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Maria Núbia de Oliveira

Maria Núbia de Oliveira

Escritora e poeta, integrante da Academia Penedense de Letras

Postado em 15/09/2010 13:50

Telinha

Depois de um dia exaustivo, sento-me em frente à TV. O mundo inteiro surge na telinha. Países de todos os Continentes vão revelando sua história, crises, vitórias e luta pelo poder.

Surge o Brasil... Um misto de decepção e esperança se apodera de mim. Homens de terno e gravata, tentam explicar o inexplicável e justificar suas caminhadas, seus feitos e desfeitos. Ocultam o essencial e enaltecem o mínimo que foi feito. Rios de dinheiro escondido nas malas, nas meias, nas cuecas e sabe-se lá aonde mais. E continua o desfile: Miss Brasil, luxuosos edifícios, miseráveis moradias. Quando chove, lá em cima o pára-raios absorve o perigo e lá embaixo o pessoal desaparece e o barraco vai embora com as águas... É o contraste social.

Chega um engravatado na telinha e parabeniza o povo brasileiro pelo aumento do salário mínimo... Continuo o meu "passeio " pelos canais. Vem a ficção das novelas: gente querendo subir, encontrar um cantinho para "se socar" e beber da fonte dos ricos. Outro começa a filosofar quando diz que " é um viajante do deserto que encontra a água pura e límpida, mas que não pode bebê-la, pois é fruto proibido..." Fruto proibido é o acesso a uma vida digna, com moradia, trabalho e lazer. Águas límpidas que ainda não saciaram a sede dos que estão em busca de uma vida melhor, igual para todos, pois todos somos herdeiros e filhos do mesmo DEUS!

Começa a propaganda política. Não pisco, olhando cada rosto, ouvindo cada promessa. Tem candidato que fica lendo o que está à sua frente para não esquecer nada, temeroso de desencantar o eleitor. Candidato de fala mansa e olhar profundo, só falta atravessar a tela da TV. Candidato de fala apressada, quase se engasgando para dizer tudo de uma vez, preocupado com o limite do seu tempo.

Tem candidato que chora, relebrando sua história de pobreza e de sacrifício. E o que dizer daquele candidato que vira anjo da guarda? Preocupado com os pobrezinhos, com as criancinhas, com os velhinhos, enfim com todos! É proteção pra dar e vender! A venda do " peixe" prossegue. Cada um que grite mais alto, mostrando seus feitos, passando a rasteira no outro que está em destaque. É a lei selvagem da campanha política eleitoral. Candidato comendo pastel duro e frio nas ruas, tomando café em copo descartável, queimando os dedos em prol de votos... Tudo vale a pena! Pra eles é claro!

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  • Francisco Lee Núbia, é impressionante como você usa o cômico e a crítica. Os seus textos levam o leitor a lê-lo até o fim. Adoro ler o que você escreve. Parabéns! Estou colecionando seus escritos. Com todo respeito, seu rosto é lindo! Lee
  • Maria Núbia de Oliveira Muito obrigada, Roberto!
  • Roberto Impressionante Núbia, inovador seu modo de fazer crítica sem deixar de lado a sabedoria do leitor, parabéns,muito admirada.
  • Neuza Oliveira. Parabéns mana querida...essa critica poderia está em um lugar alto e com letras bem grandes pra todos brasileiros podessem ler e até mesmo o politico.
  • Marcelino Cantalice Companheira Núbia Oliveira: Estava sentido falta dos seus artigos e comentários... Ainda bem que são muitos os que lamentam o tempo perdido com as baboseiras que os \\\"políticos\\\" de carteirinha andam distribuindo pelo Brasil a fora, em troca de uns votos imerecidos. Infelizmente o comportamento ético e social de centenas de \\\"elegíveis\\\" nos tira o estímulo em votar. Nesses que estão aí? Como a falsidade e a mentira andam soltas pela Pátria. Haverá, ainda, alguma esperança? Quem sabe... É bom que soem vozes de protesto. Você,como musicista, faz parte deste Coral. Abraços. Do consócio: Marcelino.
Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 12/09/2010 07:27

