Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha


 
  • A Pele que Habito

     

    Criar um ser humano à imagem e semelhança de sua ex-mulher?

    Confesso não ter assistido os filmes de Pedro Almodóvar, mas sei de sua forte reputação. A Pele que Habito foi o primeiro de minha lista, e li por aí que este seu novo trabalho quebra algumas regras de seu próprio estilo. Filmografias à parte, farei então uma análise mais imparcial de seu novo (e perturbador) filme.

    Desde que sua esposa foi queimada em um acidente de carro, o Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas), um iminente cirurgião plástico, interessou-se em criar uma nova pele com a qual ele poderia tê-la salvo. Depois de 12 anos, ele consegue criar uma pele artificial que é um escudo mais forte do que a pele humana original. Robert realiza os testes em uma cobaia humana, Vera (Elena Anaya), que mantém aprisionada em sua casa.

    A Pele que Habito é um filme perturbador, tanto por seu constante clima de frieza e suspense, quanto às várias dúvidas que aos poucos vão sendo respondidas durante a projeção. A fotografia acompanha a obsessão e frieza de Dr. Robert e a forma sádica com que cuida de sua cobaia humana, Vera, ora tratando-a de forma descartável, ora revelando uma atração amorosa.

    Vera possui uma forte semelhança com sua ex-mulher morta em um acidente, o que mostra que, muito além da busca de uma pele artificial humana perfeita, Dr. Robert também busca manter a imagem de sua mulher literalmente viva ao seu lado.

    Sem nenhum pudor em mostrar o corpo nu de Vera (ao contrário de muitas obras hollywoodianas), Almodóvar exibe o corpo da cobaia como uma obra de arte da medicina, um estágio da perfeição humana, uma pele perfeita, um corpo perfeito, porém artificial. Sem apelo sexual, porém com uma forte beleza, quase uma escultura viva.

    E a história, aos poucos, vai se tornando cada vez mais bizarra e doentia, com estranhas ligações entre os personagens, rumo a uma revelação surpreendente. Obviamente não vou revelar muitos detalhes que possam estragar a surpresa, então pularei logo para uma análise mais filosófica do filme.

    Com uma estrutura narrativa em três atos não lineares, Almodóvar explora a artificialidade da beleza em nosso tempo, além da relatividade do sexo no ser humano. Sexo aqui neste contexto, leia-se masculino/feminino. Não adianta criar um corpo da forma que se queira, como para atender sua necessidade doentia de manter a imagem de sua ex-mulher viva, se seu verdadeiro conteúdo é impossível de ser mudado. Dr. Robert acaba se apaixonando por sua cobaia e mantendo-a como sua mulher, apenas iludido por sua aparência física, mas ignorando a verdade de sua origem.

    A busca por uma pele humana melhorada surge de um trauma egoísta, pessoal, mas sendo o meio necessário que beneficiará a todos. O domínio psicológico e o cárcere de sua cobaia ressaltando a relação de poder homem/mulher invertida através de uma assustadora punição para Vera.

    O próprio título do filme carrega sua filosofia: A pele que habito, ou seja, Vera é apenas uma consciência humana que habita um corpo que nem é seu. Habita presa, tanto mentalmente, quanto fisicamente.

    Até o momento da surpreendente revelação o filme continua impecável, porém me surpreendi de forma negativa com seu desfecho final, que no meu caso foi bem previsível e achei bastante simplório. Infelizmente seria um filme irretocável se seu final fosse um pouco mais complexo e explorasse mais a temática polêmica do filme.

    Ah, e se você, depois de saber quem realmente era Vera, começar a ter repúdio de sua relação com Dr. Robert, comece a repensar seus próprios conceitos... 

    P.S.: O nome da atriz coadjuvante é Marisa Paredes. Seria uma parente minha? 

    postado em 29/12/2011 22:18

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  • Melancolia

     

    Simbolismo marcante em uma bela cena do filme

    Segundo o Wikipedia, Melancolia “...é um estado psíquico de depressão sem causa específica. Caracteriza-se pela falta de entusiasmo e predisposição para atividades em geral. É uma das "características" da Depressão Maior. A duração do estado depressivo deve ser superior a dois anos, afetando as funções básicas do dia-a-dia de uma forma considerável."

