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Eduardo Motta

Eduardo Motta

Eng. de Pesca da Codevasf, pós-graduado em Desenvolvimento Regional e em Aquicultura

Postado em 23/08/2009 20:06

CERAQUA - Um marco na aquicultura brasileira

Antes mesmo de sua inauguração, o Centro de Referência em Aquicultura e Recursos Pesqueiros do São Francisco – CERAQUA, localizado no município alagoano de Porto Real do Colégio, já é uma realidade.

O projeto CERAQUA, concebido pela Codevasf, foi inicialmente aprovado na I Conferência Nacional de Aquicultura e Pesca, realizada em novembro de 2003 na cidade de Luziânia/GO, pela então Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República – SEAP/PR, hoje Ministério da Pesca e Aquicultura – MPA.

Considerado essencial para a difusão de tecnologia em aquicultura, em novembro de 2005 a SEAP/PR repassou à Codevasf cerca de R$ 2,9 milhões, visando a implantação do CERAQUA.

Diferentemente das demais estações de piscicultura existentes no Brasil, tanto em relação as do setor público como da iniciativa privada, que atuam com o foco na produção de alevinos para o fomento da atividade de piscicultura, o CERAQUA, além de visar a produção em larga escala de alevinos de interesse econômico e ecológico, é também um centro de prestação de serviços aquaculturais, de ciência e pesquisa, de capacitação e difusão de tecnologia, passando assim a ser um diferencial na atração de investidores para o setor de aquicultura e, dessa forma, preencherá um importante e estratégico elo da cadeia produtiva da aquicultura do baixo São Francisco.

A partir da prioridade adotada pela Codevasf objetivando promover a revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, a Companhia passou a investir recursos adicionais de aproximadamente R$ 6,2 milhões, com o objetivo de tornar o CERAQUA um dos mais avançados centros tecnológicos do país, apto a atender as demandas do setor produtivo. Além disto, em decorrência da avançada degradação do meio ambiente no vale do São Francisco, o CERAQUA será de grande relevância na recomposição da biodiversidade aquática.

Para atender essas necessidades, o CERAQUA está sendo munido de equipamentos laboratoriais de última geração, de infraestrutura produtiva e para pesquisa, de recursos humanos de alto nível nas áreas de: genética, nutrição, patologia, qualidade de água, biotecnologia e de reprodução.

A crise do atual modelo de desenvolvimento mundial tem se mostrado desigual, excludente e esgotante dos recursos naturais. Por sua vez, a degradação ambiental e as desigualdades sociais refletem, como consequência, a insustentabilidade da vida no planeta.

Nesse contexto, a busca da sustentabilidade no uso dos recursos naturais da Bacia do São Francisco, configura-se como caminho possível para reverter o quadro atual de degradação, tornando inadiável a tomada de decisão, objetivando a construção de um novo modelo de desenvolvimento.

Diante dessa perspectiva, enquadra-se a importância do CERAQUA como alternativa de desenvolvimento econômico para o baixo São Francisco, com ênfase na inclusão social e sustentabilidade ambiental.

Outra inovação é o modelo de gestão compartilhada a ser adotado no CERAQUA, inédito no Brasil, que terá carater multi-institucional, cujo tema trataremos em um próximo artigo.

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Jean Lenzi

Jean Lenzi

Ator, dramaturgo, encenador teatral e ativista cultural

Postado em 20/08/2009 16:29

Opereta Bufa

Sabe o velho que dizia: “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”, não é que ele tomou fôlego e virou marceneiro…

Anualmente a cidade do Penedo é presenteada com espetos tradicionais frutos de uma cultura ainda a ser descoberta. O espeto em questão é simplesmente o Festival de Férias no Teatro, mostra de teatro “profissional” e, diga-se de passagem, concorridíssima pelos amadores de plantão. No Penedo de múltiplas facetas, ainda que extremamente bucólico, vemos arteiros desempenhando ferrenhamente suas artes e seus ofícios como se fossem eles, únicos e legítimos filhos do ferreiro de barro, figurando na cena local de forma opressora e adeptos da retaliação gratuita, mas que por talento já deveriam estar despontando em outras Alagoas.