A Praga das Coligações

Dentro do balaio de gato em que se transformou o sistema eleitoral brasileiro, um item tem se sobressaído. Muito mais pelo seu lado turvo, enevoado, brumoso, negociateiro, falcatruoso, do que no sentido de agregar, num mesmo bloco, partidos políticos com visões ideológicas semelhantes. Este item a que me refiro é a tal da coligação partidária. Saco para onde escorrega todo tipo de acerto nebuloso, de argumentação cabreira, de ajuntamento de sabidos e sabichões, a coligação partidária é o cadafalso da verdadeira prática política no Brasil e cemitério de toda nova liderança que tenta emergir do cipoal de siglas em que se constituiu o emboloado sistema partidário brasileiro. Muito se tem reclamado do avantajado número de partidos existentes no Brasil. Tais reclamações partindo, inclusive, dos grandes nomes, das grandes lideranças que comandam o processo político nacional.

Em sendo assim, porque essa realidade se mantém? Porque uma tesoura bem afiada ainda não expurgou tais entidades da tessitura partidária brasileira? Ou, por outra, que padrinho tão forte é este que continua a manter os partidos chamados nanicos em atividade quando é voz corrente que todos desejam jogá-los no cesto dos elementos inservíveis? A conclusão a que se chega é que a ninguém, rigorosamente a nenhuma das atuais lideranças nacionais, consideradas fortes, interessa a ausência das pequenas siglas do tabuleiro político brasileiro. Com base nessa constatação, podemos aqui até alinhar um fato irrespondível. Esse amontoado de partidos ainda sobrevive em função do instituto da coligação partidária. Pois somente aí, nesse quesito, é que eles se tornam interessantes e bem-vindos às grandes organizações eleitorais, para montagem dos planos e metas de alcance e manutenção do poder.

Pois se a coligação partidária não tivesse lugar no bojo da legislação que estabelece o formato eleitoral brasileiro, de que viveriam e para que serviriam os partidos nanicos? Pela lógica já teriam desaparecido do horizonte político. Na verdade, o instituto da coligação partidária transformou-se na única razão de existir de tais monstrengos partidários. Fato é que, antes de qualquer eleição, ninguém sabe da existência de muitos dos partidos registrados na justiça eleitoral. Entretanto, quando se aproximam os períodos eleitorais, eles começam a se movimentar, a demonstrar vigor partidário, democrático e patriótico (entre aspas, é claro!), tentando, com isso, se inserir – através de gordas vantagens – no elenco de partidos com estruturas mais consistentes e com chances reais de alcance do poder. Aí as ofertas de cargos, vantagens e dinheiro enchem o noticiário e envergonham a opinião pública.

Fala-se muito no Brasil em reforma política. Entretanto, vão-se os anos e a mesma realidade permanece, permitindo a constituição das alianças mais ilógicas, mais perniciosas, mais descabidas por ocasião dos períodos eleitorais. Tudo em função da coligação partidária. Eu mesmo já tentei por duas vezes me candidatar em Natal e, em todas elas, fui vítima da coligação partidária. Enquanto isso, todos reclamam que não há renovação nos partidos nem surgimento de novas lideranças. Mas como lutar se está vedada a disputa democrática dentro do partido em função da coligação que sufoca a candidatura própria? Os correligionários querem, a opinião pública torce, porém a coligação partidária destrói o surgimento de novos nomes que possam se submeter à análise e à livre escolha do eleitorado. Conclusão: o jogo, como está, é pra cabreiros, pra inescrupulosos, pra vendilhões. Pobre do eleitor. Pobre do Brasil.

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Isabel Fernandes

Isabel Fernandes

Bibliotecária Especialista e Contadora de Historias

Postado em 08/09/2010 12:03

A Casa Verde de Janelas Brancas

Cone Freire - aquiacontece.com.br
A Casa Verde de Janelas Brancas

Dizem que toda casa tem uma ou várias histórias, pois vou contar a história ou as histórias da casa verde de janelas brancas.

A casa foi construída na cidade histórica de Penedo no interior do Estado de Alagoas em meados do século passado e como toda casa antiga já viu e ouviu muitas coisas.