    A definição encaixa-se perfeitamente no estado depressivo enfrentado nos últimos anos pelo diretor do filme homônimo, Lars Von Trier, que, ao invés de apenas ignorar a vida, aproveita seu talento cinematográfico para expurgar suas angústias através da sétima arte.

    E talvez Melancolia seja a última fase de sua luta contra a depressão. Comparado a seus filmes anteriores, este poderia ser tranquilamente assistido por uma criança de 12 anos. Seu filme anterior, Anticristo, cuja crítica já passou aqui pelo blog, consiste em um sadismo psicológico com fortes cenas de violência e um mergulho complexo no mundo da psicanálise. Já Dançando no Escuro, de 2000, violenta o espectador, colocando a protagonista em uma série de flagelos cada vez mais angustiantes, culminando em um chocante ato final.

    Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). Ela recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que juntamente com seu marido John (Kiefer Sutherland) realiza uma festa suntuosa para a comemoração. Enquanto o planeta se aproxima, Justine começa a agir de forma estranha, entrando em um estado de melancolia profunda. Aos cuidados de sua irmã, a angústia e a incerteza da colisão do planeta com a Terra acaba unindo a família e revelando os conflitos mais internos de seus personagens.

    O filme inicia com 10 minutos de belíssimas imagens em câmera lenta, revelando o destino final de seus personagens, repletas de simbolismos e com uma fotografia impecável, mesmo artifício usado em Anticristo. A partir daí, seguimos com a história filmada em câmera na mão, com cortes secos e som ambiente proporcionando a tensão da expectativa do final já apresentado no ínicio do filme. Um clima tenso que nunca passa do morno, o que torna o filme bem monótono durante seus 130 minutos de projeção.

    Mas isso não tira seu mérito meditativo, repleto de simbolismos ao bom estilo de Lars, abrindo as interpretações para cada espectador. Sem falar na perfeita fotografia mesmo com uma câmera inquieta e a angustiante ideia de um planeta se chocar com o nosso, cuja cena da colisão nos insere dentro do momento apocalíptico. Soma-se a isso o fantástico trabalho dos atores escolhidos pelo critério rigoroso de Lars, com destaque para Kirsten Dunst, cuja atuação lhe concedeu o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cannes.

    A morte é a única certeza que temos na vida. Sabemos que não temos como escapar dela, e quando sentirmos sua aproximação, seja por uma doença, seja pela idade, seremos consumidos por uma angústia, uma melancolia profunda, prevendo o ato final de nossa vida. O planeta Melancolia é uma representação simbólica da morte, que um dia irá consumir a todos sem piedade.

    Justine enfrentou sua angústia conformada. Já Claire, sempre tão controlada e metódica, se desesperou diante da certeza da morte. Em certo momento do filme, Justine tenta cruzar uma ponte andando a cavalo, mas ele para e não consegue atravessá-la. No segundo ato, o mesmo acontece com Claire, quando na fuga com o carrinho de golfe, a bateria acaba e ela também não consegue cruzar a mesma ponte. Uma representação da incapacidade de cada uma de não conseguir transpor obstáculos, superar uma depressão, uma melancolia profunda.

    Assim eu fiz minha interpretação do filme. E você, qual foi sua interpretação?

    postado em 17/08/2011 02:05

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  • Eraserhead

     

    David Lynch é um cineasta nada convencional. É conhecido por filmes que mergulham no abstrato mundo dos sonhos, onde imagens desconexas e enredos fora de ordem entregam a responsabilidade de interpretação totalmente ao espectador. E é isso que faz uma grande experiência assistir a um filme de David Lynch.

    Lynch também é inovador e à frente de seu tempo (o que muitas vezes tornou filmes maravilhosos em fracassos de bilheteria). Aproveitou a revolução da internet como um ótimo veículo de divulgação de seus trabalhos, alguns disponibilizados gratuitamente no site www.davidlynch.com (recomendo o download gratuito do curta metragem Rabbits). Marcou época com a série para TV Twin Peaks, que acabou gerando um longa para cinema e continua sempre envolvido em ótimos projetos, vezes como diretor, produtor e até mesmo ator.

