Arthur Paredes | cinema

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Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha

Postado em 17/08/2011 02:05

Melancolia

Melancolia
Simbolismo marcante em uma bela cena do filme

Segundo o Wikipedia, Melancolia “...é um estado psíquico de depressão sem causa específica. Caracteriza-se pela falta de entusiasmo e predisposição para atividades em geral. É uma das "características" da Depressão Maior. A duração do estado depressivo deve ser superior a dois anos, afetando as funções básicas do dia-a-dia de uma forma considerável."

A definição encaixa-se perfeitamente no estado depressivo enfrentado nos últimos anos pelo diretor do filme homônimo, Lars Von Trier, que, ao invés de apenas ignorar a vida, aproveita seu talento cinematográfico para expurgar suas angústias através da sétima arte.

E talvez Melancolia seja a última fase de sua luta contra a depressão. Comparado a seus filmes anteriores, este poderia ser tranquilamente assistido por uma criança de 12 anos. Seu filme anterior, Anticristo, cuja crítica já passou aqui pelo blog, consiste em um sadismo psicológico com fortes cenas de violência e um mergulho complexo no mundo da psicanálise. Já Dançando no Escuro, de 2000, violenta o espectador, colocando a protagonista em uma série de flagelos cada vez mais angustiantes, culminando em um chocante ato final.

Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). Ela recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que juntamente com seu marido John (Kiefer Sutherland) realiza uma festa suntuosa para a comemoração. Enquanto o planeta se aproxima, Justine começa a agir de forma estranha, entrando em um estado de melancolia profunda. Aos cuidados de sua irmã, a angústia e a incerteza da colisão do planeta com a Terra acaba unindo a família e revelando os conflitos mais internos de seus personagens.

O filme inicia com 10 minutos de belíssimas imagens em câmera lenta, revelando o destino final de seus personagens, repletas de simbolismos e com uma fotografia impecável, mesmo artifício usado em Anticristo. A partir daí, seguimos com a história filmada em câmera na mão, com cortes secos e som ambiente proporcionando a tensão da expectativa do final já apresentado no ínicio do filme. Um clima tenso que nunca passa do morno, o que torna o filme bem monótono durante seus 130 minutos de projeção.

Mas isso não tira seu mérito meditativo, repleto de simbolismos ao bom estilo de Lars, abrindo as interpretações para cada espectador. Sem falar na perfeita fotografia mesmo com uma câmera inquieta e a angustiante ideia de um planeta se chocar com o nosso, cuja cena da colisão nos insere dentro do momento apocalíptico. Soma-se a isso o fantástico trabalho dos atores escolhidos pelo critério rigoroso de Lars, com destaque para Kirsten Dunst, cuja atuação lhe concedeu o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cannes.

A morte é a única certeza que temos na vida. Sabemos que não temos como escapar dela, e quando sentirmos sua aproximação, seja por uma doença, seja pela idade, seremos consumidos por uma angústia, uma melancolia profunda, prevendo o ato final de nossa vida. O planeta Melancolia é uma representação simbólica da morte, que um dia irá consumir a todos sem piedade.

Justine enfrentou sua angústia conformada. Já Claire, sempre tão controlada e metódica, se desesperou diante da certeza da morte. Em certo momento do filme, Justine tenta cruzar uma ponte andando a cavalo, mas ele para e não consegue atravessá-la. No segundo ato, o mesmo acontece com Claire, quando na fuga com o carrinho de golfe, a bateria acaba e ela também não consegue cruzar a mesma ponte. Uma representação da incapacidade de cada uma de não conseguir transpor obstáculos, superar uma depressão, uma melancolia profunda.

Assim eu fiz minha interpretação do filme. E você, qual foi sua interpretação?