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Isabel Cristina Medeiros de Barros

Isabel Cristina Medeiros de Barros

Clínica Geral com Pós-Graduação em Medicina do Trabalho

Postado em 12/11/2009 20:54

Assédio moral no ambiente de trabalho

Tema bastante discutido na atualidade é tão antigo quanto o próprio trabalho, mas a sua manifestação jamais se deu de forma tão acentuada como agora, pois a concorrência por vagas ou cargos melhores, originou uma competição desleal, que torna o ambiente de trabalho insalubre “para quem manda” e principalmente para “quem obedece”. Se nas empresas privadas isso é frequente, imagine no serviço publico, onde manda mais, quem tem força “política” ou “familiar”, assim nem mesmo a garantia da estabilidade funcional do servidor é barreira para o assédio moral de superiores ou colegas, normalmente cargo comissionado ou função gratificada, ligados ao “poder”.

A história da violência moral no trabalho foi estudada inicialmente na Suécia e depois na Alemanha pelo pesquisador em psicologia do trabalho HEINZ LEYMANN em 1984, quando identificou o fenômeno pela primeira vez. No Brasil somente a partir do ano 2000, com a publicação da dissertação de mestrado da Dra. Margarida Barreto, médica do trabalho, denominada “Uma jornada de humilhações”, foi que a importância sobre o tema despertou nos pesquisadores brasileiros o interesse pelo seu estudo.

O conceito de assédio moral é amplo, mas consiste basicamente na exposição do trabalhador a situações constrangedoras, geralmente repetitivas e prolongadas durante o horário de trabalho e no exercício de suas funções, situações essas que ofendem a sua dignidade ou integridade física. O Objetivo do assediador é motivar a demissão ou transferência do mesmo para outro local de trabalho, obrigá-lo a não participar de sindicatos ou movimentos reinvidicatórios, ou ainda impor determinada posição política ao trabalhador. O importante, para configuração do assédio moral, é a presença de conduta que visa a humilhar, ridicularizar, menosprezar, inferiorizar, ofender o trabalhador, causando-lhe sofrimento psíquico e físico.

As condutas mais comuns que caracterizam o assédio moral são: dar instruções confusas e imprecisas, bloquear o andamento do trabalho alheio, atribuir erros imaginários, ignorar a presença do funcionário na frente dos outros, pedir trabalhos urgentes sem necessidade, fazer criticas em publico, sobrecarregar o funcionário de trabalho, impor horários injustificados, insinuar que o funcionário tem problemas mentais ou familiares, não lhe atribuir tarefas e isolá-lo em outro setor, retirar seus instrumentos de trabalho (fone, fax, computador, etc..), agredir o funcionário quando o mesmo está á sós- “sem testemunhas” e proibir os colegas de falar ou almoçar com o mesmo.

As vítimas preferenciais do assédiador são pessoas que reagem ao autoritarismo e se recusam a deixar-se subjugar. Torna-se alvo, pela sua capacidade de resistir às pressões do agressor. O ato de assédio constante e repetitivo de desvalorização da vítima, que é aceita por alguns colegas, acaba levando a mesma a acreditar-se merecedora das agressões. Uma das estratégias adotadas pelo agressor é passar uma imagem irreal da vítima, atribuindo-lhe um perfil neurótico, de mau caráter, de difícil convivência e profissional incompetente. Na verdade as principais vítimas são: trabalhadores com mais de 35 anos, saudáveis, escrupulosos e honestos, que tem senso de culpa muito desenvolvido, dedicadas ao trabalho, perfeccionistas, não faltam ao trabalho mesmo doente, não se curvam ao autoritarismo, são mais competentes que o agressor, portadoras de alguma deficiência, mulheres em grupos de homens ou homens em grupos de mulheres, os que têm crenças religiosas ou orientação sexual diferente da do agressor e as que vivem sós.

