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    João Pereira
    Advogado, escritor e atento observador da política


     

    Como Bico Doce, eleitor Sábio e Ladino, levou umas lambadas

     

    No palco da vida, o gênero humano apresenta os mais díspares figurantes, fazendo-se notar os chamados personagens típicos que, por alguma característica ímpar da suas personalidades, fazem-se notar em relação ao comum dos homens. As circunstâncias do meio, por sua vez, induzindo as regras da sobrevivência, formam seus atores segundo a aptidão de cada um. O meio política, por exemplo, oferece um campo vasto e fecundo ao surgimento desses personagens. Numa fotografia bem mais ampla, vamos focar o eleitor e o político. O primeiro representando, numa boa parte, o rebanho de presas ingênuas e incautas, e o segundo o impiedoso predador. Feroz no íntimo, o político predador apresenta-se travestido de cordeiro para melhor, na suavidade do trato e da persuasão, enganar a caça com a ilusão das falsas promessas. Entretanto, fazendo-se notar as exceções, é claro que nem todo político é um implacável caçador e nem todo eleitor é uma caça ingênua. É um relacionamento onde surgem casos de trocas de posições, isto é, o político torna-se presa e o eleitor predador. Nesse cenário de interesses conflitantes, formou-se com louvor o nosso personagem.

    Sem profissão definida, tinha aproximadamente uns quarenta anos de idade. Moreno atarracado, de estatura baixa, o chamado tipo digestivo, que do mesmo modo como facilmente digere os alimentos, da mesma forma fazia com os seus ressentimentos e contrariedades, incapaz de guardar por muito tempo mágoas e rancores, qualidade indispensável para quem atua à margem da política. De instrução abaixo da média, mas grande experiência de vida que lhe deu a alcunha de Bico Doce, era bajulador por excelência e expressava-se facilmente com a lábia peculiar dos velhacos e oportunistas. Durante a campanha eleitoral, evento que aguardava com ansiedade pelo resultado dos dividendos que colhia, abandonava seus afazeres, se os tivesse na época, e tirava por conta própria licença-prêmio para poder dedicar-se em tempo integral à enganação dos políticos.

    Era meticuloso nos seus planos. A primeira providência que fazia era a previsão da safra, isto é, o número de vítimas, sua identificação e condição econômica. Tomada essa providência, elegia o rol de suas necessidades mais imediatas. Seu pequeno patrimônio imobiliário, localizado na periferia da cidade, fora todo adquirido através de doações de políticos. Os terrenos, materiais de construção, tudo adquirido graças à maestria na arte de enganar. Tinha uma casa como residência, duas alugadas e uma terceira em acabamento.

    Acima de tudo, era um calculista. Traçado o plano de ação, era insuperável nos meios para pô-los em prática. Psicólogo nato, sabia que a vaidade, especialmente quando amaciada com a lisonja, era o mais pródigo dos sentimentos. Assim, olhar vivo e permanente sorriso nos lábios, tinha a chave para abrir qualquer porta e conseguir as vantagens pretendidas. A essa espontânea simpatia, elaborou uma isca infalível através de um fraseado padrão de abordagem que envaidecia e iludia a expectativa de vitória do candidato. Desconhecendo se a vitima tinha ou não a chance de ganhar, pouco lhe importava, repetia o chavão: Doutor, por onde ando só se fala no seu nome. Fique tranqüilo, ninguém leva essa do senhor! O que depender de mim pode contar, estou totalmente as suas ordens. Sou pobre, mas o meu voto vale tanto quanto o do rico. Para o desfecho final, descaradamente afirmava que entre parentes e amigos dispunha de uns cem votos. Que era uma pessoa influente, querida e simpática em seu bairro. E como o voto é o principal ingrediente que desperta e instiga à fome insaciável do político, este, supondo estar a defrontar-se com um verdadeiro líder ou cabo-eleitoral, estampava no rosto a imagem da satisfação. Aproveitando-se desse deslumbramento que observava com muito atenção para certificar-se da eficácia do assalto, Bico Doce discorria, com voz lamentosa, sobre as dificuldades do momento, suas necessidades e imaginárias privações. Formulava em seguida o seu pedido, com muito tato, como se fosse o mais miserável dos homens. Despertando com astúcia a comiseração do candidato, sentimento que forma a mais caudalosa cascata do desprendimento humano, era tiro e queda, obtendo praticamente, sem exceção, os favores de um pedido aqui e outro acolá que, diga-se de passagem, estendiam-se aos municípios vizinhos. Ocorre que a esperteza de Bico Doce não foi suficiente para despertá-lo sobre uma lei segundo a qual, nesta vida, não há vantagem se desvantagem e vice-versa, que nem tudo são flores e que todo sabido tem o seu dia de trouxa. Não atentou, também, para o fato de que em todas as atividades, mesmo na política, onde os candidatos têm que primar pela paciência e a polidez, saber driblar sem frustrar o eleitor, o chamado corpo-de-cintura, existem os esquentados e temperamentais. Assim, alheio a essas vicissitudes da vida, teve o nosso personagem, certa feita, em hora imprópria, a infelicidade de deparar-se com Vivaldino, azarado e teimoso candidato a prefeito.

    Faltavam três dias para a eleição. Nessa reta final, as tensões da expectativa, os atritos de toda a espécie e à frustração dos bolsos vazios, costumam por os nervos à flor da pele dos candidatos. Era exatamente com estava se sentindo Vivaldino. Atém do esgotamento financeiro, sentia-se que fora explorado, traído e, no intimo, antevia a terceira derrota. Como iria enfrentar a sua caótica situação financeira? Precisava de um meio para aliviar sua insuportável tensão. Eis que se depara com a vítima mais apropriada, Bico Doce, vezeiro facadista do seu dinheiro. Não podia mais aturar sua cara lambida, seus trejeitos ensaiados e discursos de desastradas profecias. Inocentemente, com seu habitual maneirismo, mãos para cima, Bico Doce dele se aproxima saudando-o com o viva “ o nosso futuro prefeito ! “ Foi aceso o estopim. Vivaldino desce do carro com todo o ímpeto e com incontida violência, lança-se possesso de fúria contra e indefeso Bico Doce. Aplica-lhe ás cegas socos e pontapés, prostrando-o ao chão. Não houve tempo para que alguém o socorre-se. Tudo foi muito rápido. Contorcendo-se de dor, encolhido como uma minhoca, consegue algum tempo depois recuperar forças e arrastar-se até uma casa. Os poucos transeuntes demonstram indiferença. Ali ninguém o conhecia. Sozinho e desamparado, começou aliviar, no peito opresso pelo ódio, a lançar sobre o agressor toda a sorte de impropérios. Que humilhação!

    Mais calmo, começou a analisar o incidente. Teria sido merecedor de semelhante vexame? Do agressor obteve, na verdade, algum dinheiro e material de construção. Seria isso suficiente para justificar tamanha agressão? A sua maneira de proceder, reconhecia, ardilosa e calculista, animando indiscriminadamente os candidatos, inclusive os derrotados por antecipação, com prognósticos a esmo, não era correta. Acontece que se assim não procedesse, como iria obter, sem suar a camisa, suas pequenas vantagens, necessárias para a sua sobrevivência nesse mercado aberto da corrupção que são as campanhas eleitorais? Oportunidade é coisa que não se bota fora. Não que fosse contra a honestidade, longe disso. Se não era sincero, devia essa fraqueza de caráter às facilidades, ao fato de, vendo e convivendo, ter se inspirado no mercado aberto das negociatas políticas.

    O bom exemplo, na ausência de um eleitorado esclarecido, tem devir de cima, que os políticos deixem de corromper o eleitor, pois, se assim continuarem a fazer, milhares, carentes e entregues a miséria e privações, estarão dispostos a vendê-lo. Enquanto alguns políticos tupiniquins entenderem que só conseguirão galgar ao poder pela via tortuosa, em detrimento da legalidade, das qualificações pessoais que honrem a política, e da conquista do voto pela inteligente arte do convencimento, das metas de governo, tudo permanecerá como está. O que eu, mísero eleitor e cidadão, posso fazer? Se os que têm, querem cada vez mais, eu que nada tenho, por que não tenho o direito de querer um pouco mais? A mais elevada lei moral é a lei da sobrevivência, pois, sem ela nada tem qualquer sentido. As eventuais pancadas doem, não há dúvida, mas são passageiras. É preferível suportar desaforos, lambadas nas costas, socos e pontapés, com a certeza de uma vida melhor, a viver honradamente descamisado, num mundo imoral das necessidades. Bolas! Não serei a palmatória do mundo!

    postado em 29/08/2010 00:00

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    Augusto N. Sampaio Angelim
    Juiz de Direito em Pernambuco, apaixonado por Penedo


     

    Vivas a São Cristovão, de Sergipe Del Rey

     

    O Nordeste

    Praça de São Francisco, Patrimônio Mundial da Humanidade

    Conheci a colonial São Cristovão, em Sergipe, no inícios dos anos oitenta, voltando de um carnaval passado em Salvador. Na época nem me interessava tanto pelo período colonial do Brasil, mas fiquei encantado com a beleza histórica da cidade e da Praça São Francisco. Lembro que cheguei à praça, com o sol a pino, por volta do meio dia e, debaixo de um sombreiro mexicano, que até tento recordar onde adquiri, e, me detei no lado da sombra da bela igreja da praça. Depois é que fiquei sabendo que aquela praça representa um conjunto arquitetônico singular no Brasil, já que erigido na vigência da chamada União Ibérica, quando Portugal esteve sob domínio espanhol (1580/1640) e, por extensão, sua colonia americana (Brasil).

    A praça foi erigida de acordo com as instruções urbanísticas das Ordenações Filipinas, sendo única em solo brasileiro. Preservada pelas gerações em todos estes séculos, a Praça São Francisco simboliza um importante período da história humana.

    São Cristovão é uma das quatro cidades mais antigas do Brasil e foi a primeira capital de Sergipe, fundada no ano de 1590, na época de domínio da dinastia filipina sobre toda a península ibérica e suas colônias espalhadas pelo mundo.

    Vivas, portanto ao povo de São Cristovão, que agora passa a ter um a Praça São Francisco como Patrimônio Cultural da Humanidade, ao lado de mais dezessete bens brasileiros. Ao parabenizar a velha cidade colonial da antiga Capitania de Sergipe Del Rey, lanço o olhar sobre nossa Penedo e fico triste com a degradação do patrimônio arquitetônico e cultural desta muy leal e volorosa Vila do Penedo do Rio São Francisco.


     

    postado em 25/08/2010 14:12

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    Públio José
    Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida


     

    O Príncipe e seus Maquiavéis

     

    Causa admiração e espanto a capacidade que certos políticos têm de se fazer rodear por pessoas de caráter não recomendável. Tomo por exemplo empresários e outras lideranças que conheci e que de repente decidiram trilhar os caminhos da vida pública. Antes de tomarem tal atitude eram pessoas confiáveis, dessas de quem você receberia um cheque sem problemas e com as quais você não encontraria dificuldade em negociar, no mercado financeiro, um título de sua emissão. Mas, a partir do momento em que se declararam candidatos a alguma coisa, passaram a se cercar de pessoas de conduta duvidosa e a praticar ações nem sempre dignas do nome e do respeito que antes ostentavam. Não sei se essa é uma questão global, universal, ou se é “privilégio” apenas dos políticos brasileiros. Afinal, o homem é homem em qualquer lugar do planeta. Acontece, porém, que nosso voto só tem validade no Brasil.

    Daí, não ser preciso que essa análise se estique além fronteiras. Certa vez – na qualidade de estudante de jornalismo – presenciei um colega de turma perguntar a um político de renome o motivo dele manter ao seu redor tanta “catraia moral”, tanto mau caráter. Sorrindo, o homem público respondeu com outra pergunta: “Você faria por mim o que eles fazem?” Dá prá ranger os dentes, não é verdade? É interessante se notar que o eleitor brasileiro tem dado pouca importância aos valores (ou desvalores) morais que compõem a equipe dos candidatos. Pior ainda é observar que o brasileiro encara de forma bastante natural o conceito que emana de alguns políticos de ontem e de hoje de que “rouba, mas faz”. Porque pensam assim os eleitores? Ou por outra, porque são levados a votar, a confiar seu voto em quem se reveste dessa imagem? Ao que parece, existe no eleitor brasileiro uma descrença...

    Uma incredulidade tão grande relacionada à ação política, que ele – por falta de alternativa – lança seu voto muitas vezes num cesto até infecto, esperando sair dali algum projeto político que, mesmo duvidoso, lhe soe, a seu ver, de algum proveito. Às vezes, para despertar o eleitor de tamanha letargia, é necessário o surgimento de uma verdadeira hecatombe, como no bota-fora de Collor, para que valores nobres, realmente de respeito venham a ser exteriorizados e praticados em favor de todos. Será que não é chegado o momento de analisarmos também o grau de moralidade, de seriedade, de honestidade, que habita o palanque dos atuais candidatos, ao invés de nos atermos tão somente à excelência das propostas e do conteúdo dos discursos? Jogo é jogo, treino é treino, já dizia Nenê Prancha. A humanidade em geral e o Brasil em particular já perderam demais em razão da existência, em excesso, de verdadeiros maquiavéis aboletados na assessoria de políticos, em cargos de primeiro escalão, nas cozinhas palacianas e – principalmente – nas mentes de homens públicos. Gerando que tipo de fruto? Rasputin que o diga, Paulo César Faria também, Gregório Fortunato idem, como também Goebels e toda corja sádico-lunático-psicótica que arrodeava Adolfo Hitler. Foi produto de assessoria mal cheirosa, da presença dos maquiavéis da vida, o surgimento de episódios que até hoje envergonham o caminhar de nações até ditas respeitáveis. Num “belo exemplo” do que estamos falando, um tenente americano, em cenas vistas pela televisão, encheu de cadáveres de inocentes vietnamitas a sala de jantar, até então impecável, da classe média americana. Nixon viu rolar escada abaixo o seu projeto de ser tido como estadista pelas traquinagens feitas por assessores seus no escritório político dos outros. Militares brasileiros rasgaram a Constituição ao enfiarem goela abaixo da opinião pública nacional o fechamento do Congresso e a edição do AI-5. Os argentinos, entre outros tangos amargos que vêm dançando ao longo de sua história, sentiram o sabor humilhante da derrota na Guerra das Malvinas. Ah, os assessores! Os maus, bem entendido.

    O problema também – é bom ressaltar – é que muitas vezes o próprio candidato é quem conduz o fio da malandragem, safadeza, maldade e despropósito público até a mente dos seus assessores mais próximos, compondo assim uma verdadeira “Família Adams do Terror Político”, ou melhor, uma verdadeira quadrilha a espezinhar e perverter os mais elementares princípios voltados para o respeito e a preservação do patrimônio coletivo. O que cabe ao eleitor fazer? Que papel está reservado às massas votantes nesse enorme palco político-eleitoral brasileiro? Assistir o desenrolar da peça para ver no que vai dar, ou entrar em cena e expulsar, com seu voto, os que destoam do figurino que queremos desenhar para o Brasil?

    Está na hora de pensar, de refletir, e passar a olhar com lentes de aumento – e bote aumento nisso – a composição dos palanques da atual campanha. Tanto nos níveis estaduais, como no plano nacional. Tem candidato que é exímio em fazer você ficar olhando só para ele, querendo hipnotizá-lo para, assim, impedi-lo de constatar o que está por trás de si. Seja mais esperto. Veja os palanques de lado, por baixo, por cima, por todos os ângulos. Veja quem está no primeiro, segundo e terceiro planos. Analise bem para depois votar. Agindo assim você estará, com certeza, contribuindo para diminuir bastante o número de maquiavéis da vida pública brasileira. Riscá-los do mapa já seria querer demais.

    postado em 22/08/2010 11:35

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    Jean Lenzi
    Ator, dramaturgo, encenador teatral e ativista cultural


     

    Sustenidos e Bemóis

     

    “Nós podemos e devemos encontrar musicalidade em todos os “saltos” e baixos”, nos ensinam os musicistas e desde muito cedo nesta cidade de valorosa sonoridade, tenho aprendido com avidez essa, dentre outras verdades pré-dispostas em sustenidos e bemóis. Já à poesia de Fernando que nos remete a duvida do que pode ou não ser válido, logo se ratifica pela máxima do poeta lisboeta quando nos afirma que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

    Esta triste sinfonia à beira rio confrange a Cia. Penedense de Teatro que sente neste momento a inevitável necessidade de guardar em lugar privilegiado no Theatro as suas sapatilhas de amianto, e daí reverem a impostação de seus gritos e a utilidade de suas máscaras. Esta triste sinfonia confrange também a fiel platéia juliana, depositária das graças e do encantamento promovido pelo trabalho da mais antiga e singularíssima trupe teatral do Penedo.

