Martha Martyres

Martha Martyres

Radialista, diretora da rádio Penedo FM, âncora do jornalismo no Programa Lance Livre

Postado em 25/04/2016 15:24

Carta Aberta ao Amigo Tico Guerra

Nos últimos tempos, com tantas invasões, ameaças, mata-mata, etc..., tenho colocado minhas barbas (pelos) de molho.

Já diziam nossas mães que gato escaldado tem medo de água fria e eu penso que depois de tantas experiências no decorrer da minha profissão e dos encontros e desencontros dessa minha alma que tem por hábito bater em suas próprias costas e seguir caminhos opostos, um simples copo de água gelada já serve para acender o sinal de alerta.

Penso que já vivi muito, aliás, vivi tudo o que uma insurreita filha de Zé Vécio poderia viver, no entanto, não quero morrer. Claro que não! Gostaria mesmo de ficar vendo os séculos passarem e eu ali, na “rádia”, contando tudo, guardando nos meus arquivos que seriam, sempre, bem melhores do que a minha memória, mas, ali, firme, dando boas risadas e dizendo: - Eu não disse? Kkkkkkk

Mas, contudo, em face às circunstâncias e minha mortal impossibilidade de concretizar esse sonho, pensei em adiantar algumas providências e escolhi você porque, é óbvio, se não morrer com classe, quero pelo menos ser enterrada com pose. E ninguém melhor do que você para preparar um grande acontecimento.

Naturalmente que tenho alguns pedidos, digamos, advocatícios: preste assistência aos meus para regularizar tudo o que ficar pendente. Sei que você o fará pela amizade que temos e até porque como não vou deixar nenhuma riqueza, ninguém vai ter porque brigar. Se isso acontecer, seja por que motivo for, avise aos filhos da puta que eu voltarei para atazana-los!

Mas eu quero mesmo é falar do pós mortem. Primeiro, se eu morrer quando o Marcius e o Ronaldo estiverem na Prefeitura e eles mandarem “tomar todas as providências” para o meu sepultamento, não quero aquele caixão que cai o fundo. Dane-se o “auxílio-funeral”! Quero um caixão bonito, madeira escura, reluzente, com aqueles dourados todos que lembram os apetrechos utilizados pelo finado Zé Rabeca.

Não é do seu tempo, mas o enterro no carro do Zé Rabeca era um acontecimento, principalmente quando ele ía buscar algum falecido em Sergipe e voltava na balsa, imponente, com aquela águia dourada reluzente que parecia ter pousado atendendo a uma ordem dos céus, refletindo seu brilho nas águas do Velho Chico! A assistência na beira do cais poderia se comparar, facilmente, à chegada de Papai Noel! Zé Rabeca fez história em Penedo!

Mas, vamos lá! Primeiro, claro, o velório!

Não quero que me enterrem sem calcinha e sem sutiã. Escolham a minha melhor lingerie, meia, cinta-liga e um vestido de festa, afinal, não sei quem vou encontrar por aí e preciso estar preparada!

Façam uma maquiagem discreta, mas elegante, porque não quero estar pálida e muito menos com aquele algodão enfiado no meu nariz. Se alguém tiver a infeliz ideia, mande enfiar no...

Em relação às flores, favor não permitir que me cubram de flores. Aliás, você sabia que as flores são, literalmente, superficiais? Embaixo delas, para fazer volume, os “Arlindos” da vida, quer dizer, da morte, enfiam um monte de galhos. Agora pense na hora em que os galhos começam a se decompor e soltar aquela meleca verde! Vai sujar minha roupa de festa e envenenar os pobres vermes que terão, obrigatoriamente, que “digerir” meu corpinho e para isso, vão precisar estar em forma!

Não me coloquem na Igreja de São Benedito! Nada contra o Santo (aliás, sempre adorei um Negão alto, grande!), mas é que com aquele lixo em frente, na praça que nem Mário Jorge conseguiu erguer, apesar de levar o nome da tia Dida (Praça Nadyr Athayde), quem fica é o raio! Sou pobre, meu bem, mas sou limpinha!

