Artigos

João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 08/06/2016 16:27

A Cegueira da Paixão Partidária


É bem provável que estejam certos os que acreditam que nada de grande se realizou no mundo sem a paixão. Mas devemos entender a paixão e a ambição como um impulso racional para atingir o objetivo visado, isto é, uma motivação dominadora e não uma paixão dominada pelo irracional fanatismo que observamos, em especial, nos que ainda acreditam, retardatariamente, em tupiniquins e mofadas convicções políticas.

O atual processo de cassação da Presidente da República, por parte dos que defendem o seu mandato, é uma clara demonstração de insensatez provocada pela cegueira da paixão política que coloca o interesse particular do PT em detrimento do Brasil. Infelizmente, temos de suportá-los, pois, embora civilizadamente seja um imperativo categórico que devemos ter o espírito de tolerância e o respeito às divergências de pensamento, custa-nos suportá-las quando a realidade dos fatos, de escancarada evidência, deixa de ser vista pela parcialidade partidária. A impressão que nos dão é que estão a sofrer de uma paralisia dos sentidos ou completa incapacidade de raciocinar. O que responderão se lhes perguntássemos como vêem a situação política e socioeconômica do país? Será que responderiam, apesar do caos, como o Dr. Pangloss, personagem de Voltaire, como a melhor dos mundos possíveis? Por outro lado, o que aconteceria com o Brasil caso ela permanecesse no poder? Teria condições políticas para reverter para melhor? As votações da Câmara dos Deputados e do Senado provam que seria impossível sairmos do atoleiro. Por que, apesar de toda essa clara demonstração de uma Presidente que agonizava, teria de sucumbir com o Brasil? Terríveis petistas que parecem autômatos, animais amestrados ou submetidos à experiência do reflexo condicionado, resumindo-se a esqueletos em forma humana que desconhecem, pela insuficiência de atividade cerebral, as primícias da grandeza do homem. Em tempo, ressalvamos as exceções.

Como uma criança que esperneia por ter perdido o doce, continua a bravejar disposição de luta para voltar ao Palácio do Planai». Mais uma cega, a cega mor, guiada pela paixão como instinto, não passando, portanto, de um desejo inútil. Só um acontecimento poderia acenar a seu favor, se beneficiada pelo quanto pior melhor viesse a acontecer com o Presidente em exercício, fato que julgamos com remota possibilidade.

O Brasil, de uma personalidade ímpar causou perplexidade ao mundo com o confuso impeachment, tendo chegado ao ápice com o atual Presidente da Câmara dos Deputados e sua estúpida iniciativa, própria de um néscio do baixo clero que, não bastasse a sua insignificante atuação parlamentar, não tem o senso do ridículo que o obrigaria a embrenhar-se para não ouvir sequer falar em política. Não pense a Presidente que o referido impedimento vai terminar num inusitado carnaval de passos e samba-enredo desafinados para coroar sem torno.

Embora o impossível possa acontecer, o seu empenho pela recuperação do poder, por mais forte que seja, não acontecerá, pois, quem deixou à deriva o transatlântico Brasil foi porque não teve e não terá o imprescindível tirocínio para conduzi-lo a um porto seguro.
 

Comentários comentar agora ❯

Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 01/06/2016 09:47

O Homem Sábio; O Homem Esperto

  Não é de hoje que o homem – na busca por vantagens materiais, políticas, profissionais, sociais, familiares – decidiu adotar costumes, hábitos, procedimentos e atitudes para alcançar seus objetivos nem sempre empregando métodos aconselháveis. A História mesmo nos dá conta de um bom número de personagens que atropelaram os chamados “bons costumes” para atingir seus propósitos. É sabido também que existem inúmeras maneiras de tais propósitos serem alcançados. Inicialmente, o que difere o homem esperto do homem sábio é a paciência. A paciência é da essência da sabedoria, enquanto a esperteza tem na pressa, na agitação, na precipitação, na imoderação o “modus operandi” mais apropriado. O termo sábio vem do grego “sofós”, daí gerando “sofia” que significa sabedoria. Tem como características principais a habilidade para agir de maneira acertada.