    Sempre ouvia muito falar em seu nome, mas foi no primeiro filme que assisti, Cidade dos Sonhos, que entendi o porquê de sua fama. O impacto do filme foi imediato e logo me fez buscar seus demais trabalhos. Em seguida veio O Homem Elefante, baseado em uma história real famosa, também supreendente principalmente por sua fotografia. Logo após o excelente (e complicado) curta metragem Rabbits e por fim o objeto desta crítica, seu primeiro e marcante trabalho, Eraserhead (1977).

    A sinopse do filme, explica pouca coisa: Eraserhead segue um curto período da vida de Henry Spencer (Jack Nance), um impressor de férias. Henry descobre que sua namorada, Mary X (Charlotte Stewart), deu origem a um deformado e monstruoso bebê. Após um tumultuado e breve período vivendo juntos, Mary Henry deixa o bebê aos cuidados de Henry. Ele tem algumas visões bizarras de uma mulher deformada em seu aquecedor, e um sonho em que a cabeça de Henry é utilizada para fazer lápis borracha. Estas ocorrências levam Henry cometer um ato dramático.

    Filmando em preto e branco, Lynch quase não conseguiu concluir o filme, teve de usar dinheiro de amigos e familiares, e demorou quase cinco anos para terminar todas as tomadas. Vale ressaltar que na época em que escrevia o roteiro, sua esposa engravidou de seu primeiro filho, o que influencia claramente na interpretação geral do filme.

    É muito arriscado buscar uma interpretação fechada para o filme, visto que é muito rico em mensagens subliminares e bizarras cenas que aparentemente parecem desconexas e sem o menor sentido. E é isso que torna Eraserhead um mergulho profundo e fascinante em um universo que parece ter sido retirado diretamente do último pesadelo da mente de Lynch.

    Tendo em mente o fato de que Lynch estava para ter seu primeiro filho ao escrever o roteiro e enxergando por uma ótica Freudiana, as coisas parecem fazer mais sentido (se é que isso seja necessário) e tudo acaba se revelando surpreendente: a forma como ele expõe os elementos do inconsciente da mente humana, seus medos, suas angústias, seus desejos através de cenas e elementos bizarros e sinistros. É como assistir um pesadelo ao vivo diretamente dentro da mente do protagonista Henry.

    Lembrando que Lynch sempre prefere entregar a interpretação de seus filmes ao próprio espectador, evitando explicações prontas, logo o que entendi do filme é estritamente pessoal, mas acabei encontrando outras pessoas pela internet que fizeram interpretações semelhantes. O filme parece girar em torno do medo de uma gravidez indesejada (representada por um bebê medonho) e os medos e angústias de um homem abandonado pela esposa, com um casamento forçado pela situação e sua prisão à obrigação de cuidar de seu filho e abrir mão de sua vida normal e seus desejos com outras mulheres.

    Uma das cenas mais bizarras do filme, mostra a cabeça de Henry sendo transformada em um lápis com borracha em uma fábrica. O suficiente para você dizer “esse filme surtou”, mas que tem uma possível explicação: depois que Henry enlouquece a ponto de sua cabeça literalmente cair, a cena mostra o desejo reprimido de Henry corrigir seu erro (borracha), como um desejo de apagar de sua mente seus problemas.

    Em diversos pontos do filme podemos também ver alusões ao seu yin-yang, sua consciência em conflito representada pela bizarra mulher dançarina em seu aquecedor. Ao final, Henry mata seu bebê representando sua libertação, onde um lado de sua consciência finaliza com uma frase marcante: “No Paraíso tudo é bom”. Também existe uma figura intrigante e bizarra que aparece no começo e no fim do filme que entendo como sendo uma representação de seu erro que gerou a criança (através de diversos elementos no filme que sugerem espermatozoides e fecundação) e que ao fim é morto junto com o bebê, sugerindo a libertação também de sua angústia.