O Festival de Férias no Teatro em sua 7ª edição, como já se sabe foi idéia conjunta entre a Companhia Penedense de Teatro e os náufragos da extinta Cia. Dell’Arte, isto há exatos seis anos. Daquela época pra cá, poucas diferenças puderam ser notadas quanto à questão do “Casting” do festival, sempre grupos com considerável aproximação dos produtores da mostra, há tempos eles não contemplam grupos locais; não falemos, no entanto de suas próprias pratas da casa, presença marcante e certa a cada ano. Vejo nisto um misto de censura e arrogância partindo de agentes com considerável tempo de estrada, e daí, mando uma máxima: Competência, talento e honestidade nem sempre são valores obtidos pelo tempo, e menos ainda pelo grito.

Vamos direcionar nossos comentários aos espetáculos “selecionados” para esta edição: Grupos de Maceió e Cia. Penedense de Teatro. Os grupos convidados são revisitados pela mostra, inclusive com espetáculos, e com as graças de tália deixaram camufladamente em Stand-by, o tipo besteirol sacana e comercial tão aplaudido pela platéia alagoana nos últimos tempos, e deram espaço para encenações de valores incontestáveis, exemplo do espetáculo Insônia da Companhia de Teatro da Meia Noite que trouxe a Penedo a atuação do multifacetado ator Marcos Vanderlei que antes havia feito neste mesmo palco junto de seu grupo Infinito Enquanto Truque, o espetáculo “Navegantes” na companhia do também grande Lael Correa.

Espetáculos como “Insônia” fazem parte de um teatro de vanguarda nas terras alagoanas, feito por quem ainda não se deixou levar pelo comércio e pela preguiça de pensar, daí a idéia do artista multimídia Lael Correa quando diz que: “A arte pode ser comercializável, mas nem tudo que está no comércio é arte”, isto se aplica diretamente ao que sem vendo importando da capital e até de terras sem histórico de arte, que nas últimas edições da mostra arrancaram gargalhadas histéricas da platéia que ligadas ao apelo sexual e aos enrustidos valores, fecham os olhos para trabalhos gloriosos produzidos nesta proveta penediana. Exemplos como “Pluft, O Fantasminha”, produção infanto-juvenil genuinamente penedense da Cia. Artes Ribeirinhas estiveram à margem do “edital” de convite, e sem direito à carta de apelo ou lamentações, pois é mais fácil agradar a parceiros maceioenses a ter que convidar um grupo iniciante, porém local. E isso é dar espaço para todos? O que esperar de atitudes como esta? Que tipo de sociabilidade se espera agindo desta forma, usando subterfúgios para comercializar a arte local e ignorar o que é feito aqui apenas por um ego de amador inflamado? Já está caduca a idéia de que rever o conceito de arte é uma pedida constante.

A produção local de teatro não é das mais pujantes, artistas se revezam em jornadas estrondosas de trabalho extra-teatro, são poucos os que conseguem driblar estes por maiores, isso talvez devesse reforçar a idéia de união, afinal das contas quatro gatos pingados brigam entre si por um filé alheio, e “uma cacique” orgulhosa por sua idade de tablado, bastante petulante acha-se na direção da gataria, mas nada contra, enfim, já passaram da debutância.

Nos três finais de semana propostos pelo festival, as grandes atrações foram dadas graciosamente na rua, mais especificamente na porta do Theatro onde jovens iniciantes do teatro sergipano nadaram fervorosamente para desempenhar seus papeis no espremido espaço da programação, validando o sentido do que é teatro e como fazê-lo sem grandes recursos. Em Penedo isto se torna um contra-senso se levarmos em conta os autores indiretos da proposta.