No SERVIÇO PUBLICO a forma de gestão e relações humanas propiciam a pratica de assédio moral, pois as repartições tendem a serem locais marcados por situações agressivas, muitas vezes por falta de preparo dos chefes imediatos ou perseguição política, assim além das condutas mais comuns de assédio moral, no serviço publico, ainda ocorrem à negação de promoções, por conta da avaliação dos superiores e a retirada de cargos comissionados e de gratificações, prejudicando financeiramente o servidor.

Na maioria das vezes o agressor é um superior da vítima, mas há também os casos em que um colega agride outro colega e o mais difícil de ocorrer, quando o superior é a vítima da agressão. As principais características do agressor são: ter um senso grandioso da própria importância, ter necessidade de ser admirado e aprovado, criticar as falhas dos demais, mas não aceitar contestação, explorar o outro nas relações interpessoais, não ter a menor empatia e invejar os outros. Com esse comportamento busca encobrir as próprias deficiências, evidenciando ou atribuindo falhas as suas as vitimas.

A degradação crônica e deliberada das condições de trabalho é um risco invisível, mas com efeitos nocivos á saúde do trabalhador que vão desde a insônia até o suicídio. Os danos a saúde mental do trabalhador predominam com depressão, angustias, síndrome do pânico- medo de trabalhar -, além de outras psicopatias, aumento dos casos de alcoolismo, fumo, anorexia e bulimia, causando sérios danos a sua qualidade de vida. A exteriorização dos sentimentos varia, enquanto as mulheres respondem com choro, tristeza, ressentimento e mágoa, rejeitando o ambiente de trabalho, os homens manifestam indignação, raiva e desejo de vingança. Um estudo da Dra. Margarida Barreto mostra que mulheres e homens são acometidos de estado depressivo em 60% e 70% respectivamente e a idéia de suicídio está presente em 100% dos homens enquanto que nas mulheres só em 12,2%. As conseqüências somáticas mais frequentes dessas agressões são o aparecimento de úlcera péptica, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, hipertensão arterial sistêmica e impotência sexual. Os acidentes de trabalho podem aumentar, pois o assediador pode levar ao trabalhador ansiedade e insegurança, assim provocar acidentes ocupacionais que devem ser comunicados.

Por se tratar de uma pratica dissimulada, a conscientização da vitima sobre o assédio moral é muito importante para combater esta pratica e criar estratégias de prevenção, como anotar e datar fatos, protocolar ofícios com requerimentos e denuncias, além de gravar conversas, evitar estar a sós com o agressor e buscar aliados, principalmente de colegas que possam testemunhar, no futuro, caso seja necessário a abertura de um processo judicial. A vítima deve ainda buscar apoio de familiares e profissionais para cuidar dos danos mentais e físicos em decorrência dos danos morais sofridos, mas nunca pedir demissão.

O trabalhador que se sentir agredido moralmente, antes de pensar em demissão deve saber que existem meios jurídicos para combater o assédio e o primeiro passo é fazer a denuncia nos órgãos competentes para tal, como os sindicatos, a delegacia regional do trabalho, ao ministério publico, aos conselhos profissionais, entidades de direitos humanos, o legislativo, além da OAB e outros.

A principal arma do trabalhador para combater este mal é a informação, assim como a do gestor é a valorização do servidor, pois o bem-estar do mesmo só eleva a qualidade dos serviços públicos, beneficiando a todos e não apenas uma minoria privilegiada.

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  • Alexadre Tancredo Pereira Ribeiro Este é um assunto de suma importância; que deve ser levantado sempre através dos meios de comunicação com o intuito principal de informar à população sobre os mecanismos disponíveis que a vítima pode utilizar, para não deixar a sua vida à mercê destes paranóicos de ambos os sexos que estão por toda parte. Não só informar os que porventura existam, mas os legisladores devem ser sensibilizados por este tipo cada vez mais freqüente de ocorrência, criando para a defesa da sociedade, dispositivos que façam as devidas cobranças a estes agressores e, principalmente assegurar de que não exista impunidade.
Jean Lenzi