    Em outros momentos já foram ditos, inclusive nesse veículo de imprensa o qual me pré-disponho a falar, o quanto se faz imperiosa a elaboração de um Projeto cultural verdadeiramente consistente para Penedo. Também já foi dito que o Festival de Teatro de Penedo só existe por iniciativa e manutenção própria dos componentes da CPT que se alternam em funções públicas várias para, inclusive, sustentar seus sonhos dionisíacos. E por isso, haveremos de reconhecer que o fracasso deste ano que culminou no cancelamento do Festival, deve-se em sua maior parte a uma falha de produção harmonizada pelos organizadores. O que se diz aqui não é para causar espanto ou indigestão, muito pelo contrário, se falamos e buscamos verdades, por que então sonegá-las? Não há arte mais falsa do que o teatro, que finge, mente, vacila, e como arte, tenderá a ser sempre essencialista, cuja validade é limitada aos palcos, e se a deixamos passar por além daquele espaço limítrofe, veremos instaurada a crueldade e a burrice.

    Ao ler a nota posta que informa o cancelamento do Festival, é possível identificar razões e intencionalidades justificáveis. Há muito não se creditam à Cidade do Penedo eventos culturais promovidos pela gestão pública municipal. A ineficiência da secretaria de cultura se dá pela simples razão de não se ter ainda uma visão honesta de política cultural. Somente quando não for mais possível contemplar o legado que foi deixado pelo suor dos ilustres artistas, poetas, educadores e civis, haveremos então de admitir que falhamos. Não se concretiza compromisso com o resgate e ou até mesmo manutenção da cultura, vale mais a preservação de votos; o que impera atualmente é a mais simbólica demonstração de ignorância, uma inversão de valores que nega uma gestão cultural em benefício intimo de um “gestor cultural”. O que se pode constatar também na ineficácia destas ações promovidas por ingênuos proletários em sentido menor, que se alto-intitulam grandiosos guerreiros das batalhas que ainda não aconteceram. E ainda sobre o Festival, diria que o teatro desenvolvido pela CPT em Penedo cinge-se a um diálogo de surdos, a um duelo de grupos, anteriormente chamados de amadores, hoje pretensos baluartes, que acendem cada um com suas próprias mãos as lamparinas de suas ribaltas.

    Seria então possível culpar também o poder público pela não apresentação da 8ª edição do Festival de Teatro de Penedo? Já foi dito que o Theatro Sete de Setembro está entregue à própria sorte. O que mais se poderia dizer? O que causa espanto nisto tudo é a verdade dos fatos esculpida sobre carnes flácidas e esbranquiçadas. Ao palco mais antigo das alagoas, ainda como única opção de casa de espetáculos ativa no Penedo, é negada entre outras coisas uma direção cultural produtivamente ativa e profissionalmente capacitada a gerir as suas necessidades.

    À Companhia Penedense de Teatro, existem inúmeras soluções de se garantir aportes para um evento como festival de teatro, a atenção neste momento se faz necessária pelo que ousamos entender por mais impuro e verdadeiro como a máxima de uma cultura que nunca angariou votos, assim também, a inexpressiva via comercial Penedense que se aliam à certeza de que de que nada é tão inútil para o momento do que buscar culpados, mas se eles existem... Que se curvem ao som desta sinfonia que atordoadoramente reverbera em nossos cérebros e que é a inconteste prova de que algo precisa ser feito, ou quando nada, dito.

    postado em 18/08/2010 13:32

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    Valfredo Messias dos Santos
    Procurador de estado, defensor público e membro da Academia Penedense de Letras


     

    Não se põe vinho novo em odres velhos

     

    A política brasileira tem abrigado sob o seu manto um sem número de indivíduos descomprometidos com a democracia tão sonhada por todos nós, que nela se lançam como verdadeiros aventureiros numa disputa que só quem ganha é quem tem dinheiro para comprar os votos dos incautos ou contar com a ajuda de padrinhos matreiros já com larga experiência nessa seara.

    A indignação dos brasileiros com esse tipo de políticos, fez emergir um movimento intitulado “Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), instituição formada por 46 entidades representativas da sociedade brasileira, com sede em Brasília e atuação em todo território nacional. Dentre elas destacam-se a Ordem dos Advogados do Brasil, Associação dos Magistrados Brasileiros, Associação Nacional dos Membros do Ministério Público, CNBB, sindicatos e confederações diversas.

    Graças a esse Movimento, foi possível recolher mais de um milhão e seiscentos mil assinaturas, nos quatro cantos desta nação, possibilitando o exercício da soberania popular previsto no art.14-III da Constituição Federal.

    É sem dúvida alguma uma grande vitória da democracia brasileira numa demonstração de que o poder está nas mãos do povo basta apenas saber exercê-lo.É lamentável que tal iniciativa não tenha partido dos políticos que sempre se fazem de rogado quando se trata de reduzir seus poderes e suas prerrogativas, sendo necessária a pressão e a indignação popular.Mesmo assim houveram tentativas para que a lei ficasse sem eficácia ,apenas letra morta ,permitindo a perpetuação das práticas criminosas amparadas pela legalidade imoral.

    Algo está mudando neste Brasil. As entidades representativas dos seguimentos sociais estão se tornando mais independentes e com força, em razão da credibilidade conferida por todos nós, indivíduos, cidadãos e cidadãs ávidos por mudanças que moralizem a prática política partidária. Sabemos que somente através da política é possível se alcançar o tão sonhado bem comum, o bem de todos, sem discriminação, favorecimento, apadrinhamento.

    Uma política que seja capaz de implementar políticas sociais que visem um direito à saúde com dignidade e respeito aos direitos humanos, que não permitam que o cidadão morra sem assistência mesmo já estando nos hospitais, por lhe faltar o profissional, o medicamento,o pronto atendimento ,os equipamentos necessários para a urgência necessária à preservação da vida;uma política que permita que o cidadão exerça o seu direito de liberdade, indo e vindo com segurança;onde as famílias possam passear com seus filhos sem receio de serem assaltadas ou seqüestradas;onde as escolas públicas mereçam respeito e que os professores e alunos sejam vistos como valores representativos da sociedade e o futuro de uma nação já tão humilhada pela má qualidade de sua educação, num comparativo com outras nações de seu porte.

    Tais omissões por parte do Pode Público só serão postas em prática quando houver movimentos semelhantes aos da “Ficha Limpa”, onde possamos exigir, com indignação, com a força da cidadania e das prerrogativas do status de cidadão, os nossos direitos. Os direitos de freqüentar a escola pública digna, com ensino de qualidade e professores capacitados, instaladas em prédios asseados, com pinturas decentes e equipada com móveis e equipamentos compatíveis com a exigência da evolução cultural, não aceitando mais, pacificamente, a humilhação de vê alunos assistir aulas deitados no chão, sentados em tijolos, em sala de aula sem mobília ou com mobília de péssima qualidade,em baixo de árvores, denegrindo a dignidade da pessoa humana, notadamente das crianças e adolescentes.

    Tenho esperanças, que chegará um tempo, onde as alegações de falta de recursos para as áreas essenciais não serão mais aceitas, pois, em nome dessa escassez fantasiosa, os gestores públicos, aliados aos nossos representantes, vêm,denegrindo a dignidade da pessoa humana contribuindo para que a auto-estima seja cada vez mais deteriorada, nos obrigando a ficar à mercê de um sistema de saúde ineficiente, de uma segurança inexistente e de uma educação catastrófica. Enquanto isso assistimos diariamente, o surgimento de novos desvios do dinheiro público, aos milhões, praticados, exatamente, por quem elegemos para cuidar dos nossos interesses. É incalculável o montante desse valor. O que se tem notícia é graças a ação da imprensa e da Polícia Federal, instituições hoje temidas, respeitadas, criticadas e tentadas a mudar o rumo de suas ações.

    Nós, povo brasileiro, somente alcançaremos a liberdade tão sonhada , quando conseguirmos eleger homens e mulheres comprometidos com os nossos valores, com as nossas necessidades, com o bem de todos. As mudanças trazidas para o próximo pleito eleitoral vão exercer uma pressão muito grande naqueles políticos que irão ficar fora da disputa em razão de seus precedentes, impeditivos do registro de suas candidaturas. Uns não suportarão serem preteridos, outros se utilizarão de recursos vários para se manter no poder viciado de longas datas, e isso afetará sua saúde, sua dignidade, seu status, seu poder.

    São odres já velhos, surrados, enfraquecidos e desgastados pelo tempo. O vinho – as mudanças – tem uma fermentação nova e tende a romper esses odres. Não será possível colocar naqueles odres o vinho novo, o vinho de qualidade, da melhor uva e da melhor safra. Para esse vinho, necessários odres novos, cheios de esperanças e sonhos para uma Nação sofrida, carente de representantes à altura de sua grandeza e de sua posição no mundo.

    Jesus Cristo o maior crítico da política de sua época comparava os fariseus a odres velhos que não suportavam a boa nova, a esperança, a proposta de mudança interior trazida por Ele, para um povo sofrido, humilhado, desvalorizado. Seus ensinamentos que pouco tem a ver com religião, mas sim, com política, sociologia, psicologia, antropologia ainda hoje é atual, revisado, e pronto para ser aplicado. Entretanto desvirtuaram seus ensinamentos desviando o seu foco para outros horizontes e, assim perdeu-se no tempo a prática de exemplos úteis e necessários a uma sociedade que se propõe a crescer, deixando para trás paradigmas ultrapassados.

    É hora de abraçarmos as mudanças e fazermos a nossa parte. É hora de reflexão, de um olhar crítico sobre as questões relacionadas à prática da política partidária vivenciada até o momento e de fazer valer o nosso poder, o poder da cidadania alçada ao status constitucional como um dos mais importantes fundamentos da República Brasileira.


     

    postado em 14/08/2010 23:44

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    Ronaldo Lopes
    Engenheiro Civil, Ex-Secretário de Estado e Ex-Diretor Presidente do DER-AL


     

    Aeroporto de Penedo - Desenvolvimento X Questão Social

     

    Quando assumi a presidência do DER – Departamento de Estradas de Rodagem de Alagoas, no início de 2007, verifiquei que em uma das áreas de atuação daquela autarquia, a de Aeroportos, havia recursos provenientes do PROGRAMA FEDERAL DE AUXÍLIO A AEROPORTOS – PROFAA, no orçamento da AGÊNCIA NACIONAL DE AVIAÇÃO CIVIL – ANAC, para melhoria e ampliação de pequenos aeroportos.

    Tive conhecimento que o DER já possuía um antigo projeto para o Aeroporto Freitas Melro, em Penedo, ampliando sua pista para 30 X 1.500 metros, colocando iluminação para pouso e decolagens noturnos e construindo uma cerca de segurança em toda a área.

    A execução deste projeto mudaria a classificação do aeroporto, permitindo o pouso de aeronaves que antes não eram autorizados.

    À época, fui alertado pelos técnicos sobre as dificuldades de adquirir esses recursos, devido às exigências do setor de engenharia do II COMAR – Comando Aéreo da Aeronáutica, órgão responsável pela aprovação dos projetos e liberação dos recursos da ANAC.

    Apesar de todo o esforço empreendido pela equipe em 2007, com inúmeras reuniões em Brasília, Recife e Penedo, apenas no ano seguinte, 2008, Alagoas estava entre os poucos estados que tiveram recursos aprovados pelo PROFAA.

    Inicialmente, R$ 1,4 milhões e, após a intervenção do senador Renan Calheiros junto ao Ministro da Defesa, Nelson Jobim, esses recursos passaram a ser da ordem de R$ 3,7 milhões, suficientes para a conclusão de toda a obra.

    Estes recursos foram empenhados no orçamento de 2008 da ANAC, bem como a contrapartida do Estado de Alagoas, por determinação do governador Teotônio Vilela Filho, que também solicitou uma área de 2.500 m² em frente à rodovia AL-110, ao lado da AABB de Penedo, para a relocação do 6º Grupamento de Bombeiros Militar, atualmente instalado no prédio da recepção e administração do Aeroporto, obtendo parecer favorável da Aeronáutica.

    Ao mesmo tempo em que se trabalhava a liberação dos recursos junto ao Governo Federal, eram efetivadas ações pelo DER e pelo II COMAR junto à Prefeitura de Penedo, para o desimpedimento da área ocupada com culturas de subsistência, plantação de cana e algumas casas.

    O então prefeito Marcius Beltrão acatou as sugestões do II COMAR, solicitando a doação de um espaço do próprio aeroporto, próximo ao Povoado Campo Redondo, para relocar as casas existentes, e atender aqueles agricultores mais carentes.

    Para isso, aprovou projeto de lei junto à Câmara de Vereadores, autorizando o município a negociar a saída dos demais ocupantes, ficando de fora as plantações de cana, uma vez que essa cultura não era produzida por pequenos agricultores.

    Após o meu afastamento do DER, no início de 2009, restava ao meu sucessor dar a ordem de serviço para início da obra, tão logo a Prefeitura cumprisse a sua parte disponibilizando a área liberada.

    Com a posse de um novo prefeito em Penedo, a partir de janeiro de 2009, esperava-se que houvesse continuidade destas ações pela importância que um aeroporto desse nível teria para o desenvolvimento de nosso município e região em um momento em que a nossa cidade passa por uma fase de recuperação da maioria de seus prédios históricos pelo IPHAN, o “City-Gate” do gás está próximo de entrar em atividade, aumentando a possibilidade de instalação de indústrias, a ligação Penedo-Pindorama está com a ponte sobre o rio Perucaba, no povoado Manimbú, já construída e a estrada contratada e com ordem de serviço assinada, aproximando a agroindústria da Cooperativa Pindorama e o acesso ao futuro Estaleiro EISA em Coruripe.

    O Aeroporto Freitas Melro viria a juntar-se a outras importantes conquistas como a UFAL, com o curso de Turismo e mais recentemente o IFAL, com cursos técnicos fundamentais para a consolidação de Penedo como pólo turístico da região.

    Para nossa surpresa, o ex-prefeito Alexandre Toledo ao invés de dar continuidade ao anteriormente acordado e legalizado através de Lei Municipal e doação feita à Prefeitura de Penedo pela Aeronáutica, preferiu denunciar ao Ministério Público os pequenos agricultores, por ocupação irregular de área pública.

    Isso fez com que o Ministério Público Federal estabelecesse vários prazos e reuniões com os ocupantes da área, não havendo conclusão no prazo final estabelecido para o repasse dos recursos da ANAC para o Estado de Alagoas, com o cancelamento do convênio e conseqüente perda dos recursos em 06 de janeiro de 2010.

    Como o projeto de melhorias do aeroporto Freitas Melro atende às exigências do II COMAR e da ANAC, o estado deve conseguir recursos do orçamento 2010, mas só poderá assinar novo convênio após as eleições, inclusive após o segundo turno, caso aconteça em Alagoas ou na disputa pela Presidência da República.

    Diante de tudo isso, a Justiça Federal notificou as dezenas de famílias instaladas na referida área para desocuparem o Aeroporto até o dia 13 de agosto próximo, utilizando, se necessário, o uso de força, o que vem causando grande apreensão entre as mais de setenta famílias atingidas pela decisão judicial.

    A Prefeitura de Penedo, que tinha a responsabilidade, mediante convênio firmado com a Aeronáutica, de preservar a área da União, foi omissa quando da ocupação do aeroporto e agora, o ex-prefeito e o prefeito atual lavam as mãos quanto à questão social, tal qual fez Pilatos.

    postado em 08/08/2010 23:24

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  • artigos

    João Pereira
    Advogado, escritor e atento observador da política


     

    Bom dia, amiga Penedo!!! Como está?

     

    Bom dia, meu filho! Quanto tempo não o vejo. É um enorme prazer revê-lo. Fico deveras sensibilizada com a sua gentil atenção. Devo fazer-lhe uma observação. Parece-me mais apropriado, em face da carga quatrocentão que carrego nas costas, perguntar-me não como estou, mas onde me dói. Suportando os achaques da velhice, terrível e temido carrasco, tornam-se insuportáveis companhias do dia- a- dia. Não destoando desse terrível fado, tenho enfrentado o mais desfavorável astral dos últimos anos. Não sei como tenho conseguido, na minha idade, suportar tantos dissabores e dificuldades. Angustia-me ver tantas carências e não poder atendê-las, prisioneira que me encontro pela perversa dívida a emperar toda a máquina da minha administração. Quê breve trégua às minhas aflições traz-me a sua presença neste dia primaveril, céu azul e agradável brisa. Sinto a leveza interior e o meu corpo parece flutuar. Será você o mensageiro das boas novas?

    - Sei muito bem das suas tribulações. Exatamente por isso e sabê-la presa do desespero pela impotência de ação para atender, mesmo em termos relativos, os anseios da sua gente, que resolvi fazer-lhe um fuxico. Você sabia que o anterior prefeito, seu algoz, foi agraciado com o prêmio de gestão pública? Tenho aqui exemplar do jornal extra, edição de 11 a 17 de junho do ano em curso, que traz a notícia a respeito. Permita-me fazer-lhe a leitura de um trecho. “O premio José Aprígio Vilela escolhe anualmente seis municípios alagoanos que se destaquem em ações de educação, saúde, apoio ao micro e pequeno empresário, inclusão social e principalmente gestão pública responsável, moral e legal.” Gostou?

