Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha


 
  • Blade Runner

     

    Até que ponto somos "humanos"?

    Blade Runner é, sem dúvida, um dos maiores representantes da cibercultura. Mesmo completando 30 anos em 2012, ainda hoje é referência para muitos filmes de ficção científica, e se consagrou como um dos maiores clássicos do gênero, mas à época em que foi lançado não teve seu merecido reconhecimento. Pelo contrário: foi um fracasso de bilheteria, sua versão final foi editada a contragosto do diretor Ridley Scott (Gladiador, Alien) e muitos não gostaram do filme.

    O filme se passa em 2019, em uma Los Angeles banhada por uma constante chuva ácida, onde robôs orgânicos criados geneticamente chamados de replicantes são fabricados pela poderosa Corporação Tyrell. Seu uso na Terra é banido e os replicantes são exclusivamente usados em lugares inóspitos para trabalhos perigosos em colônias extraterrestres. Os replicantes que desafiam esse banimento e retornam para a Terra são caçados e exterminados pelos operativos especiais da polícia conhecidos como "Caçadores de Androides". Quando um grupo de replicantes escapa, o aposentado Caçador de Androides, Dick Deckard (Harrison Ford), relutantemente aceita o trabalho de caçá-los, mas acaba se envolvendo emocionalmente com um deles.

    Baseado no livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, um dos mais cultuados autores de ficção científica, Blade Runner é um filme que nunca envelhece. Alguns de seus efeitos especiais produzidos apenas com maquetes, surpreendem ainda hoje, deixando muita computação gráfica no chinelo – francamente, já é cansativa a artificialidade da computação gráfica, e alguns diretores já a colocam em segundo plano como Christopher Nolan na trilogia de Batman e A Origem.

    Seu enredo complexo, que mistura traços noir dos anos 20, futuro pós-apocalíptico, inteligência artificial e exploração extraterreste, nos traz um estilo estético único, consagrando-se como um clássico cult, e conforme as palavras do diretor Ridley Scott, “seu filme mais completo e pessoal”. Em 1993, o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso como sendo "culturalmente, historicamente ou esteticamente significante".

    Com uma das trilhas sonoras mais marcantes do cinema, produzida em um clima cibernético e sombrio por Vangelis (a música tema encerra o filme de forma magistral), Blade Runner é um filme filosófico e bonito, que nos envolve em um clima único, além de sua riqueza de detalhes que nos faz viajar com uma história complexa e um final (da versão do diretor) inesquecível. Um filme de dar orgulho a Isaac Asimov.

    A filosofia que o filme aborda continua muito atual e nos faz refletir sobre o verdadeiro significado de “ser humano”. A tecnologia em 2019, através da inteligência artificial, consegue criar replicantes idênticos aos humanos mais fortes e ágeis. Mas devido a problemas de instabilidade emocional e pouca empatia, eles são mais agressivos e seu tempo de vida é limitado a apenas 4 anos. Devido ao seu pouco tempo de vida, suas memórias são implantadas e criadas artificialmente. Ou seja, além de organismo e inteligência artificiais, suas consciências também são.

    Um teste Voight-Kampff feito em Rachael (Sean Young), que acredita ser humana, demora mais que o normal e surgem dúvidas se ela é realmente uma replicante, levantando uma questão importante: até que ponto uma consciência artificial poderia se tornar verdadeiramente “humana”?

    Desde seu lançamento, em 1982, Blade Runner contou com sete versões diferentes como resultados de mudanças controversas feitas pelos executivos do filme. Sua primeira versão de lançamento chegou a ter uma ridícula narração em off com Deckard explicando várias cenas do filme. Apenas em 2007, a Warner Bros lançou o The Final Cut, uma versão digitalmente remasterizada de 25 anos feita por Scott, em cinemas selecionados e posteriormente lançada em DVD e Blu-ray.

    ATENÇÃO! SPOILER

    E é na versão final do diretor que podemos encontrar o ponto chave de todo o filme. Não continue a leitura se não quiser saber o final: Deckard também é um replicante! No início do filme temos o investigador da polícia brincando com um origami. No meio, temos uma lembrança esquisita de Deckard vendo um unicórnio correndo (a cena chave que indica que Deckard é um replicante, removida da primeira versão do filme) e no final do filme ele encontra um origami de um unicórnio, sugerindo uma memória que lhe foi implantada.