    Eraserhead é um mergulho na mente humana que explora desejos, culpas, medos, perdas, loucura, embalada por uma trilha macabra e angustiante. Tudo para que o espectador o entenda e o interprete de acordo com seus próprios sentimentos. Não é um filme para ser apenas entendido, mas para ser sentido. E o fato de se chegar a uma possível explicação final para o filme não anula em nada a experiência única e marcante de assistir a uma obra tão ousada, misteriosa e inesquecível. Isso é David Lynch! Assista (mais de uma vez), tire suas próprias conclusões e comente aqui no blog. 

    postado em 07/03/2011 19:12

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  • Tropa de Elite 2

     

    O primeiro filme Tropa de Elite (2007), agregou à nossa cultura bordões como: 'Pede pra sair', 'Tu é muleque', dentre outros. Abordou o treinamento intensivo e brutal das máquinas de matar do BOPE, onde o Capitão Nascimento foi visto (por muitos) como uma figura heróica, comandante de uma guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro, enquanto lutava contra seus conflitos pessoais.

    Os 'vilões' da história eram os traficantes, enquanto os policiais do BOPE, com sua violência fria e truculenta, eram os soldados mocinhos desta guerra. Porém para bom entendedor, percebia-se a crítica implícita à eficiência de toda essa violência no combate à violência civil e o quanto a sociedade precisa desta mesma violência para tratar o problema.

    O primeiro filme também mostrava que, ironicamente, a classe média e alta que mais protesta contra os índices de violência, é, talvez, a que mais alimenta o sistema do tráfico, com os playboyzinhos que compram o mesmo produto causador de suas hipócritas reclamações. Pra piorar, os baixíssimos salários dos policiais contribuem para a ineficiência e consequente corrupção da Polícia Militar, deixando o trabalho para o BOPE, que no próprio filme é mostrado como a 'polícia da polícia'.

    Nesta continuação, do mesmo diretor, José Padilha, percebemos claramente um amadurecimento das ideias políticas propostas pelo roteirista Bráulio Mantovani, que mostra que na verdade os inimigos não são diretamente os traficantes das favelas, mas que há um sistema muito mais complexo por trás de tudo isso, cuja engrenagem motriz é a política.

    Agora temos o coronel Nascimento (Wagner Moura) enfrentando, como aponta o subtítulo do projeto, outro inimigo: a política. Depois de comandar uma operação mal sucedida em Bangu I que resulta num massacre, Nascimento se torna um problema para o governador do Rio de Janeiro: por um lado, é exonerado para aplacar a mídia; por outro, é promovido a subsecretário de segurança (como o personagem fala, 'Cair pra cima'). Depois de aparelhar o BOPE e transformá-lo numa verdadeira máquina de guerra, o coronel interrompe o tráfico na cidade, mas, sem saber, propicia a ascensão de uma milícia nascida dentro da PM que, explorando a falta de poder do Estado, aterroriza as favelas para extorquir seus habitantes, transformando-as também em autênticos currais eleitorais. Sem perceber o que está acontecendo, Nascimento se vê atormentado por problemas pessoais e pela pressão exercida por um político de esquerda, o deputado Fraga (Irandhir Santos), cuja visão idealista acerca dos direitos humanos frequentemente gera embaraços para a polícia.

    Assistindo o filme, não pude deixar de lembrar um documentário que assisti a um tempo chamado Manda Bala (Send A Bullet). Ganhador de vários prêmios, inclusive o Grande Prêmio do Juri em Sundance e que mesmo assim não permitiram que fosse exibido nos cinemas brasileiros, caindo na obscuridade. O documentário produzido por americanos (dirigido por Jason Kohn) e filmado em São Paulo mostrava a clara relação entre a corrupção política (ilustrada com ex-presidente do Senado Jáder Barbalho) e a problemática da violência, mais especificamente uma de suas mais assustadoras consequências: o sequestro.

