre, uma alma sai do purgatório.

Em 1517, o Papa Leão X ofereceu indulgências para aqueles que dessem esmolas para reconstruir a Basílica de São Pedro em Roma. O agressivo marketing de Johann Tetzel em promover a causa provocou o monge alemão, Martinho Lutero, a escrever suas “95 Teses”, através das quais protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica, bem como de alguns absurdos praticados pelo seu clero, ensejando a Reforma Protestante. Sob a nova ótica evangélica, devidamente embasado na Bíblia desde Abraão, assoma o “dízimo”, que corresponde ao repasse de um décimo da renda do fiel para a “Casa do Senhor”. Em caráter espontâneo, ofertas adicionais também são bem vindas.

Em relação à tributação, a coleta do dízimo é legal e livre de imposto, desde que o seu produto seja direcionado para as despesas de manutenção e custeio da igreja, edificação de novos templos religiosos, subsistência dos pastores, ajuda a um irmão carente ou enfermo, dentre outros. No entanto, desviá-lo para o próprio bolso é crime. Segundo reportagem especial da Revista Veja, O sagrado e o profano, de 19.08.2009, o Poder Judiciário aceitou denúncia do Ministério Público contra o grupo dirigente da “Igreja Universal do Reino de Deus”, por crimes de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, ao qual se atribui a apropriação indébita de bilhões de reais em dízimos coletadas de seus adeptos.

Sedimentado em depoimentos de pastores dissidentes e de várias vítimas, vídeos e constatações in loco, sob a égide da “Teologia da Prosperidade”, o texto ilustra que a organização religiosa do bispo Edir Macedo ensina e prega que o grau de demonstração da fé é diretamente proporcional aos valores das doações, ou seja, quanto mais dinheiro o fiel der à igreja, mais fé demonstra e mais receberá de Deus, tanto no âmbito terreno, como no espiritual. Por isso, além da exigibilidade do dízimo, aliados a campanhas suplementares de arrecadação, pastores profissionais e criativos, inclusive com metas de captação financeira, estimulam, em escala sempre crescente, aportes extras dos fiéis.

Em tudo isso, muito pitoresco também o clima de catarse e de êxtase criado nos cultos. Ao longo da semana, existe toda uma programação bizarra, que contempla a aquisição de produtos de graça celestial, tais como a rosa, sabonete e óleo ungidos, sal grosso, espada e martelo. Contudo, o mais interessante e cômico são as sessões dos exorcismos ou descarregos, o popular “Xô Capeta”. Certamente, só pessoas pouco esclarecidas ou muito angustiadas podem ser induzidas a tamanho “conto de vigário”.

Nesta semana, a Justiça Federal de São Paulo condenou os fundadores da Igreja Renascer em Cristo, aquela do craque Kaká, Estevam e Sônia Hernandes, a quatro anos de reclusão pelo crime de evasão de divisas, pena que será comutada para prestação de serviços a entidades filantrópicas. De igual modo, no tocante a escândalos financeiros, por lavagem de capitais, o Banco do Vaticano é outro contumaz freqüentador de manchetes rumorosas, fama que provém desde a Segunda Guerra Mundial, quando foi acusado de receptar os tesouros roubados dos judeus pelos nazistas.

Em reportagem exclusiva da Folha de São Paulo, edição de 29.11.2009, apenas com os registros da assembléia de fundação e de um estatuto maroto, comprovou-se que bastaram dois dias e R$ 218,42 para uma equipe do jornal fundar uma igreja. Com mais três dias e R$ 200,00, a fictícia “Igreja Heliocêntrica do Sagrado Evangelho” já tinha CNPJ, conta bancária aberta e toda imunidade fiscal. Seus ministros, uma vez escolhidos, também gozam de vários privilégios. Se a “Lei Geral das Religiões”, já aprovada na Câmara, se materializar, novas vantagens serão incorporadas. Com tantas facilidades e concessões, fundar uma igreja virou um bom negócio. Tanto assim, que hoje existe uma explosão de igrejas e de seitas religiosas, principalmente nos bairros periféricos. Como óbvio, mais pregadores impostores e bispos espertalhões no mercado.