    Ao longo do filme, cada um dos replicantes é caçado, e parecem adquirir características humanas, enquanto os humanos que os caçam parecem adquirir, cada vez mais, características desumanas. Logo, surgem questões que afligem os humanos também nos replicantes, como medo da inevitabilidade da morte, rebeldia, razão da existência, oposição ao seu criador. Isso fica bem claro no momento em que um replicante mata seu Tyrell, que não pode resolver sua morte inevitável, negando seu criador e indo de encontro ao seu destino conformista.

    Até onde nossas memórias podem ser perpetuadas? Tudo o que vivenciamos de mais incrível em nossa vida se perderá como “lágrimas na chuva” após a nossa morte? E se pudéssemos “armazenar” nossa consciência em algum lugar antes de nossa morte?

    Blade Runner é um filme único, inesquecível e que mesmo 30 anos após seu lançamento continua sempre atual e é referência para grande parte dos filmes modernos de ficção científica, que o digam Minority Report, Matrix, A.I. (Inteligência Artificial), O Homem Bicentenário...

     

    Você é um replicante? Se você responder SIM em pelo menos 7 das questões abaixo você é! Brincadeira...

    1. Você tem memórias da sua infância?
    2. Você lembra de já ter visto alguma vez na vida uma aranha?
    3. Você acha que a vida passa muito rápido?
    4. Você tem vontade de conhecer seu criador?
    5. Você já chorou?
    6. Você já viu chuva?
    7. Você já bateu ou quis bater em alguém?
    8. Você tem medo da polícia?
    9. Você gosta de origami?
    10. Você gosta de brinquedos eletrônicos?
    11. Você sente o vento em seu cabelo?
    12. Você é do tipo que nao tem empatia por todo mundo?
    13. Você acha que nao é um replicante?

    postado em 26/08/2012 17:47

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  • Donnie Darko

     

    Por quê você está usando essa estúpida fantasia de coelho?

    Já faz um bom tempo que assisti Donnie Darko pela primeira vez, mas a incrível sensação que o filme me transmitiu ficou marcada para sempre, e assisti-lo pela vigésima vez (sim, vinte vezes, desta vez em Blu Ray) me motivou enfim a escrever uma crítica de um filme tão complexo que considero número zero (para que nenhum outro ocupe seu lugar, rs) da minha lista de preferidos.

    Donnie Darko é um filme que se ama ou se odeia, não há meio termo. Quem consegue ser “fisgado” por sua trama, mergulha em uma experiência tão surpreendente quanto seu desfecho. Richard Kelly, escritor e diretor do filme, ainda como um diretor estreante, conseguiu incluir, cuidadosamente, diversos elementos que enriquecem sua obra, principalmente sua maravilhosa e nostálgica trilha sonora, com destaque para uma versão excepcional da música Mad World, por Gary Jules, da banda oitentista Tears For Fears.

    Não há vergonha em dizer que não entendeu Donnie Darko. Por mais que o próprio diretor tenha exposto suas explicações a respeito do filme, deixou as brechas necessárias para nossa interpretação pessoal. Como costumo dizer, por mais vezes que já tenha assistido, cada vez mais consigo interpretar coisas diferentes do roteiro. Sua riqueza de elementos subliminares, conexões entre personagens e teorias metafísicas levam nossa imaginação muito além do comum.

    A primeira vez que tive a oportunidade de ver o filme casou com a época em que estava estudando determinismo filosófico, indicação do professor. Ainda mais após ter visto Efeito Borboleta, que até então possuía o mesmo tema, mas muito longe ainda da profundidade de Donnie Darko. Ainda lembro como hoje: fiquei perplexo ao final do filme, quando os créditos apareciam na tela. Pra mim, um filme é bom quando abre nossa mente para novas possibilidades, e foi exatamente o que a obra fez comigo no momento mais oportuno.

    Donnie Darko é um filme que explora a ideia de determinismo, ou seja, a ideia de que todo acontecimento é explicado por relações de causalidade: toda ação gera uma reação em cadeia. Podemos ter controle dos acontecimentos e “moldar” o futuro? Richard Kelly conseguiu ir além do conceito, entrecruzando com teorias de física quântica, tempo, espaço, universos paralelos, buracos de minhoca, além de pincelar elementos do cristianismo. Tudo isso em uma absurda riqueza de detalhes e situações aparentemente sem nexo, mas que são a chave do entendimento da história e exigem muita atenção do espectador.

