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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 06/06/2018 10:05

O Brasil, sua ganância, a greve...

E a insaciabilidade por impostos e outros expedientes para extorquir o cidadão e as empresas, além de demonstrar uma escancarada insensibilidade que se agrava com uma crônica miopia que não consegue enxergar além do umbigo. Perceber providências que reclamará o futuro, não é um dom de vidente, mas evidencia a mais importante característica de um bom administrador, produto que por sinal deve fazer parte, com urgência, da nossa pauta de importação.

Até pouco tempo atrás, na nossa santa ignorância, ficávamos a nos perguntar por que o Brasil tem os combustíveis mais caros da América do Sul, mesmo em países que não produzem petróleo, como o Paraguai. Só recentemente, por incrível que pareça, soubemos o porquê. Nada mais, nada menos que uma aparente escadaria da igreja da penha na qual cada degrau representa um imposto e outros penduricalhos que elevam seus preços às nuvens. Tem sentido tamanha insensatez? O Paraguai vende gasolina mais barato do que o Brasil, que o vende. Não bastasse esse absurdo do imposto cavalar, é de se ressalvar que somos autossuficientes na produção de petróleo, vendemos petróleo e compramos petróleo. Como entender, nós que somos leigos, essa triangulação infernal?

Não há necessidade de fazermos mágica. A certeza que temos é que não dispomos de senso administrativo. Com essa deficiência, seja qual for a área, pública, empresarial, familiar e mesmo individual, dinheiro nenhum será suficiente para sobrar ou fechar qualquer orçamento. Eis porque, afirmamos sem receio, se o Brasil arrecadasse três vezes mais do que arrecada hoje, sua situação não seria diferente. Gastamos nababescamente de forma irresponsável. O que fazer? Buscar o caminho mais fácil, o milagre dos impostos, da mesma forma como se comportam os farristas que vê nos mesmos a maneira mais cômoda para financiar suas orgias.

No que diz respeito à greve dos caminhoneiros, pretendemos fazer duas observações. Começaremos com Pedro Parente, presidente da Petrobrás, que tem se comportado como um robô, obedecendo, ao pé da letra, o programa traçado para recuperar financeiramente a empresa e, como consequência, sua imagem e credibilidade financeira. Sua política de preços dos combustíveis atrelados ao dólar e ao preço internacional do barril, alterando quase diariamente, pouco importa aos interesses dos que têm veículos movidos aos combustíveis fósseis. Despido de emoção, pouco lhe importa o nervosismo dos consumidores com repetidos aumentos. As pessoas são seres chatos e que só sabem reclamar. Outrossim, é bom que as pessoas se deem conta de que a Petrobrás é superior ao Brasil. Enfim, pelo parente, um robô nota dez e zero como ser humano, é completamente insensível aos reclames da sociedade. Assim, como máquina, como iria entender que a economia do Brasil depende, em grande parte, do transporte por caminhão?

A segunda observação diz respeito à greve dos caminhoneiros. Há uma unanimidade favorável à mesma. Por outro lado, discordamos da forma como se desenrolou, quase por um exagerado radicalismo, penalizando setores da saúde, inadmissível, gêneros alimentícios perecíveis e um enorme prejuízo nos diversos setores da economia. Por que não foi liberado o mínimo exigido por lei, trinta por cento? Com setenta por cento dos caminhões parados, não há a menor dúvida de que seriam plenamente atendidas suas reivindicações.

Não basta ter razão para justificar um movimento sem ter uma visão geral. Assim pensamos e achamos, até do ponto de vista da democracia, a de prevalecer, seja quais forem os meios e consequência para isso, a vontade da maioria.
 

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Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior

Jornalista e professor brasileiro que vive em Berlim desde 2017

Postado em 21/05/2018 15:53

A experiência de lidar com mortes e perdas quando se vive longe

Enio Moraes Júnior
A experiência de lidar com mortes e perdas quando se vive longe
Apesar da distância geográfica, as raízes vivem e sobrevivem em nossas memórias

Dois episódios, ocorridos entre o final de abril e o começo de maio, me fizeram parar para pensar em coisas que não costumam ocupar minha mente, que anda em clima de festa com a chegada do sol em Berlim, depois de seis meses de frio. A morte de um tio, com quem, embora eu tenha convivido muito pouco, era uma das pessoas mais doces que povoavam minhas lembranças, e o incêndio de um prédio no centro de São Paulo, cidade que meu coração insiste em dizer que é minha.

