Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha


 
  • Eraserhead

     

    David Lynch é um cineasta nada convencional. É conhecido por filmes que mergulham no abstrato mundo dos sonhos, onde imagens desconexas e enredos fora de ordem entregam a responsabilidade de interpretação totalmente ao espectador. E é isso que faz uma grande experiência assistir a um filme de David Lynch.

    Lynch também é inovador e à frente de seu tempo (o que muitas vezes tornou filmes maravilhosos em fracassos de bilheteria). Aproveitou a revolução da internet como um ótimo veículo de divulgação de seus trabalhos, alguns disponibilizados gratuitamente no site www.davidlynch.com (recomendo o download gratuito do curta metragem Rabbits). Marcou época com a série para TV Twin Peaks, que acabou gerando um longa para cinema e continua sempre envolvido em ótimos projetos, vezes como diretor, produtor e até mesmo ator.

    Sempre ouvia muito falar em seu nome, mas foi no primeiro filme que assisti, Cidade dos Sonhos, que entendi o porquê de sua fama. O impacto do filme foi imediato e logo me fez buscar seus demais trabalhos. Em seguida veio O Homem Elefante, baseado em uma história real famosa, também supreendente principalmente por sua fotografia. Logo após o excelente (e complicado) curta metragem Rabbits e por fim o objeto desta crítica, seu primeiro e marcante trabalho, Eraserhead (1977).

    A sinopse do filme, explica pouca coisa: Eraserhead segue um curto período da vida de Henry Spencer (Jack Nance), um impressor de férias. Henry descobre que sua namorada, Mary X (Charlotte Stewart), deu origem a um deformado e monstruoso bebê. Após um tumultuado e breve período vivendo juntos, Mary Henry deixa o bebê aos cuidados de Henry. Ele tem algumas visões bizarras de uma mulher deformada em seu aquecedor, e um sonho em que a cabeça de Henry é utilizada para fazer lápis borracha. Estas ocorrências levam Henry cometer um ato dramático.

    Filmando em preto e branco, Lynch quase não conseguiu concluir o filme, teve de usar dinheiro de amigos e familiares, e demorou quase cinco anos para terminar todas as tomadas. Vale ressaltar que na época em que escrevia o roteiro, sua esposa engravidou de seu primeiro filho, o que influencia claramente na interpretação geral do filme.

    É muito arriscado buscar uma interpretação fechada para o filme, visto que é muito rico em mensagens subliminares e bizarras cenas que aparentemente parecem desconexas e sem o menor sentido. E é isso que torna Eraserhead um mergulho profundo e fascinante em um universo que parece ter sido retirado diretamente do último pesadelo da mente de Lynch.

    Tendo em mente o fato de que Lynch estava para ter seu primeiro filho ao escrever o roteiro e enxergando por uma ótica Freudiana, as coisas parecem fazer mais sentido (se é que isso seja necessário) e tudo acaba se revelando surpreendente: a forma como ele expõe os elementos do inconsciente da mente humana, seus medos, suas angústias, seus desejos através de cenas e elementos bizarros e sinistros. É como assistir um pesadelo ao vivo diretamente dentro da mente do protagonista Henry.

    Lembrando que Lynch sempre prefere entregar a interpretação de seus filmes ao próprio espectador, evitando explicações prontas, logo o que entendi do filme é estritamente pessoal, mas acabei encontrando outras pessoas pela internet que fizeram interpretações semelhantes. O filme parece girar em torno do medo de uma gravidez indesejada (representada por um bebê medonho) e os medos e angústias de um homem abandonado pela esposa, com um casamento forçado pela situação e sua prisão à obrigação de cuidar de seu filho e abrir mão de sua vida normal e seus desejos com outras mulheres.

    Uma das cenas mais bizarras do filme, mostra a cabeça de Henry sendo transformada em um lápis com borracha em uma fábrica. O suficiente para você dizer “esse filme surtou”, mas que tem uma possível explicação: depois que Henry enlouquece a ponto de sua cabeça literalmente cair, a cena mostra o desejo reprimido de Henry corrigir seu erro (borracha), como um desejo de apagar de sua mente seus problemas.

