Izabela Oliveira

Izabela Oliveira

Turismóloga por formação, historiadora por paixão e servidora pública do município de Penedo.

Postado em 29/05/2019 15:35

Um pouco de Memória e Identidade Cultural na visão de uma turismóloga penedense

Izabela Oliveira
Um pouco de Memória e Identidade Cultural na visão de uma turismóloga penedense
Convento Santa Maria dos Anjos

Hoje falarei um pouco sobre um Patrimônio Histórico belíssimo, tombado pelo IPHAN em 1941. É um local que respira história e possui um conjunto arquitetônico impressionante, desde sua construção que passou por vários estilos arquitetônicos, afinal foram 99 anos (1660 - 1759) para ficar realmente pronto. Esse local foi e é um marco para nosso povo. E as memórias ali contidas e contadas pelos frades (spoiler) e pela população mais antiga que frequenta esse local sagrado, os objetos pertencentes aos frades que já se foram, uma biblioteca de valor inestimável com coleções de livros em alemão, inglês e português arcaico, que chegam a ter 100 e até 200 anos, tudo isso faz parte da história do nosso povo penedense que deve conhecer, admirar, preservar e proteger parte de nossa história ali guardada e resguardada.

Acredito que muitos já devem ter descoberto que essas humildes linhas são sobre o CONVENTO SANTA MARIA DOS ANJOS. E esta é apenas uma parte da rica história que esse Patrimônio Cultural Material possui. E meu papel aqui é fomentar a curiosidade principalmente da população penedense. Nosso Convento foi um dos primeiros a ser fundado pela Ordem Franciscana da Igreja Católica no Brasil, lá pelos idos do século XVII. Os franciscanos e também os capuchinhos vieram a nossa Vila do Penedo do São Francisco inicialmente no século XVI, como missionários itinerantes, porém a idealização de erguer um Convento surgiu no século XVII, com intuito de evangelização do nosso povo e engrandecimento da localidade. Foi também um pedido dos penedenses a sua edificação, feito por meio de vários pedidos dos habitantes da Vila do Penedo do Rio São Francisco à província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, para que os religiosos fixassem residência na Vila, isso em 1657.

Mas foi uma luta a construção do nosso Convento que passou por muitos trâmites, primeiro fundou a Custódia da Província Brasileira de Santo Antônio. Sendo assim alguns anos depois Frei Pantaleão Batista foi a Portugal solicitar a independência jurídica da Custódia no Brasil. Porém ainda enfrentou resistência e oposição, mas o Frei não desistiu e seguiu para Roma e lá o ministro Geral Frei João de Nápoles tomou conhecimento da situação e assinou o decreto concedendo em definitiva independência a Custódia de Santo Antônio no Brasil.

E numa casa humilde os franciscanos se instalaram. Quando frei Antônio dos Martyres em visita as Casas Conventuais pelo Brasil, deparou-se aqui com frades residindo nesta humilde residência particular, determinou então a escolha de um terreno para construção de um Convento. Escolhido o terreno, foi a vez da Câmara Municipal em 31 de julho de 1660, lavrar uma escritura de doação do referido terreno escolhido.

A euforia e expectativa da população eram grandes e em 17 de setembro de 1660, 47 dias após a lavratura da escritura, iniciou-se a edificação de um recolhimento que viria a ser o primeiro mosteiro da Vila. Passado alguns meses a capela do recolhimento (Igrejinha Franciscana), estava pronta e foi inaugurada no dia 10 de abril de 1661, um Domingo de Ramos. Ocorria naquele dia a primeira missa e pela primeira vez a vila do Penedo teve os atos da Semana Santa celebrados por completo.