O propósito básico da vida é a felicidade. Nesse sentido, como ponte de interação com a espiritualidade e o divino, através do evangelho, o cultivo de uma religião sadia e confiável é fundamental na vida do ser humano. Ela também é altamente benéfica como instrumento agregador da família e disseminador dos valores éticos e morais. Em difundir a verdade e a virtude. No estímulo da solidariedade, compaixão e amor. A própria ciência já admite o aspecto positivo da oração e da meditação, bem como da salutar prática da fé sem intolerância ou radicalismo.

Obviamente, que existem, tanto do lado católico, como do evangélico, eminentes pontífices religiosos, pastores sérios e de elevado grau espiritual, homens sábios e iluminados e legítimos representantes de Deus. Portanto, cuidado para não confundir uma verdadeira igreja com um templo suntuoso religioso de fachada, que abusa da credulidade dos fiéis para subtrair-lhes o suado dinheirinho e o sacrificado patrimônio. Ao invés do tão ansiado paraíso celestial, você corre o risco de embarcar num indesejável inferno terrestre.

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  • manoel sant'anna rodrigues Há grande necessidade de definirmos com altivez e maturidade, sem o peso do egoísmo ou da vaidade, o que queremos para a nossa gente. Penedo como é sabido por todos nós, precisa de um abraço politicamente patriótico, que o leve ao caminho do desenvolvimento. Devemos nos unir, para virar esta página e implantarmos uma frente, que possa dar sustentáculo aos projetos do próprio penedense. A verdade, é dizermos sem medo de errar, que Penedo tem penedenses competentes, capazes de administrá-lo e representá-lo muito bem. Com humildade e determinação, Penedo vai! Levante esta bandeira! "Se os homens tivessem dentro da alma a humildade e a gratidão, viveriam em perfeita paz." (Vicente Espinel) Manoel Sant'anna
Jean Lenzi

Jean Lenzi

Ator, dramaturgo, encenador teatral e ativista cultural

Postado em 30/11/2009 18:05

Palco com tecla de "Replay"

Madame

 “CADA COISA TEM UM INSTANTE EM QUE ELA É. EU QUERO APOSSAR-ME DO É DA COISA”. Clarisse Lispector

Em artigo publicado em 2005 nos jornais ‘Gazeta de Alagoas’ e ‘o Jornal’ o dramaturgo alagoano Lael Correa comentava as dificuldades encontradas pelo artista do palco em manter viva na memória da platéia os grandes feitos de uma arte chamada cênica; como argumento, Lael utilizou-se do seguinte:

“(...) É porque o artista dos palcos já sabe, de antemão, que não poderá materializar ou tornar permanente a sua obra. O pintor terá suas telas, o músico terá suas partituras, o cineasta te rá suas fitas. No entanto, um artista de teatro terá apenas a memória da distinta platéia para guardar e valorar a sua atuação. E mesmo esta memória sofrerá a ação do tempo: lapsos, distorções, hiatos e até o total apagamento (...)”.

Na mesma razão é explicado que a arte cênica é provavelmente a arte mais difícil de avaliar e conceituar por razões que são próprias do palco, daí a ideia da filmagem, fotografia, registros dos mais diversos para o ato que acontece em cena, não podendo este, é óbvio, ser considerado teatro, uma vez que o teatro só acontece em um tempo único, restrito, onde ator e público, cúmplices de uma ação única vivem a mesma realidade; ou melhor - o realismo.

Na cidade do Penedo, em especial, uma considerável fatia do que se dizia a formação maciça da platéia preferiu abraçar emocionalmente um teatro de pouca inteligência, ainda que se possa considerá-lo teatro. A platéia não só a penedense, mais a arapiraquense, - ‘alagoense’ de modo geral, guarda não somente na memória, mais e principalmente nas corriqueiras atitudes os cacos deixados pelo velho e bom besteirol, é uma espécie de teatro bem legal este, onde só os “grandes” e altamente profissionais conseguem desempenhar a difícil missão de montar um circo onde os palhaços (no sentido negativo da palavra) são os próprios expectadores, na ignorância ou na inocência estes, apenas divertem-se, pois a sessão terapia está instaurada.