Confesso que lidar com estes dois fatos, ocorridos no Brasil, morando em Berlim, não foi fácil. Para cada um deles, uma noite de insônia, um sentimento de vazio e de saudade, que me deixaram com o coração apertado.

Já havia alguns anos que eu não via o meu tio Dudu. Um homem simples, extremamente amável, casado com uma mulher de iguais características, Conceição, e pai de filhos adultos. Convivi pouco com este tio, que a vida toda morou em Penedo, Alagoas, onde eu nasci e de onde, há mais de 30 anos, eu saí. Fui morar em Aracaju, depois em Maceió, até chegar a São Paulo e então mudar para Berlim.

Uma lembrança, em especial, me ligava a este tio. “Juninho”. Era assim que a maioria das pessoas da família me chamava na minha infância em Penedo, mas esta palavra, na voz de Dudu, soava diferente. Tenho a impressão que, ao se referir a mim, este tio carregava na voz um enorme carinho. Marcas de um homem simples que dá valor aos seus e que cuida de quem precisa de cuidados, como da criança que eu era naquele tempo.

21 de abril. Quando eu soube que Dudu havia falecido, era um sábado à noite em Berlim. 22 horas. Uma prima, Valéria, que mora na Dinamarca, me contou. Calculei a hora no Brasil e pensei em ligar para o meu pai, irmão de Dudu. Seriam 17 horas. Não liguei. O fuso horário estava me incomodando. Eu pretendia falar com meu pai para relaxar um pouco e tentar dormir. Mas achei que isto não surtiria o mesmo efeito para ele. Decidi deixar para fazer isso no outro dia.

Esta foi a primeira dificuldade que senti para lidar com uma perda quando se está tão longe. A distância não é apenas geográfica. Ela é também do tempo, do relógio. Mas depois eu percebi que a distância é também da memória. E memória é algo que não se perde. Fica para sempre no coração. Assim, cada perda – especialmente aquelas de quem você conviveu há muito tempo – faz você revisitar um passado distante e morrer de saudade de um tempo, de momentos.

Desolação. Foi assim que descrevi meu estado de espírito para a minha prima da Dinamarca. Acho que ela concordou comigo.

Aprender a conviver

1º. de maio. O Dia do Trabalho é um dia de festa em Berlim. Logo cedo, a notícia de um incêndio em um edifício de 26 andares, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, me deixou imensamente triste. Não fui à festa das ruas, fiquei em casa.

Eu ainda não sabia direito o que estava acontecendo e fui ler a respeito. Novamente, o tempo do relógio me deixou perdido. Entretanto, o que mais me incomodou foi outra sensação. Se eu estivesse em São Paulo, aquela cidade que amo, onde vivi durante 15 anos, talvez eu tivesse conseguido segurar aquele rapaz que caiu e morreu quando o edifício em chamas desabou. Quem sabe, eu teria até evitado que o incêndio começasse, caso eu estivesse em São Paulo...

Claro que nada disso faz sentido, mas era um sentimento novo que eu experimentava. Impotência, densamente ampliada por um oceano de distância. Nas redes sociais, minha amiga Luiza convidava os amigos a doarem roupas, mantimentos e a ajudar os desabrigados do incêndio no que fosse preciso. De Berlim, naquele momento, eu não podia fazer nada.

Os dois episódios me roubaram, cada um, uma noite de sono. E me trazem muitos momentos de perplexidade no dia a dia. “A parte boa, é que a gente aprende a conviver com isso. A parte ruim, é que a gente aprende a conviver com isso”. Foi o que disse minha prima, Valéria, com a experiência de quem há muitos anos vive longe do Brasil e para quem algumas pessoas e lugares devem ser uma memória antiga, mas intacta.

“Aprender a conviver” é a forma possível de lidar com mortes e perdas quando se está distante. Em Berlim, escrevo para o site Berlinda histórias de estrangeiros que vivem na cidade. Eles relatam que, vez por outra, também são tocados por uma sensação de desolação e de impotência frente ao que acontece às suas raízes, aos seus.

Lidar com esses sentimentos não é fácil. Mas é necessário. É natural que seja assim para quem deixou um passado de boas lembranças, povoado por pessoas, cidades e histórias. Estes dois episódios me permitiram entender com clareza que o passado nos visita porque ele é memória, porque ele é o que nós somos. Assim, ele sempre será presente e será também futuro. Cuidemos dele onde quer que estejamos.

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro que vive em Berlim desde 2017. Na capital alemã, trabalha com produção de conteúdo online e escreve sobre estrangeiros que povoam as ruas da cidade ([email protected]).
 

