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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 25/02/2010 23:52

Presenciamos um Corrupto a Falar Mal de Ladrões: Explica-se?

Sem esperarmos, fomos ouvintes de tamanho disparate. Imaginem o acanhamento ao ouvi-lo cheio de indignação a espinafrar o desonesto. Frio e desavergonhado, envergonhados ficamos nós, rostos ruborizados, não sabíamos como disfarçar o mal-estar.

Era natural que logo após esse desconfortável incidente, a nossa imaginação começasse a especular para tentar encontrar uma explicação para tamanho cinismo. Após algumas divagações, chegamos a conclusão que o político corrupto imagina que ladrão é apenas aquele que de má-fé se apropria de algo que não lhe pertence. Não o é o que subtrai o dinheiro público.

Dizia Aristóteles que nada inspira menos interesse do que um objeto cuja posse é comum a um grande número de pessoas. Concordamos plenamente com essa opinião. O dinheiro público, pertencendo a todos nós, não passa de um direito difuso. A própria significação de dinheiro do povo, tem um sentido um tanto vago, sem uma realidade concreta por não atender diretamente o interesse de cada um. Como povo não passa de um amontoado de cabeças ocas, sem o espírito do coletivo, o seu dinheiro, sem a devida vigilância, desperta, fazendo exceção à regra do pensamento acima de Aristóteles, o apetite voraz do político corrupto. Como não se trata de um furto, segundo deve imaginar, a sua apropriação não passa de um adiantamento da sua legítima parte, direito restrito ao administrador gatuno.

Queremos acreditar que a opinião acima tem algum fundo de verdade. Se não pensassem assim, como devemos explicar a naturalidade desses ratos que desfilam pelas ruas de cabeças erguidas, como os mais honestos dos homens? Será que muitos políticos, após eleitos, são aliciados por uma seita secreta que os obrigam a fazer uma sessão de nudismo moral, uma conspiração contra a honestidade para se aliarem, induzidos por uma força diabólica, zelosos amigos do vício lucrativo? Haja conjeturas absurdas e obscuras para entendê-los!

Não bastasse a rapinagem, esses personagens da lama nos irritam por pensarem que são os bambas da esperteza e todos nós, pobres coitados, ignoramos todas as suas falcatruas. Carregando dentro de si o complexo de superioridade, não passam, à luz dos fatos que se desenrolam quase todos os dias, de verdadeiros canastrões do crime. São pobres conservadores, sem nenhuma inovação na arte de surrupiar o dinheiro público. Os métodos são os mesmos, qualificando-os, senão de burros, no mínimo negligentes. Para não continuarem a aporrinhar a nossa paciência com a mesmice das cenas exibidas pela televisão, por que não criam a LADROBRÁS, escola de aperfeiçoamento para os ladrões da administração pública? Ela irá ensiná-los, na hora de aplicar o golpe, a domar, através da ioga, a impaciente ganância que cega e faz descuidar-se da defesa. Aconselhará a não armar estratégia de assalto por telefone.

O grampo está muito manjado. A não depositarem em sua conta corrente o dinheiro do crime.

Há a quebra de sigilo bancário. Por que não um colchão de dinheiro? Poderão, carinhosamente, afagá-lo como fazem os avarentos. A não tramarem o golpe nas proximidades de terceiros. Existem os que fazem a leitura labial. A serem ariscos como o soldado espartano que, não recebendo o soldo para garantir-lhe a sobrevivência, era permitido que furtasse, contanto que não fosse pego em flagrante. A serem inteligentes, perspicazes, um autêntico ladrão para não protagonizar cenas cômicas de por dinheiro na cueca e nas meias. Se esse hábito se generalizar, nossa bandeira poderá perder o lema Ordem e Progresso e passará a ter o bolso e a cueca como símbolo da nossa moralidade. Não duvidem.

A pior condição do ser humano é sentir-se sozinho em situação adversa de infelicidade, de sofrimento, de dor de consciência e miséria. Outros devem fazer-lhe companhia para aliviar o fardo. Os nossos corruptos, que parecem achar que ladrão é apenas o que atua fora da área política, não têm drama de consciência vez que muitos colegas estão no mesmo barco, fato que lhes oferece o mais confortável alívio de consciência.

Na linha do pitoresco, supomos que esse componente psicológico seja mais uma razão para explicar o cinismo do corrupto para falar mal do ladrão comum. São tantos a formarem essa confraria de gatunos que chegam a sentir a sensação de inocência e de se acharem capazes de transformar o crime em virtude.