    - Não sabia. Estou incrédula e abismada com tamanho estapafúrdio. Deixe-me respirar fundo. Pronto, já recobrei a naturalidade e a patifaria já não me incomoda e causa espanto. Você não espera, com a minha idade, que as ações humanas, seja qual for o grau ou a tonalidade, causem-me por muito tempo revolta e indignação. Nossos sentimentos são promíscuos e confusos. Vivemos o avesso dos valores. Disso resulta que o absurdo e as desagradáveis surpresas anestesiam-nos e fluem com normalidade no rio de águas turvas da desilusão. Os grandes impactos emocionais, a comoção pública que se repete, faz com que o homem passe a digeri-las com certa frieza. O prêmio em referência, sem a mínima seriedade, tem a virtude de revestir-se do mais puro cinismo e uma patetice de quem o recebeu. Afinal de contas, qual o valor de certas homenagens e elogios? A propósito, dizia um filósofo alemão que o elogio era uma moeda falsa e, como tal, economizá-la seria uma falta de bom senso. Se seriedade houvesse, fazia-se necessário que algum componente a fazer parte da escolha do homenageado viesse visitar-me. Aqui chegando, com um olhar crítico, atento e honesto a captar toda a minha miserabilidade, teria recomendado o prêmio de abacaxi de calamidade pública.

    - E o mais gozado é que seu atual gestor, herdeiros de uma herança maldita, foi representá-lo. Como você classificaria semelhante gesto?

    - Diria, no mínimo, que lhe faltou o senso do ridículo.

    Assim acho também. Suas palavras foram bem apropriadas para espinafrar o pseudo prêmio. Por outro lado, admira-me, como mulher vaidosa, a coragem em admitir a deformidade da sua imagem. Suas artérias, principal vitrine, encontram-se em estado deplorável. Até parece que você está edificada em areia movediça. Feito um remendo hoje, a próxima chuva faz voltar ao estado anterior. Sinceramente, dada a gravidade do problema, acho que você deve criar a BUROCOBRÁS, treinar pessoal competente para que possa realizar um trabalho eficaz e duradouro . Os condutores e proprietários de veículos agradecem. Somando-se esses entre tantos outros problemas tortos e torturantes à paciência do penedense, temos a secretaria da saúde, uma das mais importantes por prestar assistência às pessoas mais carentes, em estado de coma. Se ainda consegue abrir os olhos e dar uma passada, faz em estado de inconsciência, ignorando que está praticamente morta. Qual a razão dessa catástrofe? Sem dúvida, a má gestão dos recursos financeiros.

    Pelo que estamos informados, você se encontra com a corda no pescoço. E o que nos chama a atenção é que desconhecemos as razões do seu endividamento. Não percebemos a destinação de recursos que a justifiquem em qualquer setor da administração. O que vemos, em sentido inverso, dentro de uma lógica perversa, é que o dinheiro nunca visto tornou-se maligno, servindo tão só para torná-la cada vez mais miserável. Até parece que foi uma dívida contraída com a mancha pecaminosa da subtração, dela resultando um carrasco a espalhar o caos. Um carrasco que zomba e exulta com a sua feiúra, minha amiga Penedo. Sua imagem quase chega a ser repugnante. Veja o aspecto central do seu corpo. O comercio, em algumas ruas, faz-nos lembrar uma cidade medieval. Quanta falta de higiene e elegância! Parecendo ter sofrido um bombardeio e sepultada pelos estilhaços, agora surge em apavorante forma fantasmagórica da tumba dos mortos. Você, de fato, com as minhas desculpas, exibe um rosto cheio de espinha e feridas pustulentas. Que náusea!

    - Basta, meu prezado amigo. Das minhas misérias, sofrimentos e desilusões ninguém sabe mais do que eu. Você, mesmo que esteja a dissecar-me com todo o realismo, está faltando com o cavalheirismo. Onde está sua sensibilidade? Acha que são poucas as minhas aflições para querer dilacerar-me ainda mais?

    - Com as minhas desculpas. Acontece que toda tragédia que atualmente atravessa, você é a única culpada.A sua longa existência não foi capaz de transformá-la numa sábia. Falta-lhe o dom da observação para distinguir o joio do trigo, dando-nos a impressão já estar a sofrer os efeitos da senilidade. Para abrir-lhe os olhos despertá-la do infame torpor para enxergar a realidade, levantar-lhe o moral e o amor próprio, nada mais apropriado do que uma enérgica bordoada.

    - Está bem! Dou a minha mão à palmatória. No passado ou eu era mais esperta ou fui premiada pela sorte. No enfadonho e elástico curso da minha vida, tive dezenas de prefeitos. Dizem que os velhos têm o costume de glorificar o passado. Na verdade, eles expressam apenas a verdade do seu tempo. Os meus gestores do passado, por exemplo, eram de fato portadores de princípios de moralidade. Os mais recentes, não sei se porque vivemos a inversão de valores, não passam, com raras exceções, de picaretas que têm como único objetivo surrupiar-me. É incrível! Parece que eles trazem no gene o estigma da corrupção. Acontece que lamentações não movem coisa alguma e não adianta lamentar o leite derramado.

    Fiquemos por aqui. Precisamos encontrar a solução. A primeira, sem dúvida, é o saneamento financeiro, sob pena de ficar indefinidamente estagnada. Gastar só com o estritamente necessário. Festividades, a galinha dos ovos de ouro dos picaretas, nem pensar. Mão a obrar! Otimista que sou, espero que tudo aconteça da melhor forma possível. Que eu seja, por fim, resgatada das noites escuras das minhas insônias, pesadelos e assombrações. Que eu seja presenteada com uma cirurgia reparadora de toda feiúra e deformidade, pesado fardo que há muito estou a aturar com insuportável vergonha e humilhação.

    - É o que todos esperamos. Que o ilustre prefeito Israel acerte o passado. Que queime os neurônios para ser recompensado com a inspiração que aponte o caminho da claridade capaz de contornar a enxurrada das nossas infernais adversidades. Já é hora de mostrar medidas de impacto que nos acenem com uma ponta de esperança. Nós, penedenses, somos seus legítimos julgadores. A sua avaliação não será gratuita, com a habitual subserviência dos bajuladores. Não teremos nenhum pejo em apupá-lo caso torne-se um fiasco às nossas expectativas, assim como não seremos parcimoniosos para aplaudi-lo pelo acerto das suas decisões

     

    postado em 25/07/2010 00:00

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    Augusto N. Sampaio Angelim
    Juiz de Direito em Pernambuco, apaixonado por Penedo


     

    Tanto horror e iniquidade

     

    O país inteiro está acompanhando as notícias sobre o desaparecimento e assassinato da jovem Eliza Samudio, uma garota de vida indefinida e que a imprensa, à falta de melhor identificação, chama de ex-modelo. Morena de formas exuberantes, despertou o desejo do goleiro do Flamengo e, ao que tudo indica, cuidou logo de engravidar, deixando-o furioso. A relação entre ambos, após a gravidez, se tornou violenta com a moça acusando o jogador de agredi-la fisicamente e, inclusive de tentativa de aborto. Até aí, o caso já tinha muita repercussão na mídia, porém os acontecimentos posteriores desafiaram a lógica, parecendo até o roteiro de um improvável romance policial.

    Ficamos perplexos ao saber que Eliza foi atraída por Bruno e seu amigos à Minas Gerais, seqüestrada e assassinada. Os detalhes do assassinato da jovem chocaram a todos, pois ela teria sido esquartejada e suas carnes lançadas para famintos cachorros devorarem. Os ossos teriam sido enterrados em local até agora não identificado, embora já estejam presos Bruno, sua mulher e vários amigos. Todos os detalhes do crime são estarrecedores, assim como é incompreensível que o jogador vivesse cercado de rudes criminosos, mesmo ganhando tanto dinheiro.

    Os jogadores brasileiros, geralmente de origem muito humilde, logo que chegam ao estrelato sempre procuram a assessoria de alguém que lhes dê o mínimo de discernimento para se equilibrar emocional e culturalmente diante do maravilhoso e perigoso mundo das celebridades e do dinheiro. Cercado de amigos da qualidade de Macarrão e Bola, o goleiro fazia carreira a passos largos para algum tipo de desastre. Bingo! Não deu outra. Um crime hediondo!

    Diante desse caso de Bruno, fico a me perguntar: Porque tanto horror e iniqüidade?

    A continuarmos assim, não duvido que surja nos céus, entre as nuvens negras, um enorme Zeppelin e que seu comandante acione seus milhões de orifícios, para despejar bolas de fogo sobre a terra e temo que não haja nenhuma Geni para nos salvar, como na música de Chico Buarque.

    postado em 18/07/2010 00:00

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    Maria Núbia de Oliveira
    Escritora e poeta, integrante da Academia Penedense de Letras


     

    O Homem e a Máquina

     

    Aquele homem recebeu um chamado para fazer um trabalho. Não sabia do que se tratava. Compareceu diante dos "donos da verdade" e ouviu a sinistra ordem: subir na gigantesca máquina e derrubar uma casa. A família em pânico chorava. Sua casa ia virar entulho. Estava no lugar errado. A vizinhança participava , solidária.

    O homem do trator ouviu com os ouvidos, mas sua alma não escutou aquela terrível ordem.
    Subiu na máquina e suas mãos calejadas pelo manuseio da mesma, perderam a força.

    Encostou a cabeça no ferro gelado do trator e soluçou triste, sem coragem de executar aquele mandado. Os soldados pressionavam o pobre homem e o ameaçavam de prisão caso não obedecesse o que lhe fora ordenado.

    Acredito que naquele momento iniciou-se uma tremenda luta no interior daquele tratorista: derrubar a casa e continuar livre ou deixar a casa no lugar e ir direto para a cadeia pagar pelo "crime" de ter sido humano, pleno de nobres sentimentos.

    A multidão tinha os olhos fixos no homem e na máquina. Cada gesto era acompanhado com atenção. O suspense era geral. Ele ainda ergueu a escavadeira, mas não conseguiu fazer mais nada. Desceu, e decidido, se colocou à disposição das consequências do seu ato de" desobediência às autoridades", conforme foi colocado no ar, para o Brasil inteiro ouvir.

    Olhei profundamente para os olhos daquele homem. Provavelmente não frequentou a escola por muito tempo, mas naquele dia, se diplomou com nota mil, quando disse : não à humilhação, não ao desrespeito, não à morte! Porque quem destrói casas, tira a vida de quem nelas habita.
    Brotou a gratidão. O homem do trator foi recebido com abraços e beijos por aquele povo, principalmente por aquela família que o fez " salvador", por ter alongado a esperança de uma vida melhor, sem despejo e sem medo...

    postado em 11/07/2010 00:00

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    Augusto N. Sampaio Angelim
    Juiz de Direito em Pernambuco, apaixonado por Penedo


     

    Sempre pisando na jabulani

     

    Neste mês de junho o mundo inteiro se reúne em torno da magia do futebol, com milhões de pessoas envolvidas, de uma forma ou de outra, no evento. Aqui no Brasil, além da alegria da Copa da África, vive-se o ciclo das festas juninas, motivo da mais genuína alegria do povo nordestino. Apesar das festas juninas e do brilho do mundial de futebol, nuvens negras andaram fazendo estragos em Alagoas e Pernambuco, deixando um rastro de destruição, dor e desespero para milhares de pessoas, principalmente dos pobres que moram nas regiões ribeirinhas dos rios Paraíba do Meio, Mundaú, Ipojuca e Una.

    Tentando explicar a identidade brasileira, o alagoano Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico “Raízes do Brasil”, enfatiza que o brasileiro, herdeiro das tradições portuguesas, é um povo avesso a projetos de longo prazo e cuja sociabilidade é vista, praticamente, nas festas e comemorações. Apesar da obra ter sido escrita há mais de setenta anos continua a dialogar com os acontecimentos do Brasil de hoje neste particular.

    De quatro em quatro anos, o país se prepara para a Copa do Mundo, assim, como todos os anos, o carnaval embala o país de norte a sul e o São João arrasta todos os nordestinos. Mas, como o mundo não é feito somente de futebol e festas, de vez em quando eclode uma catástrofe numa região do país. Fenômenos naturais vem provocado grandes problemas para a humanidade nos últimos cinco anos e a precipitação exagerada de chuvas tem resultado em tragédias previsíveis no Sudeste e no Nordeste brasileiro.

    A cada episódio destes vemos o povo, de forma desorganizada, se solidarizar com os atingidos pelas calamidades, mas, assim que o fato deixa de ser noticia na televisão, as pessoas vão se desligando dos desafortunados e, de maneira quase natural, as coisas se acomodam de forma precária.

    O caráter do brasileiro, sempre imediatista e a impaciência dos governos com os projetos de longo prazo, agravam os problemas causados pelo excesso de chuva e outros fenômenos naturais.

    Qual das nossas cidades, pergunto-lhes, possui uma defesa civil relativamente organizada e pronta para agir em situações de emergência? Desde que começaram as chuvas, acaso houvesse um mínimo de organização civil nas cidades ribeirinhas do Mundaú, Paraíba do Meio, Ipojuca e Una, o prejuízo poderia ter sido infinitamente menor.

    Alguém, algum órgão ou autoridade pública se deu ao trabalho de, passado dois dias de chuva nas cabeceiras desses rios de alertar a população dos possíveis efeitos das enchentes? Não, ninguém fez isto, nem em Alagoas e nem em Pernambuco e não fará na Bahia ou no Ceará, acaso no próximo ano, haja alguma coisa parecida.

    Faz tempo que estamos pisando na bola. Daqui há trinta dias a imprensa terá deixado de contabilizar vítimas e destacar a tragédia e os desorganizados voluntários já terão se cansado de ajudar. Assim, continuamos pisando na jabulani, isto é, deixando de fazer a coisa certa e tomando atalhos que nos custam caro e comprometem o futuro.

    Que tal organizar um sistema de defesa civil e de monitoramento dos rios de nossa região, senão em cada cidade, mas, pelo menos, de forma regional? Ou, então, continuemos a rezar e orar.

    postado em 04/07/2010 00:00

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    Erbson Rodrigues
    Licenciatura em Filosofia e Mestre em Educação


     

    Venceu a Irracionalidade: O Privilégio do Absurdo

     

    O filósofo Hobbes já havia anunciado tempos passados que somente o homem tem o “privilégio do absurdo”. Isto para dizer que somente a criatura racional pode ser irracional. Irracionalidade é um processo ou estado mental — um processo ou estado racional — que falhou. Mas, entenda que o irracional não é apenas o não-racional ou aquilo que está fora do âmbito racional; a irracionalidade é uma falha dentro da casa da razão. Como isso é possível? E como isto pode ser sugerido dentro da seleção para contrato temporário na prefeitura de Penedo: primou a irracionalidade para privilegiar a alguém? Será que os critérios são acráticos?

    O problema de explicar tal comportamento preocupa filósofos e moralistas pelo menos desde Platão. De acordo com Platão, Sócrates argumentou que, uma vez que ninguém age voluntariamente contra aquilo que sabe ser o melhor, apenas a ignorância pode explicar ações frívolas e nocivas. A isto chamaremos de paradoxo, mas a visão de Sócrates é paradoxal somente porque ele nega aquilo que todos nós acreditamos, a saber, que há atos acráticos(que são realizados por fraqueza da vontade). Se Sócrates está certo — se tais ações são descartadas pela lógica dos conceitos — então não há nada problemático sobre os fatos a serem explicados. Contudo, Sócrates (ou Platão) deu destaque ao nosso problema: há um conflito entre a maneira usual de explicar a ação intencional e a idéia de que uma ação pode ser irracional. Uma vez que a visão segundo a qual nenhum ato intencional pode ser internamente irracional encontra-se em um extremo no contínuo de visões possíveis. Neste sentido, se algum candidato está sendo privilegiado por já terem experiência dentro do setor, nada há de intencionalidade ou de irracionalidade, ou será que existe?

    Pois bem, o que expõe o edital 01/2010 sobre os critérios para a contratação de pessoal pela SEMTHAS é, no mínimo, um ato aparentemente não intencional. Em tempos de ciência e seu status de objetividade, clarividência, etc. fazem-nos pensar que a lisura de um processo seria garantida pela claridade e objetividade dos critérios, sobretudo porque estes favorecem a todos os candidatos dirimir as possíveis dúvidas surgidas, além de ratificar a credibilidade de quem dirige um processo desta natureza. De fato, como compreender que se possa escolher de forma ciente e deliberada a opção menos proveitosa? Repito: nenhuma intenção há nisto. Trata-se apenas de um privilégio do absurdo! Simples assim...

    A SUBJETIVIDADE, contrário à ciência, imperou na seleção. E veja-se que não foi intencional, nem irracional.

    1. O Edital expõe como critérios:
    Experiência na área de atuação – 0 - 50 pontos
    Titulação (graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, certificados) – 0-50 pontos
    Insta anotar que:

    a) Convém esclarecimentos e objetividade quanto ao tempo de experiência e quanto aos pontos para cada ano ou fração de ano. QUAL EXPERIÉNCIA? “Disseram” que é experiência no setor...

    b) Também deve-se objetividade quanto à pontuação para cada título e/ou certificados.
    Ex.: Doutor – (x pontos); Mestre (x pontos); Especialista(x pontos); graduação (x pontos)
    *** Esclareça-se ainda sobre os CERTIFICADOS DE CURTA DURAÇÃO.
    Entre X horas e Y = x,x pontos (por cada certificado)
    Entre Z e F = x,x pontos (por cada certificado)

    c) CRITÉRIO NÃO OBJETIVO: “Os títulos que excederem o valor máximo previsto não serão considerados para a pontuação do candidato” (Edital item 4.10). QUAL O EXCEDENTE? O QUE E ONDE ESTÃO PREVISTOS?