Depois disto: “cabe ao dono do circo sair catando as migalhas deixadas na platéia, pois será de grande valia para a montagem da tenda em outras terras, mas com tribos semelhantes, e depois, mais outra e novamente outra que sobe e recresce numa volúpia dolorosa, e já dizia Fernando Pessoa: “ é sempre uma coisa atrás a outra, sempre uma coisa tão inútil quanto a outra”

Contra isto, somente muita competência e um senso crítico bastante aguçado para driblar estes por menores. Tomando como exemplo o próprio Lael Correa que carrega em seu currículo 16 prêmios nacionais por direção, atuação, e um criado especialmente para ele em 2001, melhor adaptação, e nenhum é de Alagoas, o que deve ser razão de orgulho. Com 26 espetáculos, o grupo Infinito Enquanto Truque criado em 1989 se orgulha da linha de teatro contemporâneo de excelente qualidade que faz com quê os escritos consagrados de seus autores prediletos ultrapassem os séculos e permaneçam sempre atuais.

Isto aconteceu com Vértice numa narrativa da vida do pintor Michelangelo, com Navegantes do poeta lisboeta Fernando Pessoa, com Ratufuso que teve o prêmio de melhor adaptação criado especialmente para o texto no Festival de Teatro do Paraná e cujos escritos pertencem ao alagoano Graciliano Ramos, com Ciranda Renda Palavra da contemporânea escritora Arriete Vilela, em Genética com a genealogia de Jean Genet, que é também o escritor revisitado da vez com Madame, novo espetáculo do grupo que de passagem por Penedo sob os auspícios da Casa do Penedo, Madame hospedou na noite do último dia 20 no Theatro Sete Setembro onde foi recebida com todas as poupas por um público delicado e sensível fortalecendo a idéia de que em Penedo há também platéia à altura de uma madame.

Comentar o teatro alagoano pode ser coisa muito difícil, são poucos os grupos que tem uma preocupação com a escolha dos textos, com a mídia, com a censura, com a reação da platéia e até mesmo com a crítica; muitos esnobam os iniciantes, mesmo que sejam eles os responsáveis pela qualidade produzida pelos iniciantes e o contraponto disto tudo é exatamente a arrogância, que a meu ver é puramente uma defesa pessimamente maquiada pelos amadores.

Mas o sólio do Penedo insiste em nos fazer possuir uma tecla de replay, haja vista as últimas encenações com seus respectivos espectadores: quando são besteiróis pornográficos a casa é cheia, o ingresso é acima do que eu previa como humilde agente cultural, a pauta do Theatro se é paga não sabemos, o que é razão para outras cerimônias. Seria muito pertinente que os produtores locais, deixassem a preguiça e o espírito mercenário de lado e fossem pesquisar de fato coisas interessantes, teatro de boa qualidade – é um questionamento que eu me faço sempre: como é possível uma criatura que se diz ser artista poder se sentir bem em ganhar dinheiro produzindo lixo, ao invés de encenar pérolas? Falta de talento? Falta de inteligência? Tenho milhões de certezas e a mais feliz é a de que Penedo comporta todos os estilos, há platéia para tudo, neste caso só resta aos produtores passarem de uma vez por todas para a segunda fase do estágio: a profissional; para tanto terão eles que antes desligarem a tecla Replay.

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  • Alunas dele 'sagrado' Aê Professor, essa foto aê,''abafando'' kkkkkkkkk Tá lindão' gostossinho o senhor viuu Beijos
  • Carlos Gomes Vc Geanderson dos Santos, já desligou a tecla replay? Pq pelo que vejo em seus espetáculos é um conjuntos de besteira + porcaria = nada! Talvez se vc fosse mais humilde, seria um pouco melhor como artista! Pq vc até que fala bonito! Mais só falta vc agir como os personagens de suas estórias! Está na hora de vc crescer um pouco! Falar só não adianta! É preciso agir! Abraço cara!
  • MEIO FÃ Se a tecla de replay foi ou não, será ou não desativada só o artur, a mira e aline podem dizer, mais o q o jean fala e faz é muito impotrante para o teatro local, quanto as porcarias ainda não vi ele fazendo nenhuma, a não ser o de dá creditos a quem não merece - como por ex, criticcar os colegas que são bobos demais para separar a amizade e trabalho. Jean vc ta de parabéns;
  • GEANDERSON G. DOS SANTOS quem critica um critico é sempre um ignorante, ele fala coisas próprias da sua area e só, acredito até que fala pouco! ahhh e eu sim me chamo Geanderson G. dos Santos e não faço teatro. valeuuu.
  • Carlos Eduardo Tem plateia pra tudo mesmo menos para seus espetaculos!!!! Que não dão meia duzia de pessoas pingadas, mesmo sendo custo zerooo!!! xerooooo Dom Geanderson dos Santos!!!
Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 27/11/2009 18:56