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  • Fabiana Mais uma vez o senhor se superou. Parabéns pela excelente matéria!
  • Antonio Lins O que o senhor quiz dizer mesmo joão pereira?
  • MARCELO E ESSA BANDEIRA COM O LEMA BOLSO E CUECA DEVE ENCHER OS OLHOS DO POVO, VISTO QUE É BOA DE VOTO.
  • Melissa Borges Valeu João Pereira. Pura realidade!!!
  • carlos Certamente isso não foi aqui em Penedo! Não temos políticos desse náipe. Graças a Deus.
  • marcelo Realmente Carlos, aqui em penedo não existe !!!!! KKKKKKKKKKK !!!
Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 19/02/2010 14:17

A Salvação na ótica de Deus

Por mais simples e singelo que o significado do termo “salvação” represente para nós, dificilmente o ser humano comum, e o convertido a Jesus Cristo em particular, alcançarão a real dimensão do que Deus quer para nós ao nos brindar com a sua salvação. Comecemos pelo que a palavra representou para povos antigos. O termo vem do latim “salvare” e “salus”, que significam, respectivamente, “salvação” e “saúde”. Ou seja, um estágio, digamos assim, que contempla o homem com o bem-estar espiritual e o conforto físico. Já no hebraico a raiz da palavra salvação tem uma conotação mais profunda indicando também “segurança”, proposta segura e concreta de salvação. Todos estes significados, entretanto, estão longe de alcançar a dimensão plena que o termo, do ponto de vista de Deus, traduz.

Já no grego o significado de salvação, no original “soteria”, nos abre um pouco mais o leque sobre o que a palavra representa: cura, recuperação, redenção, remédio e resgate. Apesar de todos estes significados, o que significa realmente a salvação de que tanto nos fala a Bíblia? O que representa a salvação no nosso dia-a-dia? Quem será salvo? E a justificação existe de fato ou Jesus foi crucificado em vão? Para os povos do Antigo Testamento – apesar das citações até profundas consignadas em Is. 45.17; Dn. 7.13 e Is. 53 – a salvação estava bastante ligada à discussão sobre “livramento de alguma coisa” e “livramento para alguma coisa”. O homem, nesse sentido, estava salvo para se livrar de algum mal, de si mesmo e do pecado. Para que? Com que objetivo? Os rabinos acreditavam na alma, no pós-vida e nos lugares celestiais.

Para onde certamente seriam encaminhados os que tinham permanecido fiéis aos conceitos da elevação espiritual, do livramento do pecado, fugindo da degradação moral e dos castigos que devem afligir aos que teriam de se submeter ao julgamento divino. Mas a percepção nunca passava disso, nem nunca tomou os aspectos revelados por Deus ao homem através dos escritos do Novo Testamento. Baseados nos textos do Novo Testamento, principalmente no Evangelho Segundo João e nas Epístolas Paulinas, fica estabelecido que aquilo que o Filho é nisso seremos transformados, pois a nossa condição de salvos nos garante a qualidade de autênticos filhos de Deus. Em João, fica bem claro também a respeito da participação do homem na vida necessária e independente de Deus. Vida necessária tendo por base que a vida de Deus é o âmago, a essência, a fonte e o sustentáculo de toda expressão de vida.

Ao passo que as outras vidas são não-necessárias, ou seja, podem existir ou deixar de existir, por ser vida potencialmente perecível. Por outro lado, Deus tem vida independente através da qual depende somente dele mesmo para continuar a viver. Portanto, foi esse tipo de vida que Jesus Cristo recebeu por ocasião da sua encarnação e é essa vida que, através Dele, os remidos, agora passam a exalar, passam a refletir. Nas epístolas do apóstolo Paulo o conceito de salvação se aprofunda mais ainda – e por revelação divina, ou seja, autenticada pelo próprio conhecimento vindo de Deus. Agora, a salvação envolve nossa transformação segundo a imagem moral de Cristo, da qual compartilharemos a sua natureza essencial. Toda essa operação se processa pela presença do Espírito de Deus em nós, que nos amolda segundo a natureza moral de Cristo.

É essa participação na divindade, aberta a todos os homens que Nele crêem, que tanta diferença faz do conceito cultivado pelo povo do Velho Testamento. Mas e o meio pelo qual alcançaremos tamanha graça? Todo o conceito está expresso através do arrependimento, da fé, da conversão, do perdão, que nos declara detentores da glorificação e cidadãos do novo mundo. Pela plenitude de Deus, da qual passamos a fazer parte, concluímos que o processo de salvação é eterno e infinito. Assim, a salvação, em última análise, consiste em trazer o infinito ao que é finito, em trazer o que é divino ao que é humano. Diante de dimensão de tal grandiosidade, passamos a entender que nesse processo não pode haver fim e que toda eternidade, através do que Jesus nos assegura, está à nossa disposição, juntamente com uma vida aqui na terra plena das qualidades de Deus em nós. Já pensou? Aleluia!