    2. AVALIAÇÃO DE REDAÇÃO
    Concordo plenamente! Porém, NÃO ESTABELECE OS CRITÉRIOS. Nota mínima!

    3. ENTREVISTA – AVALIAÇÃO POR PROFISSIONAL
    Vê-se inadmissível em concurso público, utilizar-se do critério “ENTREVISTA”, sem qualquer regulamentação, sem caráter científico, por demais subjetivo, como meio de selecionar e avaliar o candidato. Não existe previsão legal, nem previsão no edital que estabeleça os critérios de avaliação dos candidatos pela “entrevista” - O art.. 37 Inciso II da C.F. condiciona investidura em cargo público a aprovação prévia em concurso público de provas e títulos, não a entrevista reservada e sem oportunidade de contradição, garantidas no Inciso LV do Art. 5.º da C.F. (TJMG, apel. 155.431.0, apud Jurisp. Mineira 149/286).

    A CONSTITUIÇÃO FEDERAL em seu art. 37 inciso II é claríssimo ao exigir que os cargos públicos devem ser preenchidos através de aprovação prévia em concursos públicos de provas, não prevendo a possibilidade de adotar o critério de “entrevista” como meio e modo de se aquilatar a capacidade do candidato, in verbis:

    “Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
    II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração.

    A conclusão disso é simples: ora, de certo modo pode ser racional adotar voluntariamente uma crença, desde que seja essa a preferência do agente. O auto-engano não é seguramente racional do ponto de vista epistémico (ou cognitivo), mas pode revelar-se racional do ponto de vista prático. Resta todavia saber como é que isso é possível fazer para acreditar naquilo que se sabe (ou se suspeita) ser falso? Uma coisa é desejar acreditar numa falsidade, outra coisa é conseguir acreditar efetivamente numa falsidade. Essa questão tem alimentado um vasto debate entre os defensores do “voluntarismo doxástico”, para os quais é possível induzir voluntariamente a crença que se pretende, e os defensores do “evidencialismo doxástico”, para os quais as crenças são essencialmente determinadas por fatores causais ou epistêmicos independentes da vontade do sujeito.

    Ora, por definição, a concepção intencionalista do auto-engano pressupõe uma certa forma de voluntarismo acerca da crença, uma vez que só faz sentido falar da intenção de se enganar a si mesmo sob condição que seja efetivamente possível controlar de forma voluntária aquilo em que se acredita. Assim, as explicações vinda do lado da SEMTHAS são de que não houve nenhuma intenção de privilégios. A nós cabe-nos conseguir acreditar efetivamente! Tudo é uma questão de mera coincidência irracional!
     

    postado em 27/06/2010 00:00

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    João Pereira
    Advogado, escritor e atento observador da política


     

    Fé: A Negação do Racional

     

    A fé, um autêntico Quixote, luta no mundo das trevas, pretendendo levar às pessoas uma luz que ela própria desconhece. É uma visão imaginária do que está na total escuridão: Deus, mistério, inacessível e inexplicável. Oradora insuperável na arte de seduzir e hipnotizar, transforma os que a seguem em rebanho das belas ilusões que migram às cegas para o El Dorado do sem fim. Em outras palavras, é uma pregadora que fala aos homens a respeito de um céu que desconhece e para o qual ninguém irá para lá. Ancorada nas chamadas escrituras sagradas, oferece aos que se sentem órfãos em um mundo brutal, desumano e hostil, como a mais sedutora personagem a narrar contos de fada capaz de anestesiá-los, fazê-los adormecer no sono da inocência, sonhar e acordar no maravilhoso mundo novo das Del celestiais.

    Farei breve referência, quer pela incompatibilidade com o local da publicação, quer principalmente pela minha ignorância em teologia como será notada pelos doutos da área, sobre pontos que dão um nó górdio no meu pensamento. Atrevo-me, no entanto, seguindo o que disse, parece-me que Péricles, que embora somente poucos possam dar origem a uma democracia, todos somos capazes de julgá-la.

    Vamos pelo começo. Segundo o gênesis, Deus criou o homem segundo sua imagem e semelhança. Explica-se pela teoria da analogia da causa e efeito, isto é, a criatura herda traços do criador. Naturalmente que respeitada à distância entre o absoluto e o relativo. Assim, quando dizemos que Deus é infinitamente bom, devemos concluir que também é infinitamente mau. Nossas virtudes e defeitos estão no relativo. As manifestações violentas da natureza, terremotos, maremotos, vulcões e furacões, entre outras, dizimando indiscriminadamente vidas humanas, são exemplos da maldade superlativa do criador. Acontece que nada está isento de conflitos. O nosso planeta, sem exceção, foi fruto de colisões e, segundo os astrônomos, mais cedo ou mais tarde não escapará do impacto de asteróides, cometas e meteoros que extinguirão a vida por completo. Por outro lado, nenhum animal sobre a face da terra, na água ou no ar, está livre de predadores. Não existe a permanente monotonia da paz.

    Voltando à semelhança física do homem com Deus, acho que podemos muito bem concluir que não existe semelhança, mas igualdade. A propósito, observemos o que dizem os evangelhos sobre a ressurreição de Cristo. Lucas, por exemplo, cap.24 vers. de 24 a 43, narra sobre o seu aparecimento aos apóstolos em seu corpo físico, com os sinais das chagas da crucificação. Todos o ouviram e tocaram em seu corpo. Comeu peixe e um favo de mel. Segundo Lucas, antes de subir ao céu em definitivo, por quatro vezes comeu com os apóstolos. Bem, nós comemos, digerimos e depois excretamos. Devemos concluir que Cristo fez a sua digestão, etc. lá no céu. Como será a consistência do céu ? Sólido ou rochoso, gasoso ou numa dimensão invisível ao nossos olhos ?

    Nas aulas de catecismo, quando crianças, aprendemos que Deus é espírito. Acontece que Cristo subiu ao céu em seu corpo físico e com o mesmo, retornará um dia a terra. Ora, se a trindade tem a mesma essência, são fisicamente iguais. Corroborando a esse respeito, disse Isaías: “Vi o senhor assentado num trono alto e exaltado, e a aba de sua veste enchia o templo”. Não parece um ingênuo conto de fadas? A concepção de Deus dessa forma é transformá-lo num nanico demasiadamente humano. Nunca convergem, na prática, as grandiosas e eloqüentes definições a seu respeito e a fragilidade de suas ações. A bíblia parece traduzir tão-só as agruras de um povo e uma preocupação de agradar a um Deus muitas vezes irado, castigador e mal humorado, condição para se atingir uma vida oposta ao sofrimento. Ao encontro desse pensamento, ilustra muito bem o apocalipse: “E Deus limpará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas”. Os judeus, sob o jugo dos romanos, não podia o autor imaginar melhor antídoto ao sofrimento.

    E pergunto: É a bíblia um livro sagrado? Em sentido positivo, pessoalmente, nunca em tempo algum, acho que poderia ser diferente do que imaginamos o seguinte; E seus autores tivessem vivido numa terra de fartura, sem grandes sofrimentos e dispusessem dos conhecimentos científicos da atualidade, qual teria sido o seu conteúdo? Teria ela existido, não se teria afirmado que Deus, para povoar a terra, criou Adão e Eva. Outros casais se faziam necessários sob pena de sermos um produto do incesto e da consangüinidade, fato que teria degenerado e extinguido o homem. Que não fez o mundo em seis dias e no sétimo descansou. Não posso conceber um Deus que cansa. Esclarece-nos a astronomia que além da nossa galáxia, com milhões de estrelas, planetas e outros corpos celestes, existem outras aos milhões, maiores ou menores. Parece-me uma empreitada que está a milhões de anos luz de distância de um Deus com características pagãs, quase nos limites do homem.

    E o que dizermos da Trindade? Como explicá-la? Três pessoas diferentes com a mesma essência. Em outras palavras, segundo opinião de alguns, o Pai representa a lei viva e imutável; o Filho, a razão e a sabedoria; o Espírito Santo, a potência criadora e fecunda. Quem engendrou semelhante idéia? Os países, na sua quase totalidade, adotam os três poderes, executivo, legislativo e judiciário. Perfeitamente admissível. Podemos dizer o mesmo do triunvirato divino? Do ponto de vista monoteísta, só podemos admitir a existência de um único Deus. Duas verdades não podem coexistir, uma tem de excluir a outra. Deus, o todo poderoso, tem necessidade de dividir atribuições? Pela forma como criou a terra, dá para nos convencer.

    Não menos absurdo, na minha tacanha compreensão, é o tráfico e inútil sacrifício de Cristo. Qual foi a sua finalidade? Salvar a humanidade, resgatando-a do pecado original, cometido por Adão, o bravo Santo Adão? Tem sentido que gerações subseqüentes paguem pecados da primeira? Ninguém pode ser punido por um crime que não cometeu. Até uma criança é capaz de perceber essa regra. Muito menos alguém pode sofrer as penas no lugar do delituoso. Não bastassem essas incoerências, inconcebível que concordemos com o sacrifício do filho de Deus para consertar um pseudo erro da sua criação, o pecado. Teria sido mais fácil ao entendimento que Deus, ao por Adão e Eva no éden, quis testar a qualidade da sua obra, isto é, se Adão era um homem na mais alta expressão da palavra. Nesse sentido, Adão não o decepcionou. Não demonstrou ser um acomodado e retardado mental. Acometido pela inquietação, prisioneiro do paraíso em seu insuportável enfado, rebela-se, foge e dá o primeiro grito de liberdade em busca do conhecimento e outras formas de vida. Cristo não salvou coisa alguma.

    Como é possível imaginar o homem sem pecado. Sem a desobediência de Adão, a curiosidade que estimula a imaginação, a criatividade e a realização pessoal, o homem teria continuado a pastar no paraíso. Se o homem sofre, é natural que queira escapar do sofrimento e busque o prazer, bem que mais persegue para atingir a felicidade. Mas dentro de certos limites, da moderação como receitava Epicuro, que não deve ser confundido com o epicurista vulgar. Toda ação resulta numa reação na mesma intensidade. Daí porque, se fosse possível dar ao homem a possibilidade de viver no paraíso, disse Schopenhauer, a primeira coisa que ele faria ao sair era mergulhar no inferno. Não podemos pensar no bem se não existisse o mal. Como avaliar a beleza se não houvesse o feio? O alto sem o baixo? E assim por diante, em tudo se fazendo presente a polaridade de forças e valores.

    Por fim, avaliando o sacrifício de Cristo, é interessante observar o comportamento do Deus do cristianismo e Zeus do paganismo grego sobre a imolação. A lenda da licantropia, na Grécia antiga, dá algumas versões sobre a mesma. Uma delas diz que Licaon, rei da Arcádia, sacrificou um de seus filhos a Zeus. Este, horrorizado, o transformou, como castigo, em lobo. Se Zeus ficou chocado com o filho alheio, inconcebível que fosse capaz de sacrificar o seu. Eis um gol a favor do paganismo, enquanto o Deus cristão cometeu o mais radical e cruel sacrifício pagão.

    Em síntese, penso, sob o aspecto puramente racional, que as religiões deveriam ser, atualmente, uma memória do passado. Suas premissas têm apenas vantagem de satisfazer a imaginação infantil dos sedentos de uma vida eterna colorida. Paraíso e inferno e vida eterna são mitos que fogem às leis naturais. Tudo que nasce, morre. Até as estrelas, na longevidade de suas vidas de milhões e bilhões de anos, se extinguirão. O nosso sol, que está na metade de sua vida, restam-lhe ainda uns cinco bilhões de anos. Quando passar a ter uma cor avermelhada e em processo de expansão, atingirá a terra, incinerando-a e extinguindo a vida. Transformado em uma estrela de grandeza inferior, a terra, fora da sua gravitação, passará a vagar a esmo na imensidão do frio e escuro universo.

    Só existe, portanto, uma eternidade que é a eterna sucessão das coisas. O que importa, dizia Nietzsche, não é a vida eterna, mas a eterna vivacidade . No teleférico que conduz a vida entre os dois pólos opostos, vivencio, na medida do provável ou improvável destino, um pouco de cada um. Eis porque prefiro viver na diversidade infernal desta vida, a viver na insipidez e monotonia infernal do paraíso.

    postado em 20/06/2010 00:00

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  • artigos

    Valfredo Messias dos Santos
    Procurador de estado, defensor público e membro da Academia Penedense de Letras


     

    Políticos sem compostura

     

    Todas as vezes que se aproxima o pleito eleitoral reascende em cada um de nós o desejo de que os homens e mulheres que pretendam se lançar nesse campo minado da política brasileira, hajam com dignidade e respeito no exercício desse mister, sem a constante preocupação de locupletar-se do dinheiro público ,de apadrinhar pessoas irresponsáveis para ocuparem cargos importantes nas esferas administrativas e sem a participação emconluios com o intuito de beneficiar-se das relações espúrias com empreiteirase outros barganhadores da ética e da moral.

    Temos o hábito de querer culpar o eleitor pela escolha de políticos desonestos e corruptos, como se essas pessoas tivessem recebido as informações necessárias, quer no convívio social, nas escolas, nas Universidades quanto ao mecanismo da política como a arte de promover o bem comum. Na verdade, neste País, a corrupção nasce a partir dos pequenos gestos como, por exemplo, o de pagar propina a um guarda de trânsito para não ser multado pela prática de irregularidade no veículo ou nos documentos obrigatórios do condutor . Podemos até mesmo afirmar, que a prática da desonestidade é pré-requisito para seconquistar espaço na organização política partidária. Até parece que, quem não for desonesto, não ganha eleições. É verdade que para toda regra existem as exceções e, na política não é diferente. Muitos militantes nessa área sofrem o desgaste moral e ético, pela prática imoral e antiética de inúmeros políticosque visam apenas o seu bem estar social e de seu grupo.

    Por ocasião dos pleitos eleitorais o que mais preocupa à Justiça Eleitoral é, essencialmente, o abuso do poder econômico, principalmente no que se refere à compra de votos, cujo valor é inflacionado acada disputa. O desrespeito do candidato para com o eleitor nasce no exato momento em que ele se propõe a comprar o seu voto. A partir daí , o cidadão se transforma em uma mercadoria com prazo de validade vencido.

    Esse hábito de compra e venda devotos está impregnado na mente da maioria dos políticos que se arriscam a serem presos, processados e desmoralizados, maculando o nome de suas famílias , mas não deixam para trás essa prática nociva que tem contribuído para o agravamento da insegurança por ocasião das eleições, causando até mortes, e para que a democracia não se afirme como o governo do povo pelo povo e para o povo.

    Nas Câmaras, nas Assembléias e no Congresso Nacional é constante a venda de votos, por políticos inescrupulosos,em troca de assinatura de projetos de leis, de liberação de verbas, de emendase tantas outras práticas costumeiras. Políticos de expressão no Congresso afirmam que essa prática é cultural como bem afirmou o Presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, presidente do PMDB: ”O patrimonialismo é uma característica da política brasileira, e esses desvios de comportamento são históricos.” Já o Senador Jarbas Vasconcelos afirmou “que o PMDB é corrupto e só pensa em ocupar cargos para fazer negócios”.

    Como podemos exigir uma postura digna de eleitor, do cidadão que não sabe sequer qual o papel do Vereador, do Deputado Estadual e Federal, do Senador, do Prefeito, do Governador , e do Presidente desta República chamada Brasil ?

    A mídia tem trazido para o nosso conhecimento as sucessivas práticas de roubalheiras nas Prefeituras com desvios de milhões de reais em detrimento do desenvolvimento local. A prática tem comprovado que a corrupção levada a efeito em uma Prefeitura, por exemplo, se alastra por todos os seus setores, desestimulando servidores honestos e cumpridores de sua missão de bem servir ao povo. Nesses casos a máquina administrativa trabalha em benefício do gestor e de seus seguidores, como se acoisa pública lhes pertencessem em detrimento da cidade e do povo que depositou seu voto nas urnas acreditando que o melhor seria feito.

    O que nos entristece sobremaneiraé que a prática da corrupção tem ramificações nas demais esferas do poder. Recentemente,o Conselho Nacional de Justiça aplicou a pena máxima a 10 juízes do Estado deMato Grosso, dentre eles o Presidente do Tribunal de Justiça, desembargadorMariano Alonso Ribeiro Travesso, pelo envolvimento em um esquema de corrupçãode desvio de R$ 1,4 milhões.Ressalte-se que a pena máxima aquireferida,tratando-se de juízes, é aposentadoria.

    Há em nosso País um verdadeiroclamor popular por mudanças. A sociedade está ficando cansada de observar, calada,as mais variadas práticas de desvirtuamento dos valores éticos e morais. Segundo Sócrates, moral, outra coisa não é que viver como reclamam a probidade e ajustiça.

    A seccional da OAB de Alagoas apresentou, no dia 23 de fevereiro próximo passado, os membros da Comissão deCombate à Corrupção Eleitoral, que conforme enfatizou o seu Presidente, Álvaro Barbosa de Oliveira, dará ênfase ao interior do Estado.