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  • Joseilda Pereira Sobral Texto brilhante! Carregado de toda emoção que é possível se ter quando se visita um passado de boas lembranças. Ênio Moraes Junior, nesse sincero texto, resgatou as suas memórias de uma maravilhosa infância em Penedo, e arrebatou a nossa alma, sentimentalmente enlevada pelo seu brilhantismo.
  • TEREZA SANTOS É temos é com sabedoria supear as Perdas e Mortes e por conseguinte aprendermos a viver todos os momentos como se fosse único. Já se faz tempo de não perder tempo e não se perder no tempo e abraçar, beijar e dizer Eu Te Amo, porque o amanhã a Deus pertence. Vivendo intensamente cada momento.
  • Ênio Moraes Parabéns Juninho. Seu artigo está belíssimo. Com relação ao meu irmão Dudu, levou-me à emoção e tornei mais ainda seu admirador. Mais uma vez quero agradecer a gentileza e a vida continua.
  • Enio Moraes Parabéns "Juninho". MUITO bonito o seu artigo publicado neste neste jornal. . Com relação ao meu irmão Dudu, fiquei emocionado com a sua descrição. Uma maneira habilidosa e inteligente o que vem reforçar minha admiração pela sua capacidade de escrever. Agradeço pelo seu talento indiscutível .
João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 16/05/2018 09:31

Uma Rude e Indiscreta Confissão

Saber que a velhice um dia chegará, teoricamente aceitável na juventude, é uma coisa, mas frente à sua realidade, é difícil aturá-la e suportar seus achaques, um tremendo e insuportável fardo. É bem provável, admito, que tudo foi feito pelo Criador dentro de uma estratégia para harmonizar conflitos existenciais. Seria possível imaginar que o deixasse de ter apego pela vida se continuasse em toda sua decrepitude, sem sofrimento e conhecidas limitações, a gozar os prazeres da juventude? Seria melhor a partida, cheia de inconformismo e revolta. Seria irreal porque iria de encontro à lei natural dos opostos, no caso, juventude e velhice. Se na primeira prevalece o hedonismo, os prazeres da vida, na outra dá-se o enfraquecimento, chegando à completa atenuação dos mesmos.

Em linhas gerais, foi esse o pensamento inicial que consegui sintetizar à presente confissão feita pelo ilustre Cantídio, falecido há cinco anos atrás, aos setenta e seis anos. Fez, pouco antes de morrer, em uma de nossas habituais conversas em seu sítio de tantas churrascadas. Amigos diversos com suas mulheres e filhos faziam parte das mesmas. De vez em quando, em data especial, com a presença de violão, outros instrumentos e improvisados cantores, tornavam-se mais divertidas.

Transcorrida metade da festa, cabeça incrementada pelo álcool, Cantídio puxou-me pelo braço para nos sentarmos um tanto afastados dos demais. Foi sua ultima conversa interessante. Tinha ideia do que queria comentar em razão de seu persistente olhar em direção de uma bela jovem em torno de uns dezessete anos, uma formosura a encantar e sobressair-se entre as demais. Existiam outras também bonitas, independente da natureza do velho em achar toda jovem bela e atraente.

Não sei, continuou, o que você pensa ou sente, já que na mesma faixa etária, ao ver tantas garotas cheias de vida e beleza. Certamente uma rápida volta ao passado e o inconformismo face a impossibilidade de tê-lo de volta. Fico assanhado, como de fato estou, mas tenho dúvida, se fosse possível ter aquela beldade numa cama se conseguiria, com toda imaginável fantasia, consumar o embate amoroso. Acho que conseguiria. Uma beleza daquela ressuscita qualquer defunto. Dúvida à parte, o que tenho vivido, com o franco declínio da libido, é a encenação de investidas a me enganar, permitindo o início, chegar ao meio é uma difícil conclusão. É realmente desolador que enquanto a gente aprecia aquelas belezas infernalmente apetitosas, estamos a sofrer a maldição do tempo que tudo nos tira do que é mais belo e importante. Aleijões e deficiências mil pulam sobre nossa carcaça. Olho-me diante do espelho e vejo um rosto com algumas pregas, um corpo flácido, cheio de manchas e outros sinais de mau gosto para torna-lo cada vez mais feio e horripilante. O curioso é que suporto essa transformação para a fealdade. O mesmo não acontecia quando observava a minha mulher (que Deus a tenha no céu), revendo o seu passado, bonita e atraente, posteriormente transformada pelo avesso, a tal ponto que quando trocava de roupa preferia torcer o rosto, sendo tomado por um sentimento misto de hilaridade e comiseração. Lembrava-me do início das nossas aventuras amorosas e da minha incontida ansiedade para despi-la e abraça-la numa verdadeira explosão de inebriante jogo amoroso. Bons tempos!