Jean Lenzi

Ator, dramaturgo, encenador teatral e ativista cultural

Postado em 08/11/2009 18:35

Tropícaos

Tal como orgulho para o Brasil é a cidade do Penedo, sua poesia, suas ruas de paisagens bucólicas que chegam a confundir o ouro preto e o barro vermelho, (há quem insista em afirmar que somos a Ouro Preto do nordeste; eu fico no contrário, já que Penedo está na contramão do progresso; poderia sim acreditar ser Ouro Preto a Penedo do sudeste; mais tudo isto é só teoria, a realidade distinta das duas comunidades é mais importante), as histórias mal-contadas e mal-escritas, que mesmo assim permanecem histórias, o sossego do povo, a ociosidade dos jovens, a pouca inteligência dos políticos, as intrigas dos grupos sociais sejam quais forem, também formam juntamente às bocas malditas a Cidade do Penedo. E tudo isto por que Penedo não é da política tucana, ou da libertária, não é da educação falida ou da expoente, não é de uma classe artística desunida, não da Igreja católica ou da protestante, menos ainda do Candomblé, não é da juventude oligofrênica, dos bandidos fugitivos ou dos que circulam normalmente. A cidade do Penedo só tem razão para existir porque é formada por tudo isto junto.

Contemplados por uma educação falha, herança de um Estado analfabeto, o povo do Penedo desconhece (acredito) até as razões para que escrevamos “do Penedo” ao invés de “de Penedo”, o que pode parecer bobagem, ou um detalhe para cegos, mais é somente o principio de nosso caos. Pois bem, vamos à explicação que obtive também há pouco: “A cidade do Penedo desenvolveu-se sobre um acidente geográfico, grandes penedos, rochas enormes que formaram paredões às margens do rio São Francisco, a exemplo da cidade do Recife em Pernambuco, cujo nome também advém dos arrecifes no qual explica o escritor Gilberto Freyre”. Também poderá lembrar uma cultura de almanaque, mesmo até uma cultura vasta inútil, mas longe de tudo isto, deveríamos atentar a estes detalhes que dão a Penedo a diferença, a importância e a certeza de não sermos nós, cidadãos ignorantes de nossa própria história.

Em razão da II JORNADA CULTURAL DO PENEDO promovida há algumas semanas pela ONG penedense Sociedade Cultural Barqueiros do Velho Chico, constituída por penedenses atuantes nas mais variadas áreas, o evento bianual tem como principal objetivo o somar de forças entre instituições, artistas e educadores a favor da cultura, do entretenimento e da educação neste município. As grandes intervenções promovidas pela II Jornada mostraram o quanto Penedo é carente de eventos dignos e verdadeiramente culturais, na oportunidade da Jornada Cultural, o espetáculo musical Uma cidade a Cantar e o baile O Grande Encontro foram incorporados à mostra para abrilhantar toda a semana de 13 a 17 de outubro, na qual se realizou o evento, que foi acompanhado por uma minoria de jovens, por uma maioria de intelectuais, por outra maioria de artistas e educadores. Isto é importante ser comentado para talvez tocar a razão da juventude que é a classe mais preocupante de nossa sociedade.

Foi apresentado na noite de abertura o show de um grupo para-folclórico em praça pública, na oportunidade em que foram entregues à personalidades da cultura do Penedo a Comenda do Mérito Cultural Barqueiros do Velho Chico, justificando o respeito e agradecimento dos que fazem a Barqueiros do Velho Chico a penedenses como Francisco Alberto Sales da Fundação Casa do Penedo, à Lísia Ramalho Marinho da Fundação Raimundo Marinho, ao imortal Ernani Otacílio Mero, entre tantos outros lembrados pela Comenda.