Abrigou de inicio um casal recém casado que para lá se mudou. Acompanhou toda trajetória de vida da família, o nascimento dos filhos, dos netos, os momentos felizes e também os momentos tristes.

Até que um dia ela ficou vazia, mas enquanto no seu interior nada acontecia, no seu exterior foram acontecendo mudanças surpreendentes, já não havia mais cavalos trotando pelas ruas e sim carros, caminhões, bicicletas, motos e tudo isso fazia uma barulheira infernal.

As pessoas que antes paravam, se cumprimentavam, sorriam e conversavam. Agora eram capazes de derrubar umas as outras de tão apressadas que andavam.

E a casa pensava: Acho que estou ficando velha e não gosto do que estou assistindo.

O tempo foi passando; numa bela tarde de sol, alguns homens chegaram na casa, fizeram algumas anotações e poucos dias depois ela começou a ganhar uma nova pintura, suas paredes repletas de mofo e escurecidas receberam a cor verde e as janelas gastas pelo tempo, sol e chuva foram restauradas e pintadas de branco.

A casa ficou linda e voltou a sorrir, ela sabia, novamente seria habitada ouviria risadas e passos dentro dela, saberia de segredos que nunca seriam revelados e principalmente daria aconchego para os novos moradores e nunca mais sentiria o abandono.

Deve ter sido pintada ao longo dos anos de várias cores, mas a cor que ela gostou mesmo foi o verde na parede e o branco nas janelas porque simbolizam a esperança e a paz.

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  • Maria Luiza Russo, Malurusso Linda história! Deu vontade de conhecer... Entrar... e morar na casa verde de janelas brancas. Bjinhus!
  • Augusto César Linda inspiração, pena o texto ser curto, pois dar vontade de continuar lendo, lendo, lendo ... Me senti aconchegado e querendo estar na casa verde de janelas brancas!!!!!!!!!
  • Anderson Souza Penedo tem várias casasa bonitas, que já vivenciaram cenas tristes e alegres. Parabéns pelo texto. Penedo é isso, cultura, história e muita tradição.
  • Elenira Pompe O texto nos dá uma sensação de aconchego, de nostalgia... De aceitar as mudanças exteriores, mas nunca esquecendo dos nossos valores... Lindo texto, Bel! Beijinhos!
  • Prof. Israel Silva de Macedo Nossa! O texto nos permite re (viver) acontecimentos recriar) o novo. Parabéns histórios, sentimentos e sobretudo nos faz refletir sobre inúmeros aspectos desde a materialidade das coisas ao advento de novas formas de vivenciar o passado. Em cada ser exite um novo ser, que pode ser renovado e/ou impulsionado através de novas e/ou antigas percepções. Mesmo no ócio, aparentemente, das "coisas" podemos re (pelo magnânimo texto.
  • Luani Macário Bebel, Na arte de contar histórias se eterniza bons momentos, que a casa verde traga a esperança de dias melhores para todos que valorizam a história humana. Parabéns e sorte..... Lulu
  • Leitor Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida. Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades... Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei... Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro, do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser... Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro... Sinto saudades do futuro, que se idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser... Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei! De quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer. Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito! Daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei de vislumbre! Sinto saudades de coisas que tive e de outras que não tive mas quis muito ter! Sinto saudades de coisas que nem sei se existiram. Sinto saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências... Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer! Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar! Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, Sinto saudades das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade. Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que... não sei onde... para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi... Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades Em japonês, em russo, em italiano, em inglês... mas que minha saudade, por eu ter nascido no Brasil, só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota. Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria, espontaneamente quando estamos desesperados... para contar dinheiro... fazer amor... declarar sentimentos fortes... seja lá em que lugar do mundo estejamos. Eu acredito que um simples \\\"I miss you\\\" ou seja lá como possamos traduzir saudade em outra língua, nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha. Talvez não exprima corretamente a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas. E é por isso que eu tenho mais saudades... Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nostálgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos. Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis! De que amamos muito o que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência... Clarice Lispector
  • ANDREIA S. MARTINS Que linda essa história!Essa casa aqui em nossa cidade QUERIDA PENEDO,me faz como ela está agora ALEGRE,FELIZ,..Parabéns pelo texto e por mostrar uma casa BELA que fica diante de nosso olhos,pois, muitos não enxergam.Agradeço também pelo texto mais faça o próximo maior, porque a sensação de estar lá dentro da casa foi uma maravilha.Mostrar ao mundo como nós penedenses temos história,cultura e muita tradição,é pra mim uma satisfação enorme.FIQUEI MUITO FELIZ LENDO ESSA HISTÓRIA,adorei,beijos!!!
  • Margarida Menses Penedo é sem dúvida uma cidade de muitas histórias lindas, e com uma pessoa como vc p/ contá-las, tão ludicamente,fica mais linda ainda. Bel.
  • Cristiano Soares Roberto É disso que a nossa cidade precisa, de pessoas capazes de contar historia sobre nossas casas, praças, monumentos historicos e até mesmo sobre os nossos antepassados; porque ninguém vive o presente, sem ter o passado para ser lembrado, para ter uma base em sua vida, bela historia maravilhosa historia, se nossa cidade pudesse falar, teria muita coisa pra contar. Parabens pela historia !!!!!!!!!!!!!!!!!!
Maria Núbia de Oliveira

