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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 16/11/2016 17:27

Tentando libertar-se das tempestades da paixão

A mulher que se acredita ideal. Quer seja fruto de uma avaliação mental, quer resulte de uma súbita atração impulsionada pelo olhar clínico do instinto, não isenta os enamorados em grande parte das tempestades amorosas. Isso porque sendo impossível o pleno entendimento a dois, podem acontecer inúmeros desencontros e suas naturais tormentas de uma relação amorosa.

 Fraguinha, como era chamado na intimidade, estatura relativamente alta e magro, tinha uma compleição sensível que o predispunha tanto para sofrer, quanto para aurir o prazer, as delicias das grandes emoções. Fazia o curso de psicologia, deixando-o pela metade, talvez pela convicção de não ser uma ciência, mas pseudo ciência que vive de modismos do que de resultados frente ao obscuro e insoldável espírito do homem, um eterno desconhecido.

 Aconteceu que Fraguinha, como qualquer um, não estava livre de ser fisgado pelas garras do amor e ficar submetido ao sabor de seus caprichos. Com pequenas experiências a partir dos quinze anos, aos vinte e três teve a fortuna e o infortúnio de cruzar seu destino com Marília, linda jovem com cabelos longos, olhos castanhos, um metro e sessenta e cinco de um corpo esguio e tentadoramente curvilíneo, era emoldurado por um olhar meigo e doce sorriso que davam a Fraguinha a sensação de estar diante de uma obra divinamente concebida para os prazeres do amor. Era um ser capaz de atender tanto as exigências da mulher ideal, quanto para incendiar a atração de dois corpos sadios e sedentos de um embate amoroso.

 Conheceram-se em um shopping, apresentação feita por uma amiga do Fraguinha. Após cumprimentos formais, acertaram um encontro que veio a acontecer em um elegante restaurante. Era preciso causar boa impressão à sua sedutora diva. Não é preciso dizer que desse encontro iria surgir, com o decorrer de alguns meses o mais tumultuado relacionamento amoroso. Usufruindo de inicio as delícias do fogo da paixão, não tardaria ver-se mergulhado na caldeira infernal. Isso como consequência do caráter possesivo e tempestuoso do amor que quando transtornado, está propenso aos vendavais e protagonizar as maiores tragédias. Enquanto Marília não cabia dentro de si pela sua beleza por todos admirada, Fraguinha tinha o sentimento em direção oposta. Quem tem, a feiura a seu lado, não pode temer a sua perda. Bem diferente é a situação daquele que desfila com uma beldade escultural, sempre ameaçado pelo vôo rasante de gaviões que pretendem arrebatar-lhe a prenda de seus sonhos.

 Naturalmente, era de se esperar que Fraguinha procurasse conter seu ímpeto de ciúme que certamente poria em risco, tão de repente, seu idílio com a encantadora Marília. O ciúme, incapaz de ser contido, tende gradativamente vir a explodir. Fraguinha sentia dentro de si um turbilhão de emoções que mais cedo ou mais tarde, acreditava, iria leva-lo a cometer um desatino.

 Para encurtar esta história, semelhante a tantas, basta esclarecer que após repetidas brigas com rompimento e reatamento, decidiu, após o ultimo desenlace, por um ponto final, acreditando que poderia achar uma válvula de escape num pretenso entendimento da gênese do sentimento amoroso. Racionalizá-lo era o mais eficaz de torná-lo insipido e sem graça. Talvez fosse melhor a insipidez à tortura ardilosamente engendrada pelo instinto que, inspirando a poesia e a crença do amor eterno, termina, como no seu caso, a sucumbir aos caprichos da paixão.

