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Valfredo Messias dos Santos

Valfredo Messias dos Santos

Procurador de estado, defensor público e membro da Academia Penedense de Letras

Postado em 17/08/2016 14:49

Reiki : A Energia da Esperança

Ao longo da história da humanidade, o ser humano tem buscado, de alguma forma e de acordo com a sua cultura, uma melhora interior que o capacite percorrer o seu trajeto terráqueo em direção a um estágio de aperfeiçoamento mental e espiritual em busca da felicidade.

As religiões espalhadas pelo mundo também têm servido de abrigo para aqueles que necessitam de apoio e que estão sentindo-se sós, com um vazio interior muito grande que os sufocam, transformando-os em pessoas infelizes e sem rumo. Milhares tem encontrado alento nessas instituições; outros dizem receber milagres para curas de doenças físicas através da oração levada a efeito pelos lideres religiosos.

Cada líder religioso tem suas particularidades e formas diferentes de olhar o mundo e cada uma dessas instituições tem suas normas que devem ser obedecidas para que seus seguidores possam alcançar algo. A crença, a certeza de que conseguirão o que buscam não está, muitas vezes, dentro deles, mas na vontade dos seus mestres. Outros admitem que quando acreditam na força do universo e mentalizam o que necessitam, recebem, isso é chamado de Lei da Atração. Uma sabedoria milenar ainda desconhecida para muitos.
No livro “O Segredo” a autora Rhonda Byrne transcreve dezenas de depoimentos das maiores autoridades no assunto: religiosos, filósofos, médico, mestre de Feng Shui, empresário de sucesso e diversos escritores. Abaixo transcrevemos alguns desses depoimentos:

“Tudo o que entra em sua vida é você quem atrai, por meio das imagens que mantem em sua mente. É o que você está pensando. Você atrai para si o que estiver se passando em sua mente” (Prentice Mulford).

“Hoje, enfrentamos muitos problemas. Alguns criados por nós em consequência de diferenças ideológicas, religiosas, raciais, econômicas. Entretanto, chegou o momento de pensarmos em um nível mais profundo, em nível humano, e a partir daí apreciar e respeitar essa mesma condição nos outros seres humanos. Devemos construir relacionamentos mais próximos, de confiança mútua, compreensão e ajuda. Todos queremos a felicidade e evitar o sofrimento. Todos temos o mesmo direito de ser felizes, e aí reside a nossa igualdade fundamental. Não é necessário seguir filosofias complicadas. Nosso próprio cérebro, nosso próprio coração é o nosso templo. A filosofia é a bondade “. (Dalai Lama, monge Tibetano).

“A lei da atração não se importa se você acha algo como bom ou ruim, ou se você o deseja ou não. Ela apenas reage aos seus pensamentos. Portanto, se você pensa em uma montanha de dívidas, sentindo-se péssimo em relação a isso, esse é o sinal que você está propagando no Universo”. “Eu me sinto realmente mal por causa de todas as dívidas que contraí.” Você está simplesmente afirmando isso para si mesmo. Você sente isso em cada nível de seu ser. E é disso que você vai ter mais. “Bob Doyle”.

O Mestre Jesus ensinava: “não andeis preocupados com a vossa vida, pelo que haveis de comer, nem com o vosso corpo, pelo que haveis de vestir”. “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.”

O cérebro e a mente estão sempre em evidencia como se fossem a fonte da felicidade. Felicidade tão sonhada cujo caminho em sua direção nos parece confuso, com vários atalhos. Para uns, ser feliz é ter dinheiro, ter patrimônio, ter poder, ter fama; Para outros, é ter saúde, paz interior, e ainda existem àqueles que se sentem felizes apenas por existirem. Acredito que através da mente imune de impurezas físicas, mentais e psicológicas pode-se chegar à perfeição.

Algum tempo atrás, absorto nas minhas reflexões, cheguei a afirmar que o cérebro era uma espécie de chip que Deus havia posto nos humanos, estando ali as respostas a todas as indagações possíveis. Hoje, divirjo de minhas próprias ilações porque assim seriamos semelhantes a robôs destituídos do livre arbítrio, atributo que nos dá condições de escolha entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Assim sendo, parece razoável, investirmos na pacificação de nossa mente, deixando-a livre das mazelas psicológicas e emocionais para que possamos ter uma vida saudável.