    O filme foi lançado em 2001, custando uma bagatela de US$ 4,5 milhões (muito pouco para os padrões de Hollywood) e filmado em apenas 28 dias (exatamente o tempo que o coelho Frank afirma que o mundo chegará ao fim). O filme não foi um sucesso de bilheteria, mas acabou sendo muito bem avaliado pela crítica mundial e entrou para o hall dos filmes cult. Drew Barrymore, produtora do filme, topou se arriscar no projeto e contribuiu muito para a publicidade do filme. O falecido ator Patrick Swayze também abraçou o projeto quando leu o roteiro, reduzindo seu cachê.

    Em 2004 foi lançada uma versão especial do diretor, com 15 minutos extras, onde Richard Kelly ajuda no entendimento do roteiro, mas que acaba perdendo um pouco da magia original do filme. Após uma desastrosa continuação desnecessária (não, não foi Kelly que escreveu e dirigiu), Samantha Darko (irmã de Donnie no primeiro filme), Donnie Darko permanece na história do cinema como um filme irretocável, complexo, e mesmo na categoria cult, conquista mais e mais fãs a cada dia que passa. Uma preciosidade para ter na coleção de qualquer cinéfilo e um filme indispensável para os curiosos de plantão, mesmo que seja assistido em um universo tangente.

    Caso você já tenha assistido ao filme, segue alguns pontos importantes no filme que merecem muita atenção:

    • O homem gordo de laranja que sempre está observando Donnie;
    • O nome do filme em cartaz no cinema que Donnie vai se encontrar com Frank;
    • A cena em que Frank passa a mão em seu olho após acordar;
    • A Vovó Morte;
    • A namorada de Donnie acenando para sua mãe ao final de tudo;
    • A cena em que o professor de Donnie fala que não pode continuar o assunto sobre viagem no tempo;
    • As frases de efeito de Donnie e Frank;
    • A chinesa Cherita, fã de Donnie;
    • A cena em que os professores de Donnie se olham e falam o nome dele com certo conhecimento;
    • A sessão de terapia de Donnie com sua psicóloga e o comentário sobre Christina Applegate;
    • Cellar Door;
    • O livro “A Filosofia da Viagem no Tempo”;

    postado em 29/07/2012 15:27

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  • A Pele que Habito

     

    Criar um ser humano à imagem e semelhança de sua ex-mulher?

    Confesso não ter assistido os filmes de Pedro Almodóvar, mas sei de sua forte reputação. A Pele que Habito foi o primeiro de minha lista, e li por aí que este seu novo trabalho quebra algumas regras de seu próprio estilo. Filmografias à parte, farei então uma análise mais imparcial de seu novo (e perturbador) filme.

    Desde que sua esposa foi queimada em um acidente de carro, o Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas), um iminente cirurgião plástico, interessou-se em criar uma nova pele com a qual ele poderia tê-la salvo. Depois de 12 anos, ele consegue criar uma pele artificial que é um escudo mais forte do que a pele humana original. Robert realiza os testes em uma cobaia humana, Vera (Elena Anaya), que mantém aprisionada em sua casa.

    A Pele que Habito é um filme perturbador, tanto por seu constante clima de frieza e suspense, quanto às várias dúvidas que aos poucos vão sendo respondidas durante a projeção. A fotografia acompanha a obsessão e frieza de Dr. Robert e a forma sádica com que cuida de sua cobaia humana, Vera, ora tratando-a de forma descartável, ora revelando uma atração amorosa.

    Vera possui uma forte semelhança com sua ex-mulher morta em um acidente, o que mostra que, muito além da busca de uma pele artificial humana perfeita, Dr. Robert também busca manter a imagem de sua mulher literalmente viva ao seu lado.

    Sem nenhum pudor em mostrar o corpo nu de Vera (ao contrário de muitas obras hollywoodianas), Almodóvar exibe o corpo da cobaia como uma obra de arte da medicina, um estágio da perfeição humana, uma pele perfeita, um corpo perfeito, porém artificial. Sem apelo sexual, porém com uma forte beleza, quase uma escultura viva.

    E a história, aos poucos, vai se tornando cada vez mais bizarra e doentia, com estranhas ligações entre os personagens, rumo a uma revelação surpreendente. Obviamente não vou revelar muitos detalhes que possam estragar a surpresa, então pularei logo para uma análise mais filosófica do filme.