Maria Núbia de Oliveira

Escritora e poeta, integrante da Academia Penedense de Letras

Postado em 01/09/2010 17:20

O Poder

Tem gente que não tem estrutura psicológica para exercer um cargo. Inicia uma caminhada desastrosa: humilha os outros, torna-se arrogante, muda até o jeito de andar e confunde a própria personalidade.
Na sua mente, o cargo é sinônimo de destaque. E vai, como se estivesse numa escola de samba no ritmo de um batuque destoante, só, distante do grupo que já não o alcança, face ao seu anseio de ser o alvo das atenções, fingindo o que não é. E quanto mais testemunhas oculares, melhor!

O importante para essa gente é chamar a atenção sobre si, mostrar que pode, não perdendo oportunidade para usar o verbo mandar . Quanta ilusão...Quanta pobreza de espírito... Na caminhada de Jesus Cristo, o maior é aquele que serve, lava os pés. No Projeto de Jesus Cristo, "o exaltado será humilhado e o humilhado será exaltado!". O pequeno, o pobre, o desprovido de honras são os que têm vez.

Infelizmente no projeto dos homens, o maior é aquele que tem mais e o menor é aquele que nada tem... Lembrei-me agora de um fato interessante: certo homem riquíssimo, mas virtuoso, resolveu testar os corações de algumas pessoas. Vestiu-se de mendigo e sem ser convidado, entrou num luxuoso salão, onde acontecia uma importante reunião para decidir o destino de um país. Lá estavam homens bem vestidos, sentados em poltronas revestidas de cristais, o piso espelhava os movimentos como se fosse uma dança clássica. O falso mendigo adentrou naquele salão e sentou-se. A reação de todos, foi terrível! Guardas foram convocados para expulsá-lo. Foi retirado daquele suntuoso lugar, arrastado. Seus pés deixavam manchas no reluzente espelho, que era imediatamente cuidado pelos solícitos serviçais.

O estranho expulso visitante retornou. E dessa vez, vestido à rigor. Suas vestes impecáveis sintonizavam com o luxo daquele salão. O virtuoso homem, sentou-se e todos os olhares se voltaram para ele! Quem era aquele nobre senhor? Foi recebido de pé e convidado a sentar-se à frente, num lugar de destaque. E ele, pleno de tristeza, usou da palavra nesses termos: vocês desprezam o ser humano e se curvam diante de uns pedaços de pano. Despiu-se, deixou as roupas sobre a cadeira, e saíu nu, zombando daqueles tolos... Se o homem não tiver maturidade, o poder o transforma e ele se perde num emaranhado de atitudes drásticas.