    E Tropa de Elite 2 segue a mesma linha de pensamento do documentário, porém de forma mais abrangente, complexa e de quebra com muita ação. Um filme inteligente, ácido, provocante, ousado, cru e intenso. O filme é conduzido como uma ficção (sua frase de início deixa isso bem claro, porém de forma irônica), mas que sabemos perfeitamente que é mais real do que gostaríamos que fosse. Tão real que é impossível não comparar o apresentador de televisão hipócrita e populista que usa isso para conquistar seu cargo político e está envolvido em toda a sujeira que tanto critica, usando a mídia como instrumento de seus interesses (em nosso próprio estado temos vários exemplos...).

    Padilha também consegue incrivelmente mostrar a situação por diversos pontos de vista, mesmo tendo um protagonista como narrador da história. Inclusive o ponto de vista dos próprios políticos e bandidos, oferecendo mais argumentos para uma análise crítica aprofundada. E do ponto de vista do protagonista, o Coronel Nascimento, acompanhamos seu drama pessoal, sendo engessado pela burocracia do alto escalão, sua revolta em querer resolver o problema e ver que seus inimigos estão ao seu lado, e pra piorar, seus problemas de relacionamento com seu filho que o considera uma pessoa truculenta e o compara o tempo todo com seu padrasto, que pensa de forma oposta, sempre preocupado com os Direitos Humanos o que irrita mais ainda Nascimento.

    Do ponto de vista técnico, Tropa de Elite 2 não deixa nada a desejar e dá uma grande lição de como produzir um filme sem efeitos especiais em computador, com uma fotografia crua e urgente, uma excelente direção, som, montagem, direção de arte e interpretação de seus personagens. Sem eufemismos e frases bonitas (no início do filme Nascimento ironiza esse clichê com uma ótima frase), pelo contrário, uma linguagem fria e cotidiana .

    Um conjunto de minúcias que eleva o filme a um patamar conceitual nunca antes alcançado pelo cinema brasileiro, e indo de encontro ao patriotismo irracional americano, Tropa de Elite mostra tudo de forma clara e ácida, rasgando a barriga e mostrando as entranhas do problema sem o frequente medo de empresários ou dos grandes estúdios produtores de filmes que interferem no resultado final. Ainda por cima, consegue manter um ritmo incansável e com humor na dose certa.

    Tropa de Elite 2 é um filme obrigatório para todo brasileiro (assim como os documentários Manda Bala e outro muito bom sobre o Pré-Sal, O Petróleo é Nosso), principalmente para aqueles que vivem criticando o governo, mas sempre esquecem que os políticos só estão lá por nossa culpa. E quem prestar bem atenção perceberá a crítica direta de Padilha que mostra o Governador do Rio sendo reeleito pelo povo e como isso é feito junto à manipulação da mídia e as famosas queimas de arquivo.

    Há momentos no filme em que o Coronel Nascimento incorpora cada um de nós brasileiros revoltados, e nos dá um breve momento de expurgação, vezes espancando um Governador corrupto, vezes denunciando abertamente todos os envolvidos no sistema. Infelizmente, ao contrário do resultado no filme, na vida real esses mesmos políticos não tem o mesmo destino que gostaríamos. E talvez nesse ponto Padilha nos dê outra lição, a da esperança; de que é possível continuar sendo honesto e íntegro e algum dia conseguir mudar o sistema, o verdadeiro inimigo da sociedade.

    Na sala de cinema que assisti as pessoas aplaudiram muito ao término do filme. Mas acho que ao invés de aplaudir, as pessoas deveriam permanecer em silêncio para refletir. Refletir bastante, principalmente pela nossa própria culpa em tudo isso...  

    postado em 11/10/2010 12:35

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  • Alice no País das Maravilhas

     

    A primeira impressão que tive ao assistir a versão cinematográfica de Alice no País das Maravilhas foi a de que Hollywood está ficando preguiçosa, tanto nos roteiros, quanto na parte técnica. E esta versão do clássico livro de Lewis Carroll dirigida por Tim Burton demonstra exatamente esta triste fase do cinema.

    Enquanto nos maravilhamos com as novas tecnologias de som, imagem em alta resolução, três dimensões, dentre outras, esquecemos da essência de um filme, o que o faz ser uma obra justificável da sétima arte, uma forma de entretenimento que nos envolva magicamente em sua história com seus elementos visuais complementares.