Nessa trajetória, objetivando a auto melhora, física e espiritual, cheguei a conhecer o REIKI, uma terapia japonesa que consiste em canalizar a energia cósmica para nós mesmos e para o outro, colocando as mãos sobre o corpo da pessoa que recebe com o intuito de promover bem estar físico e emocional. A diretora da revista Reiki&Yoga, Elisabeth Barnard diz que “ À medida que a ciência avança em relação ao conhecimento do nosso corpo físico , nota-se a necessidade até a obrigação de estudar o Homem como um Todo e de tratar do corpo de uma maneira holística, mente, corpo e espírito, aceitando e utilizando essa terapia energética do “mundo invisível” .

O homem, esse ser complexo, formado de corpo e espírito e ainda de um períspirito como afirma a doutrina kardecista, procura, incessantemente, saber de onde veio a que veio e para onde vai. O corpo físico e o espiritual vivem em constante conflito e esse conflito se passa na mente confusa bombardeada por infinitos pensamentos que, se perpetuados, conduz as doenças psicossomáticas e, por consequência, à infelicidade. A mente dispersa precisa ser estabilizada e ter um foco, mas, para isso, se faz necessário treinamento, dedicação e persistência. A paz interior só será alcançada quando o homem espiritual se sobrepuser ao homem material.

A caminhada na direção da espiritualidade não pode ser solitária, mas em comunhão com outros que, de forma sincera, honesta, também a busque, com o único propósito de ser melhor a cada dia, principalmente amando-se para transmitir ao próximo esse amor, um amor parceiro, conciliador, divino. Amar ao próximo como a ti mesmo é o grande desafio proposto pelo Mestre Jesus.

Daniel Goleman , em “A Arte da Meditação” diz que “ Pessoas cronicamente ansiosas ou com problemas psicossomáticos possuem um padrão específico de reação ao estresse : o corpo se mobiliza para enfrentar o desafio e não consegue parar quando cessa o problema ”, e sugere a meditação como um aprendizado para tranquilizar a mente, relaxar o corpo e desenvolver o poder de concentração.

Eu, minha esposa e meu neto, fomos iniciados no Reiki por intermédio da mestra Célia Maria de Assis O. Barbosa, que há mais de dois anos reside aqui em Penedo e trouxe essa terapia, hoje aceita em muitos hospitais no Brasil e em Portugal como coadjuvante do tratamento médico. Já tivemos a oportunidade de canalizar a energia cósmica para nós mesmos e familiares com resultados positivos. São os mistérios da vida que precisamos desbravar.

Vejo no Reiki uma possibilidade de ser um instrumento a mais na propagação da paz, não apenas a interior, mas de um grupo, da humanidade. Ter a permissão para receber e transmitir a energia cósmica com o objetivo de levar ao outro um benefício, uma melhora, ajudando-o a se livrar de incômodos emocionais, mentais e físicos, é, sem duvida alguma, uma graça concedida por Deus àqueles que se dispõem a esse serviço: receber e dar. Nenhum privilégio, apenas graça, porque a todos é destinada essa energia, que nos faz viver, porque está no ar que respiramos, na água, no fogo, no cosmo enfim.
 

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  • Solange Marcelino Parabéns Valfredo Messias dos Santos, excelente artigo!!! Namastê.
  • Shirley Belas palavras Dr.Valfredo. Texto bastante elucidativo e convidativo no tocante ao Reiki e seu poder de cura e espiritualização!
  • Elaine karine Belo texto... precisamos de fato nos encotrarmos e isso não é fácil.
João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 10/08/2016 10:49

O Anêmico Rio São Francisco

Divulgação
O Anêmico Rio São Francisco

O Rio São Francisco agoniza! O Rio São Francisco está morto! São brados corriqueiros de alerta que revelam sem exageros o deplorável estado de sua morbidez, a preocupação e o temor pela incerteza de seu destino.

Apesar da enorme apreensão frente a essa apavorante realidade, que implicará em inevitável tragédia socioeconômica, essa preocupação, que deveria ser permanente, vive de surto e logo se embota na memória anestesiada pela monótona sucessão dos dias e pela tirania do tempo que tudo apaga e faz esquecer.

Não faz muito tempo, num passeio de lancha pelo mesmo, ficamos abismados e despertamos assustados do sono do esquecimento e voltamos como espectadores diretos, à realidade do pesadelo. A maré estava baixa, ocasião propícia para exibir, com dolorido realismo, toda a miséria de seu corpo coberto de chagas. A lancha. em alguns trechos, navegava em zig-zag à procura de local profundo. Seria real o que víamos ou éramos vítimas de uma miragem? Nada daquilo era fruto do imaginário. Conhecedores do seu passado, robusto e bravio com águas profundas a permitir a navegação de navios de médio porte. Com o sentimento da incredulidade, a observação imediata a contrastar com o seu passado foi a visão de um corpo esquálido. Somando-se à triste visão local, tínhamos na lembrança o conjunto de um corpo ferido da cabeça aos pés. Eram feridas em forma de incontáveis baixios resultantes do assoreamento, como há poucos dias tivemos a oportunidade de assistir em documentário pela televisão.