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  • Francisco Araújo Muito bela a sua reflexão, Núbia. Mais uma vez parabéns. No caso dos nossos políticos, no entanto, creio que é bom acrescentar que eles se sentem assim tão "donos do poder" porque costumam comprar os cargos que exercem. Como compraram aquele cargo, e como a população se deixa vender, eles podem tranquilamente ostentar esse poder de donos da cidade, do estado, do país. Lamentavelmente é assim...
  • Rômulo Galvão Paulo Que texto maravilhoso,Núbia muito obrigado por compartilhar esse texto maravilhoso conosco ai mostra plenamente o q acontece no nosso cotidiano Parabéns excepcional ! Até eu msmo irei refletir rsrsrs comigo msmo .
  • Roberto Primeiramente Núbia parabéns, continue nos presenteando com sua bela experiência, palavras sábias nos deixam até refletindo sobre nós mesmo. Por isso é muito bom ler estes artigos, porque na velocidade que andam as coisas, os valores morais não existem mais e estão transformando as pessoas como se fossem objetos.
  • Maria Núbia de Oliveira Caríssimos internautas: Gostaria de agradecer a todos vocês que fizeram comentários alusivos aos meus artigos inseridos no Aqui Acontece. É muito gratificante saber que meus escritos estão sendo receptivos a todos vocês, que são o alvo do que escrevo. Muito obrigada mesmo! Continuarei, com a graça de Deus, enviando tudo o que sou, tudo o que penso, o que sinto, o que me faz sofrer e chorar, o que me dá alegria e a injustiça que tem sido uma constante no nosso mundo. Um grande abraço e todo o meu carinho para vocês
  • Maria José Como é bom ler algo assim, tão verdadeiro, tão profundo. Seria maravilhoso se todos tivessem acesso a este tipo de leitura, com certeza contribuiria e muito para formar cidadãos que valorizassem o ser humano pelo que ele é e não pelo que ele tem. Parabéns! Que Deus derrame sobre te muitas bençãos.
  • Marcelinoi Cantalice Núbia : Boa tarde ! Mais um artigo, ilustrado por um exemplo... Ambos valeram. A primeira parte mostra como, de fato, o poder corrompe e dá uma virada nas cabeças dos gananciosos pelo poder... Um poder meramente interesseiro. O poder, como serviço, está muito difícil de encontrar os seus representantes. E o pior de tudo é que - de tanto mentir - o crédito já foi para as cucuias... O exemplo tem um valor vivenciado. O provérbio latino tem razão: \\\"Verba docent, exempla trahunt\\\" - \\\"As palavras ensinam, os exemplos arrastam.\\\" Abraços. Do: Marcelino Cantalice.
João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 28/08/2010 21:21

Como Bico Doce, eleitor Sábio e Ladino, levou umas lambadas

No palco da vida, o gênero humano apresenta os mais díspares figurantes, fazendo-se notar os chamados personagens típicos que, por alguma característica ímpar da suas personalidades, fazem-se notar em relação ao comum dos homens. As circunstâncias do meio, por sua vez, induzindo as regras da sobrevivência, formam seus atores segundo a aptidão de cada um. O meio política, por exemplo, oferece um campo vasto e fecundo ao surgimento desses personagens. Numa fotografia bem mais ampla, vamos focar o eleitor e o político. O primeiro representando, numa boa parte, o rebanho de presas ingênuas e incautas, e o segundo o impiedoso predador. Feroz no íntimo, o político predador apresenta-se travestido de cordeiro para melhor, na suavidade do trato e da persuasão, enganar a caça com a ilusão das falsas promessas. Entretanto, fazendo-se notar as exceções, é claro que nem todo político é um implacável caçador e nem todo eleitor é uma caça ingênua. É um relacionamento onde surgem casos de trocas de posições, isto é, o político torna-se presa e o eleitor predador. Nesse cenário de interesses conflitantes, formou-se com louvor o nosso personagem.

Sem profissão definida, tinha aproximadamente uns quarenta anos de idade. Moreno atarracado, de estatura baixa, o chamado tipo digestivo, que do mesmo modo como facilmente digere os alimentos, da mesma forma fazia com os seus ressentimentos e contrariedades, incapaz de guardar por muito tempo mágoas e rancores, qualidade indispensável para quem atua à margem da política. De instrução abaixo da média, mas grande experiência de vida que lhe deu a alcunha de Bico Doce, era bajulador por excelência e expressava-se facilmente com a lábia peculiar dos velhacos e oportunistas. Durante a campanha eleitoral, evento que aguardava com ansiedade pelo resultado dos dividendos que colhia, abandonava seus afazeres, se os tivesse na época, e tirava por conta própria licença-prêmio para poder dedicar-se em tempo integral à enganação dos políticos.