Representações de um teatro pobre e sem artifícios de inteligência e senso critico foram dadas com ares de mega-produto cultural na ideia morta de que exclusivamente durante o evento, Penedo respiraria cultura, talvez uma respiração ofegante, mas “cultura” já que a peça “Solteira Procura-se”, encenada por uma atriz de talento duvidoso, que procurando um espaço para proferir suas idiotices e um comércio que futuramente lhe será garantido a exemplo das demais edições, foi umas das contempladas pelo edital-convite certamente graças a uma velha coincidência.

Mas o Festival de Férias no Teatro não pretende-se apenas uma opereta bufa, encanta com um intercâmbio bacana entre grupos e trabalhos diferentes para gostos diferentes, e principalmente isto. A programação desta 7ª edição em grande parte superou as expectativas deste algoz escritor trazendo a exemplo de Insônia, os graciosos “Baldroca”, “Murro em ponta de faca” e o surpreso “Solampião”, este último com uma curiosidade a parte; é representado por um dos grandes atores do Estado, mas anda com a cabeça bastante mercantil, iluminadas por refletores de “boate gay” e” purpurinas recicláveis” que surpresamente não foram acendidos nesta edição. As demais noites ficaram a cargo da graciosa “Alice” da Cia. do Chapéu, “Metafaces” da Cia. De Teatro da Meia Noite e de “Os Saltimbancos” velho parceiro da mostra.

Porém as grandes surpresas da mostra foram exatamente as representações de “Terra Terta” e “Como nasce um cabra da peste” ambos da própria companhia idealizadora da mostra; um comemora seus 10 anos de montagem, uma espécie de “farinha de pimba” para os nordestinos mais atentos, e o outro a grande sacada nos últimos dez anos do grupo, surpreendeu pela proeza de lotar as poltronas do Theatro Sete de Setembro com talentos efervescentes e dignos de um bom teatro regional, estilo marcante das produções da Cia. Em “Como nasce um cabra da peste” que no inicio de sua montagem teve desnecessariamente a direção assinada pela atriz Juliana Teles, (desnecessária por que a Cia. não precisava de nenhum dos pitacos da “diretora”), foi dada uma das maiores encenações do teatro local, o público que esteve presente naquela noite certamente saiu reconfortado por investir num ingresso popular de um espetáculo rico em talento e em texto e com atores verdadeiramente dispostos ao fazer teatral, comprovando que são competentes no palco, mas duvidosos nas coxias, detalhes a serem apreciados em outros momentos. O talento dos atores deste espetáculo não fica abaixo de qualquer outro que tenha se apresentado na mostra, e eles próprios reconhecem isto, são bons e merecem mais do que os refletores defeituosos do Penedo, ressalvas para a premiada atriz Jô Moreira, a pequena notável Aline Soares, o mestre Fernando Arthur, a impenitente Czar Miranildes Pereira e obviamente um dos grandes atores do Penedo, Emmanuel Silva, talento encontrado e claramente reconhecido pelo público. Artistas como Emmanuel comprovam um teatro rico, mas que nem mesmo assim escapam das cópias abobalhadas de um sistema falho e ignorante. Na noite da representação de “Como nasce um cabra da peste”, sem sombra de dúvidas as grandes encenações foram dadas por Miranildes Pereira, cujo talento a fez vestir-se numa regional parteira do nordeste esquecido, -“Dona Jerusa”-, numa atuação magnânima; e a outra, o deleite da platéia, exatamente um comerciante de soluções práticas, digno da caatinga nordestinesca, o qual encarnou magistralmente o ator Emmanuel Silva; são estes os representantes da arte mais ameaçada do mundo, mas, sobrevivente de nós mesmos, e o povo do Penedo por respeito e obrigação deverá conter o gozo e tirar o chapéu.

