Martha Martyres

Radialista, diretora da rádio Penedo FM, âncora do jornalismo no Programa Lance Livre


 
  • Colégio Imaculada Conceição Um Centenário de Histórias

     

    Recebi o belo convite das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras para a celebração do centenário do Colégio Imaculada Conceição e com ele algumas boas lembranças e uma doce saudade.

    Como tantos alagoanos e sergipanos de nossa região e de outras plagas do nosso Brasil, também fui aluna do Colégio Imaculada Conceição em meados da década de 60, sob as orientações e cuidados das Irmãs Franciscanas, mais precisamente, de Irmã Genoveva.

    Boas lembranças de um tempo de inocência diante do contexto político e social que se desenrolava no país, no estado e mesmo em nossa pacata Penedo e da proteção que àquela época nos ofereciam a família e a escola.

    É dentro deste espírito de boas e saudosas lembranças que decidi abrir um espaço no meu blog para as histórias desse centenário. Sei que centenas de ex-alunos e alunos possuem uma riqueza muito grande de recordações com fatos, experiências e testemunhos do cotidiano do Colégio Imaculada Conceição.

    Da rigidez dos ensinamentos às meninas que enrolavam o cós da saia para diminuir o tamanho e ao jargão popular de que “O Colégio Imaculada Conceição tem muita mulher bonita, mas não tem educação!”, passando pela disputa dos desfiles de 7 de Setembro e as paqueras com os meninos do Colégio Diocesano, muitas histórias (histórias, mesmo!), haverão de ser contadas.

    Deixo, portanto, esse espaço à disposição de todos e todas que quiserem contribuir para que possamos resgatar o que de melhor guardamos na vida: as boas lembranças!

    E para dar início a essas histórias, nada melhor do que contar a história de Chapeuzinho Vermelho, encenada por Cristina Sanchez e Fortunato.

    Tradicionalmente no final do ano, as Irmãs sempre realizaram grandes eventos. As celebrações objetivavam comemorar os resultados de um ano inteiro de trabalho e dedicação ao ensino e à formação de todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver na instituição.

    Um certo final de ano, Irmã Assunção decidiu fazer uma apresentação das histórias infantis que povoaram a nossa imaginação. Tudo acertado, foram escolhidos os “atores” para representar os personagens e, claro, para representar Chapeuzinho Vermelho, ninguém melhor do que uma jovenzinha loura, linda e de olhos zuis: Cristina. Para fazer o papel de Lobo Mau, o escolhido foi Fortunado, um menino estudioso e comportado, gordinho, é verdade, e que se encaixava perfeitamente no personagem.

    E lá se foram dias e dias de ensaio na Capela, até que os idealizadores da apresentação se deram por satisfeitos com a performance dos “atores”.

    Cristina, além de loura, linda e de olhos zuis, ainda cantava maravilhosamente bem a musiquinha: “Pela estrada afora, eu vou bem sozinha, levar esses doces para a vovozinha!”. Perfeito.

    E no dia da celebração, lá estavam todos aguardando o grande momento. Cristina estava deslumbrante. Parecia ter saído diretamente do livro de histórias para aquele momento. Sua roupa, ricamente adornada, feita com muito esmero pela dona Dida (Nadyr Athayde), sua mãe, e dona Toinha da Padaria (Antonia Santos), sua madrinha, comparava-se às produções hollywoodianas. O capuz vermelho cobria parcialmente os lindos cabelos dourados e destacava os brilhantes olhos azuis. Na cestinha pendurada no braço, rubras maçãs e potes de doces eram objeto de olhares gulosos, pois todos sabiam que em cesta preparada pela Dona Dida haviam muitas delícias.

    Capela cheia, lugares ocupados pelos familiares dos alunos, o Padre faz as orações, Irmã Assunção os agradecimentos de praxe e para finalizar, o grande momento: a representação da história de Chapeuzinho Vermelho pelos devotados alunos do Colégio Imaculada Conceição.

    Estouram os aplausos e entra Cristininha, linda, loura, de olhos azuis, de capuz vermelho, cestinha pendurada no braço esquerdo e uma voz aveludada cantando:

    -“Pela estrada afora, eu vou bem sozinha, levar esses doces para a vovozinha. A estrada é longa, o caminho é deserto e o Lobo Mau anda aqui por perto.”

    Era a deixa. Da parte de trás do altar, sai Fortunato com a máscara do Lobo Mau.