São iniciativas iguais a esta que partem de cabeças ilustres como a da educadora Lúcia Regueira que deveriam ser copiadas pelos agentes de entretenimento de plantão em Penedo, recordo-me do vandevour instalado em razão dos bailes posteriores à Jornada, que ao contrário desta, nos dois eventos foram cobradas taxas e obtiveram números estrondosos de participação jovem. Jovens que não quiseram espiar o concerto de uma cantora lírica gratuito no Convento Nossa Senhora dos Anjos, trocando a elegância eucarística do convento pelo infecto lamaçal do trevo. Foram estes os jovens que se recusaram a assistir a palestra sobre preservação patrimonial promovido pela Universidade Federal de Alagoas, parceira do evento, também renegaram a cerâmica do Mestre Capilé e os Santos do Higino e tudo isto a favor de não gastarem suas energias a espera do grande momento; se jogar e cair na poeira dos bailes da baixadinha à espera também da perguntar crucial: “Quem gostou dá um gritão aêeeeee!”.

Tudo isto é muito próprio de um país tropicaos, mais ainda de uma cidade que tropeça a cada dia em seu espírito passional e altamente corrosivo. Comento isto por sentir a falta da platéia jovem quando dançavam os guerreiros do Transart, pela falta própria dos guerreiros do Penedo, ou quando ecoava potentes e melódicas vozes pelo cenário natural do centro histórico, isto na calada da madrugada e nem mesmo lá estava a juventude do Penedo para gritar à liberdade e às boas práticas. Salvaram-se as presenças de pré-adolescentes, adolescentes, crianças e velhos participantes da II Jornada Cultural, consagrada mais uma vez por sua persistência e inovação.

Nossa razão é falha quando dizemos que Penedo é uma cidade parada, morna; é bobagem ignorar coisas feitas com tanto empenho a troco de um simples “eu não vou” ou “eu não gosto”, o não gostar é o que menos interessa, importante mesmo é a presença, é a soma, é o respeito por um trabalho que foi pensado do começo ao fim para a juventude, para o resgate, para a preservação, para o desenvolvimento e a promoção da educação.

Vale aqui um puxão de orelha a toda a juventude do Penedo: antes de dizer que não gosta, primeiro conheça, vá lá e veja você mesmo o que de incomum está acontecendo de baixo de suas ventas, reúna suas patotas e discutam sobre o que realmente é importante para vocês e depois é só cair na poeira, porque bem sabemos nós que neste país tropicaos, “o sol que peca, só quando, em vez de criar, seca” também nasceu para todos.

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  • Nani Rodrigues Oi Jean! Muito Interessante você chamar á responsalidade a juventude para esse foco... Torço para que os jovens "acordem", o quanto antes, e percebam o quanto importante é, a cultura - Em especial, a nossa cultura nordestina!
  • Madileide Oi Jean, devemos isso a administrações públicas que ao invés de implementar a cultura local principalmente nas escolas e em eventos importantes da cidade, preferiu o apelo de massas, cultura de outro lugar que são os trios elétricos... Ainda há tempo para o resgate, apesar do desgaste!
Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 05/11/2009 22:22

O Leão e a Gazela

Entre os vários instrumentos formidáveis que o leão possui um se destaca em especial: o urro. Nada na natureza, em termos de manifestação sonora, se compara ao urro do leão. É algo realmente assustador. Depois de liberado pela garganta e pela bocarra, o urro leonino se propaga, através de intermináveis ondas sonoras, alcançando distâncias impensáveis. Estudiosos garantem que o som do urro do leão se espalha a uma distância de até dez quilômetros do local onde ele se encontra. Como se vê, é um espetáculo realmente incomum, sem outra ocorrência pelo menos semelhante. Assim, o urro do leão reina sozinho na imensidão da selva. Entretanto, poucos sabem que o urro do leão é também uma arma poderosíssima. Solitário na maioria do tempo, ele se serve do seu urro para assustar a presa distante. E também para avisar aos concorrentes que está indo à caça. Que ninguém se meta no seu caminho.