    Estamos vivendo a fase do 3D. Qualquer filme hoje, para ter apelo comercial, precisa ser em três dimensões. Concordo com as palavras proferidas por James Cameron em uma entrevista à Revista VEJA que disse que o futuro do cinema é o 3D, já que o ser humano enxerga em três dimensões, e não plano, logo o natural é que o 3D ganhe facilmente o seu espaço.

    A diferença é que Cameron tem autoridade máxima para falar isso, visto que ele foi o criador da verdadeira tecnologia 3D em Avatar. Ao mesmo tempo em que, quando assistimos Avatar em 3D ou não, vemos um filme natural que não precisa conter o tempo todo a mensagem embutida: 'Olhe! Este filme é 3D! Agora vou jogar algo em sua direção para você perceber'.

    E este é o triste caminho seguido por Alice durante toda a projeção. E o pior: todo o filme aparenta ter sido conduzido apenas com o intuito de explorar (ingenuamente) a tecnologia 3D, esquecendo de um bom roteiro e de uma boa dinâmica, tornando o filme bastante enfadonho, tanto para crianças, quanto para adultos.

    E para piorar mais ainda, ficou bem claro o quanto Tim Burton está se entregando ao submundo comercial de Hollywood. Posso até imaginar o momento em que a Disney o convida para dirigir um novo filme de Alice: 'Tim, queremos produzir uma versão em carne e osso do livro Alice no País das Maravilhas, e acreditamos que você é o diretor perfeito para tal filme já que o livro tem um apelo sombrio e subliminar. Só que também precisamos atingir as crianças, visto que lucraremos muito com produtos relacionados ao filme, mas também temos que encantar os adultos. E tudo isso tem que ser em 3D!'.

    O resultado claro é um filme sem foco algum, nem para crianças, nem para adultos, nem para qualquer outro público. Além disso temos o roteiro escrito por Linda Woolverton (O Rei Leão) que misturou a história dos dois livros de Alice, acrescentou os pobres elementos da moda como Harry Potter e finalizou com uma pitada de Hook – A Volta do Capitão Gancho, o que resultou em um roteiro fraco, perdendo a grande oportunidade de aprofundar-se no complexo mundo psicológico de Alice. Burton poderia aprender bastante com Onde Vivem os Monstros, que, na minha opinião, deveria ter sido o caminho seguido neste filme.

    Antes de Alice ser lançado, criei muitas expectativas quando soube que era dirigido por Tim Burton. Achei que ele seguiria o caminho de Edward - Mãos de Tesoura e aprofundasse de forma inteligente nos elementos subliminares e simbólicos da complexa história original de Alice no País das Maravilhas. Com certeza teríamos um novo marco em Hollywood. Alice seria um filme com um bom apelo comercial (que obviamente a Disney não deixaria passar batido) mas também encantasse com a tecnologia 3D e fosse sustentado em um roteiro muito intenso que explorasse a fundo cada personagem da trama, o que para mim é o grande trunfo da idéia.

    Só que Burton já havia mostrado sinais de fraqueza com os mesmos erros cometidos em A Fantástica Fábrica de Chocolate que ainda conseguiu se sair melhor que Alice. Sem falar na chata insistência de escalar sempre Johnny Depp em seus filmes, o que já se tornou pleonasmo quando se fala em filmes de Tim Burton. Porém quem acaba ganhando a cena em termos de interpretação é Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha) que incorporou de forma excelente uma personagem que age impulsionada por seus próprios defeitos, refletindo toda a falsidade ao seu redor. Enquanto isso Johnny Depp se torna uma figura pálida e claramente forçada na tentativa de interpretar um chapeleiro maluco.

    E o que falar da protagonista Alice? Esperava ser supreendido pela atriz novata Mia Wasikowska, que não conseguiu abraçar nem um pouco a complexidade de sua personagem, onde, junto aos graves defeitos de planos do diretor, sempre aparece de forma repetitiva e sem nenhuma força de atuação. Por falar em planos (fotografia), fiquei muito surpreso ao ver a total falta de criatividade de Burton chegando ao extremo de repetir duas panorâmicas seguidas na cena em que o cachorro está correndo em direção ao castelo.