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  • Daniel Muito boa a explicação ,que Deus abençoe
João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 11/02/2010 01:59

A Vergonha do Caipira Galã

Que gosto não se discute, todos sabemos. No que tange aos nossos predicados da boa aparência e beleza pessoal, somos os mais parciais dos julgadores. Chegamos ao ponto, muitas vezes, de não perceber em nós uma grande fealdade, mesmo que todos a reconheçam como uma unanimidade.

Vadinho, como era popularmente conhecido, era uma dessas pessoas que chamam a atenção por alguma originalidade. Baixo e um tanto atarracado, encontrava-se com sessenta e oito anos de idade. Moreno claro, rosto largo, cabelos lisos e ralos, nariz ligeiramente achatado, olhar vivo, boca grande marcada pela flacidez do lábio inferior, podia não causa espanto, mas também nada tinha a ver com a beleza. Acontece que a vida costuma oferecer compensações. Era sociável, comunicativo e espirituoso.

Era filho único de um pequeno proprietário, tendo feito na cidade, na década de sessenta, o primário. Na pequena propriedade, como único herdeiro, residia com a mulher e uma amásia em casas contíguas. Os filhos, casados, residiam fora do estado. Não tinha empregados e sozinho cuidava de um pequeno rebanho e alguma cultura de subsistência.

O que não deixava de chamar a atenção de todos, era o fato de Vadinho conviver com a mulher Mariquita, com a mesma idade, não bem conservada, o que lhe dava um aspecto de bem mais velha, agravado pelo descuido da aparência, e a amásia Prazeres, morena, cabelos lisos, bem torneada, rosto engraçado, seus seios ligeiramente flácidos, era apetitosa e com ela pernoitava.

A relaxidão de Mariquita e sua frigidez sexual que ficou mais acentuada com a idade, obrigou-o, sem protesto da mesma, a cair nos braços da amásia. É um comportamento freqüente nas mulheres do campo que, outrora arrumadinhas para atrair o futuro pretendente, tornam-se com o tempo alheias a boa aparência, passando para a condição de repelentes de marido. Não tinha o menor sentido à fidelidade conjugal. Sexo, além de ser vida, é o mais agradável dos prazeres, necessário à estabilidade do casamento. Conviviam muito bem, na mais perfeita harmonia. Essa inusitada circunstância fê-lo chegar à conclusão, confessava aos amigos, que o homem deveria ter duas mulheres, uma para constituir família e outra exclusiva para os prazeres do sexo, proibida de parir para melhor conservar a forma.

Ao contrário de Mariquita, Vadinho preocupava-se com o seu visual. O barbear-se diariamente, como fazia, para quem mora na zona rural, não deixava de ser um comportamento incomum. Queria, a todo custo, apagar a velhice da cara. Brincava de se esconder com o tempo, achando que assim dava-lhe corda para afastá-lo do inevitável desfecho da vida.

Quando ia à cidade, invariavelmente nos dias da feira, comportava-se como um janota. Logo cedo, após um banho no São Francisco, vestia a melhor calça, camisa de cores berrantes, gosto que perdurava desde a juventude, borrifava o rosto e o corpo com um perfume barato, concluindo o seu ataviamento com os óculos escuros na cara. Eis que a velhice, num passe de mágica, transfigura-se em um corpo com toda vitalidade. Notava-se claramente, nesses momentos, a personificação da vaidade em seu grau máximo de satisfação, um verdadeiro astro do cinema.

Pronto achava-se para a conquista feminina, caso aparecesse. Embora já não estivesse a dar conta do recado com Prazeres, julgava-se um reprodutor à maneira de um paxá africano.

A feira, para muitos matutos, é um dia de festa. Nessa ocasião, uma das duas, a mulher ou a amásia, acompanhava o Vadinho em revezamento semanal. Após chegarem à cidade em um carro velho, acertavam sobre o local e hora do retorno. Caso ele não chegasse na hora combinada, que ela voltasse no transporte coletivo. Ela ia às compras e ele, para exibir-se e dar vazão a seu temperamento extrovertido, procurava os amigos para inteirar-se das novidades.