    Em diversos pontos do filme podemos também ver alusões ao seu yin-yang, sua consciência em conflito representada pela bizarra mulher dançarina em seu aquecedor. Ao final, Henry mata seu bebê representando sua libertação, onde um lado de sua consciência finaliza com uma frase marcante: “No Paraíso tudo é bom”. Também existe uma figura intrigante e bizarra que aparece no começo e no fim do filme que entendo como sendo uma representação de seu erro que gerou a criança (através de diversos elementos no filme que sugerem espermatozoides e fecundação) e que ao fim é morto junto com o bebê, sugerindo a libertação também de sua angústia.

    Eraserhead é um mergulho na mente humana que explora desejos, culpas, medos, perdas, loucura, embalada por uma trilha macabra e angustiante. Tudo para que o espectador o entenda e o interprete de acordo com seus próprios sentimentos. Não é um filme para ser apenas entendido, mas para ser sentido. E o fato de se chegar a uma possível explicação final para o filme não anula em nada a experiência única e marcante de assistir a uma obra tão ousada, misteriosa e inesquecível. Isso é David Lynch! Assista (mais de uma vez), tire suas próprias conclusões e comente aqui no blog. 

    postado em 07/03/2011 19:12

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  • Tropa de Elite 2

     

    O primeiro filme Tropa de Elite (2007), agregou à nossa cultura bordões como: 'Pede pra sair', 'Tu é muleque', dentre outros. Abordou o treinamento intensivo e brutal das máquinas de matar do BOPE, onde o Capitão Nascimento foi visto (por muitos) como uma figura heróica, comandante de uma guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro, enquanto lutava contra seus conflitos pessoais.

    Os 'vilões' da história eram os traficantes, enquanto os policiais do BOPE, com sua violência fria e truculenta, eram os soldados mocinhos desta guerra. Porém para bom entendedor, percebia-se a crítica implícita à eficiência de toda essa violência no combate à violência civil e o quanto a sociedade precisa desta mesma violência para tratar o problema.

    O primeiro filme também mostrava que, ironicamente, a classe média e alta que mais protesta contra os índices de violência, é, talvez, a que mais alimenta o sistema do tráfico, com os playboyzinhos que compram o mesmo produto causador de suas hipócritas reclamações. Pra piorar, os baixíssimos salários dos policiais contribuem para a ineficiência e consequente corrupção da Polícia Militar, deixando o trabalho para o BOPE, que no próprio filme é mostrado como a 'polícia da polícia'.

    Nesta continuação, do mesmo diretor, José Padilha, percebemos claramente um amadurecimento das ideias políticas propostas pelo roteirista Bráulio Mantovani, que mostra que na verdade os inimigos não são diretamente os traficantes das favelas, mas que há um sistema muito mais complexo por trás de tudo isso, cuja engrenagem motriz é a política.

    Agora temos o coronel Nascimento (Wagner Moura) enfrentando, como aponta o subtítulo do projeto, outro inimigo: a política. Depois de comandar uma operação mal sucedida em Bangu I que resulta num massacre, Nascimento se torna um problema para o governador do Rio de Janeiro: por um lado, é exonerado para aplacar a mídia; por outro, é promovido a subsecretário de segurança (como o personagem fala, 'Cair pra cima'). Depois de aparelhar o BOPE e transformá-lo numa verdadeira máquina de guerra, o coronel interrompe o tráfico na cidade, mas, sem saber, propicia a ascensão de uma milícia nascida dentro da PM que, explorando a falta de poder do Estado, aterroriza as favelas para extorquir seus habitantes, transformando-as também em autênticos currais eleitorais. Sem perceber o que está acontecendo, Nascimento se vê atormentado por problemas pessoais e pela pressão exercida por um político de esquerda, o deputado Fraga (Irandhir Santos), cuja visão idealista acerca dos direitos humanos frequentemente gera embaraços para a polícia.

    Assistindo o filme, não pude deixar de lembrar um documentário que assisti a um tempo chamado Manda Bala (Send A Bullet). Ganhador de vários prêmios, inclusive o Grande Prêmio do Juri em Sundance e que mesmo assim não permitiram que fosse exibido nos cinemas brasileiros, caindo na obscuridade. O documentário produzido por americanos (dirigido por Jason Kohn) e filmado em São Paulo mostrava a clara relação entre a corrupção política (ilustrada com ex-presidente do Senado Jáder Barbalho) e a problemática da violência, mais especificamente uma de suas mais assustadoras consequências: o sequestro.