Era meticuloso nos seus planos. A primeira providência que fazia era a previsão da safra, isto é, o número de vítimas, sua identificação e condição econômica. Tomada essa providência, elegia o rol de suas necessidades mais imediatas. Seu pequeno patrimônio imobiliário, localizado na periferia da cidade, fora todo adquirido através de doações de políticos. Os terrenos, materiais de construção, tudo adquirido graças à maestria na arte de enganar. Tinha uma casa como residência, duas alugadas e uma terceira em acabamento.

Acima de tudo, era um calculista. Traçado o plano de ação, era insuperável nos meios para pô-los em prática. Psicólogo nato, sabia que a vaidade, especialmente quando amaciada com a lisonja, era o mais pródigo dos sentimentos. Assim, olhar vivo e permanente sorriso nos lábios, tinha a chave para abrir qualquer porta e conseguir as vantagens pretendidas. A essa espontânea simpatia, elaborou uma isca infalível através de um fraseado padrão de abordagem que envaidecia e iludia a expectativa de vitória do candidato. Desconhecendo se a vitima tinha ou não a chance de ganhar, pouco lhe importava, repetia o chavão: Doutor, por onde ando só se fala no seu nome. Fique tranqüilo, ninguém leva essa do senhor! O que depender de mim pode contar, estou totalmente as suas ordens. Sou pobre, mas o meu voto vale tanto quanto o do rico. Para o desfecho final, descaradamente afirmava que entre parentes e amigos dispunha de uns cem votos. Que era uma pessoa influente, querida e simpática em seu bairro. E como o voto é o principal ingrediente que desperta e instiga à fome insaciável do político, este, supondo estar a defrontar-se com um verdadeiro líder ou cabo-eleitoral, estampava no rosto a imagem da satisfação. Aproveitando-se desse deslumbramento que observava com muito atenção para certificar-se da eficácia do assalto, Bico Doce discorria, com voz lamentosa, sobre as dificuldades do momento, suas necessidades e imaginárias privações. Formulava em seguida o seu pedido, com muito tato, como se fosse o mais miserável dos homens. Despertando com astúcia a comiseração do candidato, sentimento que forma a mais caudalosa cascata do desprendimento humano, era tiro e queda, obtendo praticamente, sem exceção, os favores de um pedido aqui e outro acolá que, diga-se de passagem, estendiam-se aos municípios vizinhos. Ocorre que a esperteza de Bico Doce não foi suficiente para despertá-lo sobre uma lei segundo a qual, nesta vida, não há vantagem se desvantagem e vice-versa, que nem tudo são flores e que todo sabido tem o seu dia de trouxa. Não atentou, também, para o fato de que em todas as atividades, mesmo na política, onde os candidatos têm que primar pela paciência e a polidez, saber driblar sem frustrar o eleitor, o chamado corpo-de-cintura, existem os esquentados e temperamentais. Assim, alheio a essas vicissitudes da vida, teve o nosso personagem, certa feita, em hora imprópria, a infelicidade de deparar-se com Vivaldino, azarado e teimoso candidato a prefeito.

Faltavam três dias para a eleição. Nessa reta final, as tensões da expectativa, os atritos de toda a espécie e à frustração dos bolsos vazios, costumam por os nervos à flor da pele dos candidatos. Era exatamente com estava se sentindo Vivaldino. Atém do esgotamento financeiro, sentia-se que fora explorado, traído e, no intimo, antevia a terceira derrota. Como iria enfrentar a sua caótica situação financeira? Precisava de um meio para aliviar sua insuportável tensão. Eis que se depara com a vítima mais apropriada, Bico Doce, vezeiro facadista do seu dinheiro. Não podia mais aturar sua cara lambida, seus trejeitos ensaiados e discursos de desastradas profecias. Inocentemente, com seu habitual maneirismo, mãos para cima, Bico Doce dele se aproxima saudando-o com o viva “ o nosso futuro prefeito ! “ Foi aceso o estopim. Vivaldino desce do carro com todo o ímpeto e com incontida violência, lança-se possesso de fúria contra e indefeso Bico Doce. Aplica-lhe ás cegas socos e pontapés, prostrando-o ao chão. Não houve tempo para que alguém o socorre-se. Tudo foi muito rápido. Contorcendo-se de dor, encolhido como uma minhoca, consegue algum tempo depois recuperar forças e arrastar-se até uma casa. Os poucos transeuntes demonstram indiferença. Ali ninguém o conhecia. Sozinho e desamparado, começou aliviar, no peito opresso pelo ódio, a lançar sobre o agressor toda a sorte de impropérios. Que humilhação!