Para tornar a conversa mais agradável, procuravam um boteco nas imediações do meretrício.

Pinga e cerveja, um copo atrás do outro, a conversa tornava-se cada vez mais animada. O assunto predominante, aparentemente inadequado para a idade, era mulher. Hábito de comportamento de quem quer dar a aparência de viril, quando a virilidade, a passos largos, começa a abandona.

Era comum, dada a proximidade dos bregas, que as quengas aparecessem na esperança de garfarem clientes e dar início aos trabalhos pela sobrevivência. Naquele dia, algumas já tinham aparecido, mas sem despertar o gosto do Vadinho.

A boa notícia para os freqüentadores de cabaré é o aparecimento de uma nova puta. Por sorte ou azar de Vadinho, naquele oportunidade apareceu uma apetitosa carne fresca. Beirava os vinte anos. Pele clara, cabelos lisos, quase esguia, corpo de violão, pernas e coxas bem torneadas, sem manchas, um rosto agradável, seios ainda firmes, era um deleite visual e a promessa do mais excitante combate sexual. Não seria ela demais, correndo o risco de ser rejeitado? O álcool, nessas ocasiões, aliado ao seu temperamento alegre, fez milagre. Esquece a possibilidade de ser rejeitado. Não era ela uma profissional a sobreviver da exploração do próprio corpo? Dirige-se a mesma e a convida a sentar-se à sua mesa. Após as apresentações de praxe, oferece-lhe um copo de cerveja. Comida apetitosa ao seu alcance, tornou-se imediatista para degustá-la mais rápido possível. Impaciente, pergunta-lhe onde está hospedada. Bebe um pouco mais.

Seu nome era Sirlene. Vadinho, a essa altura com a cabeça altamente alcoolizada, quer ver logo o desfecho daquele doce encantamento. Levantam-se e rumam para o quarto da Sirlene. Era de uma pobreza franciscana, resumindo-se numa cama e um guarda-roupa. O banheiro, no corredor, era comunitário a exalar um péssimo odor. Isso não tinha nenhuma importância perto da sua impaciente expectativa de desnudar aquele lindo corpo, abraça-la, beija-la da cabeça aos pés e chegar ao ápice do seu desejo. Tudo isso aconteceu nos mínimos detalhes. Sexo, afinal, é uma arte que requer criatividade e imaginação para torná-lo mais excitante e poder atingir o verdadeiro êxtase do prazer. Mas o que estava acontecendo com o Vadinho naquele dia?

Malabarismo corporal nas mais diversas posições eróticas foram feitas, sem conseguir despertar por completo do profundo sono o guerreiro peniano de grandes façanhas de outrora.

Sua parceira, a essa altura, não escondia a sua impaciência, a ponto de explodir. Ora, estava ali para fazer sexo e não ginástica. Vadinho percebeu e isso afundou mais ainda o seu desejo de usufruir as mil e uma noites que previra. Nada mais tinha a fazer. Desistiu. Olhou com raiva, quase ódio, para o flácido pênis. Com ímpeto irracional, como se ele fosse autônomo, teve vontade de dar-lhe uns tapas. Seu rosto, suado, respiração ofegante, estampava um ser dilacerado pela incredulidade, tristeza, frustração e vergonha. Como pode uma expectativa que acenava tão generosa, capaz de fazer-lhe desfalecer de prazer, transformar-se num sofrido e vergonhoso fiasco!!

Desculpa-se. Veste-se e despede-se de Sirlene que recebeu a mais amarga remuneração de sua vida. Vadinho, enquanto dirigia rumo à sua casa, convenceu-se de que a sua condição de guerreiro das proezas sexuais encontrava-se no passado. E numa honesta autocrítica, chegou a conclusão que o disfarce para exibir-se mais jovem não passava de uma infantilidade. Não há mal que não traga um bem. Adeus encenações de proezas machistas! Triste e desgraçado, sem dúvida, é aquele que não tem o espírito da sua idade.

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  • Antonio Lins O que foi que você quiz falar mesmo João Pereira?
Cristina Sanchez

Cristina Sanchez

Dedicada pesquisadora da História do Penedo

Postado em 02/02/2010 18:21

O Porquê da Lavagem do Rosário

A Capela de Santa Ifigênia

Inicialmente, no século XVII, local onde hoje se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, os negros (escravos e libertos) construíram uma capela em adoração a Santa Ifigênia (a primeira santa africana). Era Ifigênia de origem nobre, filha do rei da Etiópia. Atualmente, a imagem encontra-se ao lado direito do altar-mor e traz em suas m]aos uma casa, simbolizando o Mosteiro que a mesma fundou e o salvou das chamas, invocando o nome de Jesus. A heróica santa tornou-se símbolo de proteção a todos contra incêndio, tornando-se também defensora dos que buscam a salvação do lar e lutam para ter uma casa própria.