    E Tropa de Elite 2 segue a mesma linha de pensamento do documentário, porém de forma mais abrangente, complexa e de quebra com muita ação. Um filme inteligente, ácido, provocante, ousado, cru e intenso. O filme é conduzido como uma ficção (sua frase de início deixa isso bem claro, porém de forma irônica), mas que sabemos perfeitamente que é mais real do que gostaríamos que fosse. Tão real que é impossível não comparar o apresentador de televisão hipócrita e populista que usa isso para conquistar seu cargo político e está envolvido em toda a sujeira que tanto critica, usando a mídia como instrumento de seus interesses (em nosso próprio estado temos vários exemplos...).

    Padilha também consegue incrivelmente mostrar a situação por diversos pontos de vista, mesmo tendo um protagonista como narrador da história. Inclusive o ponto de vista dos próprios políticos e bandidos, oferecendo mais argumentos para uma análise crítica aprofundada. E do ponto de vista do protagonista, o Coronel Nascimento, acompanhamos seu drama pessoal, sendo engessado pela burocracia do alto escalão, sua revolta em querer resolver o problema e ver que seus inimigos estão ao seu lado, e pra piorar, seus problemas de relacionamento com seu filho que o considera uma pessoa truculenta e o compara o tempo todo com seu padrasto, que pensa de forma oposta, sempre preocupado com os Direitos Humanos o que irrita mais ainda Nascimento.

    Do ponto de vista técnico, Tropa de Elite 2 não deixa nada a desejar e dá uma grande lição de como produzir um filme sem efeitos especiais em computador, com uma fotografia crua e urgente, uma excelente direção, som, montagem, direção de arte e interpretação de seus personagens. Sem eufemismos e frases bonitas (no início do filme Nascimento ironiza esse clichê com uma ótima frase), pelo contrário, uma linguagem fria e cotidiana .

    Um conjunto de minúcias que eleva o filme a um patamar conceitual nunca antes alcançado pelo cinema brasileiro, e indo de encontro ao patriotismo irracional americano, Tropa de Elite mostra tudo de forma clara e ácida, rasgando a barriga e mostrando as entranhas do problema sem o frequente medo de empresários ou dos grandes estúdios produtores de filmes que interferem no resultado final. Ainda por cima, consegue manter um ritmo incansável e com humor na dose certa.

    Tropa de Elite 2 é um filme obrigatório para todo brasileiro (assim como os documentários Manda Bala e outro muito bom sobre o Pré-Sal, O Petróleo é Nosso), principalmente para aqueles que vivem criticando o governo, mas sempre esquecem que os políticos só estão lá por nossa culpa. E quem prestar bem atenção perceberá a crítica direta de Padilha que mostra o Governador do Rio sendo reeleito pelo povo e como isso é feito junto à manipulação da mídia e as famosas queimas de arquivo.

    Há momentos no filme em que o Coronel Nascimento incorpora cada um de nós brasileiros revoltados, e nos dá um breve momento de expurgação, vezes espancando um Governador corrupto, vezes denunciando abertamente todos os envolvidos no sistema. Infelizmente, ao contrário do resultado no filme, na vida real esses mesmos políticos não tem o mesmo destino que gostaríamos. E talvez nesse ponto Padilha nos dê outra lição, a da esperança; de que é possível continuar sendo honesto e íntegro e algum dia conseguir mudar o sistema, o verdadeiro inimigo da sociedade.

    Na sala de cinema que assisti as pessoas aplaudiram muito ao término do filme. Mas acho que ao invés de aplaudir, as pessoas deveriam permanecer em silêncio para refletir. Refletir bastante, principalmente pela nossa própria culpa em tudo isso...  

    postado em 11/10/2010 12:35

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  • Alice no País das Maravilhas

     

    A primeira impressão que tive ao assistir a versão cinematográfica de Alice no País das Maravilhas foi a de que Hollywood está ficando preguiçosa, tanto nos roteiros, quanto na parte técnica. E esta versão do clássico livro de Lewis Carroll dirigida por Tim Burton demonstra exatamente esta triste fase do cinema.