 Daí porque, dando inicio a seus questionamentos, perguntava-se: como entender que enquanto Marília, em sua vaidade feminina, era puro êxtase por sentir-se bela e admirada, ele se enchia de ódio destrutivo contra ela e seus admiradores? Como entender essa reação se por unanimidade afirma-se ser ódio incompatível com o amor? Por que, então, acontece? Ocorre que o amor, por mais que se pinte uma tela enaltecendo o esplendor de seus encantos, no fundo é carnal e possessivo e tudo que contrarie essa natureza animal, pode resultar violentas consequências. Marília, inconsciente ao desfilar perante os olhares libidinosos, assemelhava-se a uma fêmea no cio, convidando os machos para perto de si e após a luta escolher o vencedor para reproduzir a espécie . Fraguinha sentia-se um provável derrotado, fato que aos poucos ia aumentando seu ódio de vingança. Valeria a pena consumar uma tragédia e sofrer estupidamente suas consequências? Animalescamente elas acontecem, fruto de uma súbita emoção, carente de uma avaliação fria e racional, como estava a fazer.

 Afinal de contas, nós, homens, sob o aspecto amoroso, não passamos de reprodutores para disseminar a espécie. Mantida a relação sexual com uma mulher, a próxima passa a ser mais atraente. Macho fiel faz parte das exceções. A natureza presta-se a fazer com maestria seu papel de dissimulada poetisa, que faz despertar a atração pelo belo nas relações sexuais e, como complemento, incutir na cabeça dos ingênuos que o amor de verdade existe, pode ser eterno, indiferente ao desgaste do dia a dia.

 Sem essa ingênua fantasia, dizia Fraguinha com aparente convicção, passarei a preferir a insipidez do racional, sem emoção, a continuar ser um capacho dos caprichos da natureza.

 Será que conseguiu?

 

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 04/11/2016 15:23

Resignada Partida Para O Desconhecido

Ilustração
Resignada Partida Para O Desconhecido

Se a vida e a morte sucedem uma a outra como lei universal a tudo que existe, por que não aceitamos a morte como espontânea naturalidade, em vez de senti-la e encara-la como um eterno fantasma a nos apavorar? Certamente por se tratar de uma estratégia do Criador em prol da sobrevivência. Se assim não fosse, se não a temêssemos, se não a víssemos como uma visitante inesperada e traiçoeira a destruir as nossas melhores expectativas, o que seria da vida? Perderia, sem dúvida, todo o afã de ser vivida. Embora coexistam por determinação de uma lei natural, da mesma forma elas se atritam e se repelem, assim como acontece na divisão do átomo entre os polos positivos e negativos, impedindo que a vida, sem conflitos, tenha um curso linear e monótono, negando-a.

Eram algumas das considerações existenciais que costumava fazer Jota Farias sob o efeito de agradáveis aperitivos que se somavam à bela paisagem, inspiravam sua veia filosófica. Contava com um pouco mais de sessenta anos de idade. Sua saúde, aparentemente boa para todos, corria muito bem, assim como seus projetos de vida. Ocorre que ninguém está livre das desagradáveis surpresas do destino. Seu apego pela vida obrigava-o a fazer exames de rotina, às vezes outros de maior abrangência. Foi exatamente em um deles que ficou constatado, ser portador de um câncer, a mais insidiosa das doenças. Não é preciso dizer do indescritível pandemônio que ocorreu em seu interior, sentindo o mundo a desmoronar-se. Segundo a biopsia, era do tipo mais arredio ao tratamento, fato que encenava com o sepultamento de suas esperanças.

Foi durante esse período que mantivemos os últimos contatos. Foi também quando tivemos a curiosidade de observa-lo no antes e depois da enfermidade. O antes era o Jota Farias risonho, otimista e fraternal amigo. Tinha um gosto especial por bailes, sendo capaz de dançar com um cabo de vassoura. Em resumo, encarava a vida desassombrado e determinação em seus afazeres.

 Nas primeiras visitas já notávamos uma certa mudança em seu comportamento. De conversador, semblante sempre alegre e risonho, deu lugar a uma sóbria loquacidade. Seu olhar dava-nos a nítida impressão de estar perdido na escuridão de suas divagações.