O Festival de Férias no Teatro existente desde 2003 era praticamente inexpressivo há até duas edições e mesmo com todos os problemas que pontuo, é atração fixa no calendário cultural de julho nesta cidade, e isso, vale ressaltar, independe de quem esteja fixado no poder público, como já sabemos este é o último a correr junto numa iniciativa como esta e, num Estado como este, onde o investimento em ação cultural se tiver voz possivelmente é afônica, não há surpresa alguma; incontáveis mostras proporcionalmente maiores já saíram de cena por depender em grande parte do poder público, e o festival de teatro do Penedo é um exemplo singular de iniciativa exclusivamente artística e merece que fiquemos de pé para aplaudi-los.

Meus caros colegas, PARABÉNS PRA NÓS!

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Wilson Lucena

Wilson Lucena

Jornalista, pesquisador e membro da Academia Penedense de Letras

Postado em 14/08/2009 19:48

Musical penedense de glórias e crises

Musical penedense de glórias e crises
Sociedade Musical Penedense

A histórica cidade de Penedo já vivenciou um passado de esplendor cultural. Os moços se preocupavam, à época, com os estímulos da inteligência e do espírito. A banda de música tocava a alma sentimental do penedense. E, não era apenas uma, mas quatro. Existem referências das agremiações Lyra Operária 6 de Novembro, composta de operários da Cia. Industrial Penedense e dirigida pelo mestre Francisco Paixão, bem como da União Caixeral, organizada por elementos do comércio local e regida por Lauro do Carmo. De maior evidência social, despontaram as bandas Euterpe Ceciliense e Carlos Gomes, fundadas, respectivamente, em 1883 e 1888, pelos maestros Henrique Thomaz Ribeiro e Manoel Tertuliano dos Santos (Manoel Baixo).

Numa iniciativa do empresário Mário Themistocles Dantas da Empresa Penedense de Transportes, era fundada, em 16.07.1944, a Sociedade Musical Penedense, cuja primeira diretoria ficou assim constituída: Presidente - Mário Themistocles Dantas; Vice-presidente - Jonas Sales; Secretários - Odijas Souza e Thomaz Barboza; Tesoureiro - Homero Thomaz; Diretor Fiscal - Antônio Porto. A banda musical pioneira contou com a adesão de músicos das extintas corporações musicais Euterpe Ceciliense e Carlos Gomes.

A agremiação passou a funcionar provisoriamente no Monte Pio dos Artistas e depois no sobrado onde residia o músico e mestre Edson Porto. Para a sua construção, a entidade contou com a colaboração da Prefeitura Municipal na gestão do prefeito Alcides Andrade, além do repasse de verbas pelo então deputado federal Antônio de Freitas Cavalcanti, certamente o grande baluarte de sua história mais remota.

Na galeria de presidentes figura os nomes dos senhores Mário Themistocles – Edson Porto Fausto Pereira Pinto – Homero Tomaz – Ernani Carvalho – Padre Luiz Soares - Gerson Espinheira - João Fernandes Lessa – Luiz Vitorino Guimarães - José Andrade Alves - Onofre Monteiro - Afonso - Epaminondas Rocha - Evaldo Araújo – Antônio Carlos Belo – José Belias – Horácio Mangabeira - Paulo Moraes Calumby – Sebastião Ramos e Weliton Mota. Já no quadro de figuras ilustres e colaboradores, são alvo de destaque o prefeito Tancredo Pereira, patrono da sociedade, o jornalista Wilson Lucena e o contador Paulo.

O seu elenco de regentes teve como precursor o carismático maestro Edson Porto, seguido de Fausto Pereira Pinto - Manoel Pedro - Antônio Porto - Homero Thomaz - Luiz Freire e o mestre vitalício e de honra Nelson Silva, recentemente falecido e maior referencial da agremiação. Em sua fase contemporânea, a Musical Penedense contou com os trabalhos profissionais dos conhecidos oficiais militares reformados Eraldo Trindade, Raimundo Santos e Jonas Duarte.