    Com uma estrutura narrativa em três atos não lineares, Almodóvar explora a artificialidade da beleza em nosso tempo, além da relatividade do sexo no ser humano. Sexo aqui neste contexto, leia-se masculino/feminino. Não adianta criar um corpo da forma que se queira, como para atender sua necessidade doentia de manter a imagem de sua ex-mulher viva, se seu verdadeiro conteúdo é impossível de ser mudado. Dr. Robert acaba se apaixonando por sua cobaia e mantendo-a como sua mulher, apenas iludido por sua aparência física, mas ignorando a verdade de sua origem.

    A busca por uma pele humana melhorada surge de um trauma egoísta, pessoal, mas sendo o meio necessário que beneficiará a todos. O domínio psicológico e o cárcere de sua cobaia ressaltando a relação de poder homem/mulher invertida através de uma assustadora punição para Vera.

    O próprio título do filme carrega sua filosofia: A pele que habito, ou seja, Vera é apenas uma consciência humana que habita um corpo que nem é seu. Habita presa, tanto mentalmente, quanto fisicamente.

    Até o momento da surpreendente revelação o filme continua impecável, porém me surpreendi de forma negativa com seu desfecho final, que no meu caso foi bem previsível e achei bastante simplório. Infelizmente seria um filme irretocável se seu final fosse um pouco mais complexo e explorasse mais a temática polêmica do filme.

    Ah, e se você, depois de saber quem realmente era Vera, começar a ter repúdio de sua relação com Dr. Robert, comece a repensar seus próprios conceitos... 

    P.S.: O nome da atriz coadjuvante é Marisa Paredes. Seria uma parente minha? 

    postado em 29/12/2011 22:18

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  • Melancolia

     

    Simbolismo marcante em uma bela cena do filme

    Segundo o Wikipedia, Melancolia “...é um estado psíquico de depressão sem causa específica. Caracteriza-se pela falta de entusiasmo e predisposição para atividades em geral. É uma das "características" da Depressão Maior. A duração do estado depressivo deve ser superior a dois anos, afetando as funções básicas do dia-a-dia de uma forma considerável."

    A definição encaixa-se perfeitamente no estado depressivo enfrentado nos últimos anos pelo diretor do filme homônimo, Lars Von Trier, que, ao invés de apenas ignorar a vida, aproveita seu talento cinematográfico para expurgar suas angústias através da sétima arte.

    E talvez Melancolia seja a última fase de sua luta contra a depressão. Comparado a seus filmes anteriores, este poderia ser tranquilamente assistido por uma criança de 12 anos. Seu filme anterior, Anticristo, cuja crítica já passou aqui pelo blog, consiste em um sadismo psicológico com fortes cenas de violência e um mergulho complexo no mundo da psicanálise. Já Dançando no Escuro, de 2000, violenta o espectador, colocando a protagonista em uma série de flagelos cada vez mais angustiantes, culminando em um chocante ato final.

    Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). Ela recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que juntamente com seu marido John (Kiefer Sutherland) realiza uma festa suntuosa para a comemoração. Enquanto o planeta se aproxima, Justine começa a agir de forma estranha, entrando em um estado de melancolia profunda. Aos cuidados de sua irmã, a angústia e a incerteza da colisão do planeta com a Terra acaba unindo a família e revelando os conflitos mais internos de seus personagens.

    O filme inicia com 10 minutos de belíssimas imagens em câmera lenta, revelando o destino final de seus personagens, repletas de simbolismos e com uma fotografia impecável, mesmo artifício usado em Anticristo. A partir daí, seguimos com a história filmada em câmera na mão, com cortes secos e som ambiente proporcionando a tensão da expectativa do final já apresentado no ínicio do filme. Um clima tenso que nunca passa do morno, o que torna o filme bem monótono durante seus 130 minutos de projeção.

    Mas isso não tira seu mérito meditativo, repleto de simbolismos ao bom estilo de Lars, abrindo as interpretações para cada espectador. Sem falar na perfeita fotografia mesmo com uma câmera inquieta e a angustiante ideia de um planeta se chocar com o nosso, cuja cena da colisão nos insere dentro do momento apocalíptico. Soma-se a isso o fantástico trabalho dos atores escolhidos pelo critério rigoroso de Lars, com destaque para Kirsten Dunst, cuja atuação lhe concedeu o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cannes.