    Com tantos defeitos, resta somente sentar e curtir a ilusão do 3D que no caso de Alice se torna repetitiva e cansativa, além de percebermos claramente o amadorismo do diretor junto à tecnologia com um 3D artificial feito durante a pós-produção, ao contrário de Avatar que foi filmado já com a tecnologia. Só o que nos resta então é curtir o colorido do filme e a fraca computação gráfica que domina o filme e nos faz sentir saudades do tempo em que Hollywood ainda se dava ao trabalho de produzir maquetes e objetos reais para melhorar a verossimilhança do cinema.

    postado em 25/04/2010 10:46

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  • Onde Vivem os Monstros

     

    Spike Jonze é admirável por conseguir equilibrar filmes que consigam ser comerciais mas ao mesmo tempo reflitam sua livre visão nada convencional, resultando em filmes esquisitos porém muito interessantes como Quero Ser John Malkovich e Adaptação. Talvez com o intuito de colocar em prática seu estudo do bizarro comportamento humano, Jonze também foi co-criador e produtor da série de TV Jackass.

    Em Onde Vivem os Monstros, Jonze conseguiu uma proeza mais admirável ainda. Transformar pouco mais de dez frases do livro no qual é baseado (escrito há quase 50 anos por Maurice Sendak) em um longa profundo e que nos dá uma visão nunca antes vista no cinema da mente de uma criança, através de seu personagem principal, Max.

    Max é uma criança comum: na escola, brinca com os colegas; em casa, busca a atenção da mãe e da irmã e, quando falha em consegui-la, se sente frustrado. Tem medo e chora ao ser soterrado num banco de neve depois de uma brincadeira. Ao ser repreendido pela mãe, reage de maneira impulsiva, machucando-a, arrependendo-se imediatamente do que fez. Sem compreender a melancolia e a seriedade do mundo adulto, ele constantemente se volta para seu rico universo interior, usando a imaginação não apenas para se divertir, mas também para fugir daquilo que o incomoda. A partir daí, Max foge de casa e refugia em sua imaginação em uma ilha com imensos monstros peludos.

    E o filme é tudo menos o que aparenta ser: um filme infantil com monstros assustadores. Eu realmente não recomendaria que crianças o assistissem. O filme acaba revelando-se uma profunda análise psicológica do comportamento infantil, seus medos, suas dúvidas e seus conflitos em relação ao conturbado mundo dos adultos.

    Ambientado em um clima opaco, triste, pouco iluminado e muito pouco colorido, prezando por tons de cinza e ocre, com monstros que à primeira vista parecem assustadores mas que ao longo da projeção revelam-se cativantes e confusos, Jonze consegue que mergulhemos na imaginação de Max com uma fantástica direção de arte que traduz o ar de melancolia e confusão de sua mente.

    Aos poucos percebemos que cada monstro na verdade reflete um traço específico de sua personalidade, Max acaba se envolvendo em problemas com cada um deles e tenta fugir daquele que aparentemente reflete o seu pior traço pessoal, ironicamente o mesmo que o levou a fugir de casa: a insegurança e carência de atenção. Vemos então Max tendo que enfrentar seus próprios problemas pessoais personificados nos monstros criados em sua imaginação.

    A partir daí o filme começa a se tornar perturbador, sombrio e ao mesmo tempo belo e cativante, por sua naturalidade, com monstros realistas (construídos com o misto de atores fantasiados e computação gráfica para as expressões faciais) fugindo da artificialidade e revelando claramente a personalidade de cada um, tudo embalado com uma exótica e maravilhosa trilha sonora.

    Onde Vivem os Monstros nos faz voltar ao que sentíamos na infância e a analisar o comportamento humano em sua fase mais conturbada, mostrando, ao mesmo tempo, a relação dos pais com seus filhos em uma sociedade tão voltada para o lado material. Max ao fugir de casa, refugia-se em seu mundo particular para conhecer e enfrentar seus próprios problemas tudo dentro de sua imaginação. Ou será que não? ...

    postado em 26/02/2010 00:00

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