    Se volvermos os nossos pensamentos para o passado, observando o presente e vislumbrando o futuro político, até parece que não há mais solução. No cenário político vivenciado nas urbes, nas Capitais e no âmbito nacional não vislumbramos àqueles políticos carismáticos e éticos preocupados com o crescimento de sua cidade, Estado ou País. Em um País com mais de 127 milhões de eleitores os nomes que se cogita para a eleição presidencial, com chances de vitória, conta-se nos dedos da mão, não porque são os melhores para o País, mas porque são os melhores dentro de seus partidos. É uma pena.

    Chegamos a um patamar tão desastroso que muitos dizem: “vou votar em fulano porque é o menos ruim”. Outros dizem: “vou votar em tal candidato porque é sua primeira eleição e ainda não aprendeu a roubar”. E ainda existem, aos milhares, os que afirmam: “vou votar neste candidato porque ele me deu R$ 50,00, R$ 100,00”. E o eleitor que se diz consciente, em quem deve votar?

    Normalmente, a prática nos ensinaque devemos acompanhar o trajeto político do candidato em quem depositamos a nossa confiança e esperança por ocasião do pleito eleitoral. Se vereador: quais os projetos que apresentou e que foi aprovado em benefício da comunidade;quantas sessões frequentou; quais os eventos de interesse social que esteve presente;como tem se comportado como representante do povo nas questões de interesse coletivo.Até parece que é fácil, mas não é. Apesar de estarmos convivendo o tempo todo com o edil que escolhemos, o nosso dia a dia, as preocupações com a sobrevivência,o estresse vivenciado diuturnamente não nos permite executar aquela tarefa. Imaginem com relação aos Deputados Estaduais, Federais e Senadores.

    Há uma necessidade urgente de entendermos que os políticos são os nossos mandatários. A eles conferimos odireito de nos representar, de lutar pelo interesse coletivo, de fiscalizar a aplicação dos recursos públicos destinados às políticas públicas necessárias à promoção do bem comum. Conferimos ao Prefeito, ao Governador ao Presidente da República,o direito de administrar os bens públicos, a utilizar, da melhor forma possível, o dinheiro público oriundo dos pesados impostos pagos por todos nós,para que os Municípios, os Estados e o País, sejam transformados em lugares seguros,de relacionamento pacífico, onde todos se respeitem e onde prevaleça a força da lei para todos, sem exceção. Onde as políticas públicas sejam elaboradas e executadas de forma a favorecer, de forma igualitária, os anseios dos integrantes das diversas camadas sociais,dando cumprimento aos mandamentos constitucionais da promoção dos direitos sociais com o um todo.Os vereadores e Deputados,Federal ou Estadual, deveriam ser os verdadeiros fiscais do povo , com a sagrada missão de zelar pela correta aplicação dos recursos destinados à construção de moradias dignas,estradasseguras,segurança pública confiável,à saúde, e outros investimentos necessários ao desenvolvimento. Entretanto o que se tem notícia é dos desvios de valoresinestimáveis,das propinas milionárias e da subserviência do Poder Legislativo ao Executivo.

    Os mandatos conferidos pelos eleitores aos titulares de mandatos eletivos deveriam ser visto, por eles, como uma honraria, uma deferência especial, pois nesse mandato está embutido os votos de confiança e a certeza de que seremos bem representados. Entretanto,temos sido vítimas, a cada pleito, de um verdadeiro calote eleitoral pois o respeito , a admiração e a esperança depositada na maioria dos vendilhões de ilusões, em nada afeta a sua índole má, vez que estão sempre vestidos com pele de cordeiro mas, no seu íntimo , são lobos vorazes, parafraseando Jesus Cristo.

    Certa vez, Jesus Cristo, crítico da política e dos religiosos de seu tempo, foi interpelado por seus discípulos querendo saber como seria possível conhecer os profetas confiáveis que viriamapós a sua ida deste mundo terreno. E Ele respondeu: pelos frutos. Esta regra, com certeza, poderá ser aplicada na política. Deveremos nos informar, mesmo que não tenhamos feito um acompanhamento diuturno, mas até mesmo nas últimas semanas que antecedem as eleições, quais foram os frutos produzidos pelo candidato que pretendemos depositar nossa confiança. Entendam-se como “frutos”, os projetos que resultaram em recursos para o Município ou para o Estado; os projetos que se tornaram leis eque trouxeram benefício à sociedade; a participação em debates de temas importantes nas Câmaras,nas Assembléias ou no Congresso Nacional ou se apenas ocuparam seus lugares e acenaram suas cabeças, como catengas, se posicionando apenas com gestos e não com palavras e atitudes.

    O mais recente escândalo de corrupção – não sei se já não estou mal informado - tem como chefe da gangue o Governador de Brasília e,segundo os promotores que atuam na operação Caixa de Pandora, o valor desviado dos cofres públicos já chega a 500 milhões de reais.Reflitam que essa fortuna diz respeito apenas a esse escândalo no Governo do Distrito Federal que se dissemina entre alguns deputados da base aliada na Câmara Legislativa.

    Ora, como distinguir o joio do trigo? Apenas na colheita é que se pode separar um do outro, porque o trigo produz frutos e o joio não, apenas cresce como uma praga , usufruindo do terreno fértil e se beneficiando dos cuidadosque são dispensados,ao trigo, pelos agricultores.

    Na política,infelizmente, só é possível identificar os corruptos quando afloram osescândalos, que não são poucos, em todasas regiões deste País cujo solo é propício ,também ,às ervas daninhas da política que nada fazem ,apenas sugam aseiva que é o sangue de um povotrabalhador e sofrido, que não dispõe deuma política de saúde digna , de segurança e moradia,nem de uma educação compatível com o seu povo ,em razão dadilapidação de seu patrimônio moral e dos desvios de milhões pelos corruptos que elegemos,acreditando serem homens honestos e capazes de nos representar como cidadãos , no tão enlameado terreno dapolítica brasileira.

    Neste ano,novas esperanças, novas decepções nos esperam. Sejamos prudentes, vigilantes,sábios, se possível for, para, eliminando o joio já identificado, não sejamos levados pelas promessas costumeiras, mas sim pelo bom senso.

    postado em 13/06/2010 09:46

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  • artigos

    Públio José
    Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida


     

    Tem alegria no silêncio?

     

    O silêncio é associado normalmente à manifestação de um estado de tristeza. Dificilmente se vê alguém, em condições normais de saúde física e mental, mergulhado em dificuldades, angústias, apreensões, que não seja calado, introspectivo, semblante fechado. Mas será que o silêncio é sempre sinal de tristeza? Ou será que nele também cabe espaço para a alegria, para o cultivo de prazerosos instantes interiores? Com certeza, no silêncio estão embutidas altas doses de prudência, necessárias durante situações de perigo, e também nos momentos de ansiosa expectativa em função do alcance de algum objetivo. Se partirmos para uma análise mais profunda, teremos no silêncio motivo para outras práticas, inclinações para outros comportamentos. No tocante ao mundo exterior, por exemplo, podemos afirmar que o silêncio é a ausência de ruído, fato que nos desobriga a ter que ligá-lo a um estado específico da alma.

    Mas será que, de algum modo, podemos associá-lo à alegria? É certo termos condições de aliá-lo à meditação. Autores, artistas, políticos, músicos, místicos e religiosos, principalmente, usam-no para dele fazerem tema, condições e argumentos para longos e introspectivos períodos de meditação. Cientistas e estudiosos da natureza humana também receitam a utilização do silêncio como terapia, lenitivo para nos contrapormos a longos espaços de tempo dedicados a atividades desgastantes. Afinal, ninguém pode ficar com a máquina mental ligada ininterruptamente. É necessário desligá-la durante alguns momentos e o silêncio é aliado imprescindível nessas horas. Ao contrário daqueles que o associam a dificuldades, angústia, apreensões, outros já o têm em alta conta para a obtenção de um estado de sossego, de calma, de satisfação. Satisfação? Pronto! Conseguimos! Eis o elo que faltava ligar silêncio à alegria!

    Pois, o que é satisfação senão um formato, uma exteriorização de um sentimento de prazer, de alegria que algumas vezes se aconchega no fundo da alma totalmente em silêncio? Porquanto, se pode haver satisfação no silêncio, podemos concluir, com toda certeza, haver nele alegria! E quais os frutos dessa constatação? Afinal, pra que serve termos alegria em ou no silêncio? As pessoas sábias, bem lastreadas interiormente, fazem uso do silêncio como elemento de fortalecimento e de capacitação física e mental necessária aos desafios da vida. Levadas pelo silêncio ao fértil terreno da meditação, da reflexão, retiram da experiência lições proveitosas de como se mover, de como se estabelecer na vida para a longa batalha da existência. Entre essas pessoas, uma houve que fez do silêncio uma esplêndida ferramenta de interação entre ele e o tormentoso mundo dos homens. Seu nome? Jesus Cristo.

    Por várias ocasiões, Jesus se utilizou do silêncio para criar dentro de si condições ideais de enfrentamento aos grandes desafios da vida. É natural, então, que, desse exercício, brotasse uma agradável sensação de prazer, uma crescente alegria pelas soluções obtidas e pelos novos caminhos passíveis de serem trilhados. Seria o caso de vir a ocorrer em nossas vidas, fruto da meditação, desfecho semelhante? Ou devemos argumentar que o que ocorria com Jesus é vedado aos homens em razão de sua natureza divina? A resposta é do próprio Jesus: “Tudo é possível ao que crer”. Na verdade, a prática reflexiva de Jesus – que redundava na transformação de tristeza em alegria – era a fórmula perfeita do aprofundamento de sua comunhão com Deus, condicionante maior a dar lastro à mudança de seu estado de espírito. Eis aí, portanto, a fórmula, o caminho. Trilhá-lo e praticá-lo é escolha nossa. Vai aprender?

     

    postado em 06/06/2010 09:56

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  • artigos

    Jean Lenzi
    Ator, dramaturgo, encenador teatral e ativista cultural


     

    Metodologias para Bobagens

     

    A nossa centenária Cidade do Penedo “jóia da escultura barroca”, “cidade dos sobrados”, “berço da cultura alagoana” que chegou aos seus 475 anos de existência física, em que pese sejam estranhas as datas, é preferível ficar também com essa. “35 anos após a descoberta já existia aqui um núcleo populacional, núcleo este - limítrofe, baliza, atalaia”

    As mudanças ocorridas através dos séculos que nos conceberam cidadãos penedenses, e as sofridas transformações que nos testam a inteligência, o senso critico e moral também nos remete às idéias núcleos divisória, separatista e independente. E, Cuidado! É altamente desaconselhável o contato direto com mentes seguidoras dessas idéias. Com base nas metodologias criadas para afirmar bobagens desnecessárias, a proposta é validada pela máxima de um poder efêmero racionalmente explicitado pelo indicativo: ESTOU!

    Ora pois, como não?

    No Penedo, moçoilas e “moçoilos” aparentemente inteligentes são corrompidos pela simples ação que lhes faculta o uso de um estúpido crachá pendurado no pescoço, e cuja validade, pré-datada, é estampada na testa, como um rótulo a atestar suas capacidades. Ignorantes das ações desenvolvidas pelos poetas mortos das calçadas e pelos poetas vivos das esquinas, nesse Penedo são desconhecidos, obviamente, a razão e o significado das traças tisanuras (traças de livros), pois aqui não mais se arrua pelo forte, mas certamente se praticam fortes arruaças.

    No Penedo, jovens “alienígenas” são facilmente ludibriados por uma sede insaciável de oportunidades múltiplas. Seguidores restritos dos poetas dos bares e destruidores de suas próprias poéticas. Jovens ociosos, desprovidos de todos os sensos, incapazes de perceber as alienações, cujas faltas destas os tornam fatalmente seres obumbrados.

    No Penedo, frustrantes gestores fogem feito diabo a fugir da cruz. Incautos senhores que tanto esbravejam o amor pela terra penediana, e que na confiança de seus rebanhos finitos, agindo de surdina, metem os pés pelos bolsos, as mãos pelos pés e a cabeça e a moral já não mais erguidas, descem aos infernos incitados pelos desejos daqueles que lhe confiaram o acesso ao velho poder, ainda efêmero. Não podemos ser omissos, ainda, às paradas quadrianuais as quais a juventude do Penedo e até aqueles cujo registro geral não mais afirma este termo. - Nas paradas a cada ponto, as bandeiras apontam aos céus – “tu vistes senhor, e concetistes”, ao menos a recompensa pífia vem a cada final de sexta, as moedas são expostas ao sol, este, o mesmo que peca se nos lembrarmos do poeta Pessoa. E mais que isto, para aquele cuja capacidade de soerguer a bandeira além do limite estabelecido, e também o grito afoito e desgarrado alcançar extremos decibéis; somente a estes, serão ofertados os crachás pré-datados. Essa é uma das lamentáveis máximas do Penedo do século 21.

    O Penedo que afirma a competência do vizinho, que não confia em seus mestres, renegando os valores, quando nada, invertendo-os nas melhores hipóteses. É o Penedo da inveja, da mesquinhez e da ignorância política, da mentalidade oligofrênica. Da ingerência.

    No Penedo de hoje, as rochas lodorentas que ainda sustentam casarões e casebres, servem também para abrigar toxicômanos dos mais variados, “Hips e hapers” e porque não dizer também dos pretensos socialites ripongas que longe da luz e da sirene policial acendem as chamas da ilusão, mas, nem estas mesmas são capazes de remediar suas tormentas. Para tanto, a cada palito gasto, “o mar expulsa covardes”. E pela expulsão primária, os meninos do rio dançam e quebram vidraças em homenagens explicitas ao deus, já entorpecido e renegado, e brincam e cantam sob o testemunho único do Rio que ainda não se atreveu a expulsar os covardes.

    São essas as metodologias para bobagens produzidas para explicitar uma sociedade carregada de erros seculares, herdados provavelmente, dos nossos fatídicos descobridores de 500 anos. Porem nossa Penedo já está passando da hora de cair na real.

    Vale lembrar ainda que todos os penedos citados são intimamente ligados aos seus penedianos, talentosos da arte de afagar sopas frias. Admiradores das vespas, detentores de artrose dedal, ocasionada pela ação constante de uma pscopatia social, e por que não dizer também cultural.

    De todos os penedos, não esqueça de um (não citado anteriormente), o penedo dos sonhadores de fé, dos anarquistas, dos fleumáticos e dos camaleões. Esses também formam o Penedo do Século 21, assim como provavelmente formarão os do século 30, isso, partindo do pressuposto de que há momentos em que calar é um crime. E por esse crime eu não serei condenado.

    postado em 30/05/2010 00:00

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  • artigos

    João Pereira
    Advogado, escritor e atento observador da política


     

    Por que não a Castração em vez do Celibato?

     

    Pelo fato de tratar de coisas supostamente divinas e estar voltada sobretudo para o mundo espiritual, não significa que a igreja católica não esteja cheia de contradições e absurdos. Afinal de contas, temos de convir, é uma instituição com um falso cartão postal do céu, criada e conduzida por homens e, como tal, repleta de falhas humanas. O que nos chama a atenção é a teimosia que a torna impermeável às mudanças essenciais à sua própria sobrevivência. É um grande equívoco acreditar-se que tudo que vem do passado deve ser reverenciado e respeitado como uma verdade imutável. Pelo contrário, o apego às tradições comportamentais, a conceitos e idéias ultrapassadas são o que há de mais retrógado no homem, impedindo o seu desenvolvimento e escravizando-o a um abuso que é a própria tradição. Como dizia Voltaire, haverá coisa mais respeitável que um antigo abuso? A igreja católica está cheia de antigos abusos.

    Nas últimas semanas, Penedo, outras cidades do Brasil e alguns países têm sido palco de notícias sobre pedofilia, envolvendo diversos membros do baixo e alto clero. Tais notícias, que não são uma novidade, causa-nos sempre maior surpresa e incredulidade pelo fato de envolverem pessoas das quais a sociedade deposita total confiança e espera uma conduta ilibada. Maior ainda torna-se a nossa estupefação por fazerem parte do palco dos horrores menores que, portadores da inocência, deveriam gozar de uma admiração, respeito e especial deferência por parte dos pervertidos, verdadeiros monstros de batina. A impressão que nos dão é que são incrédulos, riem dos fieis e não acreditam em nada do que pregam e o que dizem, pelo deplorável exemplo, são apenas palavras ao vento. Fazem da religião um meio de vida e uma saída para dar vazão às suas deficiências e bestialidades sexuais. Contumazes no crime por anos seguidos, esses pastores do mal sacrificam a vida de jovens ingênuos, obrigando-os a carregar pelo resto da vida, o fardo de insuportável trauma psicológico.

    A igreja católica no curso de sua história, tem enfrentado tempestades acompanhadas de chuvas torrenciais de escândalos de toda espécie. E se ainda existe, face à decrescente credibilidade, devemos atribuir sua longevidade à teimosia de seus fiéis que gradativamente migram para outras seitas, supostamente sérias. Pobres fiéis! A fé, sem dúvida, é a mais acabada expressão da fragilidade humana perante o insondável mistério da vida.