    A morte é a única certeza que temos na vida. Sabemos que não temos como escapar dela, e quando sentirmos sua aproximação, seja por uma doença, seja pela idade, seremos consumidos por uma angústia, uma melancolia profunda, prevendo o ato final de nossa vida. O planeta Melancolia é uma representação simbólica da morte, que um dia irá consumir a todos sem piedade.

    Justine enfrentou sua angústia conformada. Já Claire, sempre tão controlada e metódica, se desesperou diante da certeza da morte. Em certo momento do filme, Justine tenta cruzar uma ponte andando a cavalo, mas ele para e não consegue atravessá-la. No segundo ato, o mesmo acontece com Claire, quando na fuga com o carrinho de golfe, a bateria acaba e ela também não consegue cruzar a mesma ponte. Uma representação da incapacidade de cada uma de não conseguir transpor obstáculos, superar uma depressão, uma melancolia profunda.

    Assim eu fiz minha interpretação do filme. E você, qual foi sua interpretação?

    postado em 17/08/2011 02:05

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  • Eraserhead

     

    David Lynch é um cineasta nada convencional. É conhecido por filmes que mergulham no abstrato mundo dos sonhos, onde imagens desconexas e enredos fora de ordem entregam a responsabilidade de interpretação totalmente ao espectador. E é isso que faz uma grande experiência assistir a um filme de David Lynch.

    Lynch também é inovador e à frente de seu tempo (o que muitas vezes tornou filmes maravilhosos em fracassos de bilheteria). Aproveitou a revolução da internet como um ótimo veículo de divulgação de seus trabalhos, alguns disponibilizados gratuitamente no site www.davidlynch.com (recomendo o download gratuito do curta metragem Rabbits). Marcou época com a série para TV Twin Peaks, que acabou gerando um longa para cinema e continua sempre envolvido em ótimos projetos, vezes como diretor, produtor e até mesmo ator.

    Sempre ouvia muito falar em seu nome, mas foi no primeiro filme que assisti, Cidade dos Sonhos, que entendi o porquê de sua fama. O impacto do filme foi imediato e logo me fez buscar seus demais trabalhos. Em seguida veio O Homem Elefante, baseado em uma história real famosa, também supreendente principalmente por sua fotografia. Logo após o excelente (e complicado) curta metragem Rabbits e por fim o objeto desta crítica, seu primeiro e marcante trabalho, Eraserhead (1977).

    A sinopse do filme, explica pouca coisa: Eraserhead segue um curto período da vida de Henry Spencer (Jack Nance), um impressor de férias. Henry descobre que sua namorada, Mary X (Charlotte Stewart), deu origem a um deformado e monstruoso bebê. Após um tumultuado e breve período vivendo juntos, Mary Henry deixa o bebê aos cuidados de Henry. Ele tem algumas visões bizarras de uma mulher deformada em seu aquecedor, e um sonho em que a cabeça de Henry é utilizada para fazer lápis borracha. Estas ocorrências levam Henry cometer um ato dramático.

    Filmando em preto e branco, Lynch quase não conseguiu concluir o filme, teve de usar dinheiro de amigos e familiares, e demorou quase cinco anos para terminar todas as tomadas. Vale ressaltar que na época em que escrevia o roteiro, sua esposa engravidou de seu primeiro filho, o que influencia claramente na interpretação geral do filme.

    É muito arriscado buscar uma interpretação fechada para o filme, visto que é muito rico em mensagens subliminares e bizarras cenas que aparentemente parecem desconexas e sem o menor sentido. E é isso que torna Eraserhead um mergulho profundo e fascinante em um universo que parece ter sido retirado diretamente do último pesadelo da mente de Lynch.

    Tendo em mente o fato de que Lynch estava para ter seu primeiro filho ao escrever o roteiro e enxergando por uma ótica Freudiana, as coisas parecem fazer mais sentido (se é que isso seja necessário) e tudo acaba se revelando surpreendente: a forma como ele expõe os elementos do inconsciente da mente humana, seus medos, suas angústias, seus desejos através de cenas e elementos bizarros e sinistros. É como assistir um pesadelo ao vivo diretamente dentro da mente do protagonista Henry.

    Lembrando que Lynch sempre prefere entregar a interpretação de seus filmes ao próprio espectador, evitando explicações prontas, logo o que entendi do filme é estritamente pessoal, mas acabei encontrando outras pessoas pela internet que fizeram interpretações semelhantes. O filme parece girar em torno do medo de uma gravidez indesejada (representada por um bebê medonho) e os medos e angústias de um homem abandonado pela esposa, com um casamento forçado pela situação e sua prisão à obrigação de cuidar de seu filho e abrir mão de sua vida normal e seus desejos com outras mulheres.

