João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 20/12/2017 10:17

Imaginando a Diferença: Natal do Homem e do Animal

Divulgação
Imaginando a Diferença: Natal do Homem e do Animal

Qual seria o mais autêntico? O nível de inteligência faz a diferença. Acontece que por nos encontrarmos no topo da criação, tendo como divisor a faculdade racional, não podemos afirmar que os animais, na sua totalidade, são incapazes de manifestar comportamento no qual se evidencia o uso da inteligência. No que diz respeito a ferocidade ou presumida inclemência contra suas vítimas, não passa de sua estratégia de sobrevivência. Ao contrário do homem, não mata com requintes de brutal sadismo. Por outro lado, se o homem tem nobreza de sentimentos, os animais, eventualmente, o demonstram tais como o companheirismo e a solidariedade.

Quem é aficionado, como somos, em assistir documentários sobre o reino animal, deve lembrar-se de cenas que causaram incredulidade. Vamos citar o caso de um lobo tentando adquirir um novo aprendizado. Numa corredeira, ursos capturavam salmões no período de desova. O lobo, predador rival e mais fraco, observava a uma distância segura. Passado algum tempo, sentindo-se apto, parte para a pesca e consegue êxito. O curioso é que a pesca não faz parte do costume dos lobos e o peixe não faz parte de seu cardápio. Para não nos alongarmos com tantos casos, vamos a um outro. Trata-se agora de um gesto de solidariedade. Abatido um búfalo, uma das leoas, anteriormente líder da caçada, fora acidentada e não podia participar do banquete pela perda de alguns dentes e parte do lábio inferior. Uma outra, provavelmente sua irmã, observando o drama da fome da incapaz, conseguiu, mordendo uma das patas do búfalo, pô-lo de barriga para cima, a fim de que pudesse comer as carnes moles, intestino, fígado, etc. Salvo-a da morte pela inanição. Os dois casos não fazem parte de um comportamento habitual, não fazendo parte do instinto.

Não menos interessante é a intuição de alguns animais que encontram a cura para certos males, como a verminose, através da ingestão de certas folhas. Bem semelhante ao homem primitivo ou ignorante até os nossos dias. O Criador deixou escapar resquícios de qualidades ou virtudes tidas como exclusivamente humanas.

Fiquemos agora no imaginário do natal dos animais. Conhecemos muito bem o nosso, assim como as demais festas, sejam religiosas, mundanas ou pagãs. Só os nomes são diferentes, as comemorações são iguais. A sexta-feira santa, por exemplo, seria o oposto do natal. O que predomina, em ambos, é o paganismo que de fato nunca abandonou nem abandonará o homem, mundano por natureza, que tem no prazer a biruta que direciona a essência de sua vida. Até as religiões conservaram seus resquícios. Eis porque, comemora-se o nascimento de Cristo e a sua morte, com a comida e a bebida. São os ingredientes indispensáveis. As bebedeiras baconianas e as extravagâncias pantagruélicas para satisfazerem o estômago, são as formas sagradas para festejar e prantear Cristo. Excluída a divertida animalidade, emergem, numa exibição apropriada a troca de presentes e o desejo, a todo momento, chegando a abusar, de que todos tenham um bom natal e um venturoso ano novo. Também a infantilidade do amigo secreto com o descaramento de elogios nem sempre sinceros.

Os animais não procederiam de maneira diferente se fossem mais inteligentes. Com uma visão estreita da vida, teriam um natal radicalmente de acordo com os mandamentos da deusa da caça. Assim, foi que imaginamos assistir, na savana africana, as comemorações à Diana. Faziam parte a nata do poder, elefantes, leões, hiena, leopardo, guepardos e inúmeras presas, todos sem manifestar qualquer medo. Foi uma original reunião que, pela pouca inteligência parecia composta por fundamentalistas. Não contavam, durante a preleção, piadas, não tratavam de negócios e aventuras extraconjugais. Uma raposa foi indicada para fazer a pregação. De frete para a manada, por trás a imagem de Diana, agradece a deusa por garantir-lhes o sustento e desejando que concedesse aos fracos mais sagacidade e agilidade para escapar dos mais fortes e que estes focem mais clementes com suas presas. Pedido inútil, da mesma forma, entre os homens, com o desejo de paz e próspero ano novo.

Concluída a peroração por falta de outros assuntos, ouvimos urros, gritos, cantos, cada qual na sua linguagem. Um verdadeiro coral que emitia uma sensação de paz e tranquilidade. Sem os excessos do homem, flatulentos e embriagados, encerrada a solenidade, segue cada qual para o seu território, certos de que no dia seguinte, sem outra saída para sobreviver, terá lugar a perseguição do mais forte ao fraco.

Sob esse aspecto, homem e animal são vítimas da ingenuidade e de uma mentira, não passando o natal de uma demonstração, de uma breve encenação de que a paz só momentaneamente existe.
 

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