 De vez em quando, parecendo querer ser fiel à sua personalidade, mostrava-se ou encenava um comportamento expansivo, afirmando sempre, nesses raros momentos, que iria vencer o malfadado câncer.

 Com o passar de um ano e meses, sem sinais de que estava cedendo ao tratamento, transparecia em seu rosto o alheamento e a apatia a tudo. O que conversavam os que o visitavam não lhe despertava o mínimo interesse. Sequer uma boa piada, exímio contador que era, conseguia espantar o frio indiferentismo. As visitas, face a sua iminente derrota, eram dispensáveis. Preferia sofrer a sós a tortura de seus últimos dias. Os gestos de comiseração eram-lhe insuportáveis. Era a única bravura que lhe restava. Suportava dores lancinantes. Chegou um momento que não mais sentia os braços e pernas, sobrando-lhe apenas as faculdades mentais, que nesse momento crucial era preferível não tê-las. Diante desse quadro irreversível, profetizou a sua mulher que iria partir naquele dia. Em menos de uma hora faleceu.

 Agnóstico, sem convicções definitivos sobre assuntos transcendentais, especialmente sobre o outro lado da vida, Jota Farias, derrotado com bravura ante um inimigo invencível, partiu, resignado, para o desconhecido.
 

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 19/10/2016 15:00

O Deus Lula em Queda do Olimpo

O poder é um monstro desestabilizador da retidão de caráter, submetendo-o às mais variadas formas de perversão. Daí porque quando alguém gradativamente dele se sente investido, começa a ceder aos acenos que o seduzem para as tentações, e assim, desprezando a censura íntima, aos poucos deixa-se cegar pela cobiça e ambição que inevitavelmente leva-o para a corrupção que cresce sem limites, na proporção do tamanho incessante do poder. Para que isso aconteça, sentem os que a exercem a necessidade de uma permanente estabilidade. Outro não foi o caminho que vinha percorrendo o PT, que para alcançar esse fim, todos os meios era válidos, mesmo os mais visceralmente opostos ás suas pretensas promessas moralizadoras.

 O que fizeram para mascarar, enquanto não vieram à tona, os seus desatinos e fanfarronice? Bem, como os petistas dando-nos sempre a impressão de serem os eleitos para a purificação ética da política brasileira, imaginamo-os como semideuses que tomaram o monte Olimpo, morada dos deuses pagãos, e nele fizeram o palácio das ilusões perdidas sob o reinado do infalível e intocável deus Lula. Seus planos estratégicos desmoronaram e agora se encontram enredados nas malhas da justiça. Insistindo sempre na inocência, muitos se encontram apavorados, como o impoluto e imaculado Lula, pelos raios e trovões produzidos pela vara mágica do juiz Sérgio Moro. Alguns já se encontram presos e acorrentados ao rochedo do Olimpo para reparação de seus crimes, outros estão prestes a serem capturados. Por último ou um dos últimos será do semideus líder inconteste dos demais, Lula, o irrepreensível ator da representação da própria inocência. Tentativa aparentemente inútil. O diabo, por mais que esconda o rabo, deixa sempre uma pontinha de fora, como dizia o presidente Lincoln.

 A falsa convicção do Lula arrostando bravata de que duvida que alguém apresente uma prova sequer de ter recebido propina, imóveis ou ter se apropriado do dinheiro público não tem firmeza pelo convencimento dos fatos. Por isso, é uma ingenuidade acreditar que a prova de seus crimes só tem sustentabilidade se fundamentadas em documentos probatórios. Os dois imóveis, por exemplo, o tríplex do Guarujá e o sítio em Atibaia, principais objetos da investigação, não estão escriturados em seu nome. E daí? Essa circunstância, por si só elide os claros indícios de que de fato eles lhe pertencem? Além de outras provas exibidas pelo noticiário televisivo, perguntamos: qual o interesse da OAS em fazer benfeitorias nos referidos imóveis? Teriam os supostos proprietários do sítio de Atibaia prestígio para receber os favores prestados pela OAS? Por que eram frequentes seus fins de semana no sítio em apreço? Fruto de uma abusiva benevolência de seus donos? Por que deixou de frequentá-lo? Por que lá se encontram guardados bens recebidos, em razão do cargo, durante o período presidencial? Ele tudo explica, mas não convence.