Segundo Silva Caraotá, em sua Crônica do Penedo, datada de 20.12.1871, fala da existência de um “livro de entradas das antigas” onde se acham assentamentos dos irmãos do Rosário dos Pretos, datados de 1634.

Analisando no acervo de mapas do tempo dos holandeses no Penedo, constatamos a existência de uma “habitação” no local da referida capela, indicando consequentemente a existência e o provável funcionamento da mesma. O mapa data de 1637, ano em que Maurício de Nassau edificou na Vila do Penedo do Rio São Francisco, para a defesa de seus domínios, o famoso Forte Mauritis.

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

A devoção de nossa Senhora do Rosário se propagou pelo mundo, sendo levada também ao Congo (África), e introduzida no Brasil desde o início do século XVI por missionários portugueses.

A Irmandade dos Homens Pretos funcionava como uma espécie de Associação com a finalidade de abrigar as tradições afro-religiosas, objetivando aliviar o sofrimento aplicado pelos brancos, num intento de auxiliar a integração da população negra à religiosidade da sociedade branca. Os irmãos (escravos e libertos) procuravam adaptar da melhor forma possível nos seus rituais aos do catolicismo, conservando em suas procissões símbolos religiosos representados por figuras ornamentadas, bonecos e alguns animais (boi,jacaré, burrinha, elefante, etc...). Incluíam também o cortejo cerimonial africano da coroação do rei e rainha, cordões de dama de honra, seguidos por músicos, batuques e danças.

Não se sabe ao certo quando foi criada a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Penedo. Sabe-se, apenas, que em 1634 ela já existia. Portanto, é uma tradição da cidade que conta com mais de 370 anos e que, com toda a certeza, foi um dos mais fortes elos propulsores da cultura afro-penedense.

Origem do Rosário

“A devoção a Nossa Senhora do Rosário tem sua origem entre os religiosos dominicanos por volta de 1200. São Domingo de Gusmão, inspirado pela Virgem Maria, deu ao rosário sua forma atual. Nossa Senhora do Rosário foi a mais popular das invocações de Maria entre brancos e negros da colônia brasileira. Foi escolhida como orago de muitas confrarias e irmandades criadas para promover a alforria dos irmãos escravos e garantir sua sepultura em solo sagrado. As festas em sua honra inclkuíam expressões culturais como o reisado e o congo, além de outras evocações da África.”

Sabe-se, aqui no Penedo, que os escravos recolhiam no mato certas “contas” acinzentadas denominadas “Lágrimas de Nossa Senhora”, com as quais confeccionavam terços e rosários para suas orações, onde, com maior devoção, encontravam o desejado consolo nos braços misericordiosos da Mãe Branca do Rosário.

Se compararmos a junção da disposição das ruas “Rosário Largo” e Rosário Estreito”, veremos que a Igreja faz uma conexão com ambas as ruas, apresentando assim a forma de um imenso rosário, exatamente no ponto onde se encontra a medalhinha no terço. Podemos ainda levar em consideração, que a característica “Cruz” que compõe o início do rosário cristão poderia se estender à milagrosa Igreja de São Gonçalo do Amarante, local esse onde hoje funciona o Colégio Imaculada conceição..

No decorrer do tempo, a Câmara de Vereadores foi aprovando projetos que renomeavam os bairros tradicionais e a maioria das ruas e praças que constituem todo o com junto arquitetônico do Sítio Histórico de Penedo e que atualmente faz parte do nosso Patrimônio Nacional. Para os mais jovens e os que desconhecem a legendária e valorosa saga das tradições penedenses, o Rosário Largo hoje é a Praça Marechal Deodoro e o Rosário Estreito tem por denominação Rua Barão do Rio Branco.