    Acontece que, em todos os ensaios realizados, Fortunato nunca usara a máscara. Assustada, Cristina não hesitou. Pegou a cestinha e partiu para cima de Fortunato, digo, do Lobo Mau e tome!

    Uma cestada, duas, três, mais outra e o pobre do Fortunato começou a gritar: Socorro, mamãe!!!!!

    Resumo: Cristina Sanchez, Cristininha, à época, acabou com a comemoração de final de ano do Colégio Imaculada Conceição e escreveu, na década de 60, um novo final para a história de Chapeuzinho Vermelho.

    Ah! Depois desse episódio, Cristina passou a levar dois lanches para o Colégio: um para a hora do recreio e outro para a hora do castigo.

    Agora, quem quiser que conte outra! É só enviar para: marthamartyres@aquiacontece.com.br
     

    postado em 22/03/2013 16:05

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  • A imprensa que cria mitos e monstros

     

    Internet

    Vamos colocar os pingos nos is: a culpa, muitas vezes, é da imprensa, sim!

    E isso porque é a imprensa, feita por gente de carne e osso, com ódios e paixões, predileções ou antagonismos, movidas por todos esses e aqueles sentimentos que são inerentes aos seres humanos e que fazem o mundo girar, a responsável pelo conceito que define uma pessoa e a sua existência nas relações sociais e políticas.

    A imprensa cria mitos porque sobre determinada pessoa, por incontáveis motivos, faz relatos extraordinários de sua natureza e de suas obras. Na maioria das vezes, reconheço, sem comprovação prática ou uma análise mais minuciosa, mas com uma fé inabalável na esperança de que um sonho possa tornar-se realidade.

    É claro que a imprensa, formada por pessoas, por gente, também é movida por outros interesses, sejam eles de poder político ou econômico, até mesmo de dominação ou vaidade, mas não conheço nada que se compare à mola propulsora da fé e da esperança.

    Por isso a imprensa amplifica, através do imaginário das pessoas, as qualidades em que aposta para a execução das ideias e dos sonhos. E assim são criados os mitos.

    Criamos mitos de bondade, de honradez, de competência, de honestidade e de tantas qualidades quantas forem necessárias para determinar as propriedades ou características da realidade que desejamos concretizar. Lembrem-se de que, para isso, contamos com os institutos de pesquisa.

    O bom, é que às vezes dá certo. Não é assim muito comum, mas ainda é gratificante constatar que a maioria dos valores que aprendemos entre um puxão de orelhas e outro, quando crianças, ainda prevalece.

    No entanto, quando dá errado, criam-se os monstros.

    A definição de monstro é de um ser disforme, contrário à natureza, ameaçador, desumano e cruel, que pode adquirir diversas formas, ou seja, um ser frio e hipócrita, capaz dos atos mais atrozes sem nenhuma indulgência ou remorso.

    Mas, o monstro tem uma característica singular: ele é capaz de tornar-se irreconhecível, de fantasiar-se, de mascarar-se e tomar as formas mais virtuosas.

    Assim sobrevivem os monstros políticos. Fantasiando-se, mascarando-se e cometendo os mais cruéis atos contra o povo que os prestigiou e privilegiou.

    Os monstros são traiçoeiros. Fantasiados de mitos, espertos, usam a imprensa como escudo e iniciam uma batalha para tomar o poder. Escondem suas verdadeiras intenções em falsos laços de amizade; manipulam os colaboradores para que se comportem de acordo com a direção de seus objetivos; adulteram resultados, apropriam-se dos bens públicos, subtraem direitos, usurpam ideias, menosprezam as conquistas dos outros e desdenham as virtudes alheias.

    Os monstros da política enganam o povo e só deles se aproximam para que sirvam de escravos na construção de sua pirâmide de poder. Tem nojo, medo do abraço e do aperto de mão e disfarçam o asco que o povo lhes causa com a pálida, às vezes rósea desculpa da timidez.

    Os monstros da política fazem de conta que administram, fazem de conta que entendem das necessidades e carências da população e a tudo respondem com desprezo e ironia, como se estivessem prestando um grande obséquio, uma indulgência até.

    Os monstros, nascidos muitas vezes mitos por culpa da imprensa, perpetuam o analfabetismo e a fome. Promovem a prostituição e o crime fomentando a miséria humana.

    E a miséria humana está nas escolas desmontadas, nos professores mal remunerados, na falta do atendimento médico e na falta do remédio que cura a doença, nos hospitais destroçados, enfim, nas cidades devastadas, abandonadas pela incompetência, pela insensibilidade, pela irresponsabilidade, pela improbidade e por uma desonrosa indignidade.