Mais calmo, começou a analisar o incidente. Teria sido merecedor de semelhante vexame? Do agressor obteve, na verdade, algum dinheiro e material de construção. Seria isso suficiente para justificar tamanha agressão? A sua maneira de proceder, reconhecia, ardilosa e calculista, animando indiscriminadamente os candidatos, inclusive os derrotados por antecipação, com prognósticos a esmo, não era correta. Acontece que se assim não procedesse, como iria obter, sem suar a camisa, suas pequenas vantagens, necessárias para a sua sobrevivência nesse mercado aberto da corrupção que são as campanhas eleitorais? Oportunidade é coisa que não se bota fora. Não que fosse contra a honestidade, longe disso. Se não era sincero, devia essa fraqueza de caráter às facilidades, ao fato de, vendo e convivendo, ter se inspirado no mercado aberto das negociatas políticas.

O bom exemplo, na ausência de um eleitorado esclarecido, tem devir de cima, que os políticos deixem de corromper o eleitor, pois, se assim continuarem a fazer, milhares, carentes e entregues a miséria e privações, estarão dispostos a vendê-lo. Enquanto alguns políticos tupiniquins entenderem que só conseguirão galgar ao poder pela via tortuosa, em detrimento da legalidade, das qualificações pessoais que honrem a política, e da conquista do voto pela inteligente arte do convencimento, das metas de governo, tudo permanecerá como está. O que eu, mísero eleitor e cidadão, posso fazer? Se os que têm, querem cada vez mais, eu que nada tenho, por que não tenho o direito de querer um pouco mais? A mais elevada lei moral é a lei da sobrevivência, pois, sem ela nada tem qualquer sentido. As eventuais pancadas doem, não há dúvida, mas são passageiras. É preferível suportar desaforos, lambadas nas costas, socos e pontapés, com a certeza de uma vida melhor, a viver honradamente descamisado, num mundo imoral das necessidades. Bolas! Não serei a palmatória do mundo!

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  • Zuildson Ferreira Alves "A mais elevada lei moral é a lei da sobrevivência, pois, sem ela nada tem qualquer sentido". Nós,seres humanos,João Pereira, como seres responsáveis por tudo que se encontra na face da terra, de bom ou de ruim, temos que refletir como disse Rosseau que a Sociedade Civil fora criada a partir do momento que alguém cercou um pedaço de terra e disse: isto é meu e encontrou pessoas suficientemente ingênuas para aceitar. A partir desse instante e nos desenvolvimentos posteriores da História, o poder econômico se aliou ao político,jurídico,moral,etc. criando toda uma superestrutura que infelizmente só explora os menos favorecidos.Como se o que está aí fosse normal, natural,é o destino. Uns nascem para o fracasso e outros para o sucesso.O ser humano é o criador de sentidos, da sociedade e da história e cabe a ele e somente a ele, transformar ou se acomodar.Vida e liberdade são a mesma coisa. Este seu texto nos convida a refletir.Gostei. Zuildson, Vila Velha/Es.
  • Paulo Fraga Concordo que o exemplo tem que vir de cima, porém , é preciso entender, que os Sabidões da Política, jamais terão interesse em mudar suas estratégias. Deveria ser obrigação dos que têm conhecimento das safadezas deles de ajudar, informando e educando para a participação, aqueles que vivem na escuridão.......indiscutivelmente um ótimo texto.escreva mais