O vocábulo tem a ver com a inteligência de certas pessoas no sentido de exercitar, mais do que outras, o dom de se proverem de conhecimento de forma mais rápida, mais eficiente, mais racional. O sábio é aquele que tem paciência para aprender a respeito das coisas e inteligência para executá-las corretamente, sempre respeitando a moral, a ética, os costumes. Outra característica do termo é sempre se inclinar para o bem, além de dotar de humildade, respeito para com o pensamento dos outros, gentileza no trato com o próximo e espírito público as pessoas dispostas a se lastrearem nessa concepção. Ao sábio também está reservada a capacidade de enxergar longe, fugindo das implicações do dia-a-dia, não permitindo que dificuldades ocasionais lhe turvem a visão ampla do futuro – isso sem lhe tirar a qualidade de reconhecer seus próprios erros e buscar as soluções com rigor e desassombro.

Já o esperto... Bom, o esperto sempre cai na graça da torcida. Principalmente no Brasil onde os princípios são atropelados e se mesclam de tal forma que ninguém consegue mais enxergá-lo na inteireza de suas (negativas) qualidades. Por aqui até os sábios já concluíram que não tem muita vantagem em ser sábio. O negócio é ser esperto, agir com competência para lograr êxito, mesmo que através de práticas que abusem de atos desonestos, imorais. É bem verdade que em certas ocasiões os sábios podem até ficar (não são) espertos, se valendo da esperteza para, digamos assim, encurtar caminho na busca do que procuram. Porém, dificilmente o contrário acontece. Dificilmente, podemos afirmar que alguns espertos se utilizam da sabedoria para alcançar seus objetivos. Por quê? Pela própria essência, pelas próprias características, pelos propósitos que movem o esperto em todas as direções.

Embora agindo com competência no contexto da esperteza, o esperto sempre se utiliza do logro, da sutileza, da perspicácia, da astúcia, da manha para iludir, para enganar – e, assim, alcançar seus intentos. Por sinal, essa prática tem levado muita gente a convencionar que o esperto é inteligente. Ledo engano. Erra o alvo quem confunde esperteza com inteligência, embora vários estudiosos tratem os dois termos como sinônimos. Porém, na prática, analisando-se os frutos das ações do esperto e das ações do inteligente, vê-se que é grande a distância que os separa. A inteligência – tida como a capacidade mental de raciocinar, de planejar e resolver problemas, de abstrair idéias – tem em seu âmago muito mais afinidade com a sabedoria. Sábios, espertos, Brasil... Sarney, Maluf, Renan e tantos mais... Teremos sábios no Brasil? Ou o Brasil é um país de espertos? Deus meu, acuda o Brasil!!!   

Comentários comentar agora ❯

Valfredo Messias dos Santos

Valfredo Messias dos Santos

Procurador de estado, defensor público e membro da Academia Penedense de Letras

Postado em 18/05/2016 10:14

A Videira e os Ramos

Algo tenebroso está a nos rondar como um inimigo invisível que apenas vemos o resultado de suas ações, sem, no entanto, enxergá-lo. Esse inimigo espalha sua força maligna no ar que se propaga como as ondas do mar e atinge toda a humanidade. Temos sentido que a cada dia ficamos mais frágeis, inseguros, sem rumo. Sentimo-nos sem estabilidade física e emocional como se a gravidade também tenha perdido a sua força de atração para nos manter firmes, com os pés na terra. O que se passa com o ser humano? Por que vem perdendo, a cada dia, o seu valor dentro da escala da criação? Não apenas o valor humano, mas, o mais valioso: o valor moral? Por que alguns optam mais pelo mal do que para o bem? Por que torturam, mutilam e matam seus semelhantes?