Por sua vez, a gazela – um dos pratos preferidos do leão – tem no seu mover diário o hábito de se alimentar na mata fechada. Ali, onde cipós, arbustos e árvores de baixa estatura lhe criam uma proteção natural, a gazela se posta tranqüila a pastar. O leão sabe que na mata fechada fica difícil perseguir e liquidar com a gazela. Na mata fechada, as condições de luta normalmente favorecem a ela, no caso o contendor mais frágil nessa disputa. Ligeira, ágil, leve, com estrutura óssea adaptada para saltos que não necessitem grandes espaços para impulsão, o pequeno quadrúpede dispõe, na mata fechada, de grandes possibilidades de escapar, de fugir ao ataque mortal. O grande animal sabe disso e usa, então, uma das suas armas para desestabilizar e fragilizar o pequeno adversário. Assim, o leão solta o urro pelos ares. Assustada, a gazela sai para campo aberto. E, zás, se torna presa fácil.

Fazemos uso dessa fábula para uma reflexão sobre os dias atuais. Olhando o cenário da vida, dá para se perceber como tem leão por essas bandas (aí entendidos, como tal, os inúmeros problemas que normalmente assustam e fragilizam as pessoas: a luta pela vida, a concorrência profissional, a incerteza sobre o dia de amanhã, as frustrações, as decepções, o desânimo, os projetos inacabados, os sonhos desfeitos, os relacionamentos despedaçados, a violência urbana, o índice sempre crescente de criminalidade.....) E a reação dessas pessoas aos urros que as dificuldades lhes impõem. O leão nem chega à frente delas. Basta o som dos problemas para tirá-las da sua paz, da sua tranqüilidade. Conclusão a que se chega: como nossas selvas urbanas estão cheias de gazelas! De pessoas fragilizadas, totalmente despreparadas para o enfrentamento diário aos leões da vida.

E sucumbem porque saem do terreno protetor dos princípios cristãos, da fé em Jesus, da prática do perseverar, do insistir em seus sonhos, anseios e convicções. Na Câmara Federal temos um bom exemplo desse contexto. Ali, parlamentares não suportaram as pressões do governo – e, zás, sucumbiram ao leão do mensalão. As prisões, por outro lado, estão lotadas por aqueles que não resistiram ao leão do roubo, do estupro, do seqüestro, da maldade, enfim. Já outros, nas altas rodas, se rendem ao leão da prostituição, do tráfico de drogas, do alcoolismo. Todos, rigorosamente todos, serão devorados mais adiante por terem deixado a mata fechada dos bons princípios para atuar no descampado que leva à morte. O leão estará sempre pronto para agir. E o urro será sempre a primeira arma utilizada. Permanecer firme na mata fechada é o melhor caminho. Ou você quer se transformar numa tola e indefesa gazela?

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  • Nani Rodrigues Ótimo artigo! Parabéns Públio!
  • Edmundo Parabéns, gostei muito do artigo!
  • Jean Lenzi Caro Prof. Públio, Interessante é também tirar do artigo não somente reflexões acerca dos leões truculentos da nossa sociedade, 'tampoco' para reafirmar alguma pretenção de superioridade de raças, vejo então uma empatia sublime entre vosso artigo e um poema de Gilberto Brandão Marcon com o mesmo título, O LEÃO E A GAZELA, neste, as selvagerias se completam, um passa a existir em razão do outro, pertencentes à mesma raça, d'onde nasce uma atração não mais de sobrevivência alimentar e sim de uma selvagem compreensão e protenção do outro, numa poética um tanto distante, ou totalmente distante, é falado que o LEÃO não mais devoraria, mais sim, PROTEGERIA AS GAZELAS, daí uma boa reflexão proporcionada aos leões e às gazelas bípedes. Parabéns!, Jean
Wilson Lucena

Wilson Lucena

Jornalista, pesquisador e membro da Academia Penedense de Letras

Postado em 01/11/2009 22:42

A Terra onde todo mundo é músico

A Terra onde todo mundo é músico
Filarmônica Guarany "Composição Remota" - Mestre Nozinho

À margem esquerda do Rio São Francisco, a pitoresca cidade de Pão de Açúcar teve como primeiros habitantes os índios “Urumaris”. Nas noites de verão, a lua cheia refletia-se nas águas calmas do grande curso fluvial. Os nativos, historicamente precursores da música, denominaram a localidade de “Jaciobá”, que em língua guarani significa “espelho da lua”. Tal sensibilidade poética não deixa de ser um prelúdio da vocação musical que passaria a ser uma peculiaridade do pão de açucarense.