O Sincretismo Religioso

A lavagem nas igrejas é uma tradição de origem portuguesa, absorvida pelo sincretismo africano em sua feição. Ou seja: veio de Portugal nos tempos do Brasil Império, da tradição católica onde o povo fazia penitências e promessas aos santos de maior adoração, de varrer, lavar, enfeitas e zelar das igrejas. Da África, os escravos trouxeram para o Brasil a cerimônia das “Águas de Oxalá” que consiste em uma procissão representando a viagem de Oxalá, que foi acometido por injustiças durante todo o percurso de sua jornada ao Reino de seu filho. O ritual afro simboliza uma homenagem a esse orixá (divindade), com rezas, cantos e oferendas. Em localidade escolhida, e com muita água de cheiro, vão lavando e varrendo todo o ódio, inveja, fome, doenças e injustiças, pedindo misericórdia e perdão pelos atos cometidos. Para os africanos, Oxalá é o maior e mais respeitado dos orixás. No Brasil, a padroeira das Irmandades dos Pretos (escravos e libertos), é Nossa Senhora do rosário, que também é a padroeira da cidade do Penedo, que a venera em fervorosa fé e devoção. No interior da igreja, encontram-se santos brancos e negros. Ali se fazia penitência e procurava-se adaptar a cultura negra à religiosidade branca. Nessa época não havia cemitérios e somente os brancos eram sepultados na igrejas. Em decorrência, A Igreja do rosário construída pela Irmandade dos Homens Pretos, tornou-se o solo sagrado do africano no Penedo.

A lavagem do adro (terreno em frente à igreja) tem todo um fundamento nas raízes afro penedenses. A primeira lavagem da atualidade foi no ano de 2005, realizada pelo Babalaorixá Fernando Oiá Belegum que iniciou a retomada das antigas homenagens à misericordiosa Mãe Branca do Rosário. Pai Fernando, como é mais conhecido, muito tem se esforçado para o resgate das tradições afro penedenses, seguindo à risca os antigos cerimoniais africanos. Tem realizado a belíssima cerimônia das Águas de Oxalá, depois o ritual de fundamento da lavagem e, por fim, efetuado o antigo cortejo (que deve sair de uma igreja para outra), com a participação constante das “baianas” de sua casa de orações Ilê Axé Assesssu Omim e Odé Aqueran. O suntuoso cortejo sai da Igreja do Senhor Bom Jesus dos Pobres até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, entoando louvores em dialeto africano, às sextas feiras que antecedem ao carnaval. O desfile tem ocorrido à noite, para que a população em geral possa participar. O ritual da lavagem propriamente dito é concretizado bem antes, nas primeiras horas do nascer do sol.

O Folclore, a Cultura e a Religiosidade Afro Penedense

Nas tradições remotas do período da escravidão, não podemos esquecer as Taiêras, um cortejo dançante formado por africanas. Usavam torço branco de cassa, colares de coloridas contas, sendo a maioria deles de ouro,pulseiras, saias rodadas, chinelinho de salto, etc. Apresentavam-se com vestimentas, conhecidas na atualidade ao que todos chamam pelo nome de “baianas”. No estado de alagoas, segundo Abelardo Duarte, as Taiêras do Penedo eram em maior escala.

Existiu um Quilombo nos arrabaldes do Oiteiro (hoje Bairro Senhor do Bonfim), que pouco se sabe de sua história, salvo o Maracatu que até a algum tempo atrás era ainda uma testemunha viva proveniente dos resquícios do famigerado Quilombo.Tanto as Taiêras como o Maracatu do Oiteiro eram cortejos dedicados ao acompanhamento das procissões de Nossa Senhora do Rosário, como era de costume nessa época em alagoas. Iam prestar suas reverências e devoção à Santa, venerando-a em saudação diante da fachada da Igreja da Senhora do Rosário dos Pretos, e, em seguida, saíam em visita às casas de seus benfeitores. Esses cortejos também apareciam durante as festas do Natal, descendo festivo até o Comércio, tradicional centro das festividades penedense. Chegavam também: O Reisado, a Chegança do Penedo (de renomada fama em todo o estado de Alagoas e em Sergipe), o Bumba-Meu-Boi ao som da banda de pífanos, Guerreiro, Pastoril, Toré (do Oiteiro), a Batucada e tantos outros.

O africano no Penedo muito contribuiu para o desenvolvimento sócio econômico e cultural da cidade, tanto na parte material, quanto na religiosa. A cidade do Penedo reuniu no passado um dos mais populosos centros de negros, na região alagoana.

A mão escrava na construção de igreja e casario, na música, nas artes e na agricultura. O memorável legado cultural e intelectual da “elite negra” ( Os Malês), na época em que o conhecimento e o saber eram restritos aos mosteiros e conventos e ao privilégio de poucos brancos de renomada posse. Esses negros maometanos se destacavam na comunidade penedense em escrever com requinte o Árabe Clássico, conhecendo Astronomia, Direito, Aritmética e Teologia. Até o fim do cativeiro, ainda realizavam a misteriosa e estranha cerimônia da “Festa dos Mortos”, que permitia aos negros comunicar-se com os seus mortos e venerá-los.