A pioneira banda da Sociedade Musical Penedense tinha a seguinte constituição: clarinetas: Manoel Amaral - Nelson Silva - Eduardo Montenegro (Sessenta) - Manoel Gomes e Elias Gomes; trompetes: Leonardo Marques - Elisio Souza - Antônio Porto - José Santos José Eduardo; trombones: Homero Thomaz - Thomaz Barbosa; Sax alto: José Vaz - Gerônimo Vieira; trompas: Abílio Pereira - José Cassiano - Ricardo Souza - Moacir Porto; Bombardino: José Cunha; contrabaixos: Mauro Silva - Avelino Ricardo (Lindor) - Tinô Camarão (hélicon); percussão: Tarciso Thomaz - Francisco Catarino - Miguel Oliveira e Aguinaldo Oliveira.

Outros grandes e tradicionais músicos passaram pelas suas hostes: Armando – Benício dos Santos - Aldo – Adriano – Wilson Barbosa – Genésio - João de Celso – José Ramos - José Carlos - Carlos Alves – Sérgio Alves - Emílio – Claudionor ( Nô) – Elízio Ramos (Tininho) - Luiz Carlos (Luiz Scania ) - Manoel Alves – Sargento Nilton – Fausto Pereira - Paulo Batista (Mainha) – Bonerj Bezerra - José Araújo – Antônio Bezerra – Lindomar – Joan – Sandra - Amado Caldas – Emanoel Rocha - Edson Moura - Sebastião Ramos – João Faustino – Alfredo Santos, dentre outros.

Com a sua programação festiva já tradicional, no dia 19.07.2009, a Sociedade Musical Penedense comemorou os seus 65 anos de inestimáveis serviços prestados à causa musical de Penedo. Através de sua escolinha, imortalizada na figura do lendário mestre e maestro Nelson Silva, centenas e centenas de músicos foram formados. A sua tradicional banda de música sempre participou de eventos religiosos e cívicos em Penedo, assim como em outras localidades do Baixo São Francisco.

No entanto, como já de praxe, a agremiação atravessa mais uma crise. Em matéria recente em jornal local, o maestro Wellington Mota, na prática o governante de fato da Musical Penedense, teceu os contumazes protestos pela falta dos repasses financeiros da Prefeitura. Mas, isso constitui apenas uma parte da questão. O imóvel da sociedade, o maior do gênero no Estado, é grande, ocioso e dispendioso de manutenção. Inexistem sócios contribuintes. A atividade social se limita ao jogo de baralho noturno. Por dissidência com a maneira de administrar do aludido dirigente, boa parte do pequeno grupo de adeptos está afastada. Carecem de completa reformulação a escolinha e a banda de música. Em suma, a entidade prescinde de uma diretoria mais coesa e representativa que possa promover as necessárias e vitais mudanças em prol de seu soerguimento.

Fenômeno histórico, artístico e sociológico, não obstante todas as dificuldades para subsistir e o descaso governamental, a banda de música nunca deixou de ter uma presença marcante na comunidade em seus momentos mais caros e solenes, funcionando como um verdadeiro conservatório popular. Ainda é a mais antiga instituição ligada à criação e preservação da tradição musical brasileira, desenvolvendo, notadamente nas pequenas localidades interioranas, importante trabalho educativo e social, através do qual propicia oportunidade de uma vida mais digna a centenas de jovens carentes. Por isso, convém que as lideranças municipais tenham um pouco de maior sensibilidade para tão relevante causa.