Na festa da Páscoa, em 1662, na Capela do Recolhimento foi solenemente instalado o Augusto Santíssimo Sacramento. Em 04 de outubro de 1682 (dia de São Francisco de Assis) sob a proteção de Nossa Senhora dos Anjos, os franciscanos depois de 20 anos já morando na Capela do Recolhimento, que na época já havia celas para cada frade, festejaram a “Pedra Fundamental” do Convento Santa Maria dos Anjos. Esse foi um marco da construção de todo o Complexo Conventual, a Igreja de Santa Maria dos Anjos que possui uma pintura ilusionista belíssima de Nossa Senhora que de qualquer ponto que se olha, tem-se a impressão que Nossa Senhora te acompanha com o olhar, pintura esta de autoria de Libório Lial Alves, marcou também a construção da Capela da Ordem Terceira de São Francisco e do Convento.

Toda essa construção foi concluída por etapas, daí a riqueza dos vários estilos arquitetônicos contidos num só local. Podemos observar colunas dóricas e perceber que as colunas inferiores são muito mais largas em comparação com as colunas dóricas do andar superior que são altas e finas. Em seu interior construção em estilo rococó português do século XVIII, dentre outras talhas em pedra também em estilo rococó, pedras que também moldaram os anjinhos em estilo barrocos. Os adornos em pedra de Cantaria com detalhes bastante expressivos na escadaria que dá acesso a parte superior, possuindo 24 degraus e coberta por uma abóbada também em pedra, toda trabalhada nas extremidades e corrimão.

A capela consistorial, atualmente sala de espera, na entrada do Convento, possui um altar central em estilo Dom João V e aparenta ser talhada a faca, todo em madeira e cheia de detalhes. Era o local de celebração de missas e orações enquanto a Igreja não ficava pronta. Era ali que ficava a Capela do Recolhimento, falada inicialmente, ainda nos dias atuais há uma janelinha por onde as pessoas se comunicavam com os frades, já que ali também era claustro. Vale lembrar que no mesmo terreno também foi construído o Theatro Casa São Francisco.

Em 02 de fevereiro de 1689, as obras do altar mor foram concluídas e o altar foi todo revestido com folhas de ouro e ouro em pó. Houve uma solenidade de inauguração e benção, com a celebração de uma missa em Louvor a Nossa Senhora dos Anjos, Padroeira do Convento Franciscano. Houve ainda a construção da capela da Ordem Terceira de São Francisco que foi concluída em 1707. O capitão da Ordem Terceira instalou no Convento aulas de gramática para os filhos dos ribeirinhos.

Mas existiu um período negro na história das Ordens Religiosas que atingiu também nosso Convento. Foi a “Proibição Régia” das ordens religiosas em 1764, ou seja, estava proibido receber noviços nos Conventos brasileiros, juntamente a isso no ano de 1883 falece frei José de São Gerônimo que era o superior do nosso Convento. Desta forma o Convento Nossa Senhora dos Anjos, sem frades por conta da Proibição Régia e o falecimento do Frei Supremo fechou suas portas pelo período de 1883 a 1893.

Seu funcionamento voltou no século XIX. Solicitado pela Irmandade de São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos, em 10 de março de 1886. E em 1893 alguns franciscanos chegaram a Penedo. Dentre os franciscanos vale destaque Frei Camillo de Lellis, brasileiro nascido em Pacatuba/SE. Frei Camillo desde 1892 vinha solicitando a restauração da Província de Santo Antônio do Brasil. Tanto foi seu apelo, coragem, empenho e luta que seus esforços foram aceitos, e a ele coube a missão de trazer novos frades da Província Franciscana de Santa Cruz, os frades alemães chegaram a Penedo em 02 de março de 1893.

Pelos 10 anos de fechamento do Convento, foi providenciada uma reforma e restauração da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, com o objetivo de reaver o Convento Franciscano e salvar a Província Brasileira perante a Santa Sé. Com a ajuda da Irmandade de São Gonçalo Garcia dos Homens Pardos, conseguiu reativar as atividades do nosso Convento e também acomodar os novos frades alemães.