Queria mesmo era ficar no saguão do Theatro 7 de Setembro!

Imagine a cena digna de uma artista: piso de mármore em preto e branco, cortinas pretas, grandes coroas de flores vermelhas por todos os lados, velas ardentes, as Deusas guardando imponentemente o monumento à arte, a Floriano Peixoto cheia de gente pobre chorando aos berros (tem gente que vai dizer que perdeu “mamãe”!, e gente rica e elegante, de salto alto, de óculos escuros...e ainda outros tantos esperando o momento de comemorar! E eu não ía nem querer sair de lá!

Antigamente, nos tempos do trio elétrico, eu prometi à minha neta que no meu cortejo haveria trio, banda e que poderia dançar. Foi a única forma que encontrei de fazê-la parar de chorar quando ela aprendeu na escola Jean Piaget que as pessoas, assim como os animais e as plantas, nascem, crescem, reproduzem ( o que eu fiz muito bem, diga-se de passagem!) e morrem.

Acontece que os trios elétricos já eram, saíram de moda e os que têm o som é uma peste!, portanto, nada de chamar o Ivan ou o Roseval. Estão liberados da fúnebre missão. Ah!, por favor, proíbam os paredões!

Só não abro mão da Banda da Musical Penedense e nem da Banda Marcial do Colégio Estadual, mas se puder acrescentar a matraca da Semana Santa na frente do cortejo, eu ía me divertir muito!!!! Adorava aqueles sons das procissões que Don Valério destruiu com sua mania de terminar as missas de madrugada e espantar as piedosas almas das celebrações.

Fogos! Quero muitos fogos, porque, afinal de contas, vai ter muita gente mesmo com vontade de festejar. Então aproveite a oportunidade e economize. Só precisam disciplinar o uso dos locais onde serão instaladas as girândolas, para depois não ficarem por aí dizendo que eu fui conivente com erros e omissa em relação ao cumprimento das normas legais.

Fico imaginando a cena na Avenida Getúlio Vargas no final da tarde de segunda-feira! Sim, porque morrer na sexta, no sábado ou no domingo e estragar o final de semana dos amigos não seria de bom alvitre! Segunda à tarde ninguém quer mesmo ir trabalhar, então seria um bom momento.

Na chegada ao Cemitério de São Gonçalo do Amarante (que espero até lá esteja tombado pelo Iphan), a praça Clementino do Monte e as ruas transversais estariam lotadas de curiosos e santos Tomés ( “só acredito que essa fia da peste morreu, vendo!”).

E então chega ao ápice, ao último ato! Caixão descido, terra jogada e, por favor, sejam rápidos! Se alguém inventar de fazer discurso, não permita. Avise que eu passei a vida falando para viver e quero morrer em paz! Silenciosamente! Depois do cortejo festivo e musical, é claro!

Posso contar com você?

Ah! E se eu morrer antes do Dr. Salles, que almeja um funeral nos moldes do funeral do Rei Arthur, não esqueça de que combinamos colocar Luisão sobre o Morro do Aracaré, vestido numa tanga e com a flecha flamejante para incendiar os paus de canela do cortejo rio abaixo!