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Suzy Maurício

Suzy Maurício

Psicóloga Clínica com atuação na cidade de Arapiraca

Postado em 27/07/2009 19:15

Liberdade: da subjetividade ao pleno direito

 No ano em que comemoramos 120 anos de abolição da escravatura, 18 anos de ECA, 20 anos de democracia plena e 60 anos da declaração universal dos direitos humanos, é lamentável descobrir que ainda estamos muito aquém do que rege o artigo primeiro da declaração: “livres e iguais nascem todos os seres humanos”. Em 14 de julho, dia mundial da liberdade, esta é (re) vista sob o ponto de vista individual e coletivo, considerando os pressupostos existenciais, filosóficos, éticos, e de direito. Os direitos à segurança, à não ser alvo de violência, à defesa, ‘a dignidade e honra pessoal, ‘a participação política, ‘a ter qualquer pensamento filosófico, religioso, ‘a educação, à saúde e à moradia não são concedidos de forma plena, para tanto é preciso concluir o circuito de igualdade entre os povos. Em tempos de violência e injustiça social, onde liberdade confunde-se com dominação e o poder parece ser oligárquico, assistir aos noticiários que tratam das buscas e apreensões de majestades “intocáveis”, faz-nos acreditar que os ternos são de “vidro” e que somos iguais perante a lei, ao menos à primeira vista.

Sartre refere que “o homem é antes de tudo livre”, a liberdade é segundo Descartes “autonomia e vontade”, e constitui a condição dos comportamentos humanos voluntários. Ser livre, portanto, é ser autônomo, dar a si mesmo as regras a serem seguidas, ter permissão e licença, sendo um pressuposto para a responsabilidade. Não podemos fazer escolhas e agir indiscriminadamente, há limites e este acaba quando começa o do outro. Cada um de nós é um sujeito de escolhas, e também de conscientização e deveres. As más escolhas refletem na privação do direito à liberdade, por dolo ou culpa as penas são aplicadas. O ato delituoso (o que, como ocorreu) vem se deslocando da abordagem concreta dos atos observáveis para a dimensão interna, subjetiva dos criminosos, pensa-se sobre o risco que x ou y venha a infringir a lei, e pensa-se também nele, pessoa, e nos humanos direitos. Vivemos um momento de grandes mazelas sociais: individuais e comunitárias. Alagoas é o único estado brasileiro a ter o Psicólogo na Defensoria Pública, temos direito também a uma escuta especializada, a (re) costurar nossa história e optar por um novo começo, a isto dá-se o nome de reabilitação psicossocial.

“Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que não entenda”. Nem sempre este ideal é tão romântico como nas palavras de Cecília Meireles. Há muita gente privada de liberdade sem ter culpa, há criminosos que estão livres, isto só reflete as desigualdades sociais e o câncer do sistema prisional brasileiro. Para mudar, é imperativo sair da liberdade de indiferença e fazer valer o direito de intervir na história, esclarecer-se, votar, mudar, buscar, reinventar... Isto é liberdade! Jogar bombas e exterminar milhões de seres humanos é liberdade? Morar em castelos, enquanto muitos dormem ao sol e à chuva é liberdade? Usurpar o dinheiro e o direito público é liberdade? Neste dia, pensemos: Estou ou sou livre? Para quê e para quem? Liberdade tem a ver com ética? Estou fazendo jus ao meu livre-arbítrio? Somos livres para amar, pensar, lutar, e, sobretudo para buscar novas alternativas de existir: com respeito, dignidade e equidade. É um sonho possível!

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Suzy Maurício

Suzy Maurício

Psicóloga Clínica com atuação na cidade de Arapiraca

Postado em 04/07/2009 14:43

Luz para todos

A energia para mim é algo fantástico, a maior invenção do homem. Até os 6 anos de idade residindo em sítio, a única luz de que me lembro é a do candeeiro (espalhados pela casa), feitos de zincos, tipo uma caneca e que havia um bico de onde saía aquele fio de algodão que mergulhado no combustível era aceso.

Parecia magia, exalava um cheiro, a luz chegava e a fumaça desenhava as paredes,deixando-as negras, manchadas. Lembro de uma espécie de lamparina que funcionava a gás e era pendurada no telhado, iluminava bem mais, mas só havia uma.