E o tempo passa e ficamos reduzidos às boas lembranças. O outrora campeão e suas aventuras amorosas sexuais não mais existem. O erotismo desapareceu a tal ponto que quase não existe disposição ou tentativa de atiça-lo. Tenho certeza, no entanto, que um longo inverno peniano pode ter o deslumbre de uma linda primavera com aquele pecado de mulher. Ah as mulheres, meu amigo! No passado faziam um morada permanente em minha cabeça, enxergando-as apenas pela ótica libidinosa. Essa limitação em assim vê-las sempre impediu que a minha imaginação fosse capaz de pôr no mais alto pedestal uma mulher bonita e sedutora numa altura acima da cama. Reconheço que é uma visão animalesca, mas, infelizmente, animalescamente verdadeira. Não me lembro, mesmo na fase romântica da juventude, ter existido em mim aquele toque de inocência e doçura que empresta todo encanto e lirismo de uma paixão amorosa. Parece que em meu peito sempre pulsou um coração adusto e ressequido por razões que desconheço. Minhas manifestações de carinho, afeto e ternura surgiram somente para a conquista da relação amorosa. Eram puramente interesseiras e submissas à cupidez pelo sexo. Não tinham a pureza de uma nascente de águas límpidas e cristalinas, mas de uma fonte de águas turvas e contaminadas pelo instinto animalesco.

Embora tivesse continuando no seu imprevisto e improvisado discurso sem censura íntima, instigado pelo álcool, preferi ficar com o presente resumo. Foi, sem dúvida, a mais inesperada confissão, bem mais apropriada ao desabafo de um touro a lamentar, cheio de nostalgia, o ocaso de suas funções reprodutivas.
 

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 25/04/2018 08:46

Penedo: Compensando As Obras do Sem Fim

Não pretendemos ser cansativos a propósito das obras do sem há muito em andamento no centro da cidade. Pelo que vemos, no entanto, o coração fraqueja e prontifica-se a remir esse pecado. Isto porque, não temos dúvidas, algumas inovações em andamento estão dando ares de civilidade à velha Penedo. Inicialmente, fazemos referência a algumas ruas das feiras que lembravam cidades medievais ou cidades e vilas africanas do mais baixo nível sócio-econômico. Padronizadas eram uma providência há muito reclamada, esperando-se a conclusão das demais ruas, Sabino Romariz e uma ao lado do pavilhão da farinha, a mais degradante paisagem, infelizmente já demolidas as barracas.

Insistimos em dizer que quem transita diariamente pelo centro e assiste ao trabalho dos operários, fica estarrecido com o término de uma obra e pouco tempo depois assiste ao desmanche. Se não estivessem sendo remunerados, diríamos que estavam a sofrer o mesmo castigo do mitológico Sísifo. São obras incompletas por falta de antecipadas providencias que mais tarde vemos incorporadas às mesmas, tais como encanamento e fiação de natureza diversas. Quanto ao calçamento, é uma tristeza falar dos mesmos. São impertinentes e surgem a todo momento, especialmente no inverno. Um buraco é tapado e logo em seguida o mesmo e outros são abertos, obrigando-no, às vezes, a imaginar que temos um solo movediço ou os trabalhadores que atuam na área são irresponsáveis ou incompetentes. São um cri-cri para as administrações.

A segunda observação que nos deixou empolgados foi o plantio de árvores no calçadão, ponto de vista que sempre defendemos. Parabéns! Arborização, afirmamos com toda a ênfase, é uma iniciativa que se pode pecar por excesso. Além de embelezar, proporciona uma temperatura mais amena, reduzindo o desconforto dos dias mais escaldantes. Até uma miserável favela passa a ganhar mais simpatia, podendo, sem dúvida, inspirar à sua população a remodelar suas casas, tornando-as humanamente mais dignas e acolhedoras. Basta que alguém tome a iniciativa de construir uma casa mais bonita e atraente em relação às demais. Logo a sadia inveja impulsiona os demais a fazerem o mesmo. É um fenômeno real, facilmente observável.

