Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha


 
  • Anticristo

     

    Todo filme classificado como "polêmico" pela crítica atinge de imediato as anteninhas do público, lotando os cinemas para saciar essa tão estudada curiosidade mórbida do ser humano. Por que classificar "Anticristo" do diretor Lars Von Trier (Dogville, Os Idiotas) como um filme polêmico?

    Primeiramente pelo seu título. Tudo que envolva religião ou se refira a ela já é, por si só, polêmico. O ditado popular diz que religião e futebol não se discute, o que discordo por completo, mas isso é assunto para outro blog. Segundo pelo forte apelo visual contido no filme.

    Partindo disso, já aviso: NÃO assista Anticristo, caso não possua um senso crítico ou tenha algum tabu forte. É um filme forte e demasiadamente artístico, que assusta pela sua crueza e erotismo violento. Muitos críticos de Cannes condenaram o filme com fúria pela força de suas imagens (alguns também por não ter entendido o filme). É necessário coragem e mente aberta para enfrentar 1h40 de fortes cenas de mutilação e sexo explícito.

    Confesso que não senti o mesmo impacto com certas cenas da mesma forma que senti ao assistir o clássico "O Exorcista" na versão sem cortes do diretor, e particularmente ainda considero o filme de terror mais forte que já vi. Porém Anticristo não pode ser considerado um filme de terror. Eu poderia considerá-lo um filme de drama com elementos místicos.

    A história concentra-se em dois personagens sem nome, um casal que enfrenta uma tragédia: o filho pequeno morre ao cair de uma janela enquanto os dois faziam sexo. A fim de enfrentar a dor interminável da mulher (Charlotte Gainsbourg), o marido terapeuta (Willem Dafoe) leva-a para passar uma temporada em uma cabana enfurnada na mata - a ideia é superar o que seria o pior medo dela, revelado em visões daquele lugar, sintomaticamente chamado Éden. O isolamento em contato com a natureza exuberante acaba trazendo de volta lembranças da recente estadia no local da mãe e da criança agora morta, além de despertar na mulher delírios paranoicos que culminam em agressões brutais ao marido e em automutilação.

    O filme é dividido em capítulos, como um livro, e seu perturbador roteiro foi escrito pelo próprio Lars, em um momento de séria crise de depressão, que declarou durante seu lançamento:

    “O roteiro foi finalizado e filmado sem muito entusiasmo, feito como se eu estivesse utilizando apenas metade da minha capacidade física e intelectual. O trabalho no roteiro não seguiu o meu modus operandi habitual. Cenas foram acrescentadas sem razão. Imagens foram compostas sem lógica ou função dramática. No geral, elas vieram de sonhos que eu tinha no período, ou sonhos que eu tive anteriormente.”

    O filme de certa forma reflete as angústias de Lars, percebidas claramente nos diálogos e na fotografia fria do filme. Suas cenas fortes e violentas acabam contrastando com a excepcional e belíssima fotografia adotada em cenas como a primeira do filme. Em preto e branco, seu filho morre caindo da casa enquanto o casal faz sexo explícito ao som de música clássica. Lars consegue de forma maestral, dar graça, sutileza e beleza a uma cena tão trágica.

    A partir daí Lars nos guia em uma verdadeira sessão psicológica (mais especificamente cognitva, uma ironia do diretor), analisando o comportamento humano diante de uma tragédia e a própria natureza que consideramos divina. E é aí que entra a grande polêmica do filme.

    Lars é ateu assumido, que em determinado momento da vida perdeu a fé na religião, e Anticristo é uma análise sarcástica a respeito da natureza e de como o ser humano enfrenta seus dilemas psicológicos diante de uma tragédia, questionando até mesmo a existência de Deus. O filme mergulha na origem do mal na visão religiosa obscurantista, mesclando-a com a raiz dos temores psicanalíticos do homem em relação à mulher.

    O nome da floresta que o casal fica para o tratamento é, nada mais nada menos, que Éden, uma alegoria onde o casal voltaria exatamente às suas origens para descobrir a verdadeira face da natureza. Com um capítulo do filme denominado "O caos reina", vemos a intenção de Lars de mostrar que a natureza é cruel, e o caos domina a vida. Isso pode ser confirmado em diversas cenas do filme, incluindo uma importante em que a esposa presencia um ato natural de caça entre animais e isso a perturba. É em meio ao instinto primitivo, à crueldade da natureza, envoltos pela própria natureza, que os distúrbios de sua esposa acabam culminando na violência que incomodará muitos espectadores. 

    Não entendeu o final? Lars Von Trier não quis explicar seu filme. E é melhor que não tenha uma explicação direta, Anticristo não é um filme para ser explicado. Deve ser enfrentado (com muita coragem), sentido, por uma espectador que teve cabeça aberta e coragem suficiente para presenciar mais uma obra-prima do cinema. Filme bom é aquele que faz pensar, questionar, onde você mesmo encontra seu próprio significado.

    postado em 10/10/2009 22:16

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  • UP - Altas Aventuras

     

     Percebo que a cada filme a Pixar se supera. Tanto em qualidade gráfica quanto em roteiro. E UP - Altas Aventuras demonstra ser mais uma grande evolução no trabalho da agora Disney/Pixar.

    O filme começa mostrando a infância de Carl, um garoto que sonhava em ser um grande explorador e viver grandes aventuras, apesar de sua timidez. Certo dia, ele conhece Ellie, uma animada menina que compartilha das paixões dele. A amizade se torna uma bela história de amor que, infelizmente, não gerou filhos. Ellie morre e deixa Carl sozinho. Agora um vendedor de balões aposentado, ele vê a casa na qual conheceu e viveu com sua amada esposa sendo objeto de cobiça de grandes corporações.