    Enquanto nos maravilhamos com as novas tecnologias de som, imagem em alta resolução, três dimensões, dentre outras, esquecemos da essência de um filme, o que o faz ser uma obra justificável da sétima arte, uma forma de entretenimento que nos envolva magicamente em sua história com seus elementos visuais complementares.

    Estamos vivendo a fase do 3D. Qualquer filme hoje, para ter apelo comercial, precisa ser em três dimensões. Concordo com as palavras proferidas por James Cameron em uma entrevista à Revista VEJA que disse que o futuro do cinema é o 3D, já que o ser humano enxerga em três dimensões, e não plano, logo o natural é que o 3D ganhe facilmente o seu espaço.

    A diferença é que Cameron tem autoridade máxima para falar isso, visto que ele foi o criador da verdadeira tecnologia 3D em Avatar. Ao mesmo tempo em que, quando assistimos Avatar em 3D ou não, vemos um filme natural que não precisa conter o tempo todo a mensagem embutida: 'Olhe! Este filme é 3D! Agora vou jogar algo em sua direção para você perceber'.

    E este é o triste caminho seguido por Alice durante toda a projeção. E o pior: todo o filme aparenta ter sido conduzido apenas com o intuito de explorar (ingenuamente) a tecnologia 3D, esquecendo de um bom roteiro e de uma boa dinâmica, tornando o filme bastante enfadonho, tanto para crianças, quanto para adultos.

    E para piorar mais ainda, ficou bem claro o quanto Tim Burton está se entregando ao submundo comercial de Hollywood. Posso até imaginar o momento em que a Disney o convida para dirigir um novo filme de Alice: 'Tim, queremos produzir uma versão em carne e osso do livro Alice no País das Maravilhas, e acreditamos que você é o diretor perfeito para tal filme já que o livro tem um apelo sombrio e subliminar. Só que também precisamos atingir as crianças, visto que lucraremos muito com produtos relacionados ao filme, mas também temos que encantar os adultos. E tudo isso tem que ser em 3D!'.

    O resultado claro é um filme sem foco algum, nem para crianças, nem para adultos, nem para qualquer outro público. Além disso temos o roteiro escrito por Linda Woolverton (O Rei Leão) que misturou a história dos dois livros de Alice, acrescentou os pobres elementos da moda como Harry Potter e finalizou com uma pitada de Hook – A Volta do Capitão Gancho, o que resultou em um roteiro fraco, perdendo a grande oportunidade de aprofundar-se no complexo mundo psicológico de Alice. Burton poderia aprender bastante com Onde Vivem os Monstros, que, na minha opinião, deveria ter sido o caminho seguido neste filme.

    Antes de Alice ser lançado, criei muitas expectativas quando soube que era dirigido por Tim Burton. Achei que ele seguiria o caminho de Edward - Mãos de Tesoura e aprofundasse de forma inteligente nos elementos subliminares e simbólicos da complexa história original de Alice no País das Maravilhas. Com certeza teríamos um novo marco em Hollywood. Alice seria um filme com um bom apelo comercial (que obviamente a Disney não deixaria passar batido) mas também encantasse com a tecnologia 3D e fosse sustentado em um roteiro muito intenso que explorasse a fundo cada personagem da trama, o que para mim é o grande trunfo da idéia.

    Só que Burton já havia mostrado sinais de fraqueza com os mesmos erros cometidos em A Fantástica Fábrica de Chocolate que ainda conseguiu se sair melhor que Alice. Sem falar na chata insistência de escalar sempre Johnny Depp em seus filmes, o que já se tornou pleonasmo quando se fala em filmes de Tim Burton. Porém quem acaba ganhando a cena em termos de interpretação é Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha) que incorporou de forma excelente uma personagem que age impulsionada por seus próprios defeitos, refletindo toda a falsidade ao seu redor. Enquanto isso Johnny Depp se torna uma figura pálida e claramente forçada na tentativa de interpretar um chapeleiro maluco.

