26 Agosto 2012 - 17:47

Blade Runner

Até que ponto somos "humanos"?

Blade Runner é, sem dúvida, um dos maiores representantes da cibercultura. Mesmo completando 30 anos em 2012, ainda hoje é referência para muitos filmes de ficção científica, e se consagrou como um dos maiores clássicos do gênero, mas à época em que foi lançado não teve seu merecido reconhecimento. Pelo contrário: foi um fracasso de bilheteria, sua versão final foi editada a contragosto do diretor Ridley Scott (Gladiador, Alien) e muitos não gostaram do filme.

O filme se passa em 2019, em uma Los Angeles banhada por uma constante chuva ácida, onde robôs orgânicos criados geneticamente chamados de replicantes são fabricados pela poderosa Corporação Tyrell. Seu uso na Terra é banido e os replicantes são exclusivamente usados em lugares inóspitos para trabalhos perigosos em colônias extraterrestres. Os replicantes que desafiam esse banimento e retornam para a Terra são caçados e exterminados pelos operativos especiais da polícia conhecidos como "Caçadores de Androides". Quando um grupo de replicantes escapa, o aposentado Caçador de Androides, Dick Deckard (Harrison Ford), relutantemente aceita o trabalho de caçá-los, mas acaba se envolvendo emocionalmente com um deles.

Baseado no livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, um dos mais cultuados autores de ficção científica, Blade Runner é um filme que nunca envelhece. Alguns de seus efeitos especiais produzidos apenas com maquetes, surpreendem ainda hoje, deixando muita computação gráfica no chinelo – francamente, já é cansativa a artificialidade da computação gráfica, e alguns diretores já a colocam em segundo plano como Christopher Nolan na trilogia de Batman e A Origem.

Seu enredo complexo, que mistura traços noir dos anos 20, futuro pós-apocalíptico, inteligência artificial e exploração extraterreste, nos traz um estilo estético único, consagrando-se como um clássico cult, e conforme as palavras do diretor Ridley Scott, “seu filme mais completo e pessoal”. Em 1993, o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso como sendo "culturalmente, historicamente ou esteticamente significante".

Com uma das trilhas sonoras mais marcantes do cinema, produzida em um clima cibernético e sombrio por Vangelis (a música tema encerra o filme de forma magistral), Blade Runner é um filme filosófico e bonito, que nos envolve em um clima único, além de sua riqueza de detalhes que nos faz viajar com uma história complexa e um final (da versão do diretor) inesquecível. Um filme de dar orgulho a Isaac Asimov.

A filosofia que o filme aborda continua muito atual e nos faz refletir sobre o verdadeiro significado de “ser humano”. A tecnologia em 2019, através da inteligência artificial, consegue criar replicantes idênticos aos humanos mais fortes e ágeis. Mas devido a problemas de instabilidade emocional e pouca empatia, eles são mais agressivos e seu tempo de vida é limitado a apenas 4 anos. Devido ao seu pouco tempo de vida, suas memórias são implantadas e criadas artificialmente. Ou seja, além de organismo e inteligência artificiais, suas consciências também são.

Um teste Voight-Kampff feito em Rachael (Sean Young), que acredita ser humana, demora mais que o normal e surgem dúvidas se ela é realmente uma replicante, levantando uma questão importante: até que ponto uma consciência artificial poderia se tornar verdadeiramente “humana”?

Desde seu lançamento, em 1982, Blade Runner contou com sete versões diferentes como resultados de mudanças controversas feitas pelos executivos do filme. Sua primeira versão de lançamento chegou a ter uma ridícula narração em off com Deckard explicando várias cenas do filme. Apenas em 2007, a Warner Bros lançou o The Final Cut, uma versão digitalmente remasterizada de 25 anos feita por Scott, em cinemas selecionados e posteriormente lançada em DVD e Blu-ray.

ATENÇÃO! SPOILER

E é na versão final do diretor que podemos encontrar o ponto chave de todo o filme. Não continue a leitura se não quiser saber o final: Deckard também é um replicante! No início do filme temos o investigador da polícia brincando com um origami. No meio, temos uma lembrança esquisita de Deckard vendo um unicórnio correndo (a cena chave que indica que Deckard é um replicante, removida da primeira versão do filme) e no final do filme ele encontra um origami de um unicórnio, sugerindo uma memória que lhe foi implantada.

Ao longo do filme, cada um dos replicantes é caçado, e parecem adquirir características humanas, enquanto os humanos que os caçam parecem adquirir, cada vez mais, características desumanas. Logo, surgem questões que afligem os humanos também nos replicantes, como medo da inevitabilidade da morte, rebeldia, razão da existência, oposição ao seu criador. Isso fica bem claro no momento em que um replicante mata seu Tyrell, que não pode resolver sua morte inevitável, negando seu criador e indo de encontro ao seu destino conformista.

Até onde nossas memórias podem ser perpetuadas? Tudo o que vivenciamos de mais incrível em nossa vida se perderá como “lágrimas na chuva” após a nossa morte? E se pudéssemos “armazenar” nossa consciência em algum lugar antes de nossa morte?

Blade Runner é um filme único, inesquecível e que mesmo 30 anos após seu lançamento continua sempre atual e é referência para grande parte dos filmes modernos de ficção científica, que o digam Minority Report, Matrix, A.I. (Inteligência Artificial), O Homem Bicentenário...

 

Você é um replicante? Se você responder SIM em pelo menos 7 das questões abaixo você é! Brincadeira...

1. Você tem memórias da sua infância?
2. Você lembra de já ter visto alguma vez na vida uma aranha?
3. Você acha que a vida passa muito rápido?
4. Você tem vontade de conhecer seu criador?
5. Você já chorou?
6. Você já viu chuva?
7. Você já bateu ou quis bater em alguém?
8. Você tem medo da polícia?
9. Você gosta de origami?
10. Você gosta de brinquedos eletrônicos?
11. Você sente o vento em seu cabelo?
12. Você é do tipo que nao tem empatia por todo mundo?
13. Você acha que nao é um replicante?

por Arthur Paredes

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