Após todo esforço e luta para reabertura do Convento Santa Maria dos Anjos, e do mosteiro, Frei Camillo Lellis veio a falecer em 02 de novembro de 1904, sendo sepultado na capela do cemitério do convento que tanto esforço e luta desprendeu para que voltasse a seu funcionamento, deixando garantida a continuação franciscana para a alegria dos penedenses. Em seu lugar assumiu a direção Frei Peregrino, em 06 de dezembro de 1904.

Até os dias atuais a presença franciscana é forte em nossa cidade. O seu regime de claustro durou até os anos 80. Atualmente existem 5 freis ( Frei Walter, Frei Aluísio, Frei Lenilson, Frei Éric, Frei Firmino) no Convento e o seu superior é o Frei Walter Scheiber.

Em 2009 o IPHAN ( Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional) começou as obras de restaurou que foi feita em duas etapas, mas que envolveu todo o Convento, num trabalho árduo e minucioso, restaurando e revelando pinturas artísticas, azulejos, restaurou o altar mor e forro também. E nessa restauração transformou o antigo claustro desativado em apartamentos para hospedagem, construiu um estacionamento rotativo e instalou um elevador para idosos e portadores de alguma necessidade especial para que possam subir e descer ao andar superior com comodidade e segurança. Essas transformações foram pensadas para garantir que o convento pudesse se manter com seus próprios recursos advindos da Hospedaria e do Estacionamento. Mas tudo foi feito mantendo o estilo religioso do local que deve ser respeitado.

A Hospedaria Franciscana atende a todos os que quiserem um local calmo e tranquilo para descansar. Para hospedar-se o turista deve ligar para o telefone: (82) 3551–2279, ou enviar um e-mail para: [email protected] e assim fazer sua reserva. São 12 apartamentos equipados com frigobar, armário, ar condicionado e escrivaninha. Quarto simples com duas camas e quarto casal. Entrando em contato com os meios acima citados, o turista saberá dos preços e fará sua reserva.

E os turistas, autóctones e hóspedes podem usufruir deste belíssimo e encantador espaço que é o nosso Convento, conhecer sua/nossa história bem de pertinho em cada detalhe, seja observando sua rica arquitetura, assistindo as missas, seja sentado em algum banco do jardim central, enfim, somos detentores de um Patrimônio Histórico Cultural que intensifica a nossa identidade penedense de um povo guerreiro e religioso que tanto lutou para erguer esse monumento de suma importância para as futuras gerações. E é nossa responsabilidade zelar por esse Convento que é também nossa essência.

Todos devemos ter o sentimento de pertencimento ao local que vivemos, conhecer e se orgulhar. Todo penedense deveria e deve conhecer esse espaço religioso que por sua imponência já nos faz devanear. Visitem o Convento e o Museu de São Francisco e vejam com seus próprios olhos obras raras ali preservadas, tais como o ferro de fazer hóstia, a imagem linda de São Francisco tocando violino, peças de arte sacra e uma biblioteca com livros raríssimos. Vale muito a pena conhecer essa parte da nossa história.

Um Museu assegura a preservação de nossa identidade e friso aqui que a responsabilidade de preservação cabe a todos nós. Sejamos os primeiros a dar exemplo e com orgulho e sabedoria apresentar nossos pontos turísticos aos nossos visitantes. É clichê, mas finalizo dizendo: A proteção do Patrimônio Histórico Cultural é uma obrigação de todos.

Abaixo vocês verão um vídeo com algumas fotos tiradas por mim e editado por Fábio Barreto. Um vídeo da vista janela de um apartamento da Hospedaria e algumas fotos para instigar vocês e deixar aquele gostinho de: QUERO CONHECER!!!

Horários de funcionamento

- Segunda a sexta na parte da manhã das 7h as 11:30hrs. A tarde das 13:30hrs as 17h.
- Sábado funciona das 8h até as 16:30.
- Domingo funciona das 8h as 13h.

Veja o vídeo com um pouco do que pode ser encontrado no local:

 

        


 

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