    E o que falar da protagonista Alice? Esperava ser supreendido pela atriz novata Mia Wasikowska, que não conseguiu abraçar nem um pouco a complexidade de sua personagem, onde, junto aos graves defeitos de planos do diretor, sempre aparece de forma repetitiva e sem nenhuma força de atuação. Por falar em planos (fotografia), fiquei muito surpreso ao ver a total falta de criatividade de Burton chegando ao extremo de repetir duas panorâmicas seguidas na cena em que o cachorro está correndo em direção ao castelo.

    Com tantos defeitos, resta somente sentar e curtir a ilusão do 3D que no caso de Alice se torna repetitiva e cansativa, além de percebermos claramente o amadorismo do diretor junto à tecnologia com um 3D artificial feito durante a pós-produção, ao contrário de Avatar que foi filmado já com a tecnologia. Só o que nos resta então é curtir o colorido do filme e a fraca computação gráfica que domina o filme e nos faz sentir saudades do tempo em que Hollywood ainda se dava ao trabalho de produzir maquetes e objetos reais para melhorar a verossimilhança do cinema.

    postado em 25/04/2010 10:46

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  • Onde Vivem os Monstros

     

    Spike Jonze é admirável por conseguir equilibrar filmes que consigam ser comerciais mas ao mesmo tempo reflitam sua livre visão nada convencional, resultando em filmes esquisitos porém muito interessantes como Quero Ser John Malkovich e Adaptação. Talvez com o intuito de colocar em prática seu estudo do bizarro comportamento humano, Jonze também foi co-criador e produtor da série de TV Jackass.

    Em Onde Vivem os Monstros, Jonze conseguiu uma proeza mais admirável ainda. Transformar pouco mais de dez frases do livro no qual é baseado (escrito há quase 50 anos por Maurice Sendak) em um longa profundo e que nos dá uma visão nunca antes vista no cinema da mente de uma criança, através de seu personagem principal, Max.

    Max é uma criança comum: na escola, brinca com os colegas; em casa, busca a atenção da mãe e da irmã e, quando falha em consegui-la, se sente frustrado. Tem medo e chora ao ser soterrado num banco de neve depois de uma brincadeira. Ao ser repreendido pela mãe, reage de maneira impulsiva, machucando-a, arrependendo-se imediatamente do que fez. Sem compreender a melancolia e a seriedade do mundo adulto, ele constantemente se volta para seu rico universo interior, usando a imaginação não apenas para se divertir, mas também para fugir daquilo que o incomoda. A partir daí, Max foge de casa e refugia em sua imaginação em uma ilha com imensos monstros peludos.

    E o filme é tudo menos o que aparenta ser: um filme infantil com monstros assustadores. Eu realmente não recomendaria que crianças o assistissem. O filme acaba revelando-se uma profunda análise psicológica do comportamento infantil, seus medos, suas dúvidas e seus conflitos em relação ao conturbado mundo dos adultos.

    Ambientado em um clima opaco, triste, pouco iluminado e muito pouco colorido, prezando por tons de cinza e ocre, com monstros que à primeira vista parecem assustadores mas que ao longo da projeção revelam-se cativantes e confusos, Jonze consegue que mergulhemos na imaginação de Max com uma fantástica direção de arte que traduz o ar de melancolia e confusão de sua mente.

    Aos poucos percebemos que cada monstro na verdade reflete um traço específico de sua personalidade, Max acaba se envolvendo em problemas com cada um deles e tenta fugir daquele que aparentemente reflete o seu pior traço pessoal, ironicamente o mesmo que o levou a fugir de casa: a insegurança e carência de atenção. Vemos então Max tendo que enfrentar seus próprios problemas pessoais personificados nos monstros criados em sua imaginação.

    A partir daí o filme começa a se tornar perturbador, sombrio e ao mesmo tempo belo e cativante, por sua naturalidade, com monstros realistas (construídos com o misto de atores fantasiados e computação gráfica para as expressões faciais) fugindo da artificialidade e revelando claramente a personalidade de cada um, tudo embalado com uma exótica e maravilhosa trilha sonora.