E, foi nessa terra, “onde todo mundo é músico”, segundo a célebre citação do magistrado Dr. Antônio Arecippo, que despontaram figuras ilustres da historiografia musical nacional, como o genial violonista e compositor, Manoel Bezerra Lima, o “Nezinho Cego”, e o maestro Tenente Antônio Francisco dos Santos, mestre e “ensaiador geral” de bandas militares no então Estado da Guanabara, graduado em regência e autor de mais de 40 dobrados e marchas militares, que se encontram incluídos no repertório das mais famosas bandas do país, com ênfase para o vibrante e conhecidíssimo dobrado “Comandante Narciso”, de sucesso até na Espanha.

Segundo a monografia Pão de Açúcar - História e Efemérides, do autor Aldemar de Mendonça, os maestros Emídio Bezerra Lima e Abílio de Carvalho Mendonça foram pioneiros na disseminação da “Arte de Carlos Gomes” na localidade. Como ocorreu nas demais cidades do Estado, a fase áurea das bandas de música, que ficou conhecida como "A época das filarmônicas", nunca foi devidamente documentada, inexistindo maiores resquícios históricos sobre a trajetória da banda da atual Sociedade Musical Guarany, bem como de outras corporações citadinas existentes à época ou de suas precursoras. Pelo que consta, a corporação, que tem como referencial de origem a data de 15.03.1918, não detinha constituição formal, nem tampouco possuía vínculos com qualquer instituição local. Em realidade, enquanto em vida, foi inteiramente mantida pelo Sr. Manoel Vitorino Filho, o "Mestre Nozinho", maior ícone da história da banda de música em Pão de Açúcar, que passaria para a notoriedade como o incansável fazedor de músicos.

Sergipano de Neópolis, discípulo do mestre Emídio, professor, idealista, competente e desinteressado de qualquer remuneração financeira, desde o ano de 1917 até a sua morte em 1960, apenas com os parcos recursos da profissão de alfaiate, conseguiu manter a banda de música e uma orquestra de baile, com destaque para a impecável "Batuta" de 1922, sendo responsável, ao longo de quarenta anos, pela formação de três gerações de músicos. Seus dois irmãos, Américo de Castro Barbosa e José de Castro Barbosa (Duda), que residiram no Rio de Janeiro, também foram músicos extraordinários com passagens em orquestras famosas, inclusive internacionais, como a do notável regente “Fon Fon”.

Dentre os seus discípulos de carreira expressiva, podem ser destacados os maestros e mestres Racine Bezerra Lima (19º BC Salvador), Manoel Capitulino de Castro, o "Passinha" (Batalhão Exército Maceió), Francisco Ferreira e Fernando Mendonça ( Base Galeão RJ), Jonas Pauferro (Polícia Militar Alagoas), José Batista de Aquino, o “Duduca”, ( Polícia Militar de Sergipe), Zivaldo Ribeiro, “Zico” ( Batalhão de Guardas do Exército RJ) e toda plêiade de músicos e regentes da família Ramos: Petrúcio, Anacleto, Valter ( Base área Salvador), César (Polícia Militar Bahia) e Acilon (Polícia Militar Pernambuco).