É visível que a família tradicional que sempre foi dependente das regras sociais e religiosas, tem cedido, na trajetória do tempo, lugar aos diversos arranjos familiares, onde os poderes maternos e paternos são sempre afrontados em nome de uma liberdade, hoje imposta pela lei, cujo exercício equivocado, tornou-se libertinagem. A mulher, outrora vista como um ponto de equilíbrio dentro do lar, que tinha como incumbência cuidar dos filhos, da casa, da procriação e do marido, mesmo sendo a este submissa, ao conquistar, perante a lei, sua liberdade, buscou afirmar-se como pessoa livre, no mercado de trabalho, conquistando valores assegurados pela lei humana. Essa liberdade tão sonhada e conquistada trouxe também, para grande parte das mulheres, a infelicidade, devido terem optado por caminhos espinhosos que as levaram ao crime e à morte.

O Ministério da Justiça divulgou, recentemente, através do Departamento Penitenciário Nacional, que houve uma evolução muito significativa da população carcerária feminina em todo o país. Em Alagoas, o aumento de 2007 a 2014 foi de 444% ou seja, de 62 reeducandas, em 2007, para 284, em 2014. 70% desse total, por tráfico de drogas. Outras perderam suas vidas como revela a Central de Atendimento à Mulher, da Secretaria de Política para Mulheres da Presidência da República: Entre 2009 e 2011, foram registrados 16 mil e novecentos feminicídios ( morte de mulheres). Que liberdade foi essa?

Uns dizem que quando a mulher deixou o lar para se firmar, como pessoa, no mercado de trabalho, a família se desestruturou, abrindo assim, um vácuo por onde entraram a desobediência e a falta de limites, ferindo de morte as autoridades paterna e materna, acirrando por consequência, a disputa pelo poder entre o homem e a mulher no âmbito familiar, concorrendo para que um número sempre crescente de crianças, jovens e adolescentes, fossem cooptados pelo mundo das drogas de onde poucos retornam, tornando-se delinquentes em potencial agravando a violência a que todos estamos reféns.

Outros afirmam que as religiões perderam suas forças de conquista tendo muita dificuldade para levar as pessoas a um caminho correto, longe das garras do mal e se esforçam, até mesmo com a contratação de marqueteiros, para evitar a saída dos que ainda permanecem firmes. Por que pessoas “religiosas” abusam sexualmente de crianças, quando deveriam protegê-las, levando até mesmo, o líder religioso de uma das maiores religiões do mundo cristão, constrangido, a pedir perdão pelas crianças vítimas desses abusos, cujas vidas, ficarão marcadas para sempre? Por que certos empresários, autoridades, pais, parentes, vizinhos e amigos também enveredam por esse caminho promovendo sofrimento e dor arrancando de dentro desses inocentes a dignidade ainda em formação?

Para todos esses males e outros, como a discriminação pela cor, posição social, etnia, se busca uma explicação mais plausível, entretanto elas surgem sem nenhum conteúdo científico, apenas frutos de manifestações individuais de pessoas leigas ou especialistas nesses assuntos. Na verdade a índole de grande parte da humanidade tem se revelado má. Os direitos humanos são frequentemente violados, ora por abuso de autoridade, outras vezes por demonstração de poder e ainda pela discriminação contra índio, negro, moradores de rua... Não fosse, mesmo de forma ineficiente, a aplicação das normas constitucionais e infraconstitucionais, estaríamos vivendo um tempo de verdadeira barbárie.

Em um país democrático prevalece a vontade da lei, dai dizer-se “estado democrático de direito”, onde todos estão sob a égide da lei. Quando dizemos todos, estão incluídos os integrantes dos poderes e as autoridades das diversas esferas: federal, estadual e municipal. Perante a lei, somos todos iguais sem distinção de qualquer natureza. Afrontas e desrespeito a esse “estado de direito” tornou-se comum, o que é um perigo para a democracia. Também nos vem à pergunta: Por que isso acontece? Será que é pela gritante crise moral? Perguntas e mais perguntas sem as devidas respostas convincentes.

