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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 13/09/2009 20:06

Alagoas: o Estado Morcego

As chamadas ciências ocultas servem-se de objetos, números e símbolos diversos para interpretar e predizer o futuro. Se alguma delas usa a forma como meio premonitório, a forma de morcego com asas abertas, seguramente, não pode prenunciar bom augúrio.

Se Alagoas voasse, sua configuração territorial nos lembraria um morcego. Seria essa forma ensejadora de forças negativas, responsáveis pela deturpação moral que aqui impera, do atraso e das carências sociais? Não voa e sem o dom de planar nas alturas, sem sentir a leveza, a agradável sensação de liberdade e a pureza de sentimentos, permanece de cabeça para baixo. O que se pode esperar de quem vive de cabeça para baixo? Carente de uma visão da imensidão do espaço a inspirar-lhe os mais elevados e puros ideais, do chão só pode resultar a obsessão materialista e o sacrifício das virtudes que deveriam nortear suas ações. Acontece que a visão deveria compensar essa desagradável postura e suas conseqüências moralmente deformadas. Alagoas, de fato, dispõe de uma ótima visão e, como tal, deveria ser a excelência em tudo. Mas eis que surge um paradoxo em relação ao morcego. Enquanto este, carente de visão, executa a contento graças à eco-localização de que dispõe, seus meios de sobrevivência sem molestar o patrimônio de que quer que seja. Alagoas, com olhos esbugalhados, sente-se ofuscada pela claridade e descamba, jungida por uma força inata calcada nos baixos instintos, na escuridão onde vicejam os mais deprimentes adjetivos, entre eles a insensibilidade, o interesse próprio, o indiferentismo, a insensibilidade humana e a corrupção que campeiam nos mais altos escalões dos três poderes.

Os mais recentes fatos que nos colocam na vitrine do impossível acontece, referem-se ao desrespeito pelo judiciário por algumas categorias sindicais em greve e pela Assembléia ou Assombração legislativa que teria de afastar um de seus morcegos hematófagos. Será que se trata de algo real ou é pura ficção ? Será que o que lemos nos jornais a respeito é real ou ficção? Será que o nosso Estado separou-se definitivamente do Brasil para se transformar, às claras, numa republiqueta do trabuco e do direito natural onde vence o mais forte? Se é imperdoável o comportamento dos sindicatos acima referidos, o que dizermos da Assembléia Deslegislativa que agora, ao invés de elaborar e votar as leis, passa a ingeri-las para depois, feita digestão, transformá-las em excremento.

É trágico assistirmos ao desespero do náufrago quando, na sua ansiedade para safar-se da morte, ver perdido seu único objeto de salvação. A propósito, quando nos referimos aos três poderes e o estado de escombros e calamidades morais em que se encontram, sentimos o trágico da solidão em nossas vidas quando imaginamos fosse o judiciário uma exceção capaz de resgatar nossa última esperança, vê-lo jogado na vala comum da criminalidade. As recentes notícias que relatam a percepção indevida de vencimentos por parte de juízes e desembargadores, parece-nos totalmente absurdas, algo impensável e inconcebível. Como podemos conceber tamanho embotamento dos princípios morais!

E o que dizermos do legislativo? Desse autêntico tornado que surrupia desavergonhadamente as finanças públicas? Uma inutilidade que temos de engolir em nome da democracia. Altamente oneroso, não fossem os escândalos financeiros, o empreguismo, por tudo que não é e deveria ser, jamais saberíamos da sua existência. Na mesma linha da estupefação do descaso com os cofres públicos, há um aborto da administração pública denominado tribunal de contas ou faz de conta do que qualquer outra coisa, que sem dúvida alguma, prejudicial e inútil, é o maior acinte à sociedade, fazendo-se necessária a sua extinção, não pela instituição em si, importante, mas pelos vícios e incompetência dos que o compõem. Não passa de um ninho de acomodação política para privilegiados a usufruírem altos salários e mordomias em troca do nada. Pura calamidade! Quanta inspiração o cenário alagoano nos estimula para o niilismo! De fato, se as coisas no Brasil não andam bem segundo as recomendações éticas com a coisa pública, em Alagoas, caótica e à deriva, parece-nos a mais acabada inspiração para o caos.