Como pode ter havido tamanho descaso com um rio que mesmo sem condições vai saciar, com a transposição de suas águas, a sede de nossos irmãos sertanejos? Como imaginar que outrora robusto São Francisco, importante marco histórico no período colonial que impulsionou o povoamento do interior e que com a riqueza de suas cheias oferecia gratuitamente o húmus fertilizante para abundantes safras de arroz e uma generosa oferta de peixe e camarão, possa acenar com o terrível pesadelo de desaparecer e transformar-se num deserto? O homem, irracionalmente, predador de interesse imediato, sem uma visão das danosas consequências futuras, é sem dúvidas o mais letal inimigo da natureza. Felizmente, como tudo na vida coexistem o bem e o mal, pode-se reverter, total ou parcialmente, esse quadro desolador através de medidas apropriadas a esse fim.

O São Francisco, no seu atual estágio de degradação, assemelha-se a uma mãe cadavérica e faminta, de seios flácidos e secos, sem condições de nutrir por mais puro e maternal seja o seu sentimento a todos os seus filhos nordestinos. Alguns de seus trechos, que exibem a crueza de uma paisagem em franco definhamento fazem-no perder a condição de rio para riacho. Brevemente poderá não passar de um filete d'água e, se não houver urna rápida recuperação de sua anterior vitalidade, será apenas uma tumba onde repousarão seus restos mortais, o vestígio e a lembrança de um grande e majestoso rio da integração nacional.

Apesar de há muito, tempo estejam em curso de obras da transposição de suas águas para socorrer outros estados do nordeste contra a seca, persistem as divergências dessa iniciativa vez que não obstante de relevante importância humanitária, poderá resultar num suicídio comum das partes em conflito. Trata-se, em resumo, de descobrir um santo para cobrir outro, caminho despido de sensatez. Se o lençol é curto, que permaneça com quem ele cobre. Te, sentido pedir que o anêmico faça doação do seu sangue?

A natureza, ultimamente, muda a passos largos, quer pela ação, quer peça lei natural onde tudo está em movimento e tudo se transforma. As grandes cheias do São Francisco aconteciam, em média, a intervalos de dez anos. Não vem ocorrendo. Será isso uma tendência?

Enfim, o que se espera é que o homem em seu paradoxal e contraditório comportamento, saiba encontrar o antídoto às suas mazelas para revitaliza-lo. Não existe outra alternativa. E de duas uma: ou veremos o êxito dessa iniciativa recuperadora, acompanhada do festivo e alegre repicar de sinos pelo seu renascimento, ou então iremos ouvir no futuro, com desesperada e incontida tristeza, o desmoronamente apocalíptico do nordeste, acompanhado do dobre levemente cadenciado e melancólico em sinal de elegia fúnebre pela sua completa extinção.
 

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  • Célia Marbosa [19/8 10:49] Shirley Sara: Perfeito o artigo! Parabéns Dr. Valfredo pela iniciativa!???????????????? [19/8 11:23] Helia Camilo Alves de Souza: Parabéns Dr. Valfredo, seu texto é muito bom, de construção precisa e de fácil leitura. Perfeito!!! [19/8 15:13] Rozilda Dantas: Parabéns Dr.
João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 28/07/2016 08:38

A Desprazerosa e Insuportável Velhice

Ilustração
A Desprazerosa e Insuportável Velhice

 Diariamente, frente ao espelho, não percebemos, em doses milimétricas, as transformações em nosso rosto, a perda de massa muscular e o declínio da agilidade, da força física e do desempenho sexual. A força da vivacidade do passado dá lugar à gradativa carência dos impulsos da juventude. Somente no atacado, depois dos sessenta anos, começamos a perceber os primeiros estragos do tempo, agora numa crescente velocidade. Rápida também é a passagem dos dias a tal ponto que chegamos a não nos dar conta que somos velhos.

 Por outro lado, a velhice, figura tenebrosa e indesejável entre tantos outros adjetivos depreciativos, tentamos, num imaginário passe de mágica, mascará-la, como se fosse possível deter a marcha do tempo e impedir, como artista da deformidade, a sua inexorável ação destruidora. Um pouco dessa ilusão acontece, para a alegria do nosso ego, quando alguém, informado da nossa idade, admira-se, achando-nos dez anos mais jovem. Inflados de contentamento, imaginamos ter feito um pacto amigável com o tempo. Como gostaríamos de fugir da tenebrosa realidade, subvertendo a ordem natural das coisas!