Estamos sem rumo, sem saber realmente o caminho a seguir. Não temos referências para nos espelharmos. Estamos sem líderes. Muitos daqueles que escolhemos para nos representar, para gerir a riqueza pública, se voltaram contra nós, e, em vez de preservar o patrimônio que a eles confiamos, o dilapidam e se enriquecem formando entre si, um bloco fechado, amparado por prerrogativas que criaram. Não temos força para romper esse bloco feito de imoralidade e poder. Um poder do mal, que o bem não tem sabido como combatê-lo. Vez por outra, surge, no meio de tantos, alguém que nos faz acreditar que é possível mudar e assim continuamos a viver alimentados pela esperança.

Diante desse cenário sombrio alguns concluem que, além de tantas outras, a falta de Deus pode ser uma das causas que justificam este estado de coisas. Fui buscar uma possível explicação para essa última assertiva, vez que também comungo, em parte, com ela. Como se trata de algo transcendental, em nenhum outro livro ou pesquisa encontraria as respostas a não ser no Livro Sagrado: A Bíblia. Vários relatos ali expostos nos levam à compreensão que Jesus viveu em um ambiente semelhante: de tramas, mentiras, favores e bastante hostil, onde o poder romano imperava com força e o imperador era reconhecido como deus, senhor da vida e da morte. A miséria, a insegurança, a falta de liberdade e os altos impostos, massacravam os mais pobres. Nesse cenário Jesus se apresenta com a pregação de uma boa nova, uma nova visão de vida, onde a prática do amor ao próximo seria o início de um novo tempo. Multidões O seguiam, não querendo aprender os seus ensinamentos, mas interessados em seus próprios interesses, dentre eles os milagres. Outros O acompanhavam como olheiros, a fim de levar às autoridades, as informações que pudessem comprometê-Lo. Hoje essa prática é chamada de dossiê.

Como um verdadeiro líder Jesus na sua trajetória terrena, se preocupava com o povo sofrido, principalmente com aqueles que estavam mais próximos: seus discípulos, pois sabia que em breve os deixaria, vez que se aproximava o dia fatídico de Sua morte. Jesus buscava a melhor forma de preveni-los para os futuros acontecimentos. Eram pessoas simples sem nenhum prestígio diante das autoridades, políticas e religiosas e, por certo, por serem seus seguidores, seriam afrontados, perseguidos e até mortos. Então em uma conversa franca disse-lhes que em breve teria que partir e que eles, os discípulos, saberiam o caminho para reencontrá-lo. Ficaram surpresos. Tomé, indagou: como saber o caminho? Respondeu-lhe Jesus: “Eu sou o caminho a verdade e a vida ninguém vem ao Pai senão por mim”. E começou a preparar-lhes os espíritos contando-lhes a seguinte parábola:

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto, limpa para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado: permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, sem permanecer na videira, assim nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim.”

Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanecer em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer... “

A orientação dada foi que os discípulos, e hoje, todos nós, permanecessem unidos à videira para que pudessem produzir bons frutos (amor, fraternidade, respeito, compaixão...), mesmo àqueles que se acham limpos, sem pecado. A regra é clara: Sem Jesus não é possível ser feliz.

Será que esses desmandos, essa falta de amor, de fraternidade, de bom senso, de respeito, de moral, de vergonha, acontecem por estarmos desligados da videira verdadeira? Por estarmos a cada dia, nos distanciando da seiva divina, de que tanto necessitamos? De estarmos nos desviando do olhar de Deus, dando-Lhe às costas e seguindo caminhos traçados por nós mesmos? Ele enfatiza que nós, os ramos, não podemos produzir frutos se não estivermos ligados à videira: Jesus, nem mesmo os que se consideram limpos, puros. Para produzirmos os frutos verdadeiros temos que permanecermos ligados ao tronco principal.

Nessa nossa busca de respostas, devemos refletir sobre as palavras de Jesus e nos colocarmos como galhos. Se os frutos produzidos forem bons, estamos ligados a Ele e, por consequência, viveremos felizes. Se os frutos são ruins: roubos, estupros, assédios, moral e sexual, riqueza indevida, desobediência, ganância, bajulação, desvio de recursos destinados aos mais carentes... Então somos apenas galhos secos, que não servem para nada a não ser para serem lançados ao fogo.
 