Na primeira infância visitávamos a cidade e nos chamavam à atenção as lâmpadas incandescentes e de todos os tamanhos, os postes, árvores de natal piscando, roda-gigante, etc. Às vezes, à noite, desafiávamos a escuridão e brincávamos em cima da velha camionete CD 10 amarela, no alpendre de casa.

No Cariri, dormíamos ao escurecer, e somente nas noites de lua cheia era feita uma enorme fogueira, colocávamos “tamboretes”, cadeiras de balanço e lá nosso pai lia alguns livros, revistas, contava histórias bíblicas e “causos” das suas aventuras na mata, suas caçadas.
Ao menos a luz cognitiva chegava até o nosso lugar, nas palavras daquele que pouco foi à escola, mas que possuía uma relação íntima com a leitura, apesar de exercer a profissão de comerciante e lidar com animais, algodão, mamona, castanha, milho e feijão.

As notícias chegavam através do rádio, ligado às 5 da matina quando íamos ao curral tomar o leite da teta da vaca, quentinho. A TV só veio quando da mudança para a “cidade” em busca do ingresso escolar, aparelho preto e branco, botões enormes, e nós hipnotizados diante dela. Muitos ainda vivem à luz do velho candeeiro, três décadas passaram e a luz elétrica só chegou ao nosso sítio há um pouco mais de 3 anos, através do Programa Luz Para Todos do Governos Federal, implantado no governo Lula.

Em pequenos povoados a TV é comunitária e o filme visto em praça pública e reúnem humildes moradores: idosos, jovens e crianças de olho brilhante na telinha que mais parece sonho, conhecendo outros lugares e modos de vida jamais imaginados, alimentando sonhos e os impulsionando a olhar o mundo em outra direção, muito além da roça que a chuva traga ou que o sol e a seca não a deixa germinar.

Olhar aquém do velho fogão à lenha, da casa de barro, da água de pote, a água que é outro drama, do nordestino em particular. Não existe água encanada, o açude pode estar a muitos quilômetros dali, ou se perto a água é barrenta, retirada com dificuldade e dividida entre gente e animal, numa disputa que mais lembra a busca do ouro na Serra Talhada.

O Ministro da Minas e Energia, Edison Lobão, chega hoje, 03.07.09, à Arapiraca para inaugurar uma subestação de energia elétrica de 230 KV que se dá mediante esforços do Senador por Alagoas, Renan Calheiros e o Presidente da AMA- Associação dos Municípios Alagoanos e atual gestor municipal da cidade em seu segundo mandato.

No Planalto Central, se reuniram por duas vezes para viabilizar este momento, que na verdade é um pontapé inicial, tendo a quantidade energética aumentada lá para 2011, numa outra etapa de instalação. Um avanço para o Agreste!

Meu pai partiu antes da chegada da luz nas terras que tanto trabalhou para comprar, porém não teve a visão dos fios e postes luminosos rasgando a velha estrada de barro, rumo à civilização.
Meu passo não chega até lá, o coração aperta e adio mais uma vez. Os demais cuidam do nosso lugar. Esperei tanto a luz, mas não fui lá ver esta realização concreta. Talvez deseje encontrar aquela velha fogueira, a luz incandescente dos textos e meu pai por lá.

De repente será melhor guardar aquela velha imagem dos pastos verdes e do gado livre, dos carros de boi, da mandioca que produz farinha, na casa de farinha do meu avô, o imenso pilão, a concha de côco e o inesquecível gosto do feijão (somente com sal) da panela de barro, do fogão à lenha da comadre Jerusa.

Quem sabe um dia, ao lado dos cantadores de viola, não faça uma moda, uma poesia, e cantaremos parafraseando o poeta “só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara...” Ele vai sempre existir no peito nosso, a festa e a moda, faremos quando a água encanada chegar por lá. Vou lá ver o Ministro, agradecer ao Senador e ao Prefeito, e lembrar que a água também tem de chegar!

 

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