Arthur Paredes | cinema

Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha

Postado em 10/10/2009 22:16

Anticristo

Todo filme classificado como "polêmico" pela crítica atinge de imediato as anteninhas do público, lotando os cinemas para saciar essa tão estudada curiosidade mórbida do ser humano. Por que classificar "Anticristo" do diretor Lars Von Trier (Dogville, Os Idiotas) como um filme polêmico?

Primeiramente pelo seu título. Tudo que envolva religião ou se refira a ela já é, por si só, polêmico. O ditado popular diz que religião e futebol não se discute, o que discordo por completo, mas isso é assunto para outro blog. Segundo pelo forte apelo visual contido no filme.

Partindo disso, já aviso: NÃO assista Anticristo, caso não possua um senso crítico ou tenha algum tabu forte. É um filme forte e demasiadamente artístico, que assusta pela sua crueza e erotismo violento. Muitos críticos de Cannes condenaram o filme com fúria pela força de suas imagens (alguns também por não ter entendido o filme). É necessário coragem e mente aberta para enfrentar 1h40 de fortes cenas de mutilação e sexo explícito.

Confesso que não senti o mesmo impacto com certas cenas da mesma forma que senti ao assistir o clássico "O Exorcista" na versão sem cortes do diretor, e particularmente ainda considero o filme de terror mais forte que já vi. Porém Anticristo não pode ser considerado um filme de terror. Eu poderia considerá-lo um filme de drama com elementos místicos.

A história concentra-se em dois personagens sem nome, um casal que enfrenta uma tragédia: o filho pequeno morre ao cair de uma janela enquanto os dois faziam sexo. A fim de enfrentar a dor interminável da mulher (Charlotte Gainsbourg), o marido terapeuta (Willem Dafoe) leva-a para passar uma temporada em uma cabana enfurnada na mata - a ideia é superar o que seria o pior medo dela, revelado em visões daquele lugar, sintomaticamente chamado Éden. O isolamento em contato com a natureza exuberante acaba trazendo de volta lembranças da recente estadia no local da mãe e da criança agora morta, além de despertar na mulher delírios paranoicos que culminam em agressões brutais ao marido e em automutilação.

O filme é dividido em capítulos, como um livro, e seu perturbador roteiro foi escrito pelo próprio Lars, em um momento de séria crise de depressão, que declarou durante seu lançamento:

“O roteiro foi finalizado e filmado sem muito entusiasmo, feito como se eu estivesse utilizando apenas metade da minha capacidade física e intelectual. O trabalho no roteiro não seguiu o meu modus operandi habitual. Cenas foram acrescentadas sem razão. Imagens foram compostas sem lógica ou função dramática. No geral, elas vieram de sonhos que eu tinha no período, ou sonhos que eu tive anteriormente.”

O filme de certa forma reflete as angústias de Lars, percebidas claramente nos diálogos e na fotografia fria do filme. Suas cenas fortes e violentas acabam contrastando com a excepcional e belíssima fotografia adotada em cenas como a primeira do filme. Em preto e branco, seu filho morre caindo da casa enquanto o casal faz sexo explícito ao som de música clássica. Lars consegue de forma maestral, dar graça, sutileza e beleza a uma cena tão trágica.

A partir daí Lars nos guia em uma verdadeira sessão psicológica (mais especificamente cognitva, uma ironia do diretor), analisando o comportamento humano diante de uma tragédia e a própria natureza que consideramos divina. E é aí que entra a grande polêmica do filme.

Lars é ateu assumido, que em determinado momento da vida perdeu a fé na religião, e Anticristo é uma análise sarcástica a respeito da natureza e de como o ser humano enfrenta seus dilemas psicológicos diante de uma tragédia, questionando até mesmo a existência de Deus. O filme mergulha na origem do mal na visão religiosa obscurantista, mesclando-a com a raiz dos temores psicanalíticos do homem em relação à mulher.

O nome da floresta que o casal fica para o tratamento é, nada mais nada menos, que Éden, uma alegoria onde o casal voltaria exatamente às suas origens para descobrir a verdadeira face da natureza. Com um capítulo do filme denominado "O caos reina", vemos a intenção de Lars de mostrar que a natureza é cruel, e o caos domina a vida. Isso pode ser confirmado em diversas cenas do filme, incluindo uma importante em que a esposa presencia um ato natural de caça entre animais e isso a perturba. É em meio ao instinto primitivo, à crueldade da natureza, envoltos pela própria natureza, que os distúrbios de sua esposa acabam culminando na violência que incomodará muitos espectadores. 

Não entendeu o final? Lars Von Trier não quis explicar seu filme. E é melhor que não tenha uma explicação direta, Anticristo não é um filme para ser explicado. Deve ser enfrentado (com muita coragem), sentido, por uma espectador que teve cabeça aberta e coragem suficiente para presenciar mais uma obra-prima do cinema. Filme bom é aquele que faz pensar, questionar, onde você mesmo encontra seu próprio significado.

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  • patricia Concordo com vc quando diz que "o Exorcista" foi o filme de terror mais forte que ja viu. Já tinha visto o trailler de "Anticristo" e lido alguma coisa sobre. Porém ainda não tive a oportunidade de vê-lo, estou anciosa para ver, principalmente depois de seu comentário.
  • Lílian É o tipo de filme que eu dispenso - de tragédia já basta a vida. Gosto de ver filmes alegres e que me deixem de alto astral. Quanto a Patrícia, anciosa tá difícil - que tal ansiosa???
  • Mireli Cavalcanti Fiquei imuito afim em ver o filme. Espero que a minha opnião sobre ele seja de acordo com o que vc disse.