22 Maio 2014 - 15:37

Aqui se faz, aqui se recebe!

Às vezes acontecem algumas coisas em nossas vidas que nos obrigam a uma profunda e fértil reflexão sobre frases feitas, jargões, ditos e provérbios populares. Um deles é: “aqui se faz, aqui se paga (recebe)”.

E eu recebi a visita de uma pessoa da qual, sinceramente, não mais lembrava, para cumprimentar-me e agradecer por um episódio ocorrido no programa Lance Livre, anos atrás, na década de 90, quando evitamos, através da informação, que dezenas de pessoas fossem enganadas em sua boa fé.

À época, desmascaramos pessoas que estavam extorquindo pais e mães de família que perseguiam o sonho de uma vida melhor, através do desejado “pedaço de terra para plantar e colher”.

Vários penedenses haviam sido convencidos e até coagidos, a embarcar na aventura de fazer parte de grupos de pseudos “trabalhadores sem terra”, homens e mulheres, que abandonaram as famílias para juntar-se a outros, de várias partes do estado, na região norte.

Alguns meses depois estavam desencantados e famintos, desamparados e doentes, desesperados para voltar à velha e boa Penedo e ao seio de suas famílias. Foi nessa situação que o Programa Lance Livre os encontrou e providenciou o retorno através do apoio de seus patrocinadores e bons samaritanos penedenses.

Mas não foi tão simples assim. Houve quem entendesse que nós estávamos errados em desmascarar as pessoas que não tiveram escrúpulos em extorquir pais de família e desses “solidários com a picaretagem” cheguei a receber agressões e ameaças, ocasião em que contei com o apoio dos proprietários da emissora, dos colegas de trabalho, dos amigos e a intervenção do então ministro da justiça, Renan Calheiros.

Passados tantos anos, recebo um agradecimento que me emociona e me obriga a refletir novamente sobre a questão da tão propagada Reforma Agrária.

É inegável o estado de absoluta carência em que se encontra uma boa parte da população brasileira que ainda detém índices alarmantes de pobreza, analfabetismo e indigência social. São índices que persistem nesses trinta anos de militância no rádio e que, às vezes, me levam a esmorecer e desanimar.

Reconheço os avanços e tenho consciência de que esta não é apenas uma questão de governos, mas também da consciência de cada pessoa, de cada cidadão e da sociedade em seu conjunto.

Muitos estudiosos e analistas políticos e econômicos apontam a reforma agrária como uma das saídas para o Brasil. Outros, vão mais longe ainda e acham que só com a reforma agrária vai ser possível erradicar os efeitos mais perversos dessa pobreza marginal.

Concordo que é preciso dar terra a quem é da terra e não tem terra para cultivar, mas é preciso também, e não carece ser técnico pra saber, que é indispensável dar água, tecnologia, educação, saúde e segurança, ensinando também aquilo que algumas gerações parecem ter esquecido ou não lhes foi ensinado: a cada direito corresponde um dever.

Continuo não sendo favorável à distribuição de terra, de moradia, ou de qualquer outro bem para pessoas improdutivas que se intitulam de “trabalhadores sem isso ou aquilo” e transformam-se, em pouco tempo, em funcionários públicos do campo ou da cidade e que serão sempre sustentados pelo governo.

Continuo não sendo simpatizante das decisões que desapropriam terras produtivas, enquanto milhões de hectares adquiridos de forma ilícita, com dinheiro oriundo do tráfico, do roubo de dinheiro público (se não tivesse dinheiro sobrando na saúde, na educação, na segurança, na previdência... não roubavam!) continuam engordando o patrimônio de muitos.

A terra é um direito dos que tem vocação agrícola, assim como o emprego urbano é um direito de todo trabalhador. São questões que ainda persistem e que precisam ser enfrentadas com seriedade, honestidade e competência.

A questão é que as leis existem, mas os mecanismos de aplicação dessas leis são direcionados para proteger os ricos e poderosos, muitos dos quais não são, necessariamente, os que têm direito ou honra.

Valeu a visita e a lembrança. Eu e Luizão, através do meio de comunicação que representamos, fizemos a nossa parte. Cumprimos com o nosso dever.

O saudoso Don Constantino escreveu em uma das cartas que me enviou: “a santidade consiste em fazer o que é justo defender aqueles que não podem se defender por si só”.

Não somos santos nem demônios, apenas profissionais que têm uma história de vida e serviços prestados à nossa gente. E eu me orgulho disso!
 

por Martha Martyres

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