Um cheiro grande!
Martha Mártyres
 

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  • Walner Martha. Apesar do assunto ser fúnebre, até neste instante, sua veia literária se sobressai. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK, dei um monte de risada gostosa. Você é insuperável na arte de escrever. Aliás, você é boa em tudo que faz. Continua......
  • walner Só você para me fazer rir de um mote tão funesto, já que tratado de forma tragicômica e hilariante. Queira o bom Deus que a preserve por muitos e muitos anos e ?nóis? juntos para ouvi-la diariamente nas ondas ?da rádia? e que não seja o querido amigo Dr. Tico o seu testamenteiro Continua.....
  • Walner o seu testamenteiro para cumprir com os seus desejos expressos na sua crônica, mas seus vindouros descendentes, apesar da falha etimológica aqui utilizada. Martha, você não deve ser enterrada nunca e sim conservada num imenso frasco de formol, ou utilizadas as fórmulas secretas dos Continua...
  • Walner sacerdotes dos faraós para preserva-la e, assim, seus amigos curtirem a sua presença imorredoura e prestarem as homenagens devidas, pelo saeculum e saeculum, amém. Se você for atendida, significa que entraremos em ?sede vacante?, sem haver possibilidade de preenchimento de vaga.
  • Walner para cumprir com os seus desejos expressos na sua crônica, mas seus vindouros descendentes, apesar da falha etimológica aqui utilizada. Martha, você não deve ser enterrada nunca e sim conservada num imenso frasco de formol, ou utilizadas as fórmulas secretas dos sacerdotes Continua..
  • Walner dos faraós para preserva-la e, assim, seus amigos curtirem a sua presença imorredoura e prestarem as homenagens devidas, pelo saeculum e saeculum, amém. Se você for atendida, significa que entraremos em ?sede vacante?, sem haver possibilidade de preenchimento de vaga.
  • Bruno Maia Quase Ariano Suassuna (o alto da compadecida) ,quase Nelson Rodrigues !! Muito bom !!
  • JUNIOR GOMES É POR ESSA ELEGÂNCIA E OUTROS ADJETIVOS, QUE ADMIRO SUA PESSOA. FAZ NA VIDA O QUE GOSTA (E COM MUITA EFICÁCIA), ATÉ MESMO PARA UM MOMENTO TÃO PERSONALÍSSIMO. TENHA CERTEZA, UMA POLIVALENTE NÃO MORRE, IMORTALIZA-SE !!!. AINDA VOU CURTIR VC MUITO NA RÁDIA, E APRENDER COM SEUS CAUSOS. XERO GRANDE....
  • Francisco Araújo Parabéns Martha, belo e engraçadíssimo texto... Me lembrou Helson Batinga em "Fala, Penedo!".
  • Fernando Andrade Mujer!!Mujer!!! Arretado teu texto.Hildo Machado,no mundo celestial do apt 306,deve estar a sorrir muito.Eu, em terras catalãs, nego-me dar-te atestado de óbito!!!Rsssss
  • Edgard Nunca a aprovei por suas opções políticas coniventes, mas o texto é bom e oportuno.
  • Maciel Oliveira Querida Martha, Que texto, bem você... apesar da história ser fúnebre tem muito sobre a cultura e os costumes que aos poucos estamos perdendo...Mas não adiante-se por favor quero ter a honra de lhe ouvir muito tempo ainda!!
  • Gysele Não adianta... tem que causar na sua morte também, mas sua voz e seus textos jamais serão sepultados.. grande Marta!
  • josivaldo carlos costa E verdade um dia será um dia final em tua vida vivida nesta vida, mais só que saber é Deus. a hora certa, quem vai senti muito a sua morte e sua amiga Solange Raposo ela lhe respeita muito lhe considera e lhe admira na moral sem puxa saco admira na moral mesmo esta e umas amiga mais na sua vida Deus
  • Edivaldo Santos Não sei o que meu amigo Tico acha dessa fúnebre missão; mas deve ter dado sonoras gargalhadas com o texto. Tive um grande prazer em minha vida, ter sido entrevistado por essa nobre pessoa da "rádia" FM de Penedo quando no Comando do 11º BPM. Cumpri minha missão em minha Penedo o que me foi uma honra
  • EDILSON UM TEXTO TRISTE, POIS FALAR DE MORTE ME TRAZ TRISTEZA MESMO COM HUMOR MAIS A MORTE É ALGO QUE NESTE MUNDO É A MAIOR TRISTEZA QUE PODE EXISTIR, MAIS O QUE ME DEIXA CONFORTADO É A CERTEZA DE SABER QUE LOGO TUDO ISTO AQUI ACABARÁ E AQUELES QUE FOREM MERECEDORES ESTARÃO DESFRUTANDO DE UM MUNDO MELHOR.