    Não bastassem os escândalos passados e presentes, no passado medieval a igreja, no momento dirigida por um asno e, como tal, na mais elevada inspiração à sua altura, decreta a obrigatoriedade do celibato ao clero. Ora, tal iniciativa, estupidamente repressiva, contraria o princípio do crescei e multiplicai, contido na bíblia. Atinge o âmago da natureza no seu mais importante papel que é a perenidade da vida através da reprodução. Não só a reprodução, mas também o prazer sexual, o mais intenso e agradável prazer físico, necessário ao bem-estar e a estabilidade psicológica. Afinal de contas, qual o papel do pregador? Excetuados os meios para se conseguir o passaporte celestial, as virtudes morais que nos tornam cidadãos respeitáveis, dignos da felicidade. Pode o infeliz pregar a felicidade? O nosso verdadeiro estado é o da condição humana e só podemos nos sentir bem quando gozamos a plenitude do nosso ser. Como pode o pregador falar de sexo e matrimônio, se não os conhece?? Se Deus é amor, como poderá comprazer-se com a flagelação do homem?

    Voltando ao problema do celibato, percebemos como São Paulo, grande vulto do Cristianismo, foi sensato ao dizer em Corintios, 7°, 8°: “Digo aos não casados e às viúvas que lhes é bom permanecerem assim, como também eu. Mas, se não se contêm, casem-se. Porque é melhor casar-se do que abrasar-se”. Por que a igreja não optou por esse conselho tão sensato de São Paulo? Como o pensamento, curiosamente, avança e retroage no tempo! Os que fazem parte do clero, ao submeterem-se livremente ao celibato, não estão obrigados a continuar a obedecer uma orientação irracional e suicida. Essa imbecil e covarde inação para contestar, força vital às transformações, acabará por extinguir a enferma igreja católica.

    Para finalizarmos, não queremos afirmar que o celibato, que deveria ser uma opção de cada um, é responsável pela execrável conduta de alguns membros do clero. Achamos apenas que ele serve de esconderijo para tantos que são reprimidos e covardes para mostrarem sua anormal preferência sexual. A homossexualidade, escancarada nos dias de hoje, não deve ser empecilho para se pregar a mensagem da igreja. Se o homossexualismo existe, é porque assim quis a natureza. O seu rebanho é grande dentro da igreja, encurralado pelo voto – jurado e não cumprido por muitos – de castidade. O que a sociedade não aceita é que padrecos e outros mais altos na hierarquia, abusem, desumana e criminosamente, de crianças para extravasar seus instintos pervertidos.

    Se esse embaixador de cristo, pai da idéia do celibato, tivesse sido mais inspirado, assim como Aldous Huxley quando imaginou para a humanidade um futuro no qual os nascimentos seriam programados para determinadas profissões, teria sido mais radical e em vez de estimular o celibato, exigiria a castração para a classe sacerdotal. De que adianta exigir a castidade, deixando solto o demônio da tentação carnal? E qual é a finalidade do celibato? Fazer com que os padres tenham uma dedicação plena aos afazeres da igreja e à contemplação divina? Pura sandice de um carola efeminado que pretendendo elevar-se às delícias do céu, foi vítima de uma visão unilateral, incapaz de calcular a decida na lama dos muitos que não podem sustentar-se na leveza etérea de pura espiritualidade. O racional e o espiritual, dom sublime do Criador concedido ao homem, está ligado, inconcebivelmente, às funções animais e a alguns instintos repulsivos. Assim, como ater-se com serenidade à contemplação e obediência a um estúpido voto de castidade, se essa promessa não tem outro objetivo senão fazer com que o padre conviva com uma guerra íntima a querer jogá-lo no abismo das tentações? Se o sacrifício, como pensam alguns, é uma prova de amor a Deus, este não passaria de um sádico sem amor. Pintam Deus com as mais belas virtudes e agem radicalmente em desacordo com a pintura.

    A castração seria um ato desumano e anticristão, mas seguiria a linha das contradições, da vantagem e da desvantagem. A vantagem é que com um clero de eunucos, nem ativo, nem sexualmente passivo, mas neutro, teríamos uma igreja bem mais comportada, mostrando-se com toda fidedignidade em oposição aos hipócritas que do púlpito exaltam os princípios de moralidade e por trás, no amplo sentido para alguns, agem de forma diametralmente oposta. Com seu exército clerical efeminado na voz, seria um trovão de respeitabilidade, isentando-a de provações de credibilidade que vem minando sua sobrevivência, decorrente dos escândalos sexuais.

    postado em 16/05/2010 00:00

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  • artigos

    Públio José
    Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida


     

    Todos somos fornecedores

     

    Na linguagem empresarial, comercial, o termo fornecedor tem um peso muito importante. Representa, na estrutura do negócio, o parceiro que produz mercadorias e serviços para outros parceiros que, por sua vez, detêm meios de acesso ao mercado consumidor. O assunto é vasto, pois envolve não somente os que produzem (muitas vezes desprovidos de estrutura de distribuição), mas também os chamados atravessadores, especuladores, agentes responsáveis pela compra das mercadorias aos produtores e pela venda e entrega delas à rede de lojistas. No entanto, devido à complexidade que rege atualmente o mundo dos negócios – principalmente pelo peso da maquina governamental – o termo ganhou significado mais profundo, agigantou-se e passou a representar um item super importante na engrenagem e escaninho das grandes corporações e das grandes organizações estatais.

    Por conta do poderio e da complexidade do mercado fornecedor, as empresas e instituições se obrigaram a montar grandes estruturas para aquisição de produtos e serviços, e suas subseqüentes atividades, como controle de qualidade, de pagamento, de estoque, fiscalização, auditoria... E um mundão de outros elementos de suporte, entre os quais – e principalmente – aqueles voltados ao combate da corrução, este um item responsável pela maioria dos escândalos envolvendo parlamentares, políticos e administradores públicos. Como terceira ponta deste negócio, nem sempre o consumidor sabe que vive à mercê das decisões desse povo – mas vive. De maneira que, atualmente, ninguém se livra de estar direta ou indiretamente envolvido nessa gigantesca – e nem sempre clara e transparente – rede de relacionamentos interpessoais, além de gestora de uma incalculável montanha de dinheiro.

    Entretanto, para os fins a que se destina o conteúdo deste artigo, convém ampliar o conceito, o significado do termo fornecedor. Pois, se fizermos aqui uma análise menos negocial, menos tradicional, e mais sociológica, mais humanista... Enfim, se olharmos para dentro das estruturas familiares, das estruturas sociais, políticas, profissionais, veremos que todos nós fornecemos algo a alguém. Os pais, por exemplo, fornecem aos filhos roupas, alimentos, educação, saúde. Só isso? E onde fica o carinho, a atenção, o zelo, os cuidados, a orientação para a vida, o amor, enfim? Já os empregados fornecem aos patrões o esforço, a dedicação, a seriedade, a honestidade, a competência no desempenho do trabalho que se obrigam a fazer quando são contratados. Já os patrões se obrigam a fornecer salário (de preferência em dia), boas condições de trabalho, planos de saúde, vale transporte...Um homem houve que nos forneceu belíssimos e utilíssimos ensinamentos – e muito amor. Seu nome? Jesus Cristo. Já Hitler forneceu à nação alemã, e por conseqüência a toda humanidade, conceitos carregados de preconceito, ódio, descriminação, sangue, destruição. Fidel Castro ficou famoso pelo fornecimento aos cubanos de perseguição, censura, miséria, paredon e morte. Hugo Chávez está aí fornecendo aos venezuelanos intranqüilidade, regime ditatorial, incerteza econômica. Há, portanto, homens e homens. E fornecimentos e fornecimentos. Madre Teresa de Calcutá era uma exímia fornecedora de caridade, doação, carinho, amor. Ghandy fez da sua vida um tesouro de fornecimento de amor e louvor ao próximo. Martin Luther King (sem decretos, sem ministérios e sem disparar um tiro) transformou-se em ícone da humanidade no que diz respeito aos direitos humanos e igualdade racial.

    E Jesus? Jesus é um caso à parte. Um fornecedor extraordinário. Que extrapola o entendimento humano, que vai muito além da concepção que o homem faz do fornecimento que deve direcionar ao próximo em família, no trabalho, na vida em sociedade. Jesus nos fornece perdão em plena cruz (“Pai, perdoa; eles não sabem o que fazem”); Jesus nos fornece alívio nos momentos de dor (“Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados; e eu vos aliviarei”); Jesus nos fornece orientação espiritual direcionada à salvação (“Eu sou o caminho, a verdade e a vida; e ninguém vai ao Pai senão por mim”). E você? Você é um fornecedor. De que tipo? O que está fornecendo aos filhos, amigos, vizinhos, colegas de trabalho? Como eleitor, por exemplo, a quem fornece seu voto? Político corruto em troca de dinheiro? Veja lá! Há homens e homens. Fornecimento e fornecimento. Qual a sua mercadoria?
     

    postado em 09/05/2010 00:00

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    Isabel Cristina Medeiros de Barros
    Clínica Geral com Pós-Graduação em Medicina do Trabalho


     

    Os Pacientes perderam a paciência!!!

     

    Depois de tantos anos atendendo pacientes em postos de saúde, aprendi que jamais serei capaz de resolver satisfatoriamente todos os problemas de saúde daqueles que me procuram, porque além de minhas limitações “humanas”, existem as limitações dos serviços públicos com suas deficiências, resultantes de más gestões e dos problemas sócio econômicos deste país.

    As necessidades dos pacientes vão muito além da consulta médica, pois se os complementos como remédios, materiais e equipamentos para procedimentos, marcação de exames e de consultas especializadas não estão disponíveis, a consulta torna-se ineficaz. Soma-se a esta situação, a falta de saneamento básico, coleta de lixo e alimentação adequada, importantes no processo de adoecimento, assim como uma educação de qualidade, importante para a paciente ter acesso às informações sobre sua saúde. Distribuir panfletos e pregar cartazes informativos em serviços de saúde, onde os usuários nem assinam seus nomes, é perda de tempo e dinheiro. Têm mais resultados as palestras e reuniões com a comunidade, apesar de ser impossível realizá-las enquanto quarenta pacientes aguardam consulta na sala de espera e o gestor da saúde local exige “quantidade” de atendimento.

    Promover saúde sem educação é muito difícil, orientar coisas simples como os horários de medicamentos, demanda paciência e tempo, não adianta dizer apenas: “tome este remédio de oito em oito horas”, pois ele só vai tomar às oito da manhã e às oito da noite. Orientar, por exemplo, um idoso que faz uso de três tipos de anti- hipertensivo mais dois de medicamentos para diabetes, além de um para o coração não é uma tarefa simples, os agentes comunitários ajudam muito na orientação, mas quando não estão disponíveis os pacientes ficam a mercê de algum parente ou vizinho, nem sempre com entendimento suficiente para a tarefa.

    Certa vez, orientando uma paciente sobre a dieta adequada para seus problemas de obesidade, achei de dizer que a mesma precisava de “educação alimentar”, então meio constrangida, ela respondeu: “É mesmo doutora eu sou mal educada pra comer, vou comer mais devagar e diminuir o prato”!

    Há alguns meses atendi num posto de saúde uma menor de 16 anos que antes de me dizer as queixas, me entregou uma carta de duas paginas, e disse: “escrevi tudo, para não me esquecer de nada”. Transcrevo abaixo alguns trechos:

    “Escritura de tudo que sinto

    Quais são?”...Descreve então várias queixas, de todos os tipos, em 16 linhas, finalizando assim:

    “ Eu estou aqui hoje porque eu quero que todos esses problemas que sinto sejam curados, porque eu vim aqui ser atendida de verdade, porque meu caso é muito grave, só eu e deus sabe como estou mim sentindo. Por isso eu quero que meus problemas dessa vez sejam resolvidos, porque se conte as vezes que venho mim consultar e nada é resolvido e eu sempre do mesmo jeito. Será que nenhum médico daqui sabe resolver nada, espero que essa seja a ultima vez que eu venha tentar resolver meus problemas, porque eu já não agüento mais. Espero que dessa vez eu saia daqui feliz com tudo que preciso. Você hoje é minha única esperança. Deus queira.”

    Apesar de tantas queixas, a menor à avaliação clinica apresentava um bom estado geral, mas devido a sua evidente ansiedade, falei: “como é sua primeira consulta comigo, vou tentar resolver alguma coisa, mais resolver tudo hoje é impossível, porque serão necessários exames”. Estou aguardando estes resultados de exames há mais ou menos cinco meses e a paciente ainda não retornou com os mesmos.

    Esta situação serve para ilustrar a carência do paciente em ser ouvido, mas nos coloca no dever de suprir todas as suas necessidades, enquanto o poder publico não faz a sua parte. Os problemas na saúde são muitos e nós médicos também somos culpados, quando aceitamos trabalhar em péssimas condições.

    Na persistência de tantas “farturas” (falta tudo), os médicos perderam o estimulo e os pacientes a paciência com as consultas muitas vezes infrutíferas, mas ainda com a esperança de que o médico, sozinho, “resolva tudo”, possível apenas quando DEUS QUISER!

     

    postado em 02/05/2010 00:00

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    João Pereira
    Advogado, escritor e atento observador da política


     

    Sangue Novo no Executivo Municipal Penedense

     

    Alguma cigana teria sido capaz de prever que fossemos premiados com a oportuna renúncia do Alexandre que, pretendendo galgar horizonte mais alto poderá se transformar num autêntico Ícaro a despencar das alturas em queda fatal às suas pretensões políticas? A vaidade costuma derreter as asas de muitos aventureiros, especialmente daqueles querem alçar vôo além da sua capacidade. Acontece que a sua ascensão ou queda, que em queda livre já se encontrava, fica no campo das especulações. O que importa é que Penedo, torturada pelo desamor e profundo estado de anemia, pode começar a acalentar a esperança de receber uma saudável e estimulante transfusão de sangue.

    Sempre defendemos o surgimento contínuo de novas lideranças políticas, dinâmica necessária para arejar e servir de assepsia ao corpo viciado, decrescente vitalidade, necrosado e corrompido pelo tempo que tudo acomoda. Esse fluxo nada mais é do que estar em sintonia com a lei natural do movimento. Renovar, portanto, é uma característica da vida embora nem sempre, temos de convir, toda mudança aconteça para melhor. Ocorre que quando o presente não nos convence e muito menos nos satisfaz, vale a pena avivar a chama da esperança às nossas melhores expectativas.

    Pelo que sentimos, vemos e ouvimos, Penedo, no tocante às suas finanças, encontra-se na UTI. Comenta-se a respeito de uma dívida expressiva em alguns milhões de reais. Não sabemos a causa ou causas, sendo o déficit orçamentário, sem dúvida, uma delas. Uma prova dessa grave adversidade está no desagradável corte das gratificações e horas extras. Sem falar no comércio local, seguramente com créditos dependurados, existe a visão incômoda das ruas esburacadas pela chuva ou para reparos no sistema de água e esgoto, eternizados no tempo para serem reparadas.
    Esse caos financeiro não teria pesado de forma definitiva na sua decisão de abandonar o barco, temendo o seu afundamento ? Assim, se comportam, dizem, os ratos de navio. Suas justificativas, que parecem emoldurar um belo quadro de disciplina partidária, não convencem.

    Ninguém, em sã consciência, no início de um mandato, renuncia-o após enfrentar encarniçada luta para conquistá-lo. Como nos convencer que o que era tão atraente perca, num curtíssimo prazo, o seu atrativo? Ninguém abandona uma viúva endinheirada, a não ser que tenha mergulhado em insolvência. Acho que foi exatamente o que aconteceu. O que foi feito das juras de amor por Penedo, do amor puro e desinteressado? Persistentes no otimismo, aguardamos a vinda do verdadeiro romântico que venha acolhe-la, por fim aos seus lamentos e, com afagos e carinho, venha compensá-la de seus suplícios. Teria sido difícil ao Alexandre, convidado pelo governador, convencê-lo de que seu compromisso com Penedo era inarredável? Não teria sido, creio. Por outro lado, o PSDB é um partido tão carente de puro sangue, aponto de recomendar a renúncia de um prefeito no início do mandato? E o respeito ao eleitor, como fica ? Dúvidas e desconfiança pairam no ar. Sua renuncia, em ultima análise, foi uma decisão há muito planejada,num momento estrategicamente correto. O futuro, certamente nos esclarecerá.

    Não existem problemas sem solução. Administrar com suficiência de recursos, até os medíocres podem se sair muito bem. Somente na adversidade, se tiver a sorte de ser inspirado pela criatividade, poderá sobressair-se e adquirir, com louvor, o galardão de exímio administrador. Mexer com o interesse do próximo é a mais difícil, delicada e dolorosa decisão. No entanto, se a mesma deve ser tomada como objetivo saneador ,faça o mais rápido possível e deixe que o tempo cicatrize as feridas.

    Os engenheiros são considerados bons gestores. O mundo, por sua vez, apóia-se nos ombros da engenharia através da aplicação de inúmeras tecnologias, nos diversos campos de sua atuação.
    Avante, engenheiro Israel Saldanha, faça parte da regra dos bons administradores. O desafio está lançado. Se assim despontar, como esperamos, estará começando a pavimentar a sua carreira política. Sedimente-a com independência, sem duplicidade de mando para que não fiquemos em dúvida de quem ordena e dirige os destinos de Penedo. Trocar idéias e pedir conselhos é uma virtude imprescindível. Inconcebível é que venha a se transformar numa marionete, que seria a visão antecipada do desastre e perda total da expectativa acalentada por todos nós penedenses.

