29 Julho 2012 - 15:27

Donnie Darko

Por quê você está usando essa estúpida fantasia de coelho?

Já faz um bom tempo que assisti Donnie Darko pela primeira vez, mas a incrível sensação que o filme me transmitiu ficou marcada para sempre, e assisti-lo pela vigésima vez (sim, vinte vezes, desta vez em Blu Ray) me motivou enfim a escrever uma crítica de um filme tão complexo que considero número zero (para que nenhum outro ocupe seu lugar, rs) da minha lista de preferidos.

Donnie Darko é um filme que se ama ou se odeia, não há meio termo. Quem consegue ser “fisgado” por sua trama, mergulha em uma experiência tão surpreendente quanto seu desfecho. Richard Kelly, escritor e diretor do filme, ainda como um diretor estreante, conseguiu incluir, cuidadosamente, diversos elementos que enriquecem sua obra, principalmente sua maravilhosa e nostálgica trilha sonora, com destaque para uma versão excepcional da música Mad World, por Gary Jules, da banda oitentista Tears For Fears.

Não há vergonha em dizer que não entendeu Donnie Darko. Por mais que o próprio diretor tenha exposto suas explicações a respeito do filme, deixou as brechas necessárias para nossa interpretação pessoal. Como costumo dizer, por mais vezes que já tenha assistido, cada vez mais consigo interpretar coisas diferentes do roteiro. Sua riqueza de elementos subliminares, conexões entre personagens e teorias metafísicas levam nossa imaginação muito além do comum.

A primeira vez que tive a oportunidade de ver o filme casou com a época em que estava estudando determinismo filosófico, indicação do professor. Ainda mais após ter visto Efeito Borboleta, que até então possuía o mesmo tema, mas muito longe ainda da profundidade de Donnie Darko. Ainda lembro como hoje: fiquei perplexo ao final do filme, quando os créditos apareciam na tela. Pra mim, um filme é bom quando abre nossa mente para novas possibilidades, e foi exatamente o que a obra fez comigo no momento mais oportuno.

Donnie Darko é um filme que explora a ideia de determinismo, ou seja, a ideia de que todo acontecimento é explicado por relações de causalidade: toda ação gera uma reação em cadeia. Podemos ter controle dos acontecimentos e “moldar” o futuro? Richard Kelly conseguiu ir além do conceito, entrecruzando com teorias de física quântica, tempo, espaço, universos paralelos, buracos de minhoca, além de pincelar elementos do cristianismo. Tudo isso em uma absurda riqueza de detalhes e situações aparentemente sem nexo, mas que são a chave do entendimento da história e exigem muita atenção do espectador.

O filme foi lançado em 2001, custando uma bagatela de US$ 4,5 milhões (muito pouco para os padrões de Hollywood) e filmado em apenas 28 dias (exatamente o tempo que o coelho Frank afirma que o mundo chegará ao fim). O filme não foi um sucesso de bilheteria, mas acabou sendo muito bem avaliado pela crítica mundial e entrou para o hall dos filmes cult. Drew Barrymore, produtora do filme, topou se arriscar no projeto e contribuiu muito para a publicidade do filme. O falecido ator Patrick Swayze também abraçou o projeto quando leu o roteiro, reduzindo seu cachê.

Em 2004 foi lançada uma versão especial do diretor, com 15 minutos extras, onde Richard Kelly ajuda no entendimento do roteiro, mas que acaba perdendo um pouco da magia original do filme. Após uma desastrosa continuação desnecessária (não, não foi Kelly que escreveu e dirigiu), Samantha Darko (irmã de Donnie no primeiro filme), Donnie Darko permanece na história do cinema como um filme irretocável, complexo, e mesmo na categoria cult, conquista mais e mais fãs a cada dia que passa. Uma preciosidade para ter na coleção de qualquer cinéfilo e um filme indispensável para os curiosos de plantão, mesmo que seja assistido em um universo tangente.

Caso você já tenha assistido ao filme, segue alguns pontos importantes no filme que merecem muita atenção:

• O homem gordo de laranja que sempre está observando Donnie;
• O nome do filme em cartaz no cinema que Donnie vai se encontrar com Frank;
• A cena em que Frank passa a mão em seu olho após acordar;
• A Vovó Morte;
• A namorada de Donnie acenando para sua mãe ao final de tudo;
• A cena em que o professor de Donnie fala que não pode continuar o assunto sobre viagem no tempo;
• As frases de efeito de Donnie e Frank;
• A chinesa Cherita, fã de Donnie;
• A cena em que os professores de Donnie se olham e falam o nome dele com certo conhecimento;
• A sessão de terapia de Donnie com sua psicóloga e o comentário sobre Christina Applegate;
• Cellar Door;
• O livro “A Filosofia da Viagem no Tempo”;

por Arthur Paredes

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  • neurocorpus Segue algumas explanações sobre o filme. Eu sempre vou gostar deste filme, porém ele não faz sentido fora do universo subjetivo de Donnie Darko e baseado nas teorias criadas pelo diretor, pois o roteiro apresenta deficiências. Seguem alguns questionamentos meus e outros levantados por Joseph Young,
  • Gustavo Padilha Síntese e análise da física do tempo utilizada no filme: http://lounge.obviousmag.org/fabulas_do_mundo_esquecido/2014/06/a-fisica-e-os-misterios-por-tras-de-donnie-darko-uma-sintese-das-transmissoes-do-cinema.html
  • Lívia Bianco Olá! Assim como você, também já assisti a esse filme inúmeras vezes, é perfeito! Nunca fiquei sabendo dessa versão especial que foi lançada. Se fosse possível, você poderia passar o link para mim? Obrigada :)