 Em síntese, o que houve em todo esse imbróglio petista foi o mais improvável casamento entre a sua elite e o setor empresarial, visando a obtenção de mútuos favores. Não era notório o relacionamento de Lula com os maiores representantes do setor produtivo? Quem come ou lida com o mel, dificilmente não se lambuza. E o que poderia resultar dessa união espúria entre o papa Lula, seus cardeais e a nata capitalista? Num casamento de piratas da mais pura cepa brasileira, agora em fase de dissolução. É o castigo que vem sofrendo, após sua captura, por conta de uma lua de mel sacramentada pelo desregramento sem limites.

 Felizmente, o barco pirata foi apreendido e com o julgamento de toda a sua tripulação passaremos a vislumbrar um Brasil em céu de brigadeiro. Passaremos, também, atingido o seu clímax com a prisão de Lula, em queda do olimpo, a vê-lo desnudado de sua desmedida empáfia e o bem provável acaso de sua vida política.

 É o que nos basta para vermos que estamos ensaiando a sair da corrupção, permitindo que façamos jus, exaltados de agradecimento, ao surgimento de um novo Brasil.
 

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João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 10/10/2016 09:47

Repúdio às Representações

Ilustração
Repúdio às Representações

Enfeitar para enfeitiçar e seduzir o eleitor foi a sigla demagógica escolhida pela coligação “Mudar Com Mais Amor”, tendo como candidata a Sra. Ivana Toledo. Como o homem quando apela para as ações nobres ficam elas prisioneiras do refrão faça o que digo e não faça o que eu faço, outro não foi o resultado senão ter sido vítima do próprio veneno da enganação. O termo amor, que não deixa de ter um efeito mágico aos ouvidos dos inocentes, temos de convir que não deixa de ser uma palavra prostituída pelo seu uso indiscriminado, quer para exprimir a nobreza de um sentimento, quer para explicar ações que lhes são alheias. Noutro sentido, equipara-se a uma cobaia ou animal de sacrifício para falsear a verdade.

Será que o amor, suas qualidades mágicas e seus efeitos polivalentes não se estenderiam à transigência, à tolerância à crítica que normalmente é dirigida a quem exerce ou pretende exercer a função pública? Não na concepção da amorosa coligação acima, melindrosa a qualquer exame crítico. Prova desse comportamento nada democrático foi revelado com as representações em juízo contra o conteúdo de dois artigos publicados no portal aquiacontece, de nossa autoria, diga-se de passagem, não contém adjetivos que se enquadrem nas alegações de seus advogados. No primeiro, intitulado de as vantagens de uma eleição franciscana, fizemos uma rápida referência aos quatro candidatos a prefeito, afirmando que Ivana Toledo na qualidade de mulher de Alexandre Toledo, não passava de um disfarce ou camuflagem do mesmo. Foi uma observação que qualquer comentarista político faria por ser de caráter político, procedente ou não, sem corar ou sentir peso de consciência de estar ferindo a reputação. A outra parte diz respeito à informação esdruxula da candidata que se dizendo empresária, não apresentou a relação de seus bens, como fizeram seus adversários. Pode-se imaginar tamanho absurdo? Continuando a arremeter com fúria contra moinhos de vento como Dom Quixote, foi contra um artigo de ficção denominado de “Niquinha queria ser prefeita”. Ora, semelhanças, coincidentemente, existem. Curiosamente, provado ficou que Ivana Toledo viu-se retratada nas qualificações nada admiráveis da Niquinha que no passado e não no presente, queria ser prefeita, não obtido êxito, quem sabe, por conta de um comportamento antipolítico. Face a essa identificação, que revelaria uma verdade se diretamente dirigida a ofendida, nenhuma razão para sentir-se melindrada.