Acreditavam alguns historiadores, para explicar o surgimento da extraordinária cultura helênica, que a beleza da sua paisagem, despertando a sensibilidade, teria sido a causa principal. Esse presente dos deuses, favorável à introspecção, predispôs o grego para os mais altos vôos na especulação filosófica. Ora, se verdadeira fosse essa hipótese, por que em Alagoas, com o mais belo litoral de águas límpidas, as coisas acontecem de forma disparatada e totalmente opostas? Por que, ao invés da prosperidade sócio-econômica, temos a fome e o analfabetismo? Por que o nosso cenário político, que deveria ser uma réplica do período de Péricles, o mais brilhante da história helênica , temos a mais deslavada improbidade? Por que, se vivemos descrentes, descontentes e decepcionados com o executivo e o legislativo, não nos deixou o judiciário como exceção, uma válvula de escape no meio de tantos desencantos? Será mesmo que uma mudança na sua forma geográfica, veríamos os nosso vampiros mudarem de hábito alimentar, deixando de serem hematófagos insensíveis e desumanos, a sugar impiedosamente, o sangue do esquálido e esquelético Alagoas? Será que se cegássemos os que formam os três poderes, ficariam com a sensibilidade mais aguçada para os problemas sociais e adotar, por tabela, a honestidade como uma prática de vida? Por que não cegá-los? Não, o mais nobre, se nobreza tivessem, é que eles se auto-mutilassem. Irreabilitáveis perante a opinião pública, só uma medida radical poderia salva-los. Que vazassem a enormidade de seus olhos corrompidos para, num corajoso gesto edipiano, provarem o arrependimento e o remorso pelo incesto que cometem com e contra a bondosa mãe Alagoas. Édipo ignorava o incesto que cometera com sua mãe, acontecimento a ele inevitável, vez que estava prescrito em seu destino, segundo a crença fatalista dos autores da tragédia grega. Os filhos dissolutos de Alagoas que comandam seu destino, contrariamente, cometem-no com a mais límpida e degenerada consciência. Existe melhor meio para salvarmos o nosso Estado do tamanho lamaçal e insensibilidade moral em que se encontra?

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Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 09/09/2009 19:20

A destinação dos seus espaços

Na vida do apóstolo Pedro inúmeras passagens relatam sua rica convivência com Jesus. Entretanto, uma das mais significativas diz respeito ao início da caminhada do apóstolo com Jesus. Jesus chegara à praia e estava sem condição de falar à multidão porque “esta o apertava”. Olhando de um lado para outro, Ele divisou o barco de Pedro, naquelas circunstâncias a tribuna ideal, o púlpito perfeito. O texto bíblico não relata, mas Jesus deve ter pedido licença, permissão a Pedro para utilizar o seu barco como palanque. Naquele momento o espaço que pertencia a Pedro – o seu barco – era um elemento importantíssimo para o discurso que Jesus pretendia proferir. Pedro era tido como uma figura explosiva, sanguínea, e era de se esperar, pelo seu agir natural, que ele negasse a Jesus o seu espaço. Além do mais porque acabara de chegar de uma pescaria – pescaria, por sinal, totalmente infrutífera.

A lógica, portanto, indicaria uma recusa total de Pedro às pretensões do Mestre. A história nos informa que o futuro apóstolo estava passando por momentos empresariais dificílimos. Pedro devia impostos a Roma e o faturamento advindo da pesca, naquele tempo ainda feita em condições extremamente precárias, não vinha correspondendo às suas expectativas. Entretanto, Pedro acedeu. Abriu seu espaço físico para a pregação da palavra de Jesus. Este foi um momento importante, demarcatório na sua vida. No primeiro contato com Jesus ele aceitou interagir, colaborar. A narração está contida na Bíblia, em Lucas 5, do versículo 1 ao 13. Mas, o mais importante não foi somente Pedro emprestar seu barco a Jesus – foi também abrir coração e mente para o conteúdo do que Jesus falava e, conseqüentemente, aceitar, na sua lógica, a essência do discurso proferido.