    A culpa, muitas vezes, é da imprensa, sim!
     

    postado em 20/02/2013 16:43

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  • A alma do Mercado x o fantasma da ilicitação

     

    Cresci em tono do Mercado Público de Penedo e do Pavilhão da Farinha. Aos oito anos, quando saímos do Sítio Araçá e passamos a morar em Penedo, na Travessa Professor Henrique Thomaz, número dois, minhas tardes de quarta a sábado eram vividas no entorno do Mercado, na feira livre, onde limpava e arrumava verduras nas bancas de “Seu” Otacílio, o Oxis, de dona Maria, “Seu” Virgílio e dona Virgínia.  Pela manhã eu frequentava as aulas no Grupo Escolar Gabino Besouro e a partir das quartas-feiras, quando começavam a chegar os caminhões com as cargas de Itabaiana, em Sergipe, eu começava meu trabalho de lavar cenouras, batatas, chuchus, tomates, limpar cebolas, tudo para deixar as bancas arrumadas e atrativas para os consumidores. Era assim que ganhava um dinheirinho de muita serventia para ajudar minha mãe e também verduras e frutas.

    Do dinheiro que ganhava, uma parte era entregue à minha mãe para ajudar nas despesas da casa e outra parte era para alugar bicicleta na oficina do Edivaldo e comer creme no “Seu” Oscar.

    Junto com meus amigos de infância, que também moravam nas redondezas, percorríamos aquele entorno na seriedade de fazer os mandados que nossas mães determinavam, mas também nos divertíamos nas inúmeras brincadeiras que tinham o Mercado e o Pavilhão como cenários.

    Ainda sinto o sabor da manteiga do sertão vendida na bodega do “Seu” Cândido se desmanchando no bolachão da Padaria Primor. Ainda ouço o toc-toc dos tamancos de madeira comprados no barracão do Mané Rosendo e aspiro o cheiro das brilhantinas coloridas expostas no Pavilhão.

    Se soubesse desenhar, seria capaz de colocar no papel aquela expressão ranzinza de “Seu” Aprício ou a magreza quixotesca de “Seu” Mangabeira. O bom humor de dona Mirthes, a elegância de “Seu” Juvêncio Lisboa. “Seu” Barreto, sempre antenado com a política, ficava horas conversando com Luis Fausto.

    São tantos nomes e rostos que ficaram na lembrança. Alguns que já se foram e outros que aqui continuam em sua lida diária para sobreviver e que ainda hoje resistem no comércio de Penedo.

    Comecei a trabalhar “de carteira assinada”, aos treze anos (naquela época era permitido), na Casa Almeida, com dona Cândida. Foi ali, no Mercado Público, onde iniciei oficialmente minha vida profissional como balconista. Entre linhas, grinaldas e entremeios,  aprendi muitas coisas que carrego pela vida afora.

    Por isso a minha ligação com a feira, com as pessoas do Pavilhão da Farinha e do Mercado Público de Penedo. Eu vivi ali, eu cresci entre aquelas paredes e conheci todas aquelas e essas pessoas.

    Gente, pequenos comerciantes, balconistas como eu fui, que hoje vivem dramas pessoais, familiares e financeiros causados não pelas leis existentes, reconheço, mas pela administração e execução dessas leis.

    Hoje, quando constato que a política e a lei que deveriam promover o que entendemos por justiça e bem estar, muitas vezes podem se transformar em agentes causadores de grandes injustiças e atrocidades, minhas  lembranças e meu coração falam mais alto do que minha missão de noticiar os fatos.

    O uso de bens públicos tem regras expressas em leis que são administradas e executadas por políticos, avaliadas e aplicadas por operadores do Direito. Se essas regras fossem observadas com responsabilidade, coerência, senso de justiça, imparcialidade, retidão e lisura, certamente não provocariam tanta angústia e desalento.

    Mas infelizmente não é assim. Principalmente porque é ano eleitoral. Logo teremos os resultados mais convenientes e o barulho dos fogos de artifício das inaugurações vão sufocar os soluços dos injustamente derrotados.
     

    postado em 13/03/2012 17:14

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  • É fevereiro e tem Carnaval!

     

    O carnaval de Penedo começa nesta sexta-feira, 3 de fevereiro,  com o desfile de aniversário da Raquel. A Boneca do Vá vai para as  ruas acompanhada por foliões, ao ritmo do frevo e do Zé Pereira, contando a história de uma senhora que, com pouco mais de meio século de vida, aos 52 anos, transformou-se em um marco feminino na história do carnaval penedense.