Galeria de músicos: clarinetas: João Damasceno Souza (João Barateiro) - Ercílio - Etelvino Américo de Castro Barbosa – Francisco Simas – José Guimarães Pauferro – José Gonçalves Filho (“Zequinha de Mestre Salo”) – Valdomiro Mendonça – José Bento: Flauta: Jucelio Nascimento (genial flautista); requintas: Francisco Ferreira,“Mestre Chico” – Cícero Francisco de Brito, “Cafal” – Temístocles – José Mendonça; trompetes: Perdiliano de Souza, “De seu Né” – João Francisco da Silva - Racine Bezerra – Petrúcio Ramos – José Vieira – José Ramos – José Brandão de Souza – Bonerj Bezerra; trombones: Olegário - Antônio Simas João Rodrigues de Souza – Jonas Pauferro – Manoel Capitulino de Castro (Passinha) – Benedito dos Santos – José Batista de Aquino – José de Castro Barbosa; saxofones alto: Acilon Ramos – Valter Ramos – Anacleto Ramos – Norfolk Gomes dos Santos; saxofones tenor: José Mendonça – Zivaldo Ribeiro (Zico) – Williams Magno (Bille); bombardinos: Fernando Mendonça – Francisco Antônio dos Santos (Mestre Chiquinho) – Milton Torquato; trompas: Yoyô Vieira - José Alves dos Santos (Dedé Penteado) – José da Mena; contrabaixos: Lourival Simas (hélicon) -Afrânio Menezes (Bubu) – Luiz Marsiglia – Luiz Ignácio - Antônio de Melo Barbosa – Acineto Lima – José Ramos dos Santos (Zé de Caxapá); tambor: José Profeta Sobrinho (Carvão) – César Ramos; caixa: Erivaldo Ribeiro - Júlio Alves de Carvalho; pratos: José Costa – Jose Góes – Edidiê (Dezinho) - Manoel Rodrigues (Manoel de Iveco) e bombo: mestres Nozinho e Paulo.

Após a morte do mestre Nozinho, a corporação atravessaria um hiato de atividades, remanescendo apenas um grupo de músicos liderado pelo contrabaixista Afrânio Menezes Silva, o "Bubu". Mas, em meados de 1999, com a chegada do competente maestro, Petrúcio Ramos de Souza, oficial-regente reformado da banda da Base Aérea de Salvador, surgiu um novo surto musical na cidade de Pão de Açúcar e a formação de uma jovem e magnífica banda de música, inclusive dotada de instrumental importado.

Com a tutela da Loja Maçônica Jaciobá e o apoio parcial da Prefeitura Municipal, em pouco tempo, à luz de sua formação militar, o renomado mestre Petrúcio transformou uma garotada de tenra idade em musicistas disciplinados e de excelente padrão técnico. Nesse magnânimo trabalho de ordem cultural e social, também merece ser ressaltada a valiosa contribuição emanada de seu saudoso mano mais velho, o notável músico José Ramos.

Hoje, a Banda de Música Guarany é um orgulho da comunidade e uma grande revelação do Estado de Alagoas, sendo destaque, por onde se apresenta, pela sua disciplina, harmonia, e sonoridade. Novos talentos, como Sérgio Oliveira - Samuel Vieira - José Pauferro Neto - Jobe Alves - Ruan de Brito - Emerson Roniere e José Maurício dos Santos, perpetuam os grandes expoentes musicais do passado e a grande vocação musical da pitoresca cidade de Pão de Açúcar.

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  • Francisco Araújo Bela pesquisa, Wilson. A memória musical de Alagoas agradece.
  • Mateus Godoy Wilson, Ótima pesquisa Gostaria de saber se nesta sua pesquisa você possui fotos da galeria de músicos. Sou neto do Norfolk Gomes dos Santos. Caso tenha outras fotos, por favor, entre em contato
  • adriana souza voce não sabe o quanto estou feliz .só descobri hoje esse documentário;num momento de saudade do meu querido pai ACILON RAMOS,onde digitei seu nome pra matar a saudade e na certeza de que nada iria encontrar.derrepente fui surpreendida com esse maravilhoso documentário.me emocinei bastante...meus tios queridos,estou distante deles,em recife ,mas nunca os esqueço.amo pão de açúcar,aprendi a andar onde meu pai andava e herdei a música,não sou como meu pai e acho que nem vai existir,mais estudo clarinete e canto.agradeço tudo a ele o ser humano que sou, a meu querido pai ACILON RAMOS.muito obrigada.
  • Tatiana Obrigada pela pesquisa, Wilson ! Sou neta do Norfolk Gomes dos Santos e gostaria de saber se você tem mais algum material sobre a orquestra, fotos ...
  • Jose Guimaraes Pauferro Neto Estava fazendo uma pesquisa no google com meu nome quando fui surpreendido com uma matéria em que falava da banda musical Guarany e li nomes que integraram nela e em especial destaques os que fizeram carreira militar e outros na vida civil, dentre os citados vi o nome do meu tio e o meu também.
Fernando Maximino Cruz Lessa