Depois de ouvir a Jesus pela primeira vez Pedro nunca mais foi o mesmo. De início foi testemunha e alvo principal de um milagre promovido pelo Mestre. Após emitir a sua fala, Jesus – sabedor das extremas dificuldades empresariais que ele enfrentava – se volta para Pedro e lhe ordena que se faça ao largo e lance as redes ao mar. Ainda impactado pelo discurso que ouvira minutos atrás, Pedro faz uma declaração de fé ao afirmar: “Mestre, havendo trabalhado toda à noite, nada apanhamos, mas sob a tua palavra lançarei as redes”. O resultado é por demais conhecido. As redes ao serem trazidas à tona estavam abarrotadas de peixe, e, de tão pesadas, quase que se romperam, necessitando da ajuda de outros pescadores que estavam próximos. Foi um caso típico de superprodução inesperada.... Pedro, assim, sentiu na própria pele o resultado da abertura de seus espaços para Jesus.

Em nossas vidas nós também temos nossos espaços a administrar, a preencher. A questão é saber com que tipo de proposta, de discurso nossos espaços estão sendo preenchidos. A nossa residência é um espaço importantíssimo; nossa mente, a família, ambiente de trabalho, o ambiente social que habitamos – enfim, as áreas ao nosso redor que influenciamos, mas também os espaços, sob nossa responsabilidade, que sofrem influências externas, influências de outrem. Pedro poderia ter negado seu espaço a Jesus. E aí, o que teria acontecido? A pesca tão frutífera, que quase afunda o barco e quase rasga as redes, teria ocorrido? Certamente o Evangelho de Jesus teria de ter uma outra redação, um outro desfecho. Pedro cedeu seu espaço físico e mental para Jesus. É hora, então, de se perguntar: com que tipo de conteúdo nós estamos preenchendo nossos espaços físicos, mentais e espirituais?

Em certos ambientes só se fala em dinheiro; em outros é a ascensão social, política e empresarial que ocupa todos os momentos. Para certas pessoas o importante é curtir futilidades, superficialidades. Um grupo, extremamente numeroso, é integrado por gente que não pensa em outra coisa que não tenha um forte peso material. E a salvação? Poucos se preocupam em buscar uma explicação para esse fenômeno espiritual que irá marcar nossas vidas para a eternidade. Para a grande maioria o imediatismo é que importa, com a vantagem correspondente. Outros estão ocupando seus espaços com crimes, mortes, seqüestros, corrução. Para alguns o se prostituir é a atividade ideal, compensadora. Pedro destinou todos os seus espaços a Jesus. Deu-se bem, fez história. Resta saber, a essas alturas, se é positiva ou não a destinação que estamos dando aos nossos espaços. Não já está na hora de refletir?

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Francisco Souza Guerra

Francisco Souza Guerra

Presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Penedo

Postado em 03/09/2009 09:56

Seu dinheiro, meu governo, minhas cores e marcas

Com o advento da Constituição em 1988, sonhou o Dr. Ulisses Guimarães e outros constituintes, sepultar velhas práticas da República Brasileira, uma delas, a promoção pessoal com dinheiro público de presidentes, governadores, prefeitos, parlamentares, servidores e todos aqueles que exercem função pública, em especial, os que administram recursos públicos. O art. 37 § 1° da Constituição Federal parecia de forma profilática extirpar este grande mal:

§1° “A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”.

Num passado não muito distante, a sociedade brasileira habituou-se a suportar, humilhante e abusiva propaganda pessoal dos gestores públicos, mediante a paga do erário. Ainda hoje podemos visualizar bancos de praça, calçadas, pontes, viadutos e escolas com nomes, marcas e símbolos que caracterizam promoção pessoal dos administradores. A frase ridícula da chamada “administração eu”.

Na história política até piada se fazia com determinados gestores. No livro de anedotas do alagoano e ex-deputado federal Cleto Falcão há o relato folclórico da explicação do então Prefeito de Maceió, Sandoval Caju, sobre a colocação do famoso “S” nas suas obras: “coloco “S” nos bancos para dizer: sente-se; “S” na calçada para dizer siga; “S” nos sanitários para dizer sirva-se”, afirmava Caju. Este Brasil é curioso. Comparando a despesa em colocar azulejo com seu “S” nas praças da Capital, com a publicidade que presenciamos na atualidade, chegamos à conclusão que era irrisório o gasto do ex-prefeito Sandoval Caju.