    Onde Vivem os Monstros nos faz voltar ao que sentíamos na infância e a analisar o comportamento humano em sua fase mais conturbada, mostrando, ao mesmo tempo, a relação dos pais com seus filhos em uma sociedade tão voltada para o lado material. Max ao fugir de casa, refugia-se em seu mundo particular para conhecer e enfrentar seus próprios problemas tudo dentro de sua imaginação. Ou será que não? ...

    postado em 26/02/2010 00:00

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  • Avatar

     

    O diretor canadense James Cameron não dá ponto sem nó. Cada obra sua marca história no cinema. Responsável pelos filmes mais marcantes da ficção científica de ação, O Exterminador do Futuro 1 e 2 (e seus efeitos especiais revolucionários na época) e Aliens: O Resgate, foi também o pai do colossal Titanic e do melhor filme de ação não ficção científica (na minha opinião) de todos os tempos, True Lies.

    Depois de um hiato de 12 anos desde Titanic, Cameron apresenta sua nova cria envolta de muito marketing, Avatar. Começa marcando história sendo a obra mais cara da história do cinema com orçamento estimado em US$ 500 milhões, boa parte gasta em novas e revolucionárias tecnologias. Cameron contratou o mesmo estúdio que produziu Gollum de O Senhor dos Anéis, pois queria o mesmo resultado real para seus personagens azuis. E o resultado foi surpreendente.

    Avatar sem dúvida é o próximo grande passo da computação gráfica, corrigindo eternos defeitos que nunca a tornaram totalmente plausível. Não se chegou ainda ao ponto da perfeição absoluta, há um leve sentimento de fantasia no que vemos, mas sem dúvida após Avatar faltará muito pouco para isso. O grande segredo foi captar a total interpretação dos atores, cada micro movimento de rosto, olhos, corpo e transportar para a "marionete digital", tornado a captação de movimentos perfeita e categorizando seus antecessores como meros bonecos duros e quebrados. Os personagens possuem uma vida nunca antes vista, e em determinado momento do filme, ignoramos que são criaturas digitais e conseguimos nos emocionar com a "interpretação" das criaturas digitais.

    Os cenários também são de um realismo impressionante, com cada detalhe trabalhado meticulosamente e iluminação muito natural. Nos sentimos em uma verdadeira aula de exobiologia, onde no começo da projeção nos são apresentados seres e plantas do planeta Pandora que serão utilizados no ato final. O que ainda peca talvez seja a textura da pele ainda muito plástica, contrariando a grande regra de nossa realidade onde a imperfeição é que gera nossa percepção de perfeição, porém isso jamais tirará o mérito do nível alcançado por Cameron.

     Avatar começou a ser elaborado em 1995, porém Cameron alegou que esperou o momento em que a tecnologia fosse suficiente para tornar seu projeto possível. É aí que Cameron dá uma verdadeira "tapa na cara" indireta na cara de George Lucas. Se George não pensasse apenas em marketing e lucro e tivesse esperado mais um pouco para a concepção da nova trilogia de Star Wars, estaria recebendo os elogios no lugar de Cameron.

    Ok, Avatar revolucionou a computação gráfica, efeitos especiais e criou um mundo totalmente novo mais impressionante até que o mundo criado por George Lucas em Star Wars, mas... e quanto ao roteiro? É neste ponto que acredito que Cameron poderia ter revolucionado ainda mais, abrindo mão dos velhos clichês e amálgamas de filmes antecessores. Esta foi uma oportunidade perdida, mas não totalmente.

    Avatar não é um filme ingênuo, mas também sua história não é exemplar. Apoiando-se no calor da discussão atual sobre a destruição da natureza e exploração dos recursos naturais pelo homem, o filme junta pedaços de diversos filmes, apenas atualizando um contexto já bastante utilizado com um final totalmente previsível, onde o diretor ainda tenta induzir que o final não será feliz com uma leve distração no último ato da projeção.

    Percebemos vários elementos batidos de seus antecessores, como povos tribais evoluídos (Evoluídos? Intenção de Cameron de mostrar que evolução não significa tecnologia avançada?) integrados à natureza, elemento já explorado em filmes como A Máquina do Tempo, Star Wars ou a idéia de uma natureza integrada e espiritualizada já abordada em Final Fantasy. Além disso temos os velhos clichês do forasteiro que é respeitado pela tribo, ideais de guerra e luta, pacifismo, etc. só que abordados sempre de forma preguiçosa e superficial.