 Infelizmente, o que não se pode remediar, como diz o ditado, remediado está. No rastro dessa verdade, preferíamos trilhar o caminho do riso, fazer chiste da velhice a querer enaltecê-la com a descabida e mentirosa definição de a melhor idade. Melhor em quê? Experiência e sabedoria? Ora, cada coisa há seu tempo. Se um jovem já dispusesse dessas duas virtudes, não seria um jovem, mas um velho prematuro, não teria vivido a vida com a vitalidade das emoções, permeadas de desenganos, pela imprevidência e toda sorte de aventuras, venturosas ou não.

 Não resta dúvida que a vivacidade, as atribulações, a vontade de empreender, conhecer e viver os prazeres da vida superam de longe a virtude da sabedoria senil, exaltada por velhos saudosistas e invejosos. O Fausto de Goethe, possuidor de insaciável desejo pelo saber, com a chegada da velhice vê diluir-se, que se perde na apatia, passando a sonhar com a volta da juventude, prometendo não mais cometer os mesmos erros do passado. Sem as peripécias e tudo que é inerente ao espírito do jovem, Fausto aspira um desejo inútil. Por lhe faltar, como diria Tolstoi, a embriaguez de viver, própria da juventude.

 Sem contar os males do corpo, a velhice evolui gradativamente para o alheamento, para o entorpecimento dos sentidos e do desejo, tudo que uma verdadeira vida rejeita. Resume-se, na verdade, num corpo sofrido e que lentamente se locomove. O escritor francês André Gide, de uma maneira exageradamente depreciativa, afirmava que o velho é um sepulcro ambulante diante do qual algumas pessoas se afastam e outras se aproximam para ler o epitáfio. Em sentido contrário, de conteúdo poético, alguém afirmou que a velhice é um outono rico de frutos maduros. Tem de um lado a serenidade das belas noites e do outro lado a tristeza sombria dos crepúsculos.

 Enfim, nascer, viver e envelhecer é um processo natural a tudo que é vivo. O que não nos convence é que, se verdadeira a crença que fomos criados por Deus segundo a sua imagem e por ele amado, nos tenha negado a morte digna permitindo que tenha um desfecho horrivelmente trágico em um corpo fantasmagórico e em ruínas, sofrida numa torrente de insuportáveis lamentos.
 

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  • Geraldo Ainda bem que é assim! a Natureza é sábia e nenhum de nos tem conhecimento ou poder para contestá-la. Acredite!!
  • Radí Rocha Belíssimas palavras caro redator...a descrição me prepara para quando chegar estes dias tétricos na minha vida !!! Mas também com suas palavras passo a amar ainda mais a velhice, pois é com ela que aprendo o valor de uma vida, e atento ficam meus ouvidos aos ensinamentos dela...
João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 07/07/2016 10:10

Um Capão Muito Especial - (Coisas da Minha Terra)

Existem pessoas que são totalmente desligadas das promessas assumidas. Trata-se, provavelmente, de um temperamento indiferente ou de orfandade de caráter, que os tornam relaxados, fazendo parte dos adeptos do dito pelo não dito. Tintô fazia farte desse clube dos livres das amarras dos compromissos.

 Embora há muitos anos residisse na capital, em Aracaju, nasceu no interior, no meu povoado Serrão. Preso às lembranças da infância e juventude, visitava-o um ou duas vezes ao ano para rever parentes e amigos. Era a década de sessenta. Dentre seus amigos destacava-se o Caquica, um pobre trabalhador braçal.

 Não apenas as brincadeiras faziam parte de suas inesquecíveis recordações. As comidas caseiras, preparadas por sua mãe, mesmo sem nenhuma sofisticação, eram delícias presas à sua memória. Uma delas era galinha ao molho pardo. Se fosse um capão, ah, seria o suprassumo! Era o seu acepipe por excelência. O saudosismo dessa delícia inspirou-o a propor ao amigo Caquica um criatório de galinha no sistema de meação, no quintal de sua casa. A proposta foi aceita na condição de Tintô ser o responsável pela compra do milho. Providenciou a compra de um plantel de vinte cabeças entre frangas, galinhas, dois galos e um capão.

 Realizada a sociedade, Tintô fez um apelo para que dispensasse um zelo especial pelo capão. Em hipótese alguma deixasse que lhe faltasse o milho. Como todo começo costuma ser florido, Tintô mandava religiosamente o dinheiro da ração. Pouco depois o esquecimento fez-se uma constante presença. O que fazer para não deixar morrer de fome as galinhas? Pobre sem ter onde cair morto, como iria arranjar dinheiro? Sem qualquer luz milagrosa para socorre-lo, não viu outra alternativa senão sacrificar o plantel. Começou a vender, semanalmente, uma ou duas cabeças. Depois de um bom intervalo, Tintô lembrava-se de mandar o dinheiro. Voltava a esquecer. A criação estava se transformando numa descriação. Que culpa tinha?

