Enio Moraes Júnior

Enio Moraes Júnior

Jornalista e professor brasileiro que vive em Berlim desde 2017

Postado em 21/05/2018 15:53

A experiência de lidar com mortes e perdas quando se vive longe

Enio Moraes Júnior
A experiência de lidar com mortes e perdas quando se vive longe
Apesar da distância geográfica, as raízes vivem e sobrevivem em nossas memórias

Dois episódios, ocorridos entre o final de abril e o começo de maio, me fizeram parar para pensar em coisas que não costumam ocupar minha mente, que anda em clima de festa com a chegada do sol em Berlim, depois de seis meses de frio. A morte de um tio, com quem, embora eu tenha convivido muito pouco, era uma das pessoas mais doces que povoavam minhas lembranças, e o incêndio de um prédio no centro de São Paulo, cidade que meu coração insiste em dizer que é minha.

Confesso que lidar com estes dois fatos, ocorridos no Brasil, morando em Berlim, não foi fácil. Para cada um deles, uma noite de insônia, um sentimento de vazio e de saudade, que me deixaram com o coração apertado.

Já havia alguns anos que eu não via o meu tio Dudu. Um homem simples, extremamente amável, casado com uma mulher de iguais características, Conceição, e pai de filhos adultos. Convivi pouco com este tio, que a vida toda morou em Penedo, Alagoas, onde eu nasci e de onde, há mais de 30 anos, eu saí. Fui morar em Aracaju, depois em Maceió, até chegar a São Paulo e então mudar para Berlim.

Uma lembrança, em especial, me ligava a este tio. “Juninho”. Era assim que a maioria das pessoas da família me chamava na minha infância em Penedo, mas esta palavra, na voz de Dudu, soava diferente. Tenho a impressão que, ao se referir a mim, este tio carregava na voz um enorme carinho. Marcas de um homem simples que dá valor aos seus e que cuida de quem precisa de cuidados, como da criança que eu era naquele tempo.

21 de abril. Quando eu soube que Dudu havia falecido, era um sábado à noite em Berlim. 22 horas. Uma prima, Valéria, que mora na Dinamarca, me contou. Calculei a hora no Brasil e pensei em ligar para o meu pai, irmão de Dudu. Seriam 17 horas. Não liguei. O fuso horário estava me incomodando. Eu pretendia falar com meu pai para relaxar um pouco e tentar dormir. Mas achei que isto não surtiria o mesmo efeito para ele. Decidi deixar para fazer isso no outro dia.

Esta foi a primeira dificuldade que senti para lidar com uma perda quando se está tão longe. A distância não é apenas geográfica. Ela é também do tempo, do relógio. Mas depois eu percebi que a distância é também da memória. E memória é algo que não se perde. Fica para sempre no coração. Assim, cada perda – especialmente aquelas de quem você conviveu há muito tempo – faz você revisitar um passado distante e morrer de saudade de um tempo, de momentos.

Desolação. Foi assim que descrevi meu estado de espírito para a minha prima da Dinamarca. Acho que ela concordou comigo.

Aprender a conviver

1º. de maio. O Dia do Trabalho é um dia de festa em Berlim. Logo cedo, a notícia de um incêndio em um edifício de 26 andares, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, me deixou imensamente triste. Não fui à festa das ruas, fiquei em casa.

Eu ainda não sabia direito o que estava acontecendo e fui ler a respeito. Novamente, o tempo do relógio me deixou perdido. Entretanto, o que mais me incomodou foi outra sensação. Se eu estivesse em São Paulo, aquela cidade que amo, onde vivi durante 15 anos, talvez eu tivesse conseguido segurar aquele rapaz que caiu e morreu quando o edifício em chamas desabou. Quem sabe, eu teria até evitado que o incêndio começasse, caso eu estivesse em São Paulo...

Claro que nada disso faz sentido, mas era um sentimento novo que eu experimentava. Impotência, densamente ampliada por um oceano de distância. Nas redes sociais, minha amiga Luiza convidava os amigos a doarem roupas, mantimentos e a ajudar os desabrigados do incêndio no que fosse preciso. De Berlim, naquele momento, eu não podia fazer nada.

Os dois episódios me roubaram, cada um, uma noite de sono. E me trazem muitos momentos de perplexidade no dia a dia. “A parte boa, é que a gente aprende a conviver com isso. A parte ruim, é que a gente aprende a conviver com isso”. Foi o que disse minha prima, Valéria, com a experiência de quem há muitos anos vive longe do Brasil e para quem algumas pessoas e lugares devem ser uma memória antiga, mas intacta.

“Aprender a conviver” é a forma possível de lidar com mortes e perdas quando se está distante. Em Berlim, escrevo para o site Berlinda histórias de estrangeiros que vivem na cidade. Eles relatam que, vez por outra, também são tocados por uma sensação de desolação e de impotência frente ao que acontece às suas raízes, aos seus.

Lidar com esses sentimentos não é fácil. Mas é necessário. É natural que seja assim para quem deixou um passado de boas lembranças, povoado por pessoas, cidades e histórias. Estes dois episódios me permitiram entender com clareza que o passado nos visita porque ele é memória, porque ele é o que nós somos. Assim, ele sempre será presente e será também futuro. Cuidemos dele onde quer que estejamos.

Enio Moraes Júnior é um jornalista e professor brasileiro que vive em Berlim desde 2017. Na capital alemã, trabalha com produção de conteúdo online e escreve sobre estrangeiros que povoam as ruas da cidade ([email protected]).
 

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  • Joseilda Pereira Sobral Texto brilhante! Carregado de toda emoção que é possível se ter quando se visita um passado de boas lembranças. Ênio Moraes Junior, nesse sincero texto, resgatou as suas memórias de uma maravilhosa infância em Penedo, e arrebatou a nossa alma, sentimentalmente enlevada pelo seu brilhantismo.
  • TEREZA SANTOS É temos é com sabedoria supear as Perdas e Mortes e por conseguinte aprendermos a viver todos os momentos como se fosse único. Já se faz tempo de não perder tempo e não se perder no tempo e abraçar, beijar e dizer Eu Te Amo, porque o amanhã a Deus pertence. Vivendo intensamente cada momento.
  • Ênio Moraes Parabéns Juninho. Seu artigo está belíssimo. Com relação ao meu irmão Dudu, levou-me à emoção e tornei mais ainda seu admirador. Mais uma vez quero agradecer a gentileza e a vida continua.
  • Enio Moraes Parabéns "Juninho". MUITO bonito o seu artigo publicado neste neste jornal. . Com relação ao meu irmão Dudu, fiquei emocionado com a sua descrição. Uma maneira habilidosa e inteligente o que vem reforçar minha admiração pela sua capacidade de escrever. Agradeço pelo seu talento indiscutível .