    Apele aos céus, religioso que o é, para que o ilumine e possa tirar Penedo do atoleiro e aponte-lhe o caminho para o reencontro com o desenvolvimento que todos desejamos

    Boa Sorte!!
     

    postado em 25/04/2010 00:00

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    Francisco Sales
    Médico psiquiatra e Diretor Fundação Casa do Penedo


     

    De Bernini a Cabrini

     

    Há cerca de 500 anos quando nós começávamos a ser descobertos pelos europeus que aqui fincaram a Cruz de Cristo, já um membro da sociedade secreta Illuminati, imortalizava no mármore o horror que acontecia no claustro de um convento de mulheres na Espanha. O orgasmo de Tereza d’Avila, celebrizado por Bernini escandalizava a Igreja Católica e chamava a atenção de toda humanidade, para o crime que se perpetrava conta a mulher, forçadamente confinada à uma vida dedicada a ser “Esposa do Senhor”.

    Hoje sem a genialidade do escultor barroco nos deparamos com o jornalista Cabrini a mostrar ao mundo a carne flácida e desnuda de um padre ancião que no recesso de uma Casa Paroquial nos sertões do Brasil, entrega-se a volúpia de um ato sexual.

    “Isso não é pecado”.assegura o pastor octogenário para vencer as resistências do garoto que seria imolado no altar dos prazeres. “Veja que nos evangelhos, nada existe condenado.” Insiste o prelado em sua ação catequética.

    Realmente a condenação do ato sexual é mais uma artifício da Igreja para manter seu poder de domínio, inclusive para seus próprios membros. Mas como este ato é necessário ao homem e indispensável à vida, ela a Igreja,diante dessa contradição finge não ver sua prática que na maioria das vezes passa a ser deformada,doentia, eivada de culpas.

    Já a própria escolha da “vocação para o sacerdócio” deveria estar a indicar possíveis saídas para jovens que vêem na vida de padre uma fuga para sua possível sexualidade onde poderia ser possível a sublimação da já angustiante manifestação sexual .

    “Quem está aí fora? Quem está aí fora? Continua a perguntar o execrado pastor no vídeo exibido com sensacionalismo. E não obteve resposta em que pese haver reiterado a pergunta.

    Todos nós estamos aqui fora assistindo há anos a esses fatos e uns tantos outros que emolduram a ação da Igreja na sua insana luta por poder. Vendendo indulgências, bênçãos,a vida eterna em negação da presente, isso sem falar nas benesses materiais e porque não dizer também eleitorais.

    Qual beata, professor, autoridade ou habitante de uma pequena cidade como Arapiraca ou Penedo não saiba da vida de seus padres?

    Ainda o jornalista,agora pluralizado,- jornalistas do mundo inteiro-, afirma como da mesma maneira faz o promotor de justiça que o Bispo sabia e nada fez.

    O Bispo, como nós, formamos também a igreja e sabíamos e tolerávamos esses horrores e tantos outros.Porque? O que fizemos durante tantos anos, enquanto milhares de jovens em sacristias, claustros, casas paroquiais, seminários, colégios, internatos e uma série de “instituições pais”tiveram suas vidas deformadas por esses falsos e mórbidos ensinamentos?

    É hora de refletir que estamos diante de um problema muito mais sério do que a anômala prática sexual mostrada pela imprensa, e sim de um problema cultural A Cultura da Igreja, da submissão aos dogmas, da hipocrisia, da negação do presente em função de uma vida eterna que esse falso cristianismo nos tem imposto há séculos.

    Foi para isso que Bernini imortalizou o êxtase de Tereza D’Avila e deverá ser esse o chamamento da denuncia do Cabrini. Dar um basta nessa falsa dominação da igreja.

    Tanto os milhares de crianças, como de padres e todos nós somos vítimas dessa “sagrada tirania”.

    postado em 19/04/2010 17:16

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    Valfredo Messias dos Santos
    Procurador de estado, defensor público e membro da Academia Penedense de Letras


     

    Filhos: Por que a relação é sempre conflituosa?

     

    Tenho me feito, em muitas ocasiões, uma pergunta que ando em busca de respostas mais convincentes: Por que a relação entre pais e filhos é tão conflituosa? Alguém pode até dizer: Na minha família isso não acontece!. Claro,quando assim indago é com relação à grande maioria,respeitando às exceções, que ressalvo,são muito poucas.Por muito que os pais façam pelos seus filhos ,eles querem cada vez mais .Não há o sentimento de troca,de gratidão,de agradecimento, mas,tão somente de cobranças.

    Quantos pais têm amargado nesta vida, uma relação conflituosa, quase odiosa entre seus filhos e filhas? E isso não acontece apenas nos lares de famílias pobres,sem recursos,sem educação. Até parece que nas famílias de classe média e alta, os escândalos envolvendo os membros familiares são mais constantes, talvez pela exposição que os fatos são dados pela mídia. A busca efusiva da liberdade tem sido um dos ingredientes dessa disputa dentro do lar. A tendência dos filhos em se relacionar melhor com seus amigos e amigas, de participar de grupos às vezes organizados para a prática do mal, como assaltos, uso de drogas, orgias, e a de querer morar sozinhos, longe dos olhos vigilantes de seus pais, são apenas alguns desses fatores que contribuem para esse eterno problema de convivência.

    Os pais por já terem percorrido um longo caminho na estrada da vida e por terem enfrentado os dissabores dessa caminhada, se preocupam com o futuro de sua prole, e se aventuram a dar conselhos para que não venham ser surpreendidos nas armadilhas dessa mesma estrada. Entretanto, a cada conselho que os pais se aventuram a dar ,novas contradições e insatisfações afloram,dando margem a novos conflitos e às respostas: “a vida é minha e vivo como quero”;”suas idéias são ultrapassadas”;”os tempos são outros”; “ você só quer falar e não quer ouvir “.

    Enquanto isso, muitos, que não fazem parte do convívio familiar, procuram ouvir e seguir conselhos, sugestões que lhes são dados e dizem ter encontrado a saída para seus conflitos pela palavra amiga ,pelo simples ouvir. Por que isso acontece? Por que a maioria dos pais não consegue partilhar com seus filhos suas preocupações, seus anseios e um pouco de sua história como uma forma de colocar diante deles um quadro mental de um passado que pode se repetir no presente ou no futuro? Tenho andado em busca dessas respostas, mas, sinceramente, ainda não as tenho como definitivas. Apenas suposições.

    O famoso escritor árabe Gibran Kahlil Gibran, em seu livro “ O Profeta” conta que uma mulher que carregava o filho nos braços disse:” Fala-nos dos filhos”. E ele assim falou:

    Vossos filhos não são vossos filhos.

    São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

    Vêm através de vós, mas não de vós.

    E embora vivam convosco, não vos pertencem.

    Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,

    Porque eles têm seus próprios pensamentos.

    Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

    Pois suas almas moram na mansão do amanhã,

    Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

    Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,

    Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

    Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.

    O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força

    Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

    Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:

    Pois assim como ele ama a flecha que voa,

    Ama também o arco que permanece estável.
     

    Que bela poesia! Por certo nos servirá de consolo. Propõe-nos uma reflexão mais profunda,mais real,mais natural.Mas ainda continuo a indagar : Por que tem que ser assim?


     

    postado em 14/04/2010 00:03

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    Jean Lenzi
    Ator, dramaturgo, encenador teatral e ativista cultural


     

    "O triunfo pertence a quem se atreve"

     

    A imaginar um sonho tornando-se real, a imaginar uma organização lutando pelo ideal, (e por um ideal), a imaginar uma mulher de sexo feminino a conduzir os ideais coletivos de um possível grupo, a provar a competência e o talento de agentes de cultura e aos gritos verbalizar: “NÓS SOBREVIVEMOS!”

    Poderia, no entanto rebater a afirmação lhe devolvendo uma pergunta:

    - Sobreviventes do que?, de quem?, sobreviveram ao que, a quem?.

    Poderia, mais não o farei porque sei bem da resposta, porque como encenador, conheço bem das frustrações e dos riscos de quem se atreve a alguma coisa, seja ela por um ideal próprio, gosto, feição, ou de uma forma maior, um ideal coletivo, ainda que um coletivo restrito, o que é mais próprio quando me refiro à veterana trupe do teatro penedense que neste último mês de março, mais precisamente no dia 25 fechou suas duas décadas de prestação de riso e encantamento.

    A Companhia Penedense de Teatro, há vinte anos surgia na Cidade do Penedo com o propósito de tornar válida a presença do primeiro palco cênico do Estado, o Theatro Sete de Setembro, naquela oportunidade, final dos anos 80 o nosso sólio penedense estava às voltas de uma remodelação, uma maquiagem para tornar mais agradável a cena, mais se nos perguntarmos que cena seria esta?, de quem?, pra quem? é possível que não cheguemos a nenhuma resposta, pois não existe nenhuma referencia de atores ou atrizes do Penedo que precedam a Companhia Penedense de Teatro que viria a ser formada justamente naquela ocasião, já no primeiro ano da década de 90, referências passadas, poderíamos tomar com as encenações do Professor Ernani Mero dadas no Circulo Operário, com as Operetas, as próprias associações de bairros e as escolas, e até mesmo as quermesses apresentavam tipos caricáticos de teatro amador. Ocorre que os responsáveis legítimos pelo resgate mesmo destes “tipos” e de muitos outros foram os arteiros da Companhia Penedense (CTP), onde é explicado por eles próprios que o surgimento do grupo se deu a partir de uma oficina de teatro promovida pela Prefeitura Municipal, no qual algumas cabeças coroadas por talento e compromisso deram o ponto inicial para a formação da trupe. Consta também que é o grupo mais antigo em atuação no interior de Alagoas, ao lado possivelmente do Grupo Caçuá (Piaçabuçu) que leva outra linha de encenação de arte também regional.

    Uma das culpado-responsáveis pela formação da CPT é a professora e diretora teatral penedense Miranildes Pereira. Mira como é conhecida nas coxias, é uma das precursoras do tablado penedense ao lado também de Jô Moreira e Ednalva Gomes, e juntas são as únicas atrizes que permanecem atuantes quando da formação inicial da Cia. Detalhe importante também são os artistas que tiveram suas faces apresentadas pela marca delicadamente regional que firma os trabalhos gloriosos já realizados pela trupe, entre os muitos poderíamos citar a grandiosa Nine Ribeiro, hoje ausente da cena, Rafael Medeiros e suas graças no espetáculo “Quem Matou Sefinha”, e para quem não se lembra, acredito que só os mais próximos, a Cia também teve sua Xuxa, ou seu Xuxa cujo apelido perpétuo me faz ignorar o nome deste ator que colaborou durante alguns anos com a produção do grupo. Lembrar também de Ladilson Andrade é recordar o fim de um começo e vice-versa. Ladilson integrou a Cia. ainda nos anos 90, e dela fez surgir seu próprio grupo em 2002, a Cia. Passo a Passo, naufraga da cena local, pois o que era pra ser sucesso durou pouco mais de 04 anos.

    Artistas independentes, grupos atuantes e trabalhos gloriosos foram surgindo no decorrer dos anos sobre os auspícios dos veteranos da Companhia Penedense de Teatro. A exemplo da Cia. Passo a Passo, surgiu antes a “Grupo de Teatro Opara” no qual participava o disciplinado e premiado ator penedense Fernando Arthur, surgiu também já nos primeiros anos do século 21 a Cia. Dell’Arte de Teatro, possivelmente a trupe mais eclesiástica já vista neste sólio, a Cia. Dell’Arte subiu poucas e importantes vezes no palco do Sete de Setembro com atuações fabulosas como Que Mãe Que Arranjei, lotando o Sete de Setembro quando de sua estréia em 2003, também sobre os cuidados e lapidações da Cia. Penedense. Muitos outros importantes grupos locais surgiram a partir do plano de ideal primário: FAZER TEATRO, lançado lá no inicio dos anos 90 pela Cia. Mas não esquecendo, repito, dos perigos que esta ação pode trazer, das frustrações de uma arte efêmera já dita por encenadores de peso no Estado de Alagoas.

    A Companhia Penedense de Teatro a certo modo é sobrevivente dela mesma, de seus erros e principalmente de seus acertos, e são estes os próximos pontos.

    Acertos como, por exemplo, a brilhante montagem de Terra Terta que comemorou no último ano seus 10 anos de montagem, proposta acertada por direção, haja vista um René Guerra em seu auge como diretor de teatro, e um autor à época jovem, Flávio Rabelo. Nomes que compõem a nata do teatro Alagoano somados aos engajados artistas de um estilo regional de teatro com sacadas contemporâneas muito bem orquestradas, como resultado não poderia ser inferior, a Cia. recebe importantes premiações pela montagem em Festivais do Sudeste. O sucesso de Terra Terta se repete com a montagem de D’Outro lado do Circo, também com distintas premiações em Festivais Nacionais. Na época em que participar de um Festival era algo que exigia grandes compromissos com montagem, em parte, vemos hoje espetáculos de baixa produção e enredos ainda menores, mas que também participam de Festivais. Indo de encontro com trabalhos bem pensados e com encenadores comprometidos com o plano e não com o bolso. A Cia. é um dos raros exemplos de instituições que prezam a qualidade em oposição à quantidade, se esta obviamente estiver intimamente ligada aos preceitos de uma arte essenciatista.

    Mas a Cia. Penedense de Teatro também inovou a cena local quando por uma iniciativa conjunta com a Cia. Dell’Arte firmou em 2003 o Festival de Teatro de Penedo (antigo Festival de Férias) que chega este ano à sua 8ª Edição e com os mesmos propósitos: Formar e socializar platéias. Esta questão, talvez seja a preocupação de parte dos artistas alagoanos, em especial dos penedenses, mais somente agentes que desenvolvem iniciativas como esta, a de lançar no interior de Estado um Festival de arte cujo sucesso já ultrapassa as margens do São Francisco, o Edital do Festival é de alcance de mais de 90% da região nordeste; quando afirmo que a responsabilidade desta ação tem peso superior nas costas destes arteiros, é porque reconheço como certeza que um evento deste porte pode contribuir para a superação da cultura local, seja pelo calendário fixo que nos permite saber que teremos uma agenda cultural promissora a cada Julho, seja pelos profissionais engajados, e daí não somente os artistas, mais também técnicos e figurinistas e bilheteiros.

    A economia da cultura (termo bonito este) circula desde o simpático pipoqueiro da porta do Theatro que têm certas as suas vendas, do motorista que faz o transporte dos grupos e dos cenários, passando por estes até chegar ao palco onde o produto pronto é apresentado ao público.

    As responsabilidades de uma iniciativa como esta nos obrigam a reconhecer e aplaudir seus idealizadores que neste caso são os componentes da Companhia Penedense de Teatro, que nos limitam a comentar seus erros e acertos, mas nos instiga a parabenizar quando as surpresas postas por trás das cortinas tocam e emocionam a sempre distinta platéia.

    Portanto, reconheço e valido todo o empenho destes colegas, cujos talentos vaticinados me permite tirar o chapéu em sinal de respeito e atenção. E mesmo que em momentos tempestivos possa usar da dureza, sempre estará válido o pensamento do mestre Chaplin quando nos afirma que o perder somente com classe, e o vencer somente com ousadia. Daí o TRIUNFO PERTENCE A QUEM SE ATREVE. Sábio atrevimento o de vocês.

    Parabéns!!!

     

    postado em 09/04/2010 23:16

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  • artigos

    Francisco Souza Guerra
    Presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Penedo


     

    Royalties de Penedo: Fim da pirotecnia jurídica. Início do Calvário

     

    Antes de mais nada, sem menosprezar o nível cultural dos leitores, nem desejar parecer esnobe ou professoral, entendo, para o deslinde do tema que passaremos a discorrer, necessário esclarecer o significado da tão propalada palavra: “royalties”.

    “Royalty ou royaltie é uma palavra de origem inglesa derivada do vocábulo "royal" que significa aquilo que pertence ou é relativo ao Rei, monarca ou nobre, podendo ser usada também para se referir à realeza ou nobreza. Seu plural é royalties. Na antiguidade, royalties eram os valores pagos por terceiros ao rei ou nobre, como compensação pela extração de recursos naturais existentes em suas terras, como madeira, água, recursos minerais ou outros recursos naturais, incluindo, muitas vezes, a caça e pesca, ou ainda, pelo uso de bens de propriedade do rei, como pontes ou moinhos.” (Dicionário Wikpédia)

    Atualmente, royaltie trata-se da compensação financeira paga ao proprietário da terra ou área em que ocorre a extração ou mineração de petróleo ou gás natural. No Brasil o petróleo pertence à União, embora a Lei nº 9.478/1997 garanta que, após extraído, a posse do petróleo passa a ser da empresa que realiza a extração deste recurso natural, mediante o pagamento dos royalties ao governo. Neste caso, a União divide estes royalties entre o Governo Federal, estados e municípios onde ocorre a extração de petróleo localizado no subsolo destas unidades da Federação. Atualmente está em discussão a mudança no sistema de distribuição dos royalties do petróleo no Brasil, com a votação de uma nova lei ordinária para regulamentar esta questão, conforme previsto pela Constituição. A referida mudança tem sido foco recente dos noticiários nacionais.