Comentários comentar agora ❯

Públio José

Públio José

Jornalista, publicitário, escritor e atento observador da vida

Postado em 11/05/2016 12:00

O prego, o martelo e a dor

De repente, surge a necessidade de algum objeto ser fixado na parede. Começa, então, a busca pelo prego e, em conseqüência, pelo martelo. Encontrados todos os elementos para suprir a necessidade da fixação, inicia-se a grande operação: bater na cabeça do prego para que o tal objeto seja fixado. Aí tem início um grande problema. Estará o pregador do prego devidamente capacitado a executar este trabalho? Não seria melhor convocar alguém do ramo ou, no mínimo, instruir-se melhor para bater no prego, com o martelo, para atingir o objetivo desejado? Dilema, grande dilema! Em razão do tempo, da necessidade urgente da fixação do objeto, da inexistência de alguém mais capacitado para executar o ofício, decide-se, então, pela grande empreitada. O prego é instalado no lugar correto, o martelo é devidamente levantado para desfecho do golpe – que se pretende certeiro. E, e, e, e...

É chegado o momento do encontro fatal entre a falta de capacitação para execução do trabalho e o corajoso gesto de se fazer o que não se sabe fazer. O golpe tão milimetricamente planejado erra o alvo e acerta com toda força o dedo do episódico e infeliz pregador de prego. A dor é lancinante. Na seqüência, a carne, machucada pela falta de destreza, abre-se pela força do golpe. O sangue, com seu odor e cor característicos, aparece triunfante, reclamando sua parte no negócio. Liberto dos limites que lhe são impostos pela pele e pelos tecidos goteja abundantemente para atestar que chegou ao cenário como conseqüência de um gesto mal executado. Sangue é vida. E, no episódio, um pouco da vida do nosso personagem se esvai sem apelação. Mas, interessante, daí não passa. Uma martelada no dedo não causa morte, embora machuque e até ocasione lágrimas, incômodos – e muita dor.

Essa experiência, guardadas as devidas particularidades, é semelhante ao atual momento vivido pelo Brasil. O Brasil pretende fixar na sua parede social, econômica, jurídica, política, eleitoral, a democracia, a ética, a moralidade, o respeito entre os poderes constituídos, o combate à corrução, uma melhor distribuição de renda, mas errou o alvo e acertou o dedo. A pancada não deu para matar, mas originou uma dor de profundas conseqüências e a perda de algum sangue – parte do patrimônio físico e moral que deveria preservar. Entre tantas marteladas brasileiras que erraram o alvo, e acertaram o dedo, destaque todo especial para a entronização, entre outros, de Renan Calheiros como liderança política. A dor, a vergonha, a impotência - lágrimas morais derramadas de difícil cicratização, mesmo que não tenham o condão de levar o país para a UTI dos propensos à morte.

Os sucessivos escândalos ocorridos no Congresso, a debilidade da matriz energética, o analfabetismo, a crônica situação de penúria que aflige a educação, a saúde e a segurança, são marteladas que machucam, que agridem a alma nacional, e impingem aos mais carentes e necessitados a condição da carne dilacerada pela conseqüência das políticas públicas mal conduzidas e mal executadas. Já está na hora do martelo brasileiro passar a ser manejado com competência e seriedade. Para que os pregos nacionais sejam fixados nos lugares corretos, trazendo, com isso, a solução de nossos problemas e não a eternização de carnes dilaceradas e sangue jorrado impunemente. Enquanto isso, a continuidade de Renan na presidência do Senado é como se à carne machucada fosse adicionado a cada dia um elemento nocivo para impedir-lhe a cicratização. Quem vai bater o martelo? Certeiramente, é claro...
         

Comentários comentar agora ❯

João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 27/04/2016 08:42

Constituição, Liberdade, Democracia e blá, blá, blá.