Fernando Maximino Cruz Lessa

Acadêmico de Direito e atento ao Direiro do Consumidor

Postado em 30/10/2009 00:01

Os empréstimos consignados em folha e o Direito do Consumidor

Frequentemente nos deparamos com uma situação que, atualmente, vem se vulgarizando em nosso país. Ao escutar um anúncio sobre empréstimos consignados em folha, já me bate a desconfiança na empresa, tamanho é o número de problemas surgidos destes contratos.

Por serem disponibilizados, na maioria das vezes, para aposentados, é grande a manipulação de algumas instituições que operam com essa modalidade de crédito. Excluindo(é devido salientar), as de boa-fé, que contribuem para a economia local e ajudam ao aposentado no mundo capitalista, encontramos empresas que, sem a menor segurança outorgam a qualquer interessado, a possibilidade de operar tais linhas de crédito. E mais grave ainda é o fato de ser outorgada de mesmo modo a atribuição de orga-nizar e recolher a documentação necessária para a devida formalização destes emprés-timos.

Uma pessoa de má fé, no uso destes poderes, pode buscar documentação de aposentados e formalizar contratos de empréstimos sem a sua solicitação e se apoderar do valor sacado.

O fato descrito acontece corriqueiramente em nosso meio. Diversos aposentados sofrem, muitas vezes sem saber, a manipulação de estelionatários que realizam estes empréstimos e continuam realizando os mesmos atos, pois se beneficiam da incapacidade física de suas vítimas.

Em alguns municípios a Defensoria Pública ajuizou Ação Civil Pública para acabar com a prática destes atos, o exemplo próximo é o município de Porto Real do Colégio aplicando-se uma multa consideravelmente alta para cada contrato formalizado irregularmente.

Mas, como o Direito protege o aposentado deste golpe frequentemente aplicado?

O artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor responsabiliza o forne-cedor de serviços, independente de culpa, pelos danos causados por seus defeitos na prestação de seus serviços, vejamos: “Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.” Assim, o fornecedor assume o risco de sua atividade integralmente, devendo em qualquer caso que haja dano causado por ele, indenizar o consumidor no que lhe couber. No caso de empréstimos consigna-dos, o consumidor lesado geralmente é um idoso o que inclui o dano dentre as práticas abusivas do artigo 39 do CDC, vejamos: “Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição so-cial, para impingir-lhe seus produtos ou serviços.”

Portanto deve o consumidor, principalmente os aposentados, ficarem atentos. No caso de aposentado, verificar com frequência o seu histórico de consignações junto ao INSS se há algum empréstimo consignado não requerido. De mesmo modo aos funcionários públicos e demais com a possibilidade de realizar estas modalidades de empréstimos.

Constatando qualquer irregularidade, o consumidor deve buscar o auxílio de um profissional da advocacia para ter solucionado o seu problema.
 

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  • anderson Parabéns pelo artigo, não só você está atento, nós também estamos
  • Deilson Moreira Parabéns pelo artigo, mas faltou mencionar o Código Penal, que neste caso anda junto ao CDC, além do que prevê o CDC, o CP traz penas a este tipo de ação, no caso o estelionato, dentre outras práticas. "Título II, Capítulo VI, artigo 171 - obter para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício ardil ou qualquer outro meio fraudulento - Pena: reclusão, de 1 a 5 anos, e multa"