Arborize-se, sem discriminação onde for possível fazê-la, até mesmo no Camartelo, numa visão de igualdade entre as artérias mais importantes e as que sofrem uma situação de penúria. Arborização é tudo, é o indispensável oxigênio que ajuda a cidade a respirá-lo com mais pureza, dando-lhe um ar de elegante civilidade e aprazível beleza.

Em síntese, Penedo está a se renovar. E como outras obras estão em andamento, certamente passaremos a chama-la de Penedo, a velha irreconhecível.
 

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 06/04/2018 09:01

Um Brasil adaptado à esculhambação

Quando nos encontramos à deriva no meio da imensidão do mar e vemos uma tábua de salvação, mas que não passa de uma miragem, perdemos todo o otimismo e nos entregamos, aflitos e sem a mínima esperança, não nos resta outra alternativa senão esperarmos pelo fatal destino. Assim, no que diz respeito à qualidade dos três poderes que nos governam encontramo-nos como ébrios, perdidos e sem destino.

Somos um país e como tal, formados por grupos dissidentes com as mais variadas crenças, pensamentos e opiniões, requerendo, como as demais nações, de uma divisão de poderes e um aparato de leis para a solução dos conflitos. E como classificar nossas leis? Belas! Belíssimas, mas de eficácia ordinária. Qual a razão desse desastre? É porque admiramos a eloquência, o brilho teórico dos grandes ideais que, numa cômica ironia, pesa-nos realizá-los por estarem além das nossas possibilidades, vitimadas pela enfermidade ética que acomete expressivo número de brasileiros. As leis, por si só, não fazem milagres.

Quando acima nos referimos a tábua de salvação estávamos, como sempre, acreditando na santa inocência, na capacidade e lisura do poder judiciário como o único capaz de nos tirar da impureza moral que habita na consciência de milhões. Com um pequeno alento assistimos, depois do mensalão, a Lava-Jato empreender a maior caça aos corruptos independentemente do cargo político ou situação econômica, fato nunca visto. Apesar desse promissor despertar, não podemos acreditar na sua integridade, tão sujo quanto os dois outros poderes. Impossível, pela proximidade, não se deixar sujar como puleiro de galinha.

Como exemplo do nosso desapontamento causou-nos uma enorme decepção a alegação do juiz Bretas, titular dos processos de Lava-Jato no Rio de Janeiro, que não deixa de requerer a seu favor nada que seja autorizado por lei. Referia-se ao auxílio moradia, o que fez em seu nome e, para culminar na indecência, e também de sua mulher, juíza. Não se trata aqui da legalidade, mas de consciência, especialmente sob a ótica do social, pois, nem tudo que é legal é moral. A ajuda para magistrados e procuradores é uma lei que, além de iniciativa imprópria, inspirada no corporativismo, aplica-se, com mais precisão, a assaltantes dos cofres públicos, como de fato estão a fazer. Ah, diz o presidente da associação dos juízes federais, sem argumento consistente e inexistente, que tem a finalidade de valorizar a classe. Ora, muito ao contrário, essa iniciativa a desvaloriza de uma forma torpe e abjeta. Por quê? É uma classe mais digna em relação às demais? São seres humanos ou deuses do Olimpo? Pobre Brasil, surrealista e esculhambado! A única coisa que nos restou foi o destino por sermos filhos de uma nação pobre de boas instituições, transmitindo-nos traços de personalidade que perduram até os nossos dias, o saque e a pirataria. Está no nosso DNA e inconsciente coletivo. É o que acontece com milhares de corruptos que vão para as ruas protestar contra a corrupção.

No rastro dessas considerações, o que atualmente tem chamado a atenção do país, é a prisão do Lula que já deveria estar preso após denegado o recurso de embargos de declaração.

Embora não nos restasse dúvida, pela sinalização do voto da ministra Rosa Weber, com o desempate pela presidente, como de fato aconteceu, o julgamento da última quarta-feira, 04 de abril, foi ao encontro da expectativa da maioria dos brasileiros e uma demonstração para o mundo que o Brasil, entre os países mais corruptos, está mudando para melhorar a sua avaliação ética.

Infelizmente, com um placar tão apertado, o medo que nos inspira é que o STF venha discutir a permissão da prisão do condenado após julgado por um colegiado. É o que desejam com uma provável possibilidade de extingui-la, para o regozijo dos corruptos que verão, pelo excesso de recursos, a impunidade de seus crimes pela prescrição.

Eis porque, com um STF que anda para trás, sem gozar respeito, admiração e confiança, não hesitamos em dizer que não passa de um retrógrado “supreminho”.
   

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