Para burlar as proibições do art.37 § 1° da Constituição os gestores brasileiros arranjaram um velho jeitinho desavergonhado de gastar o dinheiro público para se promover. Astúcia dos marqueteiros, ausência de regulação do dispositivo constitucional, ambos associados ao desconhecimento e, apatia cidadã do brasileiro, desaguaram na utilização das conhecidas “logomarcas”. Este instrumento da criativa propaganda brasileira, apesar de não ostentar o nome do governante, identifica a gestão, logo, pessoalizam as administrações e seus respectivos titulares. Banners, outdoor, cartazes, adesivos em viaturas, faixas, impressos de todos os tipos, fardamentos, crachás, papeis de utilização da rotina burocrática, cartões de apresentação, convites e prédios, estes padronizados na cor do partido ou, a mesma utilizada na campanha eleitoral, pessoalizam o poder público de forma anárquica e desrespeitosa a Constituição e ao cidadão.

O Prefeito da cidade Capela, Sergipe, Manoel Messias dos Santos conhecido por Sukita não teve pudores: tudo que é de imóvel e viatura foi pintado na cor do conhecido refrigerante que leva seu nome. Mas o laranjal do desrespeito não ficou só na Capela. Em várias outras cidades os prédios públicos e os fardamentos mudaram de cor. Sem sequer ter o dinheiro da folha de pagamento de janeiro, prefeitos já mudavam as cores e marcas das lixeiras, não por desejar cuidar da limpeza, mas, para anunciar que agora o governo era o dele. Cuidaram também, em apagar a marca do ex-gestor. Mãozinhas se cumprimentando, barquinhos, trevos, flores, igrejas, bonequinhos, cores e tudo que caracterizava a marca dos gastos do Governo anterior, deram lugar a logomarca do novo “proprietário”. Se não pintou o prédio, mas apagou a marca do “outro”. Veículos outrora inteiramente cobertos com aberrantes propagandas personalizadas, obviamente colocadas a um custo nada irrisório, tiveram as películas arrancadas e substituídas por novas.

Sem dúvida, governos se iniciam trabalhando muito mais. Mais adesivo, mais cores padronizadas, mais logomarca, mais propaganda, mais gasto com inutilidades. Alguns ainda se superam com um banho de outdoors coloridos, com foto pessoal dos administradores espalhados na sua jurisdição e até fora dela. Qual o caráter educativo da medida? Informar o que? Qual a orientação social? Alguma campanha de utilidade pública? Um alerta contra o vírus H1N1? Nada justifica a gastança a não ser a promoção pessoal.

O mesmo acontece em vários Estados. A publicidade do governo é tamanha que tem até Secretaria criada para tal finalidade. Secretaria que deveria informar limita-se a promover pessoas com o dinheiro do contribuinte. A prática como já dissemos não é nova e, deve perdurar por algum tempo. Resta saber até onde vai a farra. Pelo visto, vai até que o povo crie vergonha de si mesmo e tome as rédeas da situação.

A ação cabível para coibir estes abusos é a Civil Pública ou uma representação ao Ministério Público. Enquanto nada acontece, continuaremos assistindo e pagando, pelas formas e cores de cada governante. Na verdade a propaganda que todos esperamos é aquela que se vê ao abrir a janela de casa e, constatar que a rua está limpa, iluminada, sem buracos, saneada, escolas e postos de saúde funcionando adequadamente, enfim, que nosso dinheiro está realmente sendo revertido para todos. Ao menos resta um consolo: sonhar ainda não paga imposto.

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Wilson Lucena

Wilson Lucena

Jornalista, pesquisador e membro da Academia Penedense de Letras

Postado em 30/08/2009 11:44

A surpreendente saga da penedense Maria da Cruz

“Na história de Minas Gerais há mulheres que se imortalizaram, fosse pela beleza ou por seus talentos, fosse também por martírio sacrossanto. Mas, digam-nos agora se alguma foi, mais do que esta, digna de memória de nossos fastos.” Este foi um tributo prestado pelo historiador mineiro Diogo de Vasconcelos, ao encerrar o capítulo terceiro da segunda parte da “História Média de Minas Gerais”, de 1917, de sua autoria, a Maria da Cruz, acusada de ter liderado, no ano de 1736, norte da Capitania de Minas Gerais, juntamente com o filho Pedro Cardoso e o cunhado Domingos do Prado, uma revolta contra a cobrança do “imposto da capitação”, que substituiu o “quinto do ouro”.