A caverna de cada um

Todos nós enfrentamos momentos difíceis em nossas vidas. Muitos – a grande maioria, por sinal – tendem a interiorizar seus problemas e vê-los bem maiores do que são na realidade. Tais pessoas costumam transformar suas dificuldades em inimigos tão difíceis de enfrentar e vencer que a saída, na maioria das vezes, é procurar o isolamento como forma de refrigerar o sofrimento e diminuir a intensidade da dor. Na verdade, buscam cavernas interiores onde possam se esconder e deixar a borrasca passar, ao invés de se instrumentalizarem para a luta, cultivando dentro de si as armas necessárias ao enfrentamento dos problemas. É natural esse comportamento, o que não quer dizer que seja o mais recomendável. Todos nós, em alguma circunstância de nossas vidas, habitamos cavernas. Já certas pessoas passam a viver nelas um tempo longo demais, diminuindo, com isso, a sua capacidade de luta.

A caverna pode ser até salutar quando o tempo nela vivido é utilizado para meditação, renovação de forças e cultivo de uma nova esperança. Fora disso é fuga, covardia ou a perda da capacidade de reagir, de lutar, de transformar momentos difíceis em aprendizado, capacitação. Muitos personagens ilustres se utilizaram, ao longo da história, de cavernas como forma de superar realidades indigestas. Freud, por exemplo, carregou em seu interior um longo período de tristeza pela morte de um neto. Foram anos sofridos, vividos, em grande parte, em cavernas, das quais saía, de vez em quando, para prosseguir na luta do dia a dia. São também notórios os casos de escritores, artistas, intelectuais, personalidades ilustres que, de tanto buscarem nas drogas uma caverna segura para suas aflições, vazios existenciais – e até inspiração – terminaram sucumbindo a essa nefasta convivência.

Entre os famosos, Jesus Cristo foi um craque em usar a caverna de maneira produtiva. No Jardim do Getsêmani, momentos antes de ser preso, utilizou-se esplendidamente desse instrumento de reclusão como forma de se fortalecer interiormente para enfrentar – e vencer – as horas difíceis que teria pela frente. Na solidão do ambiente, em permanente contato com Deus, através da oração, Jesus travou dentro de si uma batalha tão dolorosa que chegou a suar sangue. A beleza desse instante está em que seu sofrer não acontecia por nenhum problema criado por ele. E sim pelo preço que teria de pagar pela cédula de dívida que tínhamos com Deus por conta dos nossos pecados. Após a intensa introspecção, Jesus saiu do Getsêmani fortalecido interiormente para enfrentar a prisão, o julgamento e a morte. A caverna serviu, assim, para meditar, renovar suas forças e cultivar uma nova realidade.

Realidade que se concretizou no advento da ressurreição. Pois eram nesses instantes de isolamento, no recolhimento interior utilizado principalmente para o contato com Deus, que Jesus encontrava lenitivo para suas dores e revelação dos fatos que viriam a seguir. Ele, portanto, utilizava-se da caverna na busca das explicações para as dúvidas e incertezas que, por ventura, surgissem em seu caminho, e também na correção dos rumos no seu relacionamento com os homens. Assim, a caverna era um elemento altamente valioso na arrumação interna de suas emoções e no planejamento futuro de sua rotina. Conclui-se, então, ser muito difícil não habitarmos cavernas ao longo de nossas vidas. A questão é saber o uso que estamos fazendo dela. Se ela está nos retemperando para vitórias futuras, ou nos levando ainda mais para o fundo do poço. Aliás, agora mesmo, você está dentro ou fora da caverna?

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