 Para encurtar a história, transcorrido quase um ano, em meados de dezembro, aproximando-se o natal, Tintô apareceu. Era todo satisfação, indiferente à sua relaxidão. No dia seguinte foi até a casa do compadre. Estava ansioso para ver o criatório. Deveria, no mínimo, ter duplicado. O capão nem era bom falar. Estava sem dúvida, uma beleza pura. E de fato estava. Adentra à casa e vai direto para o quintal. Avista logo sua majestade, o belo capão. Percebe também uma velha galinha. Não percebe mais nada. Que diabo teria acontecido? Descrente com o que via, perguntou: cadê o resto das galinhas? O compadre Caquica, um tanto espirituoso, na sua maneira rude de se expressar, aponta para o capão e responde: está tudo no cú dele.

 Tintô logo entendeu a razão. Cabeça fria, esse desastre, no entanto, não impediu de usufruir as delícias do capão ao molho pardo.
 

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 22/06/2016 15:11

Original e Prostituído

O Brasil é um barco avariado de tal forma que somente um milagre será capaz de fazê-lo aportar na pátria da decência e da respeitabilidade. Assim como todos nós temos a nossa individualidade, cada país realça sua personalidade pautada por suas instituições. Nos dias que antecederam e os que sucedem após afastamento provisório da presidente da República o que temos assistido é uma série de trapalhadas que vão do cômico à incredulidade. Dentro dessa comédia do absurdo vive a Câmara dos Deputados a representa-la através de seu Presidente interino que tem uma vaidade na proporção da sua estultícia. Paspalhão objeto de chacota, desqualificado para presidi-la, insiste em não soltar o osso, preferindo suportar a vileza de não poder presidir as sessões, principal função que daria visibilidade á sua enorme pavonice. Inimaginável situação tão esdruxula! Será que entre todas as nações alguma seria capaz de oferecer tamanho espetáculo do impossível?

Seguindo um curso tortuoso, não podemos deixar de nos referir ao PT, imaculada identidade de pretenso representante da moralidade, reduzido à condição de um anjo decaído. Obrigado a desnudar-se, exposta sua hipocrisia, não tem outra alternativa senão se identificar e cair na gandaia partidária. Um enfermo que abriga em seus quadros raríssimos anjos e um exército de demônios, razão porque pode reclamar de peito aberto, à luz da Constituição Federal, que todos são iguais em seus direitos de participar das patifarias que patrioticamente subtraem o dinheiro público. Reflexo dessa dura realidade nos revela diariamente o noticiário, dando conta, num crescendo sem fim, de novos adeptos da esperteza. Sequenciando essa trilha, tivemos dois ministros do atual governo interino que bem não tiveram tempo de esquentar a cadeira, foram obrigados a pedir exoneração do cargo. É tão escassa a moralidade dos nossos congressistas e políticos em geral que nos faz lembrar a parábola da prostituta, fazendo-se a pergunta em sentido inverso: aquele que tiver alguma honestidade, levante o braço. Haveria uma debandada geral.

Essa irrefutável realidade nos dá uma nítida sensação de que empresários e políticos do mais alto escalão, providos de um instinto de ganância sem limites estavam transformando o Brasil num espólio de exclusivo usufruto. Continuando nossa caminhada pelo pântano, vamos imaginar a hipótese fosse possível prender todos os deputados e senadores comprometidos segundo menção nas delações premiada, acordos de leniência e escutas telefônicas. Quantos ficariam soltos? Sem dúvida, uns gatos pingados, obrigando o congresso nacional a fechar as portas por falta de quórum.

E agora, o que devemos fazer? Só nos resta partir para uma providência estrambolicamente original. Já que não podemos produzir homens talhados para trabalhos específicos como imagina Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo, nosso ministro das relações exteriores encarregará as embaixadas nos países do primeiro mundo a nos suprirem de homens e mulheres honestos, profissionalmente qualificados, com salários de alto executivo. Talvez até tenhamos necessidade de convidar para participarem das eleições e disputar cargos de vereador a presidente da república.

Somente assim podemos vislumbrar um admirável Brasil sem partir para o mundo da ficção. Em vez da produção acima, teríamos, com a referida importação, uma espécie de enxertia que aos poucos iria melhorando o nosso caráter, ficando no distante passado sua índole prostituída.

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