    Mas acredito que a intenção de Cameron não foi produzir um filme filosófico que fizesse as pessoas pensar por alguns dias (talvez você pense na lição do filme por algumas horas no máximo), sua intenção foi romper os paradigmas do cinema em termos de tecnologia e experiência sensorial, o que conseguiu com maestria. Avatar é um filme dinâmico do começo ao fim, de tirar o fôlego com muita ação e beleza visual e que já tem sua posição garantida na história do cinema.

     

    P.S.: Não vejo a hora de assistir Avatar em um cinema 3D. Se a experiência visual já foi marcante em um cinema comum, deve ser muito mais em três dimensões.

    postado em 20/12/2009 16:12

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  • Distrito 9

     

    Apoiando-se no nome de Peter Jackson (produtor do filme, não diretor), Distrito 9 tem uma premissa clichê, mas que acaba se desenvolvendo de forma extremamente inteligente e original.

    Tudo começa como uma falsa reportagem sobre a chegada de uma nave alienígena a Johannesburgo, na África do Sul. Subnutridos e submissos, os ETs são instalados pelo governo em um campo de refugiados, que logo se transforma em uma enorme favela. Maltratados pela polícia e por gangues locais, eles começam a promover protestos e assustam a população. Uma corporação é convocada para remover favela a um local distante e encarrega um de seus funcionários da tarefa. Mas esse empregado é contaminado pelos aliens e aos poucos se torna um deles.

    O filme mistura diversos elementos clichês de filmes do gênero, como aliens em formato de insetos, máquinas muito avançadas em tecnologia, o velho rebelde que luta para voltar à sua terra natal com seu filho à tira colo, entre outros.

    Porém ao mesmo tempo introduz elementos pouco utilizados nos filmes de ficção científica, como o desenvolvimento da história em formato documentário (estilo já adotado em filmes como A Bruxa de Blair e Cloverfield), o humano "bonzinho" da história faz tudo apenas visando seu próprio interesse e um humor sarcástico misturado com ótimas críticas sociais.

    Seu principal foco é a discriminação racial, onde há uma alusão clara ao Apartheid sul-africano. O local onde se desenrola a história não foi por acaso, Johannesburgo, e houve muitas críticas por parte do governo local alegando que o filme mostrou os habitantes como bárbaros devassos e canibais.

    Exageros e polêmicas à parte, Distrito 9 deve ser entendido como uma profunda crítica aos ditos países desenvolvidos" que sempre querem resolver a situação dos países subdesenvolvidos, obviamente sempre visando seus próprios interesses. E não faltam referências a isso no filme. A organização que planeja a retirada dos aliens chama-se MNU, uma óbvia alusão à ONU. Os aliens que não conseguem voltar ao seu planeta acabaram criando favelas causando um descontrole social com tráfico de armas em troca da comida favorita dos aliens: comida de gato!

    O filme consegue se manter bastante interessante durante sua primeira hora de projeção. A partir, começam puras e desnecessárias longas cenas de ação. E é impossível não lembrar de Transformers, devido à semelhança dos robôs e seus movimentos, mas tudo com efeitos especiais de tirar o fôlego. Um grande ponto do filme: as cenas feitas em computação são muito naturais devido ao estilo documental de filmagem, evitando os impossíveis e artificiais planos de câmeras tão utilizados em filmes blockbusters (incluindo Transformers).

    Outra boa cena do filme é quando uma criança alien compara o braço do humano que está se transformando em inseto com o dele. É quando o humano imediatamente diz que não quer ser parecer com eles. Vemos claramente a intenção do diretor em mostrar o quanto somos racistas com nossa própria espécie e mais ainda com as demais (xenofobia).

    Para quem gosta de ficção científica, terá um filme original recheado de críticas subliminares. Para quem não gosta, um filme com muita ação e bom humor e que nos faz refletir sobre a natureza especiesista humana e o controle das classes dominantes sobre a minoria.

    postado em 16/10/2009 14:06

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