    Ameaçado de ser mandado para um asilo, ele resolve fugir dali com sua casa, amarrando centenas de balões a esta, com rumo às Cataratas do Paraíso, lugar onde o herói de infância dele e de sua esposa se aventurava e grande sonho da falecida Ellie. O que Carl não contava era com um pequeno clandestino a bordo, o jovem Russell, um prestativo, atrapalhado e rechonchudo escoteiro, ansioso para ajudar o bom velhinho. Os dois mal sabem os problemas e confusões que irão encontrar no caminho, que incluem um estranho pássaro e um cão "falante".

    O grande segredo no roteiro de UP está na sua história que consegue ser comovente e ao mesmo tempo muito engraçada. Na sessão pude ouvir estrondosas gargalhadas dos adultos que assistiam o filme. Com personagens de personalidades muito bem trabalhadas, é impossível não rir só de olhar para a cara de bobão do cão falante ou do defeito na voz da coleira do cão vilão do filme.

    No quesito técnico a Pixar dá um banho de experiência e sensibilidade. Com uma fotografia que consegue alternar entre o muito colorido e o tom sóbrio para criar o clima perfeito nas cenas. Algumas delas de tirar o fôlego. A riqueza de detalhes também impressiona, como a perfeição na unha de Carl, sua barba crescendo aos poucos durantes seus dias longe da civilização, e as fantásticas expressões faciais que conseguem dar realismo mesmo a um personagem que parece ser um boneco, mais uma grande característica do profissionalismo da Pixar.

    As piadas também são muito inteligentes, algumas até incompreensíveis pelas crianças, como uma cena rápida que mostra os cachorros jogando cartas, fazendo alusão à famosa pintura de C. M. Coolidge. Dublado por Chico Anysio na versão brasileira, Carl ganha ainda mais personalidade com suas trapalhadas junto ao garoto gordinho Russell, onde mais uma vez a Pixar acerta, evitando o clichê da criança chata que apenas serve de âncora para os telespectadores infantis, mas sim tornando-a peça chave de toda a história.

    Mesmo com alguns elementos clichês durante o roteiro (você já deve imaginar o que acontece com o vilão no final...), é um filme para rir do começo ao fim e se emocionar junto a uma boa companhia, resultado de um trabalho cuidadoso e meticuloso dos profissionais da Pixar.

    Ah, e qualquer semelhança com a história do padre que se perdeu voando com balões será mera coincidência...

    postado em 13/09/2009 15:16

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  • Star Trek 2009

     

    Confesso nunca ter acompanhado de perto a série Star Trek. Talvez por não ter vivenciado os anos em que a série teve seu auge, nos anos 60, e seus últimos longa-metragem não terem tido tanto impacto no público. De qualquer forma sempre tive conhecimento do conceito da série de usar física real na ficção científica, até mesmo usando de teorias que hoje fazem parte do dia a dia da ciência.

    Porém ao assistir esta nova versão, entitulada simplesmente de Star Trek, senti a sensação de ter perdido todo esse mundo fantástico que a série proporciona, e que ganhou uma renovação total com o filme dirigido por J.J. Abrams. Conhecido pela famosa série de TV, Lost, J.J. Abrams vem demonstrando muita competência na telona com seus últimos filmes. Sua característica de tornar seus filmes muito intensos, bastante explorada no ótimo Cloverfield.

    Abrams carregou enorme responsabilidade ao encabeçar este projeto de renovar uma série tão venerada pelos famosos Trekkers e conseguiu produzir um filme intenso, para qualquer tipo de público, até mesmo quem nunca ouviu falar da série. Qualquer deslize acrescentaria mais um desastre à lista dos últimos filmes fracos da série. E Abrams mais uma vez surpreendeu!

    Este décimo-primeiro longa-metragem da franquia Star Trek gira em torno dos principais personagens da série clássica, mas com um novo e extremamente talentoso elenco. O filme acompanha a admissão de James T. Kirk (Chris Pine) na Academia da Frota Estelar, seu primeiro encontro com Spock (Zachary Quinto) e suas batalhas com romulanos provenientes do futuro, que interferem com a história.

    Utilizando teorias da física, tempo, espaço e todos os elementos originais da série, Star Trek é um filme intenso, obtido com o artifício típico de Abrams de filmar com câmeras manuais criando um ritmo realista em todo o filme, efeitos especiais de primeira qualidade, sem exageros, mantendo a mágica do universo Star Trek.

    O filme em todo momento respeita as leis básicas da física, onde as cenas de explosões no espaço exterior são conduzidas sem áudio, utilizando como artifício dramático e estratégico nas cenas. Esse detalhe pode ser muito bem apreciado na cena em que 3 tripulantes da Enterprise saltam da nave no espaço em silêncio absoluto, e à medida que entram na atmosfera do planeta, o som vai surgindo no momento certo criando uma das melhores cenas de ação do filme.

    Mas o filme não é só efeitos especiais e ficção científica, e é aí que se sobressai o rico roteiro do filme. Utilizando os personagens principais e originais da série, Capitão Kirk e Dr. Spock ainda jovens, Abrams conduz o início de tudo com foco na relação de amor e ódio entre esses dois personagens tão distintos. Como se não bastasse o envolvimento que temos com a tripulação da Enterprise, ainda de quebra somos conduzidos por uma fantástica história de viagem no tempo que traz diversos embates filosóficos incluindo o famoso "Paradoxo do Avô" onde o encontro da mesma pessoa do passado com sua pessoa do futuro seria impossível em teoria.

    Muita ação aliada a um roteiro inteligente e coerente, hoje raro em Hollywood. Um filme que consegue agradar qualquer tipo de público.

    postado em 13/07/2009 22:19

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