João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 07/11/2018 15:03

Os Noventa Anos Do Penedo Tênis Clube

Se voltarmos noventa anos no tempo e retermos na memória a cidade de Penedo, percebemos o seu minúsculo tamanho, quer na área urbana, quer na área populacional. Com essa pequenez, custa-nos acreditar que tenha conseguido implantar um pujante polo de desenvolvimento sócio - econômico e cultural. Na época foi bafejada pela sorte graças a sua localização geográfica e as condições favoráveis do São Francisco, permitindo a navegação de barcaças e navios que levavam e traziam mercadorias que eram encaixotadas e distribuídas para os municípios circunvizinhos de Sergipe e Alagoas. O dinamismo dessa atividade propiciou, inevitavelmente, o surgimento de uma classe de promissores comerciantes que formariam a nata social, impondo uma linha divisória entre ricos e os demais.

O Penedo Tênis Clube, sem dúvida, foi o mais característico e emblemático marco dessa divisão. Suas festividades não conseguiam resistir ao esnobismo para mostrar o peso e a importância de seus sócios, contratando para seus bailes orquestras de nível nacional e internacional. Assim viveu por algumas décadas a planar nas alturas de sua vertigem exibicionista. Mas como tudo que sobe desce, com o gradual desaparecimento dos sócios fundadores, a tirania de suas exigências para o acesso de novos sócios começou a ceder permitindo que outros menos abastados fizessem parte de seus quadros. Mais adiante, em sua terceira fase, com a mudança dos hábitos recreativos, fenômeno generalizado que se caracterizou com o esvaziamento dos clubes, as porteiras do Tênis foram escancaradas, impondo sério castigo ao espírito de seus idealizadores que souberam, com requinte e bom gosto, impor um estilo nobre de se divertir e espairecer, passando a rastejar com a arraia miúda que o condenou à morte definitiva.

Era preciso revitaliza-lo. Como um especialista em recuperar empresas falidas, o Eduardo Regueira conseguiu bafejar-lhe o sopro de vida, mesmo que uma vida anêmica, sem a vivacidade de outrora. Aventuro-me a dizer que a sua ressurreição teve como finalidade a festa comemorativa de seus noventa anos de existência que culminou com a vinda de sócios remanescentes da segunda fase, espalhados pelo Brasil.

Foi, certamente, o seu ultimo gesto de grandeza que proporcionou um dos mais belos sentimentos que foi o reencontro de velhos amigos num clima de eufórica confraternização, como de fato aconteceu. Não haverá, seguramente, festividade alusiva ao seu centenário. Provavelmente não mais existirá como também não mais existirão os que se fizeram presentes aos seus noventa anos. Os poucos vivos serão vivos mortos, inativos para qualquer empreendimento. Os novos não tem história para ter apego. O Tênis, sem vida, terá por muito tempo preservada a sua estrutura. Por dentro, no entanto, em forma de assombração, permanecem cenas vivas de seu passado, podendo as mesmas serem captadas pelo sensitivo o ecoar das brincadeiras, gritos de emoção e alegria.

Assim foi o Tênis, nascido na opulência, morreu na solidão e milagrosamente, num profético breve tempo, renasceu da própria cinza como uma fênix para, num elegante gesto de um verdadeiro gentleman, convocar seus saudosos sócios para uma mútua despedida até o próximo retorno na eterna sucessão de tudo, se é que o eterno retorno existe.
 

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