    Uma das cenas mais bizarras do filme, mostra a cabeça de Henry sendo transformada em um lápis com borracha em uma fábrica. O suficiente para você dizer “esse filme surtou”, mas que tem uma possível explicação: depois que Henry enlouquece a ponto de sua cabeça literalmente cair, a cena mostra o desejo reprimido de Henry corrigir seu erro (borracha), como um desejo de apagar de sua mente seus problemas.

    Em diversos pontos do filme podemos também ver alusões ao seu yin-yang, sua consciência em conflito representada pela bizarra mulher dançarina em seu aquecedor. Ao final, Henry mata seu bebê representando sua libertação, onde um lado de sua consciência finaliza com uma frase marcante: “No Paraíso tudo é bom”. Também existe uma figura intrigante e bizarra que aparece no começo e no fim do filme que entendo como sendo uma representação de seu erro que gerou a criança (através de diversos elementos no filme que sugerem espermatozoides e fecundação) e que ao fim é morto junto com o bebê, sugerindo a libertação também de sua angústia.

    Eraserhead é um mergulho na mente humana que explora desejos, culpas, medos, perdas, loucura, embalada por uma trilha macabra e angustiante. Tudo para que o espectador o entenda e o interprete de acordo com seus próprios sentimentos. Não é um filme para ser apenas entendido, mas para ser sentido. E o fato de se chegar a uma possível explicação final para o filme não anula em nada a experiência única e marcante de assistir a uma obra tão ousada, misteriosa e inesquecível. Isso é David Lynch! Assista (mais de uma vez), tire suas próprias conclusões e comente aqui no blog. 

    postado em 07/03/2011 19:12

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  • Tropa de Elite 2

     

    O primeiro filme Tropa de Elite (2007), agregou à nossa cultura bordões como: 'Pede pra sair', 'Tu é muleque', dentre outros. Abordou o treinamento intensivo e brutal das máquinas de matar do BOPE, onde o Capitão Nascimento foi visto (por muitos) como uma figura heróica, comandante de uma guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro, enquanto lutava contra seus conflitos pessoais.

    Os 'vilões' da história eram os traficantes, enquanto os policiais do BOPE, com sua violência fria e truculenta, eram os soldados mocinhos desta guerra. Porém para bom entendedor, percebia-se a crítica implícita à eficiência de toda essa violência no combate à violência civil e o quanto a sociedade precisa desta mesma violência para tratar o problema.

    O primeiro filme também mostrava que, ironicamente, a classe média e alta que mais protesta contra os índices de violência, é, talvez, a que mais alimenta o sistema do tráfico, com os playboyzinhos que compram o mesmo produto causador de suas hipócritas reclamações. Pra piorar, os baixíssimos salários dos policiais contribuem para a ineficiência e consequente corrupção da Polícia Militar, deixando o trabalho para o BOPE, que no próprio filme é mostrado como a 'polícia da polícia'.

    Nesta continuação, do mesmo diretor, José Padilha, percebemos claramente um amadurecimento das ideias políticas propostas pelo roteirista Bráulio Mantovani, que mostra que na verdade os inimigos não são diretamente os traficantes das favelas, mas que há um sistema muito mais complexo por trás de tudo isso, cuja engrenagem motriz é a política.

    Agora temos o coronel Nascimento (Wagner Moura) enfrentando, como aponta o subtítulo do projeto, outro inimigo: a política. Depois de comandar uma operação mal sucedida em Bangu I que resulta num massacre, Nascimento se torna um problema para o governador do Rio de Janeiro: por um lado, é exonerado para aplacar a mídia; por outro, é promovido a subsecretário de segurança (como o personagem fala, 'Cair pra cima'). Depois de aparelhar o BOPE e transformá-lo numa verdadeira máquina de guerra, o coronel interrompe o tráfico na cidade, mas, sem saber, propicia a ascensão de uma milícia nascida dentro da PM que, explorando a falta de poder do Estado, aterroriza as favelas para extorquir seus habitantes, transformando-as também em autênticos currais eleitorais. Sem perceber o que está acontecendo, Nascimento se vê atormentado por problemas pessoais e pela pressão exercida por um político de esquerda, o deputado Fraga (Irandhir Santos), cuja visão idealista acerca dos direitos humanos frequentemente gera embaraços para a polícia.