A aludida sedição, cognominada de “Motins dos Sertões”, é bem conhecida dos apreciadores da história de Minas e consta do Arquivo Público Mineiro, que publicou, através de suas revistas, algumas das cartas escritas pelo então governador da Capitania do Estado, Martinho de Mendonça, que comandou a repressão ao movimento. À época, Maria da Cruz, viúva do coronel Salvador Cardoso de Oliveira, sobrinho de Mathias Cardoso de Almeida, famoso bandeirante e desbravador paulista, dominava com a família a região do Sítio das Pedras, atual cidade de Pedras de Maria da Cruz, situada no norte de Minas, à margem direita do Rio São Francisco, Micro-Região Sanfranciscana de Januária.

Decretadas as prisões dos envolvidos, exceto Domingos do Prado que conseguiu escapar, Maria da Cruz e o seu filho Pedro Cardoso são presos e levados para Vila Rica, onde poucos dias depois são transferidos para uma fortaleza no Rio do Janeiro, na qual permaneceram detidos por um ano. Julgados em Salvador pelo Tribunal da Relação, a líder insurgente é indultada, mas o filho condenado a degredo. Nos rastros da história da heroína, o casal de historiadores mineiros Giselle Fagundes e Nahílson Martins, procedentes da cidade de Montes Claros (MG), promoveram um fantástico e fidedigno trabalho de pesquisa, que remontou, dentre outras fontes, documentos do Arquivo da Torre do Tombo em Portugal, manuscritos da Biblioteca Nacional, Casa Borba Gato em Sabará (MG) e processos de ingressos em irmandades nobiliárias por parentes afins.

Através da busca documental, alvo da publicação do livro “Alvará de Perdão Concedido a Dona Maria da Cruz, Viúva”, comprovou-se que Maria da Cruz Porto Carreiro era natural e batizada na freguesia de Nossa Senhora do Rosário da Vila do Penedo, sendo, inclusive, irmã do Frei Manoel da Madre de Deus, que foi guardião do Convento de São Francisco da referida localidade. Em seu testamento, integrante do acervo do fórum Edmundo Lins (Serro – MG), aberto em 1760, ela confirma a sua origem natal e registra ser filha de certo capitão Pedro Gomes e de Dona Domingas. De seu casamento com o então capitão paulista Salvador Cardoso, que se encontrava na região do Baixo São Francisco combatendo os gentios, menciona seis filhos: O mestre de campo Mathias Cardoso de Oliveira, Padre João Cardoso, Pedro Cardoso de Oliveira, Padre Manoel Cardoso e Dona Maria Cardoso de Oliveira e Dona Catarina do Prado, casadas, respectivamente, com os coronéis Alexandre Gomes Ferrão Castelo Branco e Domingos Martins Pereira.

Mas, afinal, quais seriam as famílias ascendentes de Maria da Cruz? Segundo o manuscrito “Nobiliarquia Brasiliense”, de Roque Luis de Macedo da Câmera, o pai de Maria da Cruz seria Pedro Gomes de Abreu, capitão-mor de Sergipe-Del-Rei, neto de Leonel de Lima, Senhor da Casa de Regalados e sua mãe, Domingas Francisca Travassos, filha de Manoel Martins Chaves. A informação, no entanto, é refutada pelo casal pesquisador de Montes Claros, por não localizar nos anais históricos sergipanos o nome de Pedro Gomes de Abreu na lista de capitães-mores de Sergipe. É suscitada outra hipótese, aparentemente mais lógica, de que o pai de Maria da Cruz seria Pedro Gomes de Abreu, primeiro administrador da povoação de Urubu de Baixo, atual cidade de Propriá (SE), que teria se casado com a filha do Sr. Domingos da Cruz Porto Carreiro, proprietário de uma fazenda vizinha.