Vamos configura-las como se fossem três cabeças no corpo de uma mãe abnegada, terna e exasperada da qual estão a se servir filhos legítimos e bastardos de consciência como defesa do indefensável e hipócrita exibição de políticos liberais. Como virtuosas vestais e dado ao vulto de suas belezas e importância, chegando a causar agradável eufonia ao pronunciá-las, estão na linha de frente do combate entre acusadores e defensores do impeachment da Presidente da República. Não obstante o enorme coração materno, sente-se agastada e deverás condoída pelo massacre que vêm sofrendo suas cabeças. Somos todos testemunhas da procedência de seus lamentos. Quem está acompanhando o referido processo de impedimento deve estar sofrendo a mesma monótona chatice dessa mãe que estende indiscriminadamente para todos os seus braços. A correta aplicação das mesmas, segundo convicção de uma parte, contestada pelo lado oposto, são repetidas a exaustão, chegando a causar desagradável náusea e terrível incômodo aos ouvidos. Muito bem a propósito, quem ouviu o último pronunciamento da Presidente, um dia após aprovação do relatório que autorizou o prosseguimento do processo de impedimento, sentiu-se irritado com tantos e enfadonhos repetecos de injustiçada e ferrenha defensora da democracia.

 No mesmo estribilho seguem seus acólitos, esquerdistas na sua minoria, e que têm o péssimo defeito de enxergar em linha reta e se julgarem legítimos representantes da probidade. Não procedemos assim. Reconhecemos que nos primeiros anos do mandato da presidente houve uma preocupação com o equilíbrio no setor financeiro, dentro das metas traçadas. O que não lhe faltou e não lhe falta, estamos certos, é ou era o desejo, a satisfação e enorme orgulho de deixar gravada na memória da história, o exemplo de uma brilhante administração. Não existe também, até o Presente, ilícito penal que justificaria, pelo Supremo Tribunal Federal, o seu julgamento. Mas existe, por outro lado, o crime de responsabilidade para, constitucionalmente, embasar o processo de impeachment? As pedaladas fiscais podem ser causa suficiente para a procedência da sua cassação? Se presidentes anteriores fizeram o mesmo, por que somente agora passam a ser consideradas crime de responsabilidade? Queremos acreditar que há três diferenças entre o passado e o presente. As anteriores não causaram danos de qualquer natureza. As da Presidente, pelo volume dos recursos envolvidos, suas consequências e o dolo intencional para mascarar o desequilíbrio financeiro, constituem, sim, razão suficiente para processa-la. Escravizada pelo poder e a ideia fixa de preserva-lo a qualquer custo, abrindo generosamente a torneiras dos gastos públicos, esse gesto de interesse pessoal veio a desestabilizar o país, estancando a economia e gerando inflação, desemprego e inúmeras carências sociais.

 É bem verdade que por mais completa possa parecer uma lei ou um código em seu extenso articulado, dificilmente poderão abranger toda a essência da sua finalidade. Haverá sempre um fato ou circunstância de origem imprevisível, estranha e até mesmo exótica, que fogem às previsões do legislador. A nossa Constituição Federal , por exemplo, que incorpora em seu texto assuntos que poderiam ser regulamentados em leis ordinárias, foi extremamente concisa no que diz respeito à cassação do mandato presidencial. O que não nos falta é a estúpida mania pelo excesso das formalidades processuais.

Em resumo, somos vítimas a sofrer as consequências de uma inversão de valores onde a vaidade do poder, em detrimento do interesse do país, terminou por nocauteá-lo, paralisando seu crescimento e causando, como inevitável, a frustração e a indignação geral de uma nação. Frente a essa realidade como pode a Presidente, com tamanha carga de responsabilidade sobre os seus ombros, tenha coragem de alegar inocência e ausência de crime de responsabilidade?

De tudo isso, o que por antecipação podemos depreender de todo o quiproquó do processo de impeachment, das repetidas confissões da Presidente de defensora da liberdade, da democracia e respeitadora das normas constitucionais, assim como suas lamentações de vítima injustiçada pela inobservância das três virtuosas vestais acima, elas não poderão impedir a perda do seu mandato.
 

Comentários comentar agora ❯