    Ao final de fevereiro deste ano o TRF 5ª – Tribunal Regional Federal da 5ª Região, com sede na cidade do Recife, Permnambuco, negou seguimento ao recurso de Agravo de Instrumento interposto pelo Município de Penedo, contra a Petrobrás, numa Ação que visava o pagamento de Royalties. A ação, teve início em 2008 na gestão do ex-prefeito Marcius Beltrão, administração que ainda chegou a “usufruir” alguns meses dos royalties objeto da mesma. A ação foi intentada por um escritório de advocacia terceirizado, com contrato de êxito, aquele que somente é pago se o objeto da causa for alcançado. O problema destes contratos é que o objeto na maioria das vezes é obtido mediante medida liminar. Se a tese defendida prosperar e, no mérito, for confirmada a liminar, ótimo. Honorários são mais do que devidos. Particularmente, em princípio, não tenho óbice a tais contratações, notadamente aquelas que visem um assessoramento jurídico especializado em determinada matéria não usual no dia a dia de uma Procuradoria Geral. Rendo-me ao princípio da eficiência, recolho-me a minha jurídica insignificância. Sei que procuradores velhos, efetivos, gordos e com vencimentos elevados, costumam ser evitados por Prefeitos e Secretários. É normal. Independência as vezes é recebida como intransigência, principalmente quando se trata de gestores e assessores sem visão gerencial ou jurídica, acrescidos de uma singular presunção de sabedoria. Os escritórios terceirizados são eloquentes. Advogados novos, simpáticos, perfil de jovem talentoso e de sucesso, ternos impecáveis, óculos elegantes, relógio as vezes falso, mas, de griffe. Reluzente e novo modelo de automóvel, estrategicamente estacionado na porta da prefeitura, constitui-se no protótipo do advogado perfeito. Garantia de sentença favorável é certa. O escritório tem excelente trânsito e “contatos”, afirmam seus interlocutores. Para o futuro cliente... “esse é o cara”. Nos corredores da AMA – Associação dos Municípíos de Alagoas, a exemplo de outras congêneres espalhadas pelo Brasil, escritórios deste tipo se contorcem entre si em inúmeros orgasmos jurídicos. No fundo a velha promessa do dinheiro fácil: ICM’s, IR, FPM, ISS, Roylties etc, tudo num passe de mágica. Penedo, seguindo a fileira dos demais municípios se deixou seduzir. Firmou o contrato. Com algumas indas e vindas no processo, inclusive seu desaparecimento e restauração, a liminar saiu. No ano de 2007 os royalties transferidos para Penedo totalizaram R$161.654,44. Com a concessão da liminar em 2008 elevou-se para R$4.438.047,41. No exercício de 2009 foram recebidos R$6.189.948,97. Contando com o que foi transferido nos primeiros meses de 2010 podemos ter ultrapassado a casa dos R$12.000.000,00 em royalties.

    Ao final de fevereiro último, com a nova decisão do Tribunal Federal as transferências foram suspensas. No caso dos royalties de Penedo a mágica consistia em obter uma liminar para lhes aumentar o valor com base na existência de uma City Gate, prevista no projeto do gasoduto que corta o município, mas ainda não construída. Outro desafio era o de convencer o TRF da 5ª Região de que City Gate é uma estação de embarque e desembarque com a função de coletar a produção do petróleo ou do gás natural e transferi-los para fora da região produtora. A primeira barreira consistia em provar o que não existe. A city gate de Penedo está sendo construída este ano pela empresa Montec. Fato público e notório. Documentos fabricados não tem o condão de construir o que ainda não foi erguido. A segunda dificuldade seria convencer o TRF em adotar julgamento contrário ao seu próprio entendimento, no qual os “city gates integram a distribuição do gás processado, e não a sua produção. Assim, por não coletarem o gás natural dos campos produtores, e sim gás processado, os city gates não se enquadram na definição de instalações terrestres de embarque e desembarque prevista na Lei n° 7.990/1989, no Decreto n° 1/1991 e na Portaria da ANP nº 29/2001. A simples passagem de gasoduto por Município não lhe garante a percepção de royalties”.

    Fim da farra. Das cifras recebidas provavelmente 20% foram gastas com pagamento de honorários, algo em torno da bagatela de R$2.400.000,00 valor equivalente a 90 veículos do tipo Gol 2010 zero. Tanto dinheiro e Penedo continua sem teto e sem estrutura administrativa. Praticamente tudo é locado. A informatização é rudimentar e falta-lhe imp-lantação de mecanismos de controle. A Prefeitura faz casa para os outros mas vive refém do aluguel. O curioso é que não existe impedimento na lei para a utilização do valor dos royalties. A única restrição é que não podem ser usados para pagar salários. Infelizmente, Penedo seguiu o mesmo trajeto das demais cidades brasileiras. Os municípios que recebem royalties e participações especiais pela produção de petróleo estão desperdiçando o dinheiro com o custeio da máquina pública, em vez de aplicar essas receitas em projetos de infra-estrutura, desenvolvimento econômico, saúde e educação. Dados levantados pela Universidade Cândido Mendes (Ucam) e pelo Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) de Campos mostram que, dos 12 municípios que têm mais de 40% das receitas vindas da exploração de petróleo, apenas dois investem mais da metade dos recursos. Para acompanhar o efeito dos royalties sobre o desenvolvimento desses municípios, as duas instituições criaram o Info Royalties, uma ferramenta online que permite o cruzamento de dados sobre as receitas e a aplicação dos recursos proporcionados pelo petróleo (http://inforoyalties.ucam-campos.br). Penedo desperdiçou uma rara oportunidade de ter ao menos estruturado a sua máquina administrativa para se desvencilhar da custosa dependência das terceirizações. O pior é que foi montada uma gestão sob um frágil alicerce financeiro que agora se esvai. Pelo discurso do atual prefeito Alexandre Toledo, ao anunciar a queda dos royalties constata-se que até mesmo reduções salariais ou demissões poderão ocorrer. Em síntese, depreende-se que o dinheiro estava sendo usado com o custeio da máquina pública (uma ampla gama de gastos que vão desde o cafezinho até a compra de remédios e gasolina para ambulâncias) e o salário de funcionários. Dura realidade agora é conviver sem o dinheiro dos royalties. Em suma, alheios a tudo contemplamos a pirotecnia jurídica, nos encantamos com o conforto do dinheiro fácil, de fonte não perene ou inconsistente, pagamos elevados honorários, para ao final acordamos de bolsos e prateleiras vazias. Se com os royalties estava difícil, sua ausência com certeza deixará seqüelas. Nesta Semana Santa teve início um longo calvário começa para o povo penedense.
     

    postado em 31/03/2010 01:39

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  • artigos

    João Pereira
    Advogado, escritor e atento observador da política


     

    Lamentações de Jeremias, o Fornecedor de Cana

     

    É natural, especialmente entre os que exercem a mesma atividade, a reciprocidade em querer saber sobre o resultado dos negócios. Sendo um pequeno fornecedor, o meu encontro com o Jeremias, que há muito não o via, não podia ser outro o assunto senão sobre a cana.

    Embora comungássemos a mesma desgraça financeira referente a essa atividade, achei por bem que ele desabafasse suas mágoas e tecesse suas considerações paralelas entre o fornecedor e a usina acima.

    Esperando que ele começasse o seu improviso, surpreendi-me quando ele sacou do bolso duas folhas de papel e, puxando-me para um canto, pediu-me que as lesse.

    Deixando de lado o preâmbulo, eis o que disse:

    “Admitimos, como tantos outros, ter sido vítimas do canto da sereia. Bem sucedidos na primeira e única safra, imaginávamos ter pisado em terreno fértil e firme a nos garantir, sem dúvida, auspiciosa e estável fonte de renda.

    Casados às pressas, iludidos pela romântica fantasia do amor à primeira vista, a parceria logo mostrou uma faceta inamistosa e cruel, atuando, dentro de uma visão estreita, contra o interesse mútuo. Nunca vimos lua-de-mel tão curta. Colhida a primeira safra com as comemorações festivas do bom resultado, nuvens agourentas e sombrias começaram a pairar sobre o nosso alegre otimismo, empanando o brilho do sol a revigorar as nossas esperanças.

    Onde está a culpa desse casamento mal sucedido entre Paisa e fornecedores? Reconhecemos que o intervalo entre a primeira safra e o presente, fatores adversos da natureza, chuva e sol na medida errada, contribuíram para a frustração de algumas expectativas. A esses caprichos, soma-se o fator preço, volúvel e sensível ao mercado externo, em parte decorrente da flutuação da cotação do dólar. A primeira causa é de entendimento geral, enquanto a segunda, compreensível a poucos, é a menos convincente das justificações.

    Mas nem o bom preço, como ora ocorre, pode ser objeto de alegria de que iremos tirar o pé da lama. Se o fornecedor tiver dívida, ela cresce na mesma proporção do preço da cana, fato que anula, numa lógica satânica, toda a euforia. O mesmo se diga do dólar, que não sofreu grande desvalorização. Será que existe alguma via salvadora para o fornecedor?

    É evidente que aquele que vive na iniciativa privada deve estar preparado para os reveses a ela inerentes. O que nos chama a atenção é parecer que o itinerário percorrido pelas duas partes, não converge para a mesma direção. Enquanto o fornecedor tenta transitar pela estrada da sobrevivência, esburacada e cheia de solavancos, a Paisa trafega em trechos pavimentados, a propiciar-lhe o conforto de uma viagem ruma à expansão de seus negócios.

    Os bons resultados se foram e o fornecedor, alimentado pela esperança, fica a esperar pelo seu retorno. Essa espera, que se torna sem fim, vem originando o desgaste e o conseqüente pessimismo que cresce a cada dia. E quem é o culpado dessa falta de sintonia entre os dois parceiros? Estamos certos que a Paisa, num descrédito quase total, aparentando ter abraçado o sentimento da ganância insaciável, nunca oferece a mínima vantagem capaz de minimizar o drama do fornecedor.

    Não imaginamos que a Paisa deva transformar-se numa casa de caridade, mas é inadmissível que permaneçam indiferente e insensível aos extremo no que toca ao drama do fornecedor. É o absurdo de uma visão empresarial! Não bastasse esse aleijão, tem carregado em todo o curso de sua história o estigma da crônica descapitalização, fruto da má gestão com as cores da aventura e da temeridade, transformando o fornecedor em argila na construção de prédio sem estrutura. E o que tem a ver o fornecedor com seus erros? Já houve, ao menos, um gesto de desculpa e satisfação do porquê dos seus vergonhosos e humilhantes métodos de pagamento? O bom relacionamento, ao que nos parece, está fora de cogitação

    Que não culpe a crise mundial que abalou a economia dos países como um todo. Isso é passado e não permite desculpa para um comportamento corriqueiro de desrespeito e indiferentismo. É uma atitude que nos faz acreditar que não estamos em parceria com uma Usina e sua modernidade administrativa, mas com um engenho e sua filosofia escravagista e autoritária. Em outras palavras, a impressão que nos dá é que entre Paisa e seus fornecedores existe um acordo tácito. Ela planta e colhe e, no faz de conta que paga, distribui em parcelas as migalhas que julga de direito do fornecedor. É uma nova modalidade de grilagem. O fornecedor tem a posse de direito e a Paisa, de fato. Quem lucra mais? É inacreditável!

    Nenhum negócio é bom e duradouro se apenas uma das partes leva vantagem. Os que administram a Paisa sabem muito bem dessa filosofia de trabalho e certamente a repete a todo momento. Acontece que fica apenas na teoria. Urge que façam uma autocrítica, recicle seus métodos de relacionamento, tocado pelo espírito humanitário, sob pena de vererm desmoronar a parceria dos fornecedores, que comem de cabresto e vivem subjugados à força cega do irracional egoísmo que carrega o emblema do lucro a qualquer custo como única finalidade.”

    ? Gostei. Esteja certo que a sua observação crítica, sem revelar em excesso já que traduz uma triste realidade, está em prefeita sintonia com a esmagadora maioria dos fornecedores. Não ouvimos elogios ou cânticos de aleluia ao comportamento da Paisa, mas apenas o lamento, o desencanto e a completa frustração. Quem já teve a oportunidade, no decorrer da colheita, de se encontrar em seu escritório, provavelmente tenha assistido cenas de dilacerar coração, protagonizadas por humildes fornecedores quando tomam conhecimento de seus saldos. O otimismo dá lugar ao desespero quando são informados, senão de um débito, de um aviltante e irrisório saldo de alguns centavos. E agora, deve continuar na desgastada esperança de que as coisas irão melhorar? Como irá sobreviver até a incerteza? Que atividade é essa que em toda sua fase produtiva só é capaz, semelhante a bananeira, de dar apenas um filho? Afinal de contas, qual a finalidade do trabalho, um exercício de servilismo e mortificação ou garantia de uma digna e honrada subsistência?

    Os que fazem a Paisa, dão-nos a impressão que são reencarnações de um passado distante. Como se estivessem no início do capitalismo, dele têm uma visão selvagem, vampiresca e puramente leonina. Para nós, tudo; para os outros, nada. Vivendo no presente o passado, sem uma visão humanista, essa incompatibilidade a levará, inexoravelmente, à decadência e ao completo desmoronamento.

    Não pretendo mais ser vítima e espectador de cenas dignas do inferno dantesco, de ver almas penadas condenadas pela teimosia e credulidade num cenário estéril a toda esperança. Sim, meu caro Jeremias, o destino torna passível de sofrer as penas do inferno a todos que se comportam em obediência à estúpida ingenuidade. Não desejo mais ouvir dos colegas fornecedores imolados, como válvula de escape, a cantarem, com toda ênfase do amargo fel, o hino de louvor à Paisa, bela página de pura poesia e encantamento de harmonia, no compasso de um caudaloso rio de impropérios e macabras recomendações. Estou a retirar-me e a livrar-me do látego dos escravocratas de engenho que parecem sentir um oculto prazer pelo sadismo

     

    postado em 30/03/2010 23:55

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  • artigos

    Públio José
    Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida


     

    Joga no rio!

     

    Há tempos atrás, uma revista semanal registrou, numa matéria sobre a tendência do ser humano de causar poluição por onde anda, a naturalidade com que, em épocas imemoriais, as populações ribeirinhas descartavam lixo e produtos inservíveis pelo rio. Parece até que havia um ensinamento universal apontando para a única solução possível àquelas alturas: “joga no rio!”. Este era o brado que se fazia ouvir pelo mundo afora. Não passava pela cabeça de nenhum agrupamento humano de então que a manipulação do lixo fosse de sua responsabilidade.

    Desde cedo, portanto, o ser humano acostumou-se a passar para frente, a empurrar na direção dos outros, a solução de problemas criados pela sua rotina diária. Pouco importava se, jogando dejetos no rio aqui, problemas seriam criados para outras populações acolá. O negócio era limpar a sua área mesmo que sujando a dos outros.

    A realidade é que o homem desenvolveu-se através dos tempos em todas as áreas que se possa imaginar. Só não aprendeu o que fazer com o lixo. Ao que parece, a manipulação do lixo caiu naquela área da mente humana na qual a saída é fugir da responsabilidade e passar o pepino para os outros. Nada de encarar a questão de frente, de buscar solução para os problemas criados em comunidade. Por conta disso, o que se vê hoje, com raras exceções, é a quase totalidade dos rios morrendo, desfilando seus últimos instantes de vitalidade diante de uma sociedade que soube chegar à Lua, soube se globalizar, alcançar níveis nunca imaginados de desenvolvimento tecnológico, mas não sabe, lamentavelmente, se organizar em comunidade de maneira a não prejudicar a seara alheia. Tanto é que permanece, até hoje, o hábito de se desfazer de lixo e dejetos através da inércia e da passividade dos rios.

    No tocante ao homem de hoje, esse hábito desgraçado de não assumir responsabilidades, de não enfrentar suas próprias demandas, não se restringe apenas a degradar rios e nascentes de água. Impera em todas as atividades onde o homem põe a mão. Na política, por exemplo, este homem aparece por inteiro, pelas mazelas causadas à população, pela má administração do dinheiro público, pelas obras superfaturadas, pela corrução, pela roubalheira generalizada. E ele nem, nem. O país afogado num lodaçal sem fim e os acusados se dizendo inocentes – e empurrando o problema para o mais próximo. Ninguém tem a hombridade de dizer “este problema foi eu que criei e vou arcar com as suas conseqüências”. Não. Não aparece ninguém com esse topete. Aparece gente de montão para enganar, para se esquivar, para encontrar saídas e esgrimir evasivas na hora de apurar as responsabilidades e apontar culpados.

    Do mesmo modo que o homem de antigamente aprendeu a fazer do rio o desaguadouro natural de seus lixos e dejetos, o de hoje tornou-se mestre em transformar pessoas frágeis em verdadeiros rios, para onde são lançados seus mais abjetos projetos de interesse pessoal e carreados os dejetos mais desprezíveis do que é produzido em suas mentes. Aos mais fracos, enfim, são destinados, por essa gente sem escrúpulo, os sonhos mais egoístas e os feitos mais degradantes. Pois ao meter a mão no dinheiro público, prejudicando populações indefesas, se eximindo, além do mais, de encarar com seriedade o seu trabalho, o que estão fazendo os agentes públicos que agem assim, senão transformando em verdadeiros rios a massa humana que não pode se defender, que não pode protestar? “Joga no rio!”, parecem dizer, eternizando a irresponsável máxima de outrora. “Joga no riiiiiiiiiooooooooo!!!!” Beleza, né não?

    postado em 13/03/2010 10:57

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