Arthur Paredes | cinema

Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha

Postado em 02/02/2014 19:30

Ninfomaníaca

Ninfomaníaca
O corpo pode ser uma prisão de desejos dos quais não temos como escapar.

“Basicamente todos estamos esperando permissão para morrer”


Em certo momento, Joe (Charlotte Gainsbourg) solta esta máxima, uma clara demonstração de sua agonia em relação à vida. E de agonia o diretor Lars Von Trier entende bem. Tanto que em quase todos os seus filmes, ela é abordada através de algum aspecto da vida, sendo desta vez através do sexo. O tema já havia sido abordado anteriormente em Anticristo (crítica disponível aqui no blog), mas desta vez o diretor optou por explorar outros caminhos.

Infelizmente muitos que assistiriam à primeira parte de Ninfomaníaca foram induzidos pela expectativa erótica criada pela publicidade de lançamento do filme, por isso tenho ouvido e lido algumas críticas negativas, sempre analisadas de forma superficial. Porém para uma percepção mais apurada de Ninfomaníaca, acredito que seja necessário assistir aos filmes anteriores de Von Trier para entender seu estilo narrativo, principalmente os elementos que costuma repetir.

Por se tratar da primeira parte de uma longa história, ainda por cima editada (a versão sem cortes, além de ser mais “hardcore” possui 5h30 de duração) posso apenas abordar de forma incompleta o contexto de Ninfomaníaca. Filmes deste tipo não possuem uma explicação fechada, mas considerando a visão de vida de Von Trier, podemos mergulhar em sua filosofia depressiva e tirar algumas conclusões úteis para a segunda parte do filme (que entrará em cartaz por aqui no dia 21 de março).

O filme tem início em uma vizinhança melancólica e chuvosa que, disposta em becos estreitos, exibe o corpo inconsciente de Joe (Gainsbourg). Resgatada por um habitante local (Skarsgård), e levada para sua casa, ela passa a narrar as circunstâncias que a levaram a se transformar numa mulher coberta de sangue e traumas, deixando claro, desde o princípio, que não poupará a si mesma: “Eu sou um ser humano ruim”, afirma já de cara. A partir daí, saltamos para uma série de flashbacks que acompanham a moça da infância à fase adulta, quando passa a encarar o sexo com a diligência de uma vítima de transtorno obsessivo-compulsivo.

Estilo semelhante já foi utilizado em Dogville, onde a protagonista (Nicole Kidman) sempre fazia questão de deixar claro seu perigo para os habitantes da cidade, enquanto o filósofo moralista contestava-a, e seu perigo efetivamente demonstrado apenas no final da projeção. Em Ninfomaníaca o filósofo é substituído por Seligman, que torna-se a âncora narrativa do filme, sempre tentando amenizar a história contada por Joe, tentando a todo momento mostrá-la que suas atitudes podem ser consideradas normais e não necessariamente repreensíveis. Mesmo assim Joe ignora e insiste em sua nocividade às pessoas.

Como em um divã (Lars tem um forte apreço pela psicanálise, já abordada em Anticristo), Seligman pode ser visto como um psicólogo ou um hipócrita (nós, a sociedade) que a todo momento procura não confrontar as atitudes de Joe. Mas considerando o estilo recorrente de Lars Von Trier, já é possível prever uma possível inversão de papéis na segunda parte de Ninfomaníaca. Enquanto Joe narra sua história, Seligman interrompe a todo momento com metáforas de pesca, música e matemática, utilizando argumentos racionalistas e científicos para justificar as passagens da história. Uma delas quando Joe narra a perda de sua virgindade feita friamente com “3 estocadas”, em seguida mais “5 estocadas”, e Seligman afirma que 3+5 é um número de Fibonacci buscando uma explicação matemática para uma situação tão crua.

Joe inicia sua história na infância, afirmando “Eu descobri minha boceta aos dois anos de idade”, ou citando seu prazer ao ficar pendurada por vários minutos nas cordas das aulas de educação física apenas para sentir o prazer de ter algo entre as pernas (o falo). Seu amor pelo pai, médico que lhe ensinou a vivenciar o prazer sentindo o vento refrescando seu rosto na floresta, oriundo de uma brisa, ou da beleza do formato de uma folha. Sua raiva pela mãe, a qual chamava de “vadia” e fazia questão de avisar ao pai, que sempre negava (na psicanálise, o Complexo de Elektra). O apego da filha pelo pai que se converte em conflito com a mãe, frequentemente visto na vida real - se você é homem, lembre-se da relação de suas ex-namoradas com o pai e com a mãe...

A incessante busca desesperada de Joe e sua melhor amiga por sexo sem limites, que como todo vício, chega a um ponto em que não há mais o prazer, mas apenas a necessidade. Como na cena em que as duas disputam por quem faz sexo com mais homens em uma viagem de trem, sendo o prêmio um pacote de chocolate (o diretor talvez não quisesse colocar o dinheiro como recompensa para que não as julgássemos como prostitutas, mas sim uma banal desculpa para sua disputa). Em momento algum Von Trier glamouriza o sexo, muito pelo contrário, mostra Joe presa em seu próprio corpo, em seu próprio vício, como um animal selvagem enjaulado que não tem nada a fazer além de expurgar seus instintos como pode, esperando o dia em que será dada a permissão de sua morte.

Na cena da morte de seu pai, a única cena em preto e branco do filme (referência ao livro de Edgar Allan Poe, A Queda da Casa de Usher), propositadamente pensada para não expor a cor do sangue e dos excrementos de seu pai doente, Joe, ao contemplar seu pai morto na cama não exprime tristeza, mas em sua narração fala que “foi um momento vergonhoso” e em seguida podemos ver uma “lágrima” escorrendo de sua vagina por sua perna direita. Uma clara demonstração da simbologia do filme e da expressão emocional de Joe através da sexualidade.

Assim, o sexo é abordado sempre como uma fuga, uma forma de expurgação, de catarse, mas também de controle sobre outras pessoas, um jogo em que ela possui o dom de nascença. Em certo momento, Joe se relaciona com tantos homens à sua procura, que vê a necessidade de criar uma “metodologia” para definir quem será dispensado ou continuará com ela. Sua forma particular de buscar uma ordem em meio ao caos, metodologia que utiliza um dado e cada número representa uma escala de “dispensa”, uma forma de atribuir à aleatoriedade suas decisões e se eximir da responsabilidade.

Até ela se deparar com o “amor”. Enquanto sua amiga afirmava ser o amor o ingrediente secreto do sexo, Joe se vê, em certo ponto, sem vontade de fazer sexo com um dos personagens e entra em uma fase de abstinência de seu vício. Seligman defende: “o amor é cego”, Joe rebate “o amor não é cego, ele distorce as coisas”. O amor como um jogo de caça, de dominação, de desejo pelo que não se pode ter fácil. Cada homem com seu estilo, como um acorde musical que só se completa com a nota que faltava, que preenche o vazio, o amor.

Bom, tenho que parar por aqui para não revelar mais detalhes do final, mas prometo fechar esta ponta solta na crítica da segunda parte. Resta a expectativa de saber porque de Joe insiste tanto em sua culpa e como ela foi parar naquele beco com hematomas, mas isso só saberemos na segunda parte de Ninfomaníaca. Até lá!