 Em resumo, o bom e verdadeiro coração transmite compreensão, tolerância e amabilidade, exatamente o que não percebemos por conta da mencionada coligação. Pelo que ora expomos, estamos convencidos do total descabimento das representações acima referidas, germinadas em um espírito pouco afeito à tolerância. Felizmente, tivemos uma compensação. Para amenizar nosso despontamento, sentimos o alívio de estarmos livres de uma prefeita-rainha contraria a índole de um Penedo avesso aos caprichos de uma majestade.
 

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Valfredo Messias dos Santos

Valfredo Messias dos Santos

Procurador de estado, defensor público e membro da Academia Penedense de Letras

Postado em 26/09/2016 15:11

Nós Votamos Em Nós Mesmos

Ilustração
Nós Votamos Em Nós Mesmos

Vivemos em um País onde a democracia ainda está se ajustando com muita dificuldade porque o seu conceito ainda não foi absorvido pela maioria dos brasileiros e, principalmente, pela classe política, de quem depende o seu aperfeiçoamento. A cada pleito renascem novas esperanças no sentido de que os gestores públicos entendam que são apenas administradores da coisa pública e não donos do erário; que nas democracias o poder é do povo que o exerce por meio de representantes eleitos pelo voto. Por ocasião do pleito eleitoral, promessas repetitivas fazem parte do script já desgastado cujo efeito, com o passar dos tempos, vem perdendo o seu valor porque são destituídos de verdades. A classe política brasileira necessita de uma reciclagem a fim de que sejam expurgados àqueles que comprometem o sistema com suas ações e práticas nocivas. No entanto, com a baixa escolaridade e o desinteresse pelas questões ligadas à politica - como a “arte ou ciência de governar os povos” -, por parte do eleitor, fica bastante difícil essa mudança que deveria acontecer, já, porque o desgaste é comprometedor.

Alguns afirmam que falta consciência politica à população. Complemento dizendo que também falta consciência politica à maioria dos políticos brasileiros. Para se ter consciência politica necessário conhecer o que seja cidadania, conhecer os direitos e como busca-los ; entender cada cargo ocupado por nossos representantes e quais as suas responsabilidades. Tudo isso só é possível se houver educação de qualidade, com professores compromissados e cônscios de sua missão principal: formar o cidadão consciente de seu papel na sociedade.

Recentemente um juiz da justiça federal de Minas Gerais ao expedir um alvará de soltura em favor de um camelô, escreveu que : "os bandidos deste País, que deveriam estar presos, estão soltos dando golpe na Democracia". É um despacho judicial com crítica a esse estado desvairado de conduta política, trilhado pela maioria de nossos representantes.

Acredito que alguns gestores, desejam contribuir para o desenvolvimento das cidades que administram , honrando o mandato concedido pelo povo para promover o bem estar público, de todos. Aqueles que assim procedem merecem o reconhecimento, não gratidão, porque essa é sua missão: executar projetos viáveis e legais, cumprir as promessas feitas e agir com honestidade. Ao ascender ao honroso cargo de gestor público, o político, deve ter a consciência de que governará para todos, tanto para os que nele votaram como para os que não sufragaram seus votos a seu favor. Além do mais, estamos em uma democracia, mesmo ainda sem firmeza, mas que amadurece aos poucos, onde o poder é do povo, pelo povo e para o povo, na definição de Abraham Lincoln.

Há gestores que se acham donos desse poder e agem como empregadores, vendo os servidores públicos como empregados e o povo como súdito. Uma visão distorcida que compromete a democracia e se aproxima da ditadura. Outros, de forma desonesta, lançam mão dos recursos destinados ao povo e dele faz uso para seu próprio bem estar e de seus familiares, deixando, no caso da Merenda Escolar, milhares de alunos carentes sem aquele alimento que o atrai para a escola aliviando a fome que se instala em seus lares. O professor e pesquisador José Márcio Camargo, da PUC, diz que “investir no Bolsa Família é investir em educação porque a neurociência evidenciou o período crítico para a aquisição das habilidades de linguagem e aprendizado de uma pessoa que vai até os 12 anos de idade “.