A Boneca Negra (Bebiana) das festividades afro religiosas é uma homenagem ao elemento Malê do Penedo, representando a figura de Bebiana Maria da Conceição Costa, natural da Costa D’África, que morou e faleceu em Penedo no dia 02.05.1886. Nasceu e viveu na religião de Maomé (Negra Malê), embora também pertencesse às Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e a de São Benedito.

A cidade do Penedo tem por devoção maior à sua Padroeira, Nossa Senhora do Rosário, que sempre abrigou com seu manto de ternura a todos os filhos (sem distinção de raça ou credo) que em desespero chamavam em seu socorro.

A Lavagem da escadaria do adro da Igreja do Rosário Largo foi a forma que o Governo Municipal, na administração do ex-prefeito Marcius Beltrão Siqueira encontrou, diante de tamanha riqueza cultura, de resgatar as raízes do legado afro penedense, tendo por objetivo retirar e amparar suas tradições históricas do esquecimento.

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  • Amante da história do Penedo Parabéns Cristina Sanches, pelo seu artigo falando SOBRE O PORQUÊ DA LAVAGEM DO ROSÁRIO. Artigo como esse é sempre bom e enriquece os conhecimentos de quem ler. Que publique sempre algo desse gênero. Mais uma vez meus parabéns.
  • Pedro Soares Quem sabe, Sabe! Parabens Cristina. Na sexta quero contar com sua presença no bloco dos comerciários, la, na lavagem do Rosários. Pedrinho.
  • C. Excelente artigo, parabéns. Porém, tenho um apontamento, você diz: "A primeira lavagem da atualidade foi no ano de 2005" Mas, ao que eu sei a "Lavagem do Rosário" ou "Lavagem do beco", como é conhecida, acontece já há muito tempo e não "voltou" a acontecer apenas em 2005.
  • EMERSON FEITOSA E o nosso amigo Sérgio Paulo com a lavagem do Beco? As tradições são inventadas como diria Eric Hobsbawm!!!
  • Ednaldo Fernandes Fico feliz como penedense ao ler neste jornal virtual, esta pesquisa rica em detalhes sobre a vida dos negros que ajudaram não só na construção deta cidade, como também fizeram história, tenho muitos amigos negros em Penedo e me orgulho disto, minha avó materna era de Piaçabuçu, e era negra, um exemplo de vida para toda à família. Parabens a Cristina Sanches por nos ter dado esta bela lição, com um trabalho de pesquisa minucioso e muito importante para sabermos mais sobre nossas origens, embora algumas pessoas ainda se achem brancas, e quando perguntamos a sua cor negam, se dizendo "morenas", pura invenção do brasileiro. Quiça, outras pessoas façam a mesma coisa, pois Penedo tem muita história ainda para ser contada.
  • Julieta Calumby Pereira VOCÊ, SEMELHANTE AO CARANGUEJO, COM O GOSTO ESPECIAL DE ANDAR PARA TRAS, CAMINHAR INDISPENSÁVEL PARA QUEM QUER CONHECER O PRESENTE, PRESTA UM BOM SERVIÇO AO NOS INFORMAR SOBRE FATOS ISTÓRICOS DA NOSSA CIDADE. CONTINUE A PESQUISAR PARA NOS ESCLARECER CADA VEZ MAIS SOBRE PENEDO. DESCONHECIA QUE LAVAGEM DE IGREJA FOSSE UMA TRADIÇÃO DE ORIGEM PORTUGUESA. ACHAVA QUE FOSSE DE ORIGEM AFRICANA. TAMBÉM IGNORAVA A EXISTENCIA DOS MALÊS EM PENEDO, NEGROS ISLAMISADOS DO NOROESTE DA ÁFRICA. PARABÉNS, CRISTINA CARANGUEJO.
  • Soraya Casado Muito bem Cristina! Orgulho-me em ler matéria sobre "minha" Penedo. Desenvolvi, confesso que sem grandes custas, gosto pela cidade por ser filha de Filha de Penedo! Não tem como não se apaixonar por cada pedaço desse lugar e seus moradores. Que tantos outros (re)descubram Penedo e suas histórias. Sueli, Ronaldo, Rosilda e Marcos (todos Leite) mandam-lhe abraços.
  • ednaldo fernandes Gostaria que se possível, já que estamos próximos do carnaval, fazendo justiça, publicassem um artigo sobre o FAMOSO ' BLOCO DO VA", que tanto contribuiu para engrandecer os carnavais de Penedo. Abraços
Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 22/01/2010 01:15

Não Chores!