    Assistindo o filme, não pude deixar de lembrar um documentário que assisti a um tempo chamado Manda Bala (Send A Bullet). Ganhador de vários prêmios, inclusive o Grande Prêmio do Juri em Sundance e que mesmo assim não permitiram que fosse exibido nos cinemas brasileiros, caindo na obscuridade. O documentário produzido por americanos (dirigido por Jason Kohn) e filmado em São Paulo mostrava a clara relação entre a corrupção política (ilustrada com ex-presidente do Senado Jáder Barbalho) e a problemática da violência, mais especificamente uma de suas mais assustadoras consequências: o sequestro.

    E Tropa de Elite 2 segue a mesma linha de pensamento do documentário, porém de forma mais abrangente, complexa e de quebra com muita ação. Um filme inteligente, ácido, provocante, ousado, cru e intenso. O filme é conduzido como uma ficção (sua frase de início deixa isso bem claro, porém de forma irônica), mas que sabemos perfeitamente que é mais real do que gostaríamos que fosse. Tão real que é impossível não comparar o apresentador de televisão hipócrita e populista que usa isso para conquistar seu cargo político e está envolvido em toda a sujeira que tanto critica, usando a mídia como instrumento de seus interesses (em nosso próprio estado temos vários exemplos...).

    Padilha também consegue incrivelmente mostrar a situação por diversos pontos de vista, mesmo tendo um protagonista como narrador da história. Inclusive o ponto de vista dos próprios políticos e bandidos, oferecendo mais argumentos para uma análise crítica aprofundada. E do ponto de vista do protagonista, o Coronel Nascimento, acompanhamos seu drama pessoal, sendo engessado pela burocracia do alto escalão, sua revolta em querer resolver o problema e ver que seus inimigos estão ao seu lado, e pra piorar, seus problemas de relacionamento com seu filho que o considera uma pessoa truculenta e o compara o tempo todo com seu padrasto, que pensa de forma oposta, sempre preocupado com os Direitos Humanos o que irrita mais ainda Nascimento.

    Do ponto de vista técnico, Tropa de Elite 2 não deixa nada a desejar e dá uma grande lição de como produzir um filme sem efeitos especiais em computador, com uma fotografia crua e urgente, uma excelente direção, som, montagem, direção de arte e interpretação de seus personagens. Sem eufemismos e frases bonitas (no início do filme Nascimento ironiza esse clichê com uma ótima frase), pelo contrário, uma linguagem fria e cotidiana .

    Um conjunto de minúcias que eleva o filme a um patamar conceitual nunca antes alcançado pelo cinema brasileiro, e indo de encontro ao patriotismo irracional americano, Tropa de Elite mostra tudo de forma clara e ácida, rasgando a barriga e mostrando as entranhas do problema sem o frequente medo de empresários ou dos grandes estúdios produtores de filmes que interferem no resultado final. Ainda por cima, consegue manter um ritmo incansável e com humor na dose certa.

    Tropa de Elite 2 é um filme obrigatório para todo brasileiro (assim como os documentários Manda Bala e outro muito bom sobre o Pré-Sal, O Petróleo é Nosso), principalmente para aqueles que vivem criticando o governo, mas sempre esquecem que os políticos só estão lá por nossa culpa. E quem prestar bem atenção perceberá a crítica direta de Padilha que mostra o Governador do Rio sendo reeleito pelo povo e como isso é feito junto à manipulação da mídia e as famosas queimas de arquivo.

    Há momentos no filme em que o Coronel Nascimento incorpora cada um de nós brasileiros revoltados, e nos dá um breve momento de expurgação, vezes espancando um Governador corrupto, vezes denunciando abertamente todos os envolvidos no sistema. Infelizmente, ao contrário do resultado no filme, na vida real esses mesmos políticos não tem o mesmo destino que gostaríamos. E talvez nesse ponto Padilha nos dê outra lição, a da esperança; de que é possível continuar sendo honesto e íntegro e algum dia conseguir mudar o sistema, o verdadeiro inimigo da sociedade.

    Na sala de cinema que assisti as pessoas aplaudiram muito ao término do filme. Mas acho que ao invés de aplaudir, as pessoas deveriam permanecer em silêncio para refletir. Refletir bastante, principalmente pela nossa própria culpa em tudo isso...  

    postado em 11/10/2010 12:35

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