Esse novo Pedro Gomes de Abreu era filho de Pedro de Abreu Lima, genro de Antônio Cardoso de Barros, por sua vez, filho de Cristovão Cardoso de Barros, o conquistador de Sergipe, e neto de Antônio Cardoso de Barros, primeiro Provedor da Fazenda da colônia, devorado em 1556 pelos índios caetés, juntamente com o primeiro Bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, após o fatídico naufrágio da nau Nossa Senhora da Ajuda na costa de Coruripe (AL). Pedro de Abreu Lima foi agraciado pelo sogro com concessões de terras da região da “Serra da Tabanga” e, posteriormente, com áreas do futuro município de Propriá. No entanto, essa tese alternativa sofreria duro golpe. No texto “Propriá em seus albores” (1956), de autoria de João Fernandes Brito, é citado o “Padre João Gomes de Abreu” como sendo o filho referenciado de Pedro de Abreu Lima. Mesmo assim, o casal Giselle/Nahílson, que ficou apegado à suposição tão pitoresca, não descarta a possibilidade de algum erro de transcrição de algum manuscrito antigo pelo aludido autor.

O que não paira dúvidas, é que a rede genealógica de Maria da Cruz do Porto Carreiro, qualquer que seja a sua vertente, está povoada de gente fidalga e importante. A trajetória de sua família, bem como a sua saga própria, está ligada, de forma intrínseca, à história da ocupação das margens do Rio São Francisco. O sobrenome “Porto Carreiro” é um dos mais evidentes entre os primeiros contemplados com concessões de terras em Sergipe, inclusive figurando nos colonizadores pioneiros do município de Porto da Folha. Um dos genros de Maria da Cruz, o coronel Alexandre Gomes Ferrão Castelo Branco, Cavaleiro da Ordem de Cristo, afora posses no recôncavo baiano, era Senhor do Morgado de Porto da Folha. O seu primogênito, Antônio Gomes Ferrão Castelo Branco, potentado de igual fidalguia, que chegou a residir na Vila do Penedo, esteve presente, junto com os irmãos, em 07.02.1802, na fundação da Vila de Propriá.

No ano de 1789, em pleno ciclo do ouro, deflagrou-se a “Inconfidência Mineira”. A conjuração, mormente pelo martírio na forca de seu principal líder, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”, representa o maior símbolo da luta do povo brasileiro contra a opressão do governo português e anseio de liberdade. De bom alvitre ressaltar, porém, que 53 anos antes, uma revolta similar, talvez obscurecida por ter ocorrido em uma época mais remota e em local distante, em que pese ainda a onda de violência e barbárie perpetuada por algumas das milícias rebeldes, combatia, de igual modo, a cobrança abusiva, por parte da coroa lusa, de impostos incidentes sobre a extração do ouro. A suposta cabeça central do movimento, Maria da Cruz, que teve, a título de apoteose repressiva, a prisão engendrada pelas autoridades mineiras, certamente, também é merecedora do devido pedestal histórico e imortalidade.

A seu respeito, ilustra o historiador Diogo de Vasconcelos, na obra supracitada de 1917: “A têmpera varonil não lhe tirava a natural doçura e fineza de trato. Conseguia atrair o afeto de parentes, subordinados e escravos, sem que sentissem a firmeza voluntariosa do mando. O tranqüilo esquecimento, a causa melhor da morte apagou o seu nome, conservado apenas no velho e obscuro arraial, à beira do grande rio.” A memória de Maria da Cruz Porto Carreiro, em caráter inédito, está sendo resgatada pelos dinâmicos historiadores mineiros Giselle e Nahílson, os grandes descobridores meritórios de seu “status penedense”. À luz dos registros testamentais, os restos mortais da ilustre patrícia e de seus amados esposo e filho mais velho, amortalhados no hábito do patriarca São Francisco, foram enterrados na antiga Capela de Nossa Senhora da Conceição, então Sítio das Pedras, mesmo local onde foi reconstruída a Igreja do mesmo nome, porém, hoje, sem vestígios das sepulturas. Como último legado, deixou cinqüenta mil réis de esmola ao Convento de São Francisco da Vila do Penedo. Ao que parece, pela tão significativa lembrança, o seu vetusto torrão natal nunca foi de todo esquecido e, decerto, preservado, no recôndito do coração, com muito carinho e grata recordação.

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 26/08/2009 20:54

Pelo andar da carruagem

Não há dúvida que é muito cedo para fazermos uma previsão do que será, concluído o mandato, a atual administração municipal. Temos em nós, no entanto, o sentimento da intuição que, reforçado pela regra de que a comparação reforça a generalização e explica a exceção, o andar da carruagem, pela observação comparativa de fatos semelhantes, dá-nos uma idéia do itinerário e destino final, infelizmente nada animador.