Em todo final de ano o mesmo cenário se repete. Na sua casa ou escritório chove um montão de mensagens de fim de ano. São impressos luxuosos, cartões os mais bonitos (alguns nem tanto), outros bastante modernos, criativos, alguns de cunho mais conservador... Já, pelo computador, textos bem escritos (e mau também), acompanhados de melosas trilhas sonoras, entopem sua rotina com os conteúdos os mais diversificados. Nesse contexto, o objetivo se faz comum a todos: desejar ao endereçado da mensagem votos de saúde, paz, prosperidade, sonhos realizados, bonanças enfim. Por outro lado, em ações e gestos mais aprofundados – dependendo dos interesses em jogo – presentes também são enviados. Com a mensagem, enfeixam os desejos do remetente de que o outro seja cumulado de bênçãos, paz, prosperidade, etc., etc... Nada contra essas manifestações. Muito pelo contrário.

Elas tornam, pelo menos nesse período, o mundo menos áspero e mais gentil. Mas nada resolvem. Pois, apesar de tantos cartões, mensagens pelo computador, presentes, firulas e salamaleques o mundo chora. As pessoas choram, embora, na maioria das vezes, as lágrimas não sejam visíveis. E porque choram? Tristezas, agressões, traições, incompreensões, violência, mágoas acumuladas... Um mundo, enfim, de gestos e ações responsáveis por um estado geral de infelicidade que, no período natalino, se tenta mascarar com mensagens, festinhas e presentes. A realidade, no entanto, é que o ser humano ainda não aprendeu a administrar suas vicissitudes interiores, mesmo tendo dominado o átomo e se tornado o senhor da mais avançada tecnologia. E agride, e é agredido, e se parte por dentro, abrindo a guarda para o cultivo de sentimentos negativos e estados mentais depressivos.

Observando todas essas coisas, descobri que apenas uma pessoa, entre bilhões e bilhões de seres vivos sobre a face da terra, tem o condão de mudar, de modificar esse cenário. Seu nome? Jesus Cristo. Cartões natalinos não resolvem, festas de confraternização também não, políticas governamentais idem – como também telefonemas e tapinhas nas costas. Ainda hoje as pessoas se sentem como Jó (Jó.16.16) remoendo a sua circunstância: “O meu rosto está todo avermelhado de chorar, e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte...” Porque isso acontece? É lamentável se constatar, mas o ser humano – tanto o daquele tempo como o de hoje – ainda não aprendeu a administrar suas crises interiores. E a grande maioria (sempre existem exceções) não descortinou ainda o caminho do aprendizado. Daí, como cego às apalpadelas, buscam soluções onde apenas ilusões e quimeras se dizem presentes.

Pois da mesma forma que se aprende sobre um montão de coisas nessa vida, é necessário também sermos ensinados sobre a administração das nossas engrenagens interiores. E nesse campo (volto a repetir) aprendi que só há um Mestre, só um Senhor: Jesus Cristo.

Religiosidade, beatice, fanatismo? De jeito nenhum. Pura comprovação. Afinal, só ele teve e tem autoridade para afirmar (João 16.20) “Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria”. Seria Ele um mentiroso, um doido varrido para prometer a transformação (através Dele) da tristeza em alegria se tal fato, efetivamente, não ocorresse? Reflitamos! Custa refletir? Pelo menos em mim, tais palavras deram origem a uma nova realidade de vida. Concreta. Cristalina. E isso não tem nada a ver com religião.

Tem a ver com Jesus e o seu inenarrável poder de transformar choro em alegria. Como também está escrito (a respeito desse poder) em Ap. 21.4: “Ele enxugará de seus olhos toda lágrima”. Como também fica demonstrado na vida da viúva de Naim, cujo filho único ela havia perdido (Lucas 7.13): “E, vendo-a, o Senhor moveu-se de íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores”. Ah, que riqueza espiritual incalculável você ter diante de si alguém com autoridade – e amor – para aplacar sua dor, enxugar de seu rosto toda lágrima – e criar no seu íntimo uma nova esperança! E somente Jesus para prometer – e cumprir – tais promessas. Aliás, o mesmo Jesus que fala também (Mateus 11.28): “Vinde a mim todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”. E as mensagens natalinas? Palavras, palavras, nada mais que palavras. Eu estou com o Consolador, o Mestre, a Solução, o Caminho, a Verdade, a Vida...
 

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