Arthur Paredes | cinema

Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha

Postado em 07/03/2011 19:12

Eraserhead

David Lynch é um cineasta nada convencional. É conhecido por filmes que mergulham no abstrato mundo dos sonhos, onde imagens desconexas e enredos fora de ordem entregam a responsabilidade de interpretação totalmente ao espectador. E é isso que faz uma grande experiência assistir a um filme de David Lynch.

Lynch também é inovador e à frente de seu tempo (o que muitas vezes tornou filmes maravilhosos em fracassos de bilheteria). Aproveitou a revolução da internet como um ótimo veículo de divulgação de seus trabalhos, alguns disponibilizados gratuitamente no site www.davidlynch.com (recomendo o download gratuito do curta metragem Rabbits). Marcou época com a série para TV Twin Peaks, que acabou gerando um longa para cinema e continua sempre envolvido em ótimos projetos, vezes como diretor, produtor e até mesmo ator.

Sempre ouvia muito falar em seu nome, mas foi no primeiro filme que assisti, Cidade dos Sonhos, que entendi o porquê de sua fama. O impacto do filme foi imediato e logo me fez buscar seus demais trabalhos. Em seguida veio O Homem Elefante, baseado em uma história real famosa, também supreendente principalmente por sua fotografia. Logo após o excelente (e complicado) curta metragem Rabbits e por fim o objeto desta crítica, seu primeiro e marcante trabalho, Eraserhead (1977).

A sinopse do filme, explica pouca coisa: Eraserhead segue um curto período da vida de Henry Spencer (Jack Nance), um impressor de férias. Henry descobre que sua namorada, Mary X (Charlotte Stewart), deu origem a um deformado e monstruoso bebê. Após um tumultuado e breve período vivendo juntos, Mary Henry deixa o bebê aos cuidados de Henry. Ele tem algumas visões bizarras de uma mulher deformada em seu aquecedor, e um sonho em que a cabeça de Henry é utilizada para fazer lápis borracha. Estas ocorrências levam Henry cometer um ato dramático.

Filmando em preto e branco, Lynch quase não conseguiu concluir o filme, teve de usar dinheiro de amigos e familiares, e demorou quase cinco anos para terminar todas as tomadas. Vale ressaltar que na época em que escrevia o roteiro, sua esposa engravidou de seu primeiro filho, o que influencia claramente na interpretação geral do filme.

É muito arriscado buscar uma interpretação fechada para o filme, visto que é muito rico em mensagens subliminares e bizarras cenas que aparentemente parecem desconexas e sem o menor sentido. E é isso que torna Eraserhead um mergulho profundo e fascinante em um universo que parece ter sido retirado diretamente do último pesadelo da mente de Lynch.

Tendo em mente o fato de que Lynch estava para ter seu primeiro filho ao escrever o roteiro e enxergando por uma ótica Freudiana, as coisas parecem fazer mais sentido (se é que isso seja necessário) e tudo acaba se revelando surpreendente: a forma como ele expõe os elementos do inconsciente da mente humana, seus medos, suas angústias, seus desejos através de cenas e elementos bizarros e sinistros. É como assistir um pesadelo ao vivo diretamente dentro da mente do protagonista Henry.

Lembrando que Lynch sempre prefere entregar a interpretação de seus filmes ao próprio espectador, evitando explicações prontas, logo o que entendi do filme é estritamente pessoal, mas acabei encontrando outras pessoas pela internet que fizeram interpretações semelhantes. O filme parece girar em torno do medo de uma gravidez indesejada (representada por um bebê medonho) e os medos e angústias de um homem abandonado pela esposa, com um casamento forçado pela situação e sua prisão à obrigação de cuidar de seu filho e abrir mão de sua vida normal e seus desejos com outras mulheres.

Uma das cenas mais bizarras do filme, mostra a cabeça de Henry sendo transformada em um lápis com borracha em uma fábrica. O suficiente para você dizer “esse filme surtou”, mas que tem uma possível explicação: depois que Henry enlouquece a ponto de sua cabeça literalmente cair, a cena mostra o desejo reprimido de Henry corrigir seu erro (borracha), como um desejo de apagar de sua mente seus problemas.

Em diversos pontos do filme podemos também ver alusões ao seu yin-yang, sua consciência em conflito representada pela bizarra mulher dançarina em seu aquecedor. Ao final, Henry mata seu bebê representando sua libertação, onde um lado de sua consciência finaliza com uma frase marcante: “No Paraíso tudo é bom”. Também existe uma figura intrigante e bizarra que aparece no começo e no fim do filme que entendo como sendo uma representação de seu erro que gerou a criança (através de diversos elementos no filme que sugerem espermatozoides e fecundação) e que ao fim é morto junto com o bebê, sugerindo a libertação também de sua angústia.

Eraserhead é um mergulho na mente humana que explora desejos, culpas, medos, perdas, loucura, embalada por uma trilha macabra e angustiante. Tudo para que o espectador o entenda e o interprete de acordo com seus próprios sentimentos. Não é um filme para ser apenas entendido, mas para ser sentido. E o fato de se chegar a uma possível explicação final para o filme não anula em nada a experiência única e marcante de assistir a uma obra tão ousada, misteriosa e inesquecível. Isso é David Lynch! Assista (mais de uma vez), tire suas próprias conclusões e comente aqui no blog. 

Comentários comentar agora ❯

  • Marcus Seixas Puxa! Parece coincidência, mas um dia antes de ver esta postagem, assisti Eraserhead pela terceira vez. Um dos melhores longas que eu já assisti e que como vc mesmo falou, é uma viagem (bota viagem nisso!) na mente humana. O Lynch é um dos diretores mais geniais que existe, desde o primeiro film que assisti, que foi O homem Elefante, me fascinei pelo modo em que ele conduz um roteiro, sem dúvida, de forma muito peculiar. Espero ver mais posts de grandes filmes como Eraserhead, se possível algum filme do Stanley Kubrick.
  • Arthur Paredes Oi Marcus, fico feliz pelo comentário e por seu interesse em filmes mais \"pensativos\". Sem dúvida Lynch é singular no cinema, assim como Michael Haneke e Lars Von Trier. Recomendo você assistir também Cidade dos Sonhos, não vai se arrepender. Gostei da dica do Kubrick, sempre tive vontade de comentar o \'2001 Uma Odisséia no Espaço\', acredito que seja o próximo da lista. Abraço e bom filme!
  • Marcus Seixas Arthur, sem comentários a indicação de Cidade dos Sonhos!! Genial!! Da primeira vez que assisti, me senti um burro, pois não entendi nada, já assisti três vezes e acho que estou chegando a uma conclusão ou não, hehe! Mas como Lynch sempre fala, o expectador deve tirar a sua conclusão!! Sinceramente, está no top 10 dos filmes que assisti até agora!!