O gestor ideal deve estar comprometido com a condição humana das pessoas, principalmente dos mais fracos, dos mais necessitados, dos mais vulneráveis, porque, no plano politico, o direito do pobre é o mesmo do rico, do abastado. A visão humana é uma visão cristã, onde a compaixão deve ser exercida. Compaixão é colocar-se no lugar do outro e questionar-se: se estivesse naquela situação o que gostaria que fosse feito comigo? E, não se trata apenas de fornecer alimentos, mas de zelar pelo local onde está a sua moradia, eliminar as poças d’água em frente de suas casas, evitando que venham a contrair doenças, dar-lhe uma melhor condição de mobilidade, em fim, vê o outro, o eleitor, como senhor, dono e não como servo.

Muitos afirmam que o Brasil vive nessa situação politica caótica, porque os eleitores não sabem votar. Não comungo com essa assertiva, apesar de respeitar a opinião dos que assim pensam. A situação politica decadente não é culpa do eleitor, apenas, mas também, de políticos descompromissados com a democracia, com o estado democrático de direito e com as promessas feitas. O povo vota naquele que acredita; naquele que lhe comprou o voto; naquele que lhe deu uma caçamba de areia, barro ou piçarra; naquele que prometeu um emprego para seu filho; naquele que, se ganhar, seu emprego está garantido; vota por amizade, por favor recebido, e até por paixão.

Em artigo publicado na Revista Veja, intitulado: “Bolsa Família: voto racional, e não de cabresto”. Maílson da Nóbrega, citando o pesquisador acima mencionado diz: “O eleitor mira seus interesses quando vota. Estudos indicam que o pobre não se influencia necessariamente pelos poderosos. Ele é “o “ignorante racional”, termo criado pelo economista americano Anthony Downs”. “Por meio do voto, esse eleitor tenta antes de mais nada maximizar seu bem – estar. Seu voto é coerente e racional “.

Por esses dias ouvi de uma senhora o seguinte relato: Na eleição anterior, um candidato a vereador, indo à sua residência, fazendo campanha, ouviu dela que necessitava de alguns materiais para melhorar a situação de sua casa que era crítica e apresentou-lhe uma relação do que necessitaria. O candidato asseverou que se ganhasse a ajudaria. Tendo o candidato sido eleito ela compareceu em sua residência para cumprimentá-lo e, naquela ocasião foi até abraçada. Passados os anos nunca mais foi recebida pelo agora, vereador. Neste ano, volta o vereador a pedir o voto daquela senhora com um sorriso aberto. Ela o recebe e pede para que ele espere um pouco. Quando voltou trouxe consigo a relação que havia apresentado há quase quatro anos e o santinho. O vereador meio sem jeito olhou para ela e disse: calma, muita calma esfrie a cabeça e se foi. Aquela senhora disse-me logo: Não voto mais nele e recomendo às pessoas a fazer o mesmo porque ele não cumpriu sua palavra.

Ora, assim como o eleitor vota no seu próprio interesse, o político age da mesma forma. O processo de impeachment, que foi encerrado recentemente, foi uma prova viva, escancarada, de que ali não existiam juízes, com capacidade de julgar um fato, politico e jurídico. Cada um votou no seu próprio interesse, no interesse do partido e não preocupado com o senso de justiça e com a imparcialidade. O mesmo exemplo se aplica à cassação do deputado Eduardo Cunha que demorou meses, exatamente por causa dos interesses políticos.

Em fim, hoje, pela desconfiança, o povo vota no seu próprio interesse, ou seja: de alguma forma, nós votamos em nós mesmos.
 

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