O prenúncio de mau agouro já tem início na campanha eleitoral com cenas vergonhosas de espionagem às manifestações do eleitor, com o intuito de inibi-lo e pressionar sua escolha, ofuscando a democracia no mais comezinho direito do cidadão. Um verdadeiro show de barbarismo, numa total falta de conhecimento do que seja política, como fazê-la de uma maneira elevada, regredindo à condição de amadores. Em virtude disso, vivemos o obscurantismo da democracia, subjugada que se encontra a razão aos baixos instintos do ódio e da intolerância.

Não bastasse o manto das trevas que nos envolve na vergonha, fato inusitado, indigesto e nada palatável ao eleitor que escolheu o atual prefeito, diz respeito ao autoritarismo da Secretária de Ação Social que, extrapolando funções adstritas à sua pasta, interfere nas demais, dando a entender quem manda na administração municipal. Servindo-se dessa aberração, é natural que a opinião pública, nas mais variadas reações que vão da revolta, da frustração do voto dado, transforme o Prefeito no centro das chacotas. Ávida pelo poder, mas arredia ao bom-senso, dá o ritmo e as cores da atual gestão, pintando o “sete” com as tonalidades da intolerância e do nanismo no discernimento de suas decisões. É tão difícil a atividade cerebral? Como seria bom se a secretária, adepta do racional, se inspirasse no Voltaire quando dizia que a razão é doce, é humana, inspira a indulgência, abafa a discórdia e fortalece a virtude.

O que mais chama a atenção nessa anomalia de atribuições é o verdadeiro estelionato do poder pela secretária em referência. E perguntamos: seu poder de mando além dos limites, é uma decisão do Prefeito ou imposição da mesma? Seja qual for à resposta, nenhuma goza da aprovação e do respeito da opinião pública. Na primeira hipótese, seria de se lamentar tão estapafúrdia iniciativa, confundindo a coisa pública como uma extensão do particular, para satisfazer caprichos domésticos. Na segunda, diríamos que o Prefeito é digno de comiseração. É tão notória essa inversão do poder, comenta-se publicamente, que quando alguém quer tratar de negócio que envolve o município, dirige-se à secretária e não ao Prefeito. Onde estamos? Penedo virou casa de sogra? Quando alguém recebe um mandato público, pode dispô-lo como bem entende? Não, sob pena de incidir na irresponsabilidade.

Qual a conclusão que podemos tirar dessa super-secretária? Achamos, dentro do absurdo que vivemos, que o Prefeito, a revelia da consulta popular, instaurou o parlamentarismo municipal. A secretária em tela é a primeira-ministra e, como tal, é quem governa. O Prefeito, numa função um tanto figurativa, é o chefe de Estado. É o pitoresco que faltava para ficar registrado na história de Penedo. Para tentar amenizar a culpa do Prefeito, perguntaríamos: será que a explicação estaria numa possível depressão, adquirida no curso da árdua e difícil campanha eleitoral? Esse quadro doentio não seria o responsável pela fobia em querer administrar? Se verdadeira fosse essa suposição, por um lado teríamos de lamentar e, por outro, seria capaz de resgatar-lhe todos os pecados cometidos.

Confessamos, é grande o nosso desconforto em abordar os presentes fatos, em razão do relativo conhecimento que temos com o Prefeito e ter-lhe sido um fiel eleitor. Mas como não devemos confundir o público com o particular, fazemos, sensíveis aos sussurros e insatisfação das ruas, imbuídos do espírito de crítica construtiva, na esperança de que, feita a devida avaliação, passem as ações a fluir dentro da normalidade.

Dizíamos, no início, que é muito cedo para fazermos uma avaliação da atual gestão do município. Podemos, no entanto, seja qual for o resultado, se mudança não houver, que desaprovamos o conflito de poder, situação que denigre a imagem de Penedo. Em síntese, não achamos que essa aparente acefalia seja o prenúncio do sucesso. Face a esse quadro que destoa das expectativas, sentimos palpitar dentro de nós a força do instinto das aves migratórias e, contrariando o nosso conservadorismo, buscar refúgio na segurança de novas e alentadoras esperanças.

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