    A loura Raquel traz em sua postura de rainha, o brilho do “Império do Momo” e as lembranças dos velhos carnavais.

    Volto à minha infância e reencontro rostos conhecidos no colorido da Floriano Peixoto. Revejo os amigos que comigo formavam o Bloco dos Caretas (Solange, Neno, “Sinha” Valda, Margarida, Betânia, Elvira, Walter).

    Quando crianças, surrupiávamos as bordadas mochilas de pão de nossas mães, furávamos buracos para fazer olhos, nariz e boca, transformávamos os cabos de vassoura em uma espécie de cajado e usávamos as latas de goiabada e banha (naquele tempo eram de metal mesmo!) para fazer os nossos tambores.

    As camisas velhas de Zé Vécio, Luiz Fausto e Dominguinhos, bem como os vestidos de dona Lourdes, “dinha” Lúcia Espinheira e “tia” Valda, serviam de disfarce para os corpos raquíticos e tão conhecidos dos moradores da região que conheciam as nossas traquinagens. Assim era o Bloco dos Caretas e nos quatro dias de carnaval, invariavelmente, saíamos pelas ruas nos divertindo com as “Lanças” de água, confetes e serpentinas.

    O Bloco dos Caretas acabou porque o Valdi Fernando, que era muito comportado, só lia a revista Tio Patinhas e tinha medo de mim (hehehe), jogou-me um penico de mijo no “oitão” da Catedral, para se vingar de nossas provocações.

    A verdade é que nós perturbávamos muito, mas também é verdade que eu gastei muita água do rio São Francisco para tirar o cheiro impregnado do xixi e no ano seguinte preferi outra brincadeira.

    À tarde tinha as matinês no palanque montado na Floriano Peixoto, em frente à Lojas Paulista e na Filarmônica, a nossa Filó. Era o momento de vestir nossas fantasias. Nos domingo e na terça-feira, esperávamos com ansiedade pelo desfile das escolas de samba de Neópolis e do Carrapicho.

    Quando a tarde começava a dar os primeiros sinais de cansaço e as luzes se acendiam, era encantador ver o brilho dos enfeites carnavalescos pendurados nos postes. Eram arlequins, colombinas, baianas, máscaras, pierrôs e muitas, muitas luzes.

    No palanque montado no QG do Frevo, os músicos caprichavam nos acordes e quando a noite chegava com todo o seu mistério e fantasia, Zé Mulé aparecia, soberbo, em um canto do palco.
    Era um espetáculo resplandecente, multicolorido, envolto na suavidade das plumas que se moviam ao sabor da brisa.

    Ali, encostados na porta da loja de dona Mirthes, nas escadarias da Teatro 7 de Setembro, nos degraus do Bar do Agobal ou entre as bancas dos roletes de cana, observávamos, fascinados, a magia dessa festa que é sinônimo de alegria, até que o encanto era quebrado pelo tradicional “já pra casa, menina!”.

    E o que nos restava, então, era ouvir os acordes do frevo e do samba dos bailes da Filarmônica, enquanto não éramos vencidos pelo sono próprio das crianças.

    O carnaval está chegando. Penedo é um cenário vivo e vibrante para o grande espetáculo da alegria do povo que explode em danças, fantasias, brincadeiras e muitas...muitas lembranças!

    Feliz carnaval para todos!
     

    postado em 03/02/2012 19:03

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  • Bom Jesus dos Navegantes

     

    Bom Jesus dos Navegantes. Imagem de Cesário Procópio dos Mártyres

    No segundo domingo de janeiro, vamos acordar ao som dos acordes das Bandas de Pífano. É a festa do Bom Jesus dos Navegantes!

    É dia de rever os parentes distantes, os amigos separados pelo cotidiano de cada vida.
    É dia de reunir a família, de mesa farta, de cheiro de bolo quentinho, do sabor inigualável dos barquinhos de amendoim, dos rolete de cana, da paçoca, da roda gigante…

    Dia de Festa do Bom Jesus dos Navegantes é dia de usar roupa nova e sapatos que, se fizerem calos, serão pendurados nos dedos, sem pudor e constrangimento porque o que vale é acompanhar a procissão terrestre e fluvial e pedir benção ao santo.

    Quando as águas mornas do Rio São Francisco ainda dormem e a névoa da madrugada espalha seu esbranquiçado na moldura da paisagem, homens, mulheres e crianças se aboletam nas canoas enfeitadas com suas roupas de festa e o coração saltitando na garganta.

    É hora de ir a Penedo e disputar, palmo a palmo, na multidão, todos os encantos que a cidade oferece.

    Os ambulantes coloridos colocam á disposição dos fiéis os mais diversos produtos. Quer o óculos para se proteger do sol? Tem. Quer um terço para rezar e pedir proteção? Também tem! Quer um brinco, uma pulseira, uma canga de praia? O ambulante oferece. E se você não trouxe a comida, não se “avexe”. Tem macaxeira com carne do sol. Tem muqueca de peixe, camarão, jacaré, rabada e mocotó!

    Os grupos folclóricos espalham-se, as rodas de Capoeira, ao som do berimbau, trazem gestos de um primitivo instinto de defesa, uma mistura de dança e luta para lembrar nossas origens e nossa força. No ar, há um odor azedo de suor, de cachaça e uma mistura das frutas da época.

    Só quem nasceu por aqui é capaz de ver e sentir, de forma plena, o entusiasmo, a fé e a capacidade criadora do povo beradeiro nesse momento soberbo. É uma fé cheia de vitalidade e pureza!

    Passam-se os anos, modificam-se as tradições, mas o povo do Baixo São Francisco, em sua plenitude, exalta a cada semana de janeiro o seu Bom Jesus dos Navegantes que em tudo manda e rege como também rege e manda nas águas do Velho Chico. A festa do Bom Jesus dos Navegantes o tempo não alterou e o progresso não arrefeceu.

    Não pode haver espetáculo mais belo que esse desfile de dezenas de barcos acompanhando o cortejo. Das muradas da cidade, do cais, da beira do rio, das ilhas, de toda parte a população vai ver a procissão do santo protetor dos navegantes.
    Durante todo o ano ele fica na Igreja de Santa Cruz, a pequena capela que foi edificada na comunidade no ano de 1818.

    O escultor da imagem do Bom Jesus dos Navegantes, Cesário Procópio dos Mártyres, contava que no local da capela havia um terreiro onde se realizavam danças diabólicas. Certo dia, um garoto que assistia ao evento viu um homem que dançava com pés de cabra. Houve pânico na população e o terreiro foi destruído. Em seu lugar, foi edificada a atual capela que data do ano de 1907. É lá, no altar principal, que fica o Bom Jesus dos Navegantes.

    Na segunda semana de janeiro a comunidade de Santa Cruz se transforma. É quando acontece o tríduo religioso, a quermesse, a festa.

    No domingo à tarde, debaixo de um estrondoso espetáculo de fogos de artifício, o santo sai da igreja em seu andor ricamente decorado para “pegar a lancha”, como diz o homem da beira do rio. No percurso da igreja ao porto, o povo pára. Ergue os olhos para o Bom Jesus, pede sua benção, faz o sinal da cruz.

    Os mais variados sons silenciam em respeito à passagem do santo. Os homens tiram os chapéus e se curvam em reverência, as mulheres põem a mão sobre o coração e pedem proteção para suas famílias.

    Quando o andor com o santo vem se aproximando do porto, a multidão avança, corre para as balsas, os barcos, as lanchas. Entra na água e disputa entre gritos e empurrões, um espaço, o privilégio de entrar na embarcação que levará a imagem do Bom Jesus dos Navegantes.

    Nada os detém. Nem a comissão, nem o prefeito, nem os sacerdotes, nem a polícia. Nada consegue manter a ordem desejada. É o delírio e a força da fé. Quem não consegue embarcar, chora, acena, desmaia, mas não arreda pé da rampa.

    As embarcações apitam e começa a procissão. Velas brancas, azuis, vermelhas, multicoloridas se levantam para os céus e aos poucos o cortejo toma forma singrando serenamente as águas do rio.

    Em seu barco, mão esquerda erguida abençoando os navegantes, o Bom Jesus comanda a festa.

    Levantam-se os cânticos, toca a Banda de Música da Sociedade Musical Penedense. Nos barcos que acompanham a procissão, vez ou outra se aumenta o volume do axé, do samba, do brega. Ouvem-se pandeiros, cavaquinhos, violas, palmas. A fé e o desejo de saudar o Bom Jesus independe de gêneros musicais. Não há desrespeito. Há a certeza de que participando da procissão, Bom Jesus há de proteger!

    Ele, que abriga os navegadores das tempestades, os pescadores dos perigos do Nego D´água e que, nos dias sinistros conduz a todos que foram pegos desprevenidos ao porto da salvação, compreende que o Pai deu a alegria ao homem para ele expressar seu agradecimento pela satisfação de estar vivo. E o povo faz chegar seu agradecimento a Deus pela música, pelas suas cantigas e pela sua alegria.

    Ao longo do trajeto, nos fortes espalhados pelas margens do Velho Chico, Bom Jesus é saudado com foguetório e os barcos acionam suas sirenes. Enquanto isso, na rampa do porto de Penedo, na balaustrada, na Rocheira, o povo aguarda a chegada da procissão, do santo protetor.

    O cortejo fluvial se aproxima, o sol vai-se escondendo através das montanhas sergipanas, as luzes se acendem, explodem os rojões e o povo começa a rezar.

    “Livra-nos, Senhor dos Navegantes, das práticas políticas eleitoreiras, livra-nos do descaso, da falta de compromisso e dos falsos profetas. Livra-nos da fome, da sede e da seca que assola o homem barranqueiro do São Francisco pela falta de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do Vale do Rio da Integração Nacional. Livra-nos de um projeto de imposição de transferência de nossa água que ao invés de servir para matar a sede dos nossos irmãos e dos animais, como faria São Francisco, o Santo, vai servir de mote para discursos de campanha eleitoral objetivando a perpetuação no poder.”

    É festa do Bom Jesus dos Navegantes. Vale à pena ver, ouvir, sentir, acompanhar a procissão ouvindo seus cânticos, rio afora, e ser abençoado pelo Bom Jesus que comanda seu povo, protege e resguarda.
     

    postado em 06/01/2012 09:50

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  • Curtas, Médias e Moduladas Arquitetura da Destruição

     

    Casa do Penedo

    No final do ano passado, o Governo Federal publicou o Edital nº 17/2011, com o resultado final da seleção do Concurso de Modernização de Museus/2011, do Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM. Pelo Ibram, autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, a Fundação Casa do Penedo vai receber R$ 239.920,00 (duzentos e trinta  e nove mil, novecentos e vinte reais), mediante assinatura de convênio. A contrapartida da Casa do Penedo deve ser de R$ 59.980,00 (cinquenta e nove mil, novecentos e oitenta reais), para um projeto denominado “O `Patrimônio Cultural a Serviço da Comunidade”, totalizando um investimento na cultura local de R$ 299.900,00 (duzentos e noventa e nove mil e novecentos reais).

    Pela publicação podemos observar que a Fundação Casa do Penedo foi a única entidade de Alagoas beneficiada pelo certame. Espera-se, portanto, para breve, grandes realizações.

    Em tempo: é importante que a Casa do Penedo esclareça, tim-tim por tim-tim, a quantas anda o projeto do Museu do Homem do São Francisco, cuja obra foi iniciada pelo Chalé dos Loureiro, é alvo de denúncias de irregularidades e é um dos camelos que não passam no fundo da agulha em que Penedo se transformou.

    Penedo: os objetos da  Arquitetura da Destruição em 10 atos

    1. Obra da Orla Fluvial;
    2. Reforma das Praças 12 de Abril, 31 de Março, Nadir Athayde, São Judas Tadeu, Largo de Fátima e Gabriel;
    3. Construção do novo Fórum na Lagoa do Oiteiro:
    4. Vias de Trânsito e Sinalização;
    5. Comercialização de Pescado e de Carne:
    6. Relocação de Ambulantes;
    7. Ignorar a importância do City-Gate para a cidade;
    8. Quadras de Esportes Henrique Equelmam (Oiteiro) e da Rocheira (Barro Vermelho);
    9. Reforma do Aeroporto Freitas Melro:
    10. Mercado Público e Pavilhão da Farinha
     

    Penedo: a Arquitetura da Eleição

    Nas ruas e nas rodas o assunto gira em torno das eleições deste ano. Prefeito, vice-prefeito e 13 vereadores serão eleitos em outubro. As conjecturas políticas contam os votos da eleição passada e a perspectiva matemática de votos no momento atual. Todo mundo tem voto, cabos eleitorais e candidatos,  e está eleito até que o resultado final seja anunciado pela Justiça eleitoral.

    Os tolos, Ah!, os tolos!, cientistas políticos às avessas, acham que conhecem todos os bastidores e os atores, sabem todas as respostas e podem indicar todos os caminhos. Grande ilusão!

    A política continua sendo uma enigmática Esfinge: Decifra-me, ou te devoro!

    No popular: muita gente deveria fazer um “Arakiri Baiano”, enquanto é tempo